Nossa pesquisa se configurou, por conseguinte, num estudo de caso pela complexidade e contemporaneidade de seu objeto de estudo, construído pela imprescindibilidade de seu contexto (YIN, 2005): uma escola pública do território rural da Rede Municipal de Ensino de Tucano, no Estado da Bahia.
Essa cidade, de acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE (BRASIL, 2010a), apresenta uma população de pouco mais de 52 mil habitantes dos quais, aproximadamente, 57% vivem no campo.
Esses dados evidenciam que somos mais rurais do que imaginamos, principalmente, como argumenta Veiga (2003), se levarmos em consideração que, para a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico, uma localidade é classificada como urbana quando tem 150 hab./Km². No nosso caso, nossa densidade demográfica – de 18,73 hab./Km² – evidencia que, por esses parâmetros, somos um município rural.
Por esses dados, podemos “suspeitar” da profecia que reitera a morte do espaço rural.
Assim, se ele está fadado a desaparecer em breve, a quem interessaria investir em políticas públicas para as suas escolas? O que dizer, no entanto, das escolas localizadas nos centros urbanos cuja maioria dos estudantes é proveniente de contextos socioculturais campesinos? Se essa realidade não é levada em conta, há implicações no desempenho das crianças e jovens que nