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ponsabilização dos adolescentes em caso de cometimento de ato infracional, pautado no paradigma da proteção integral. As medidas socioeducativas pre- vistas no estatuto têm sua estruturação e operacionalização regulamentada pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), estabelecido pela Resolução nº 119/2006, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e pela Lei Federal 12.594/2012.
Como já salientaram as Nações Unidas no Brasil: “A redução da maiorida- de penal opera em sentido contrário à normativa internacional e às medidas necessárias para o fortalecimento das trajetórias de adolescentes e jovens, representando um retrocesso aos direitos humanos, à justiça social e ao de- senvolvimento socioeconômico do país. Salienta-se, ainda, que se as infrações cometidas por adolescentes e jovens forem tratadas exclusivamente como uma questão de segurança pública e não como um indicador de restrição de acesso a direitos fundamentais, o problema da violência no Brasil poderá ser agravado, com graves consequências no presente e futuro.” 11
Nesse sentido, a proposta de redução da maioridade penal apresenta-se eivada de inconstitucionalidade, tanto por afrontar a principiologia e raciona- lidade constitucional, como por afrontar a normatividade internacional incor- porada pelo Estado Brasileiro, que conferem absoluta primazia e prioridadeàs pessoas menores de 18 anos, na condição de sujeitos de direito, em situação peculiar de desenvolvimento e dotadas de plena dignidade.
12 BRASIL. Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil. Secretaria-Geral da Presidência da República. Brasília, 2015, p.73. Disponívelem: http://www.pnud.org.br/arquivos/encarceramento_
WEB.pdf.
13 BRASIL. Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil. Secretaria-Geral da Presidência da República. Brasília, 2015, p.79.
14 BRASIL. Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil. Secretaria-Geral da Presidência da República. Brasília, 2015, p.83.
15 De acordo com Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Infopen, dezembro de 2014, p.14. Disponívelem: http://
www.justica.gov.br/seus-direitos/politica-penal/infopen_dez14.pdf
16 De acordo com: World PrisonBrief, Institute for Criminal PolicyResearch - ICPR, disponível em:
http://www.prisonstudies.org/
17 Em 2000, eram 232.755 pessoas presas; em 2014 essa população cresceu para 622.202. De acordo com Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Infopen, dezembro de 2014, p.18-19.
18 De acordo com Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Infopen, junho de 2014, p.15.
19 No mesmo período, a população masculina prisional cresceu 220%. De acordo com Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Infopen, junho de 2014, p.10.
tidos no país, seguido pelo tráfico de drogas (27%), homicídios (9%), seguidos por furto (4%)13.
Por outro lado, dos 77.805 óbitos juvenis registrados pelo Sistema de In- formação sobre Mortalidade (SIM) em 2012, 55.291 foram originados por cau- sas externas, ou seja, 71,1% dos jovens mortos no país naquele ano morreram, sobretudo, em razão de homicídios e acidentes de trânsito. Segundo o Mapa da Violência 2014, 71,1% da causa de morte entre os jovens são classificadas como externas, e entre os não jovens elas representam 8,8%14.
Vale ainda ressaltar o colapso do sistema carcerário brasileiro, portador da 4ª maior população carcerária do mundo (622.202 pessoas presas, dados de 201415), apenas perdendo para EUA, Rússia e China16. Nos últimos 14 anos, a população do sistema prisional brasileiro aumentou 167,32%17 — muito aci- ma do crescimento populacional. De 1990 a 2014 houve aumento de 575%
da população prisional brasileira, passando de 90 mil para 607,7 mil pessoas privadas de liberdade em junho de 201418.
Apopulação absoluta de mulheres encarceradas no sistema penitenciário cresceu 567% entre 2000 e 2014, chegando a 37.380 mulheres privadas de liberdade em 201419.
De acordo com Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Minis- tério da Justiça, a taxa de encarceramento em dezembro de 2014 era 306,22 pessoas presas por 100 mil habitantes; em 2000, a taxa de encarceramento era
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135,38 presos por 100 mil habitantes. Em 2014, eram 622.202 pessoas presas (das quais 40% correspondiam em pessoas presas provisoriamente, totalizando 249.668 presos provisórios) para 371.884 vagas no sistema prisional20. Ressalte- se que o déficit de vagas corresponde a mais de 40% da população prisional.
Se a pena deve ter um caráter retributivo e ressocializador, o sistema car- cerário brasileiro não satisfaz qualquer destas finalidades. O índice de reinci- dência, em torno de 80%, atesta o absoluto fracasso de qualquer dimensão ressocializadora do modelo carcerário brasileiro – por vezes, sob o controle do crime organizado, de quem o Estado se torna refém.
