Nessa seção, serão traçadas as principais características e conceitos das correntes construtivistas, consideradas as mais bem-sucedidas em superar tanto o problema do determinismo tecnológico quanto social, por meio de uma perspectiva interacionista. Essa exposição tem apenas caráter introdutório para que se demonstre com quais perspectivas teóricas principais dialogou o debate sobre gênero e tecnologia da década de 1990. Como
14 O trecho em língua estrangeira é: “This, however, merely substituted one set of high-level abstractions for another and left too much room for misunderstanding the nature of the social, political, economic, etcetera.”
principal referência, será utilizada a obra “The Social construction of Technological Systems”
de 1987, seguindo-se mesmo sua divisão entre Construtivismo social, a Abordagem dos sistemas e a Teoria ator-rede. Alguns autores unificam essas vertentes como “mainstream social constructivist tradition” (BERG e LIE, 1995; COCKBURN, 1992; WAJCMAN, 1991, 1992). Pode-se afirmar que a oposição ao determinismo tecnológico marca o seu principal ponto em comum. Porém, como destacam Gill e Grint (1995), essa classificação corre o risco de ignorar ou invisibilizar as diferenças existentes ou até mesmo uma possível hierarquia entre elas.
-A construção social dos fatos e artefatos:
Os principais nomes dessa corrente são Trevor Pinch e Wiebe Bijker, provenientes, respectivamente, do campo da sociologia da ciência e da soc. da tecnologia. Eles partem do princípio de que esses estudos devem se comunicar e se beneficiar mutuamente. Baseando-se nas literaturas da “sociologia da ciência”, “da relação entre ciência-tecnologia” e dos “estudos da tecnologia”, suas principais inspirações são o Empirical Programme of Relativism (EPOR) – proveniente da sociologia do conhecimento científico – e a abordagem construtivista para o estudo da tecnologia (SCOT) – proveniente da sociologia da tecnologia. A tabela a seguir mostra essas divisões e influências.15
Sociologia da Ciência Relação entre ciência-tecnologia Estudos da Tecnologia .Sociologia do Conhecimento
científico (SSK) EPOR
.Filosofia da Tecnologia .Pesquisas sobre inovação .Construção soc. da relação C-T
.Estudos da Inovação .História da Tecnologia .Sociologia da Tech SCOT
O principal problema a ser superado pelos autores é a abordagem histórica linear e ordenada utilizada pelo determinismo tecnológico como forma de explicar o desenvolvimento de um artefato. Eles denominam essa perspectiva de “descrição retrospectiva” e a acusam de distorcer a realidade, por meio da impressão de unilinearidade sobre um processo que na verdade pode seguir múltiplas direções. Apenas a partir de um olhar retrospectivo ingênuo se produz a impressão de uma lógica própria inerente à tecnologia ou ao fato científico. Assim, a concepção de desenvolvimento linear seguindo uma dinâmica própria e interna, reprodutora das leis naturais, nada mais é que o resultado de uma visão social, que ao organizar
15Apesar desses vários detalhes, de maneira geral, refere-se a essa corrente pela sigla SCOT, o que será mantido ao longo da dissertação.
retrospectivamente uma trajetória dá a impressão de uma direção (natural) para o artefato, quando na verdade, design e uso são flexíveis e poderiam ser diferentes.
Para isso, é preciso estar atento ao caráter negociável do processo de elaboração tanto de fatos científicos quanto da tecnologia, cujo desenvolvimento não pode ser deduzido de uma lógica intrínseca à própria epistemologia científica ou à materialidade dos artefatos. Suas trajetórias interagem com uma série de controvérsias entre diferentes grupos sociais, que conferem distintos significados a um mesmo objeto, criando múltiplas interpretações de sucesso/fracasso, problema/solução - um processo que os autores tentam apreender a partir do conceito de “flexibilidade interpretativa”.
