OS ALUNOS E OS CONTEXTOS
4.1 Contextos comuns: a cidade, o bairro, a escola
O trabalho de fiar para tecer a malha que constitui as experiências de leitura foi uma tarefa complexa e que compreendeu diferentes movimentos, tal como o de capturar o fio, formando uma laçada. Assim, ainda que possa haver muitos contextos comuns aos quatro alunos investigados (Brasil, Goiás etc.), partiu-se de três fios básicos: a cidade, o bairro e a escola. A partir do enlace desses fios buscou-se perceber indícios das experiências de leitura dos alunos nos contextos mais particularizados.
Dessa forma, conheci a escola, o bairro, os alunos e suas famílias e ainda alguns contextos extraescolares de cada aluno, lembrando que o fundamental não foram os contextos em si, mas os alunos inseridos nesses contextos. Assim, fui alinhavando histórias, cosendo anotações, pespontando lembranças, ziguezagueando informações, de modo a compreender a trama das experiências de leitura vividas por Vinicius, Carlos, Isabela e Nara.
Inicialmente, apresento um breve panorama da cidade onde os dados foram coletados.
Catalão32 é uma cidade que fica no sudeste goiano e abriga cerca de 90 mil habitantes. Está localizada na Microrregião de Catalão (Mapa 1), composta pelas cidades de Ipameri, Ouvidor, Três Ranchos, Davinópolis, Goiandira, Cumari, Nova Aurora, Anhanguera e Corumbaíba, além dos distritos de Pires Belo e Santo Antônio do Rio Verde, que pertencem a Catalão.
31 Conforme explicitado no Capítulo II – A tessitura do percurso metodológico, a escolha dos nomes fictícios se deu conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA/1990), capítulo II, parágrafo 17, que determina que a identidade da criança ou do adolescente deve ser preservada para garantir sua integridade física, psíquica e moral.
32 Cf. <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=520510#>.
Mapa 1 – Microrregião de Catalão
Fonte: SEGPLAN/SEPIN, 2012.
A partir de informações levantadas no ano de 2012, parte da economia da cidade é voltada para o agronegócio, sendo que ela é grande produtora de soja e milho. A pecuária baseia-se principalmente na criação de gado de corte. Na área industrial, abriga, por exemplo, duas montadoras, uma de automóveis e outra de máquinas agrícolas, além de duas mineradoras que exploram, entre os principais minérios, o nióbio e o fosfato.
Catalão também é conhecida pela festa em louvor a Nossa Senhora do Rosário, que ocorre no mês de outubro, quando os ternos de congo saem pelas ruas da cidade. Dentre os espaços culturais da cidade destacam-se: um centro cultural, três anfiteatros, uma biblioteca pública, duas bibliotecas mantidas pelo setor empresarial e duas bibliotecas universitárias, que são abertas à população, dois museus e um cinema.
Em relação à leitura, as ações do governo municipal se restringiam a manter uma biblioteca pública no centro da cidade e a promover atividades no contexto escolar, por intermédio dos educadores, a partir dos programas de incentivo à leitura dos governos federal e estadual, que contam com o auxílio das salas de leitura e/ou das bibliotecas escolares (Secretaria Municipal de Educação de Catalão, 2012).
Em se tratando do bairro onde as crianças moravam e estudavam, ele se localiza ao norte da cidade, na periferia. Caracteriza-se por ser um bairro prioritariamente residencial, com pouco comércio, geralmente voltado para a venda de produtos alimentícios (sorvetes, lanches, espetinhos, mercearias, bares), e alguns serviços de beleza (cabeleireiros e manicures).
O bairro abriga uma escola municipal (onde realizei a pesquisa), uma escola estadual, uma igreja católica, várias igrejas protestantes e duas praças (fiz a entrevista com Vinícius em uma delas e a entrevista com Isabela na outra). É relevante destacar que essas praças são utilizadas pelos moradores como local de lazer da comunidade, para brincar, jogar, conversar. O bairro também acolhe um ponto histórico muito conhecido e visitado da cidade.
Em toda a cidade, principalmente nas avenidas dos bairros e do centro, espaços onde há maior circulação de pessoas, encontram-se outdoors, banners, propagandas, placas e sinais de trânsito, que contemplam a cidade com informações, apelos comerciais, sinalizações e carregam o texto escrito.
A escola33 selecionada para observação foi fundada em 1981, num bairro da periferia da
33 As informações referentes à escola observada constam no projeto político-pedagógico da instituição, elaborado para o ano de 2012 e disponibilizado para consulta durante a pesquisa.
cidade de Catalão. Inicialmente funcionou em parceria com a igreja católica do bairro, que cedeu o espaço, onde havia um centro comunitário, para que a prefeitura instalasse ali, ainda que de modo precário, uma escola que atendesse aos moradores do bairro.