Quanto às experiências de outros países, estudo da Unicef envolvendo 54 países constatou que 78% deles fixam a idade penal em 18 anos ou mais, como a França, a Espanha, a Suíça, a Noruega e o Uruguai. Nos EUA, o debate sobre a redução da maioridade penal acirrou-se nos anos 90, como resposta à alta criminalidade. Mas, desde 2005, 30 estados aprovaram normas que con- ferem um tratamento especial aos adolescentes em conflito com a lei – diverso do tratamento conferido aos adultos. Isto porque adolescentes tratados como adultos tem uma probabilidade maior (em 35%) de retornarem ao mundo do crime. Além disso, adolescentes, por estarem em peculiar condição de desen- volvimento, teriam maior potencialidade de reabilitação21.
Reduzir a idade penal para confinar adolescentes na prisão com adultos não apenas viola parâmetros constitucionais e internacionais, como, ainda, carece de qualquer fundamento fático a contribuir na luta contra a impunidade. O simplis- mo e o imediatismo da medida são incapazes de responder aos complexos desa- fios da realidade brasileira – a ostentar uma das maiores taxas de assassinato de jovens do mundo, sóperdendo para Nigéria em termos absolutos.
Medidas preventivas e repressivas mostram-se necessárias ao adequado enfrentamento do problema da crescente criminalidade e violência no país.
No campo preventivo, destaca-se o desafio de criar alternativas ao crime, à sedução do tráfico e da violência, por meio de eficientes e criativos programas
20 De acordo com Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, Infopen, dezembro de 2014, p.20-22.
21 Children in adult jails, The Economist, 28/3/2015.
de inclusão social que permitam valorizar e ressignificar a vida dos adolescentes, sobretudo daqueles que sofrem com as condições mais vulneráveis da miséria e da exclusão. Nesse sentido, é fundamental a identificação e a ampliação de práti- cas e políticas exitosas especialmente endereçadas à juventude urbana. Vale ainda lembrar quea Convenção nº 182 da OIT, sobre Proibição das Piores Formas de Tra- balho Infantil e Ação Imediata para sua Eliminação, ratificada pelo Brasil em 2000, estabelece que uma das piores formas de trabalho infantil é a utilização, recruta- mento e oferta de criança (compreendida como qualquer pessoa com até 18 anos incompletos) para atividades ilícitas, particularmente para a produção e tráfico de entorpecentes, conforme definido nos tratados internacionais pertinentes.
No campo repressivo, estudos comprovam à exaustão que de nada adianta o endurecimento da legislação penal se persistir no imaginário social a cultura da impunidade. Isto é, a repressão penal deve deixar de ser seletiva à determinada classe social, com a garantia de que autores de crimes de toda natureza sejam investigados, processados e punidos. Contudo, se a pena deve ter um caráter retri- butivo e ressocializador, constata-se que o sistema carcerário brasileiro não satisfaz qualquer destas finalidades. Esse sistema, por vezes sob o controle do crime orga- nizado -- de quem o Estado se torna refém --, sótem acentuado a violência e bru- talizado os detentos. Como observou Nigel Rodley, então relator especial da ONU sobre o tema da tortura, em visita oficial ao Brasil, não é razoável tratar os presos como animais, para posteriormente devolvê-los à sociedade com a pretensão de terem se transformado em “pessoas reintegradas e civilizadas”. Tal sistemática não constitui uma medida de combate à criminalidade, mas, ao revés, constitui medida de estímulo à criminalidade.
O índice de reincidência, em torno de 80%, atesta a absoluta falência de qual- quer dimensão ressocializadora do modelo carcerário brasileiro. Segundo estima- tivas, eventual aprovação da proposta de redução da maioridade ainda agravaria o déficit nas prisões, que passariam a ter, em média, 11.000 presos a mais (somados ao universo de 140.000 vagas faltantes).
Em recente Informe da visita realizada no país em agosto de 2015, o Relator Especial contra Tortura, Juan Méndez, condena a proposta de redução da maiori- dade penal e propostas que aumentam o tempo máximo de internação, por violar direitos consolidados em tratados internacionais, e tece críticas às condições de internação de adolescentes no sistema socioeducativo que “parece funcionar, na prática, de maneira bastante similar aos presídios de adultos, deixando de dar a devida consideração às necessidades e direitos de crianças e adolescentes”. Ade-
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mais, o relator destacou que muitos dos estabelecimentos do sistema socioeduca- tivo também sofriam de excessiva superlotação, além de outras condições como carência de atividades de lazer e recreação, e de educação formal, em violação ao sistema de justiça juvenil previsto em instrumentos internacionais e nacionais.22
Assim, mais adequado se mostra implementar de fato os parâmetros de Jus- tiça Juvenil preconizados na Convenção sobre os Direitos da Criança e outras nor- mativas internacionais, assim como na Constituição Federal e ECA.