Para descrever a evolução de um artefato, é preciso estar atento para todos os grupos sociais que são relevantes na produção de significados. Não há um método exato para a descoberta desses grupos, mas os autores acreditam que eles apareçam no próprio processo empírico da análise, na qual o analista deve estar atento aos processos contínuos de interação entre grupos e (arte)fatos. A estabilidade de um objeto ou um fato significa que algum grau de consenso foi alcançado entre os grupos interessados, estabilizando-se uma verdade temporária, processo que é apreendido pelo conceito de “fechamento” (PINCH e BIJKER, 2012, p.21). Isso faz com que a análise consiga abordar uma dimensão estrutural sem perder de vista o caráter fluido e processual dessas mesmas negociações.
Esta abordagem foi acusada de flertar com certo determinismo social, sob o argumento de minimizar a interação entre humanos e o mundo material (MACKENZIE e WAJCMAN, 1999). Ao valorizar os diferentes significados atribuídos por diferentes grupos sociais a um artefato, a SCOT não tem como intenção reduzir ou negar a própria materialidade do objeto;
sua intenção é justamente buscar a interação entre design e grupos sociais. Como exemplo, eles mostram o caso das bicicletas com rodas dianteiras enormes, que enquanto para alguns grupos eram vistas pela questão da velocidade (espírito aventureiro e esportiva), para outros, eram interpretadas pelo viés da insegurança (espírito urbano), o que explicaria o desenvolvimento dos diferentes modelos de bicicleta. Contudo – e esse será um problema retomado no capítulo seguinte – essa explicação tende ao determinismo social, ao reinserir a uma lógica de causa e consequência. A preocupação em relação a como os grupos sociais interpretam os artefatos é maior que a questão de como os artefatos moldam os próprios grupos.
-A abordagem ou metáfora dos sistemas:
Proveniente da história da tecnologia, Thomas Hughes é o autor que melhor sintetiza essa perspectiva. A ideia de sistemas é a metáfora que ele encontra para elaborar uma abordagem construtivista, mas sobretudo interacionista. Pode-se dizer que essa é uma preocupação que perpassar todas as correntes aqui expostas. No entanto, como será demonstrado, da SCOT à ANT parece haver a acentuação de uma visão analítica que dispensa cada vez mais as diferenças de fronteiras a priori, e a ideia de sistema parece ficar exatamente no ponto de transição entre essas duas correntes. Por mais que na SCOT, a divisão de fronteiras entre ciência e tecnologia seja totalmente desconsiderada como uma informação a priori (ambas são vistos como culturas), o modelo de interação entre grupos sociais e artefatos parte de limites bem definidos, entre o mundo da política, da materialidade, da economia, dos profissionais de C&T, etc. Na abordagem dos sistemas, essas divisões começam a ser questionadas, devendo o uso dessas categorias ser evitado ou até abandonado, caso dificultem uma apreensão interacionista. É a partir da figura do “system builder” (HUGHES 2012) e do conceito de “seamless web” (HUGHES, 1986) que se tentará elaborar uma apreensão holística, sintética e integrada do desenvolvimento tecnológico e científico.
“System builders” são indivíduos, companhias ou grupos sociais que durante o processo inventivo transitam entre as abstratas e artificias fronteiras profissionais ou analíticas. Eles condensam ao mesmo tempo funções financeiras, políticas, técnicas, legais, entre outras, o que os tornam pontos centrais em uma rede. É difícil estabelecer a partir de categorias fixas o que cada um deles representa exatamente. Junto com outros componentes (artefatos, recursos naturais, etc.) eles formam um sistema técnico, tão intensamente integrado a partir de um objetivo comum, que qualquer mudança num ponto demanda vários ajustes compensatórios. Assim o desenvolvimento tecnológico é pensado a partir de uma integração sistêmica entre diversos componentes. Diferentemente do determinismo tecnológico e em comum com a SCOT, essa abordagem rechaça qualquer perspectiva de uma lógica ou lei evolutiva interna ao próprio sistema, enfatizando o seu caráter contingente e situado a partir do conceito de “estilo” (HUGHES 2012). Cada sistema tem características próprias porque estão em constante interação e adaptação com diversos fatores históricos contingentes, como a organização política, as formações geológicas, entre outros, que são seus próprios componentes constitutivos (a dicotomia interno/externo é considerada inapropriada, HUGHES, 1986, p. 290). Nesse sentido, qualquer padrão evolutivo é sempre frouxo.
