A classe trabalhadora brasileira exerceu influência decisiva nos acontecimentos políticos do país, durante duas décadas, desde a emergência das lutas ainda na década de 1970 até meados da década de 1990. Para esta experiência e realização foi fundamental a criação da Central Única dos Trabalhadores - CUT que, por um lado é fruto das lutas iniciais e, por outro, um instrumento construído pelos trabalhadores visando elevar aquelas lutas a um novo patamar.
Estudar e escrever uma parte da experiência desta organização nos proporcionou muito mais que, simplesmente, produzir conhecimento. Nos permitiu, principalmente, extrair ensinamentos que podem contribuir para a continuidade da tarefa que organizações dos trabalhadores se atribuem no sentido de superar o modelo da sociedade em que vivemos, baseada na exploração e sustentada na exacerbação do individualismo.
O estudo que desenvolvemos confirmou as evidências empíricas e bibliográficas da ocorrência de um grande leque de mudanças na trajetória da CUT. Mas como já sugerimos, podemos afirmar que o universo das mudanças tem relação com a sua reorientação política.
Recorrendo às fontes diretas ou a pesquisadores que estudaram a CUT, foi possível demonstrar que esta Central apresentava, nos seus primeiros anos, um perfil anticapitalista, com objetivos estratégicos bem mais amplos que a luta pela cidadania, e que passou a uma prática sindical orientada por uma concepção que a levou à acomodação e à cooperação de classes. Assim, no geral, as mudanças que ela vivenciou estariam relacionadas a esta mudança de concepção. Por exemplo, o abandono das definições iniciais de autonomia frente às centrais sindicais internacionais, para uma posição de vinculação, só foi realizado porque existiram afinidades políticas entre a CIOSL e a nova orientação política que a Articulação Sindical imprimiu à CUT. Mas como este não é um caminho de mão única, as mudanças levaram a CUT a se aproximar da CIOSL assim como foi fortemente influenciada por ela.
Não estamos querendo destacar as vinculações internacionais da CUT como fator determinante para a sua mudança, ao contrário, reafirmar que o estudo demonstrou a existência de múltiplas determinações. Não podemos incorrer no erro de, pretendendo fugir do determinismo econômico, desconsiderar as alterações que existiram no mundo do trabalho e que, conforme estudos já demonstraram, criaram enormes dificuldades para a classe trabalhadora em nível mundial, e no Brasil em especial. Por outro lado, os estudos demonstraram que as condições materiais a que os trabalhadores estavam submetidos não
seriam suficientes para explicar a conversão desta Central sindical. As condições adversas dos anos iniciais da CUT, que foram superadas, nos aconselharam a perseguir outros elementos para a explicação. A compreensão contrária à ideia da inevitabilidade da linha que passou a ser adotada pela direção da CUT foi reforçada pela constatação da existência de processos de greves e mobilizações que estavam sendo desenvolvidos por categorias de abrangência nacional e de atividades estratégicas, e que foram “travados”, enquanto a CUT discutia a participação num fórum considerado como de conciliação de classes. Uma greve geral estava marcada e passos concretos haviam sido dados no sentido da sua realização, no entanto, a Articulação Sindical decidiu suspendê-la, além de não ter buscado a unificação das mobilizações em curso. Portanto, existiram escolhas, que estavam situadas no campo das opções dos sujeitos, apesar de influenciadas pelas condições concretas da realidade.
Nossos estudos demonstraram que as escolhas realizadas pelos sujeitos foram determinadas pelas posições que estes passaram a ocupar e que estes novos lugares realimentaram um processo de burocratização em curso. Só foi possível chegarmos a esta conclusão, orientado pela compreensão de que as ideologias não têm uma existência autônoma, daí a opção que fizemos de buscar encontrar elementos da realidade concreta das lideranças sindicais que pudessem ter influenciado nas suas escolhas e assim, contribuído para as mudanças experimentadas pela CUT.
O balanço das alterações estatutárias realizadas, a partir do III CONCUT (1988), demonstraram consequências diretas que impediram o funcionamento democrático da entidade, dificultando a “oxigenação” da Central. Os seus congressos, que deveriam definir as diretrizes e planos de ação da entidade, tiveram o seu perfil alterados, passaram a ser praticamente de dirigentes, em número reduzido, inviabilizando a realização dos debates políticos e assegurando a aplicação de uma determinada linha política.
Concluímos, portanto, que a centralização de poder existente nos órgãos dirigentes da CUT, especialmente em sua Direção Executiva, controlada por uma única corrente política, e exercida por um núcleo dirigente, viabilizou a aplicação de um determinado projeto político, contra o qual existiam oposições, mas que não encontraram espaços de disputa. Por outro lado, a formulação deste novo projeto político só se consolidou em paralelo às novas funções que dirigentes sindicais foram assumindo, especialmente em órgão gestores do capital.
O quadro de burocratização existente na CUT no início da década de 1990, em grande parte decorrente da forma de funcionamento dos seus órgãos dirigentes, e agravado pelas sucessivas
mudanças no plano organizativo, não foi suficiente para a formulação e implantação de um novo projeto político. No entanto, os novos espaços ocupados pelos dirigentes sindicais da CUT funcionaram como elementos de realimentação da burocratização, e foram determinantes para as mudanças vividas por esta Central sindical.
O limite temporal planejado para este estudo encerra-se no ano 2003, exatamente quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência da República e, juntamente com ele, uma grande quantidade de outros ex-sindicalistas assumiram postos na condução do Estado. Fica pendente um estudo sobre a nova realidade em que passaram a viver esses novos gestores do Estado, análise que permitiria dar maior substância à nossa percepção de que as vantagens materiais auferidas pelos dirigentes também exerceram influência sobre suas decisões. Dados preliminares indicam termos razão na nossa afirmação. A participação de dirigentes sindicais na gestão dos fundos de pensão, nos conselhos de administração de empresas, no CODEFAT, ou ocupando gerências, de diferentes escalões e/ou diretorias de empresas estatais, atuando como executivos, ou gestores direto do capital, além de influenciar decisivamente nas mudanças que se verificaram na Central Única dos Trabalhadores, também ajudaram a transformar as condições de existência particular destes ex-sindicalistas.
Um número muito grande de dirigentes sindicais cutistas, que ocuparam estes novos lugares, passaram a figurar nas páginas da imprensa, não mais sendo destacados os seus posicionamentos políticos frente às greves e demais processos de mobilização e de luta dos trabalhadores. Os destaques voltaram-se para os seus mais variados feitos. Alguns ex- sindicalistas foram mencionados pela condução que deram a órgãos do Estado, aos quais estiveram à frente; outros ganharam destaques pela chegada aos postos mais altos de grandes empresas do setor privado, e ainda foi possível encontrar diversos outros personagens desta nossa História, na condição de réus em processos de corrupção, ativa ou passiva.
Não dirijo o foco aqui a condutas pessoais, mas a uma questão que tem relação com o plano organizativo no movimento sindical. O poder decisório esteve concentrado em um núcleo dirigente, imune ao controle por parte de trabalhadores da base dos sindicatos, situação agravada pelo fato de sindicalistas, obedecendo às regras do jogo, passarem a ocupar postos em instituições que não foram gestados pelos trabalhadores, ao contrário, faziam parte do sistema que estes se declararam dispostos a abolir. É notório o recuo no ânimo da classe trabalhadora brasileira, e no seu poder de exercer influencia nos acontecimentos políticos do país, mas a história já demonstrou, inclusive a que aqui narramos, a capacidade da classe trabalhadora em aprender com os erros e reconstruir a sua própria história.
7. Fontes