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Considerações Iniciais

No documento Assistência Farmacêutica no SUS (páginas 142-146)

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O Ministério Público Federal entende, ainda, que

... é relevante observar que em situações de tutela jurisdicional individual, sobretudo em mandados de segurança, é possível, com maior probabilidade, que estejam presentes, de modo predominante, interesses outros que não os relativos à boa prestação de serviços de saúde. Não é incomum, a prática de aliciamento de pacientes para, utilizando-se de sua situação aflitiva, lograrem objetivos menos nobres que os colimados na tutela do Direito à Saúde. (DANTAS et al., 2005)55

Nas Secretarias Estaduais de Saúde as primeiras ações judiciais eram referentes ao fornecimento de medicamentos de alto custo, de difícil acesso e de medicamentos anti-retrovirais para o tratamento da Aids. Entre eles, um exemplo é o medicamento Alglucerase, comercializado com a denominação comercial de Ceredase®, indicado para a Doença de Gaucher. No caso dos antiretrovirais, a partir de 1996, com a introdução da terapia combinada para o tratamento da Aids, o número de ações judiciais para fornecimento desses medicamentos aumentou significativamente e tiveram grande impacto no orçamento público, chegando a consumir em uma Unidade da Federação, no ano de 2001, cerca de 80% do orçamento previsto para a compra de medicamentos anti-retrovirais (SCHEFFER et al.,2005).

Situação semelhante, com aumento expressivo de ações judiciais, ocorreu com o lançamento de novos medicamentos para o tratamento da Hepatite Viral Crônica C, entre eles as alfapeginterferonas. Nesse caso, várias Ações Civis Públicas foram movidas pelo Ministério Público (MP) para garantia do fornecimento desses medicamentos aos pacientes, além de inúmeras ações judiciais individuais. A maior parte delas determinava o fornecimento de medicamento a pacientes que não se enquadravam nos critérios do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite Viral Crônica C, estabelecido pelo Ministério da Saúde e publicado pela Portaria SAS/MS n. 863, de 4 de novembro de 2002 (BRASIL, 2002c).

55 Manual de Atuação do Ministério Público Federal em defesa do direito à saúde; 2005. Disponível em: http://pfde.

pgr.mpf.gov.br

Outros exemplos de Ações Civis Públicas são aquelas que determinam às SES que forneçam um grupo de medicamentos e suplementos/complementos alimentares a pacientes portadores de Fibrose Cística. Essas ações coletivas normalmente foram impetradas por associações que reúnem familiares de pacientes portadores dessa doença.

Segundo levantamento efetuado pelo CONASS junto aos estados, em 2003, um total de 18 SES (67%) informou que as demandas judiciais eram freqüentes em sua instituição. Nesse mesmo levantamento, os medicamentos destacados como de maior demanda para fornecimento através de solicitação judicial eram, à época, destinados ao tratamento da hepatite viral crônica C, doença de Alzheimer, doença de Parkinson, fibrose cística, esclerose múltipla, Aids, doença de Gaucher e asma grave.

A maior parte dessas demandas tinha relação com uma situação particular ocorrida no ano de 2002, no qual a publicação da tabela de procedimentos com a relação dos medicamentos que podiam ser ressarcidos pelo Ministério da Saúde, antecedeu as portarias que publicaram os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

Esse descompasso e a necessidade de um período para implantação dos centros de referência para diagnóstico e acompanhamento dos usuários, fizeram com que os mesmos optassem pela via judicial para acessá-los (CONASS, 2004b).

Outro tipo de ação judicial, recentemente impetrado, permitiu à Justiça conceder liminar garantindo antecipadamente o bloqueio de valores em contas públicas para garantir o custeio de tratamento a um paciente (decisão da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça – RS).

As ações judiciais para fornecimento de medicamentos e produtos provocam discussões sobre equidade, ingerência do poderJudiciário nas políticas públicas, bem como outras, tais como

a garantia do acesso a esses medicamentos, num cenário de restrições orçamentárias e financeiras nas três esferas de gestão do SUS, e de crescentes demandas da sociedade.

Essas demandas são fundamentadas em direitos presumidamente absolutos, mas os recursos públicos para fazer face a elas são finitos e de utilização baseada na Lei de Responsabilidade Fiscal. (DANTAS et al., 2005)56

56 Manual de Atuação do Ministério Público Federal em defesa do direito à saúde; 2005. Disponível em: http://pfde.

pgr.mpf.gov.br

Sobre a eqüidade, o Promotor de Justiça, Assessor do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Mauro Luis Silva de Souza (SOUZA, 2004), defendeu:

A eqüidade tem o sentido de justiça. É a justiça ideal ao caso concreto, que permite temperamentos ao direito com o sentido de humanizá-lo, atendendo da melhor maneira possível a finalidade para qual o direito foi posto. Não obstante, em se entendendo a saúde como direito social ... é de se entender, também, eqüidade enquanto justiça social, como mecanismo capaz de assegurar o mais próximo possível do ideal à sociedade como um todo, não apenas a solução de uma demanda que eventualmente nos é posta. Contudo, não raro, o julgador prefere solucionar da melhor forma que lhe pareça o caso concreto que lhe é apresentado, a fazer valer os princípios constitucionais que regem as políticas públicas de saúde. Julga solucionado um conflito subjetivo de diretos individuais entre “A” e “B” porque se o demandante, em virtude de sua decisão vier a sofrer algum prejuízo, o julgador não terá paz de consciência. Porém, um número indeterminado de pessoas poderá vir a sofrer em face desta decisão, que pode comprometer o orçamento da saúde, mas estas não fazem parte daquela relação processual sendo, por isso ignoradas. É nesse ponto que a questão do financiamento se imbrica com a eqüidade.

No Judiciário há sentenças que consideram essa questão, além de considerar que é competência da Administração Pública decidir sobre o melhor tratamento disponível à população. Recente decisão do Ministro Edson Vidigal, do Superior Tribunal de Justiça (ALBUQUERQUE et al., 2006), dispôs que:

Com efeito, compete à Administração Pública, através da aplicação de critérios médico- científicos, fixar e autorizar os tratamentos e remédios que devem ser fornecidos à população no País, buscando garantir a segurança, a eficácia terapêutica e a qualidade necessárias.... Dessa forma, a decisão liminar reclamada, a meu sentir, efetivamente afronta a ordem administrativa, na medida em que interfere em matéria de política nacional de saúde, de seara exclusiva da Administração Pública....Por outro lado, também tenho configurada a potencialidade lesiva à própria saúde pública, uma vez que a liminar privilegia os pacientes necessitados do fornecimento indiscriminado de prótese e de cirurgia para esse fim, podendo inviabilizar a realização de outros tratamentos à população carente.

Pelos motivos e exemplos acima expostos, de forma bastante sucinta, pode- se afirmar que, um dos maiores desafios que os gestores estaduais enfrentam atualmente são as ações judiciais. Entre outros fatores, elas geram individualização da demanda, em detrimento do coletivo e levam à desorganização dos serviços.

No documento Assistência Farmacêutica no SUS (páginas 142-146)