No entanto, além dos eventos contingentes a abordagem também se preocupa em pensar os fatores estruturais, sendo utilizado o conceito de “momentum” (HUGHES, 2012, P- 50-53), que traduz algo bem próximo da ideia de “closure” (PINCH e BIJKER, 2012, P. 21).
Com ele busca-se abordar certa durabilidade sistêmica resultante de um período de maturação, mas sem cair num determinismo que sugira ideias de inércia, de trajetória evolutiva e de autonomia. O conceito de “momentum”, portanto, traduz a ideia de estabilidade sistêmica temporária, deixando aberto a análise para os eventos contingentes. Com os conceitos de
“estilo” e “momentum”, é possível realizar uma abordagem mais estrutural, atentando-se às continuidades e persistências sistêmicas, sem que se caia num determinismo alheio às imprevisibilidades e contingências, que, mesmo se reduzidas, nunca deixam de estar presentes.
-A abordagem ator-rede (“Society in the making”):
Uma vez que o primeiro capítulo dedicou-se à grande parte das obras e conceitos de Bruno Latour que inspiraram a ANT, nessa seção será utilizado como base o texto de Michel Callon (2012) que junto com John Law e Latour, são os seus principais nomes. Com a ANT, acentua-se a preocupação em abandonar qualquer categoria analítica a priori, o que faz com que os autores utilizem conceitos bastante frouxos como “atores” e “entidades”. Para isso, foi preciso colocar em xeque a própria noção de social, negando-se ao conceito de “sociedade” o caráter de um recurso explicativo analítico, e pensando-a como uma construção contingente e em disputa pelos próprios atores, que ao tentar defini-la e estabilizá-la, traçam uma concepção de mundo, de história e de futuro. Abordar o futuro como algo em construção e em disputa é especificamente importante para se pensar C&T, pois, assim, elimina-se a pretensão de previsibilidade contida nas abordagens que trabalham a partir de leis e de lógicas internas evolutivas inerente à natureza (det. natural), a um artefato (det. tecnológico) ou às próprias épocas históricas (det. social).
Com o conceito de ator-rede, pretende-se tornar visível a construção conflituosa de mundos, que dependem das associações que fazem os próprios atores entre os mais heterogêneos elementos, que dificilmente podem ser apreendidos em toda sua complexidade a partir de categorias analíticas estáveis e fixas como as de social, biológico, tecnológico, etc., que os separem a priori. A teoria ator-rede vai além da própria abordagem sistêmica, pois, além da integração holística, ela se preocupa em mostrar que cada uma das mínimas associações que compõem esses mundos em disputa não pode ser dada a priori (“taken for granted”, CALLON, 2012, p.100), sendo necessário seguir e tornar visível o trabalho e a mobilização de interesses e entidades demandados para que os atores pudessem estabilizar as controvérsias. Analisando o momento histórico da França da década de 1970, Callon (2012) demonstra como duas perspectivas de mundo opostas foram traçadas entre os engenheiros da
EDF e da Renault para disputar “o futuro da sociedade francesa”, a partir da mobilização das mais diferentes entidades (elétrons, carros, baterias, engenheiros, fábricas, câmaras municipais, protestos políticos, bancos, etc.).
Então, ao invés da análise sociológica partir de categorias que separem e isolem (“purifiquem”) a esfera do social, da natureza ou da técnica, é preciso que os sociólogos percebam e até mesmo aprendam com os atores que, ao traçar conexões e alianças entre entidades distintas, criam “ator-redes que simultaneamente fazem nascer a sociedade e a tecnologia” (CALLON, 2012, p.93). Ele declara, que cada um dos engenheiros-sociólogos ao trabalhar em inovações radicais, não só estão lidando com artefatos e técnicas, mas “são forçados a elaborar teorias sociais explícitas” (CALLON, 2012, p. 92), caso queiram que sua concepção de mundo seja vitoriosa. Assim, o estudo da tecnologia pode ser profícuo para repensar a própria teoria sociológica e sua metodologia, ao elaborar uma análise que explique a co-evolução entre sociedade e artefatos a partir das associações.