Desde então a escola sofreu algumas reformas e ampliações, contando atualmente com 16 salas de aulas, laboratório de informática, banheiros femininos e masculinos para os alunos, biblioteca, sala dos professores, banheiros para os professores, secretaria, sala da direção, mini- horta, cozinha, depósito e pátio.
O quadro de funcionários da escola era composto por três merendeiras, três faxineiras, um guarda-noturno, uma secretária-geral, uma diretora, uma coordenadora e 16 professores, a maioria graduados em pedagogia e letras, alguns pós-graduados na área da educação e alguns pós-graduandos.
A escola atendia desde a educação infantil (havia uma turma de jardim II) até o quinto ano do ensino fundamental, sendo que os alunos da educação infantil e das séries iniciais (primeiro e segundo anos) estudavam no período vespertino, e os alunos do terceiro ao quinto ano estudavam no período matutino. Em 201234 eram atendidas em média 380 crianças, na faixa etária entre 5 e 12 anos.
Havia três turmas de quinto ano do ensino fundamental, e as professoras responsáveis acordaram em trabalhar disciplinas específicas em cada uma delas, conforme sua qualificação, haja vista serem formadas em letras, matemática e geografia. Desse modo, ministravam aulas de língua portuguesa, inglês, matemática, história, geografia, artes e ciências.
A organização das aulas, segundo as professoras, tinha o objetivo de preparar os alunos para as diferentes disciplinas e professores que encontrariam no sexto ano – próxima etapa de estudo, oferecido nas escolas estaduais –, ou seja, uma organização de disciplinas e professores diferente do que geralmente ocorre do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, que é oferecido prioritariamente nas escolas municipais35. Os alunos também tinham aulas semanais
34 Vale destacar que, no início de 2012, a escola recebeu o prêmio Professores do Brasil, um prêmio oferecido (em dinheiro) pelo Ministério da Educação (MEC) a projetos desenvolvidos por professores que obtiveram, segundo a avaliação do órgão, sucesso em sala de aula. Foram analisados trabalhos desenvolvidos na rede pública de todo o país e o projeto vencedor da escola foi idealizado pela diretora, por uma professora e realizado por toda a comunidade escolar. O objetivo do projeto era a disseminação de atitudes sustentáveis em toda a comunidade, como, por exemplo, a reutilização do óleo de cozinha para a fabricação de sabão caseiro e o cultivo de uma horta. (MEC/
Prêmio Professores do Brasil, 2012). Informação disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=18746:escola-goiana-envolve-pais-em- projeto-sobre-o-meio-ambiente&catid=211&Itemid=86>. Acesso em: 29 jan. 2013.
35 Sobre o atendimento prioritário do ensino fundamental nas escolas municipais, verificar as leis: Lei de Diretrizes e
com um professor de educação física e quinzenalmente com uma monitora de informática.
Na escola, observei a presença do texto escrito no pátio, área comum aos alunos. Nele havia dois grandes banners, usados em comemorações anteriores dos aniversários da cidade, contendo frases e fotos referentes à cidade. Não encontrei murais para avisos ou para uso dos alunos ou professores.
Na sala de aula do quinto ano, o texto escrito apareceu de várias formas junto às paredes, dentre elas: algumas palavras como cores e cumprimentos escritos em inglês; uma árvore desenhada, cujas folhas eram palavras como amor, amizade e união, que contribuiriam para atitudes de boa convivência; acima da lousa, o alfabeto ilustrado, porém faltando algumas letras;
ao lado da lousa, um cartaz com as regras e os combinados da sala; e, na parede ao fundo, ilustrações feitas pelos alunos de uma história contada por uma das professoras.
Observei a presença constante de livros didáticos36 na sala de aula, norteando o trabalho dos professores e sendo utilizados na maioria das aulas. Sobre a questão do uso do livro didático na sala de aula, Soares (1999) aponta que, em geral, esses livros utilizam um conteúdo fragmentado, recortado do livro de literatura e transferido para o livro escolar, e esse fragmento passa a ser “estudado”, numa “[...] atividade intrínseca ao processo de escolarização [...]”
(SOARES, 1999, p. 43) que não contribui para a leitura literária, que é prazerosa, emociona e diverte.
Entre os alunos, os materiais de leitura que se destacavam na sala de aula eram: gibis trazidos de casa, livros da biblioteca da escola, folhetos de propagandas, bilhetinhos passados sorrateiramente por eles durante as aulas, cartazes feitos para torcer pelo grupo durante gincana realizada nas aulas de educação física, gritos de guerra e piadinhas copiadas da internet e trazidas para a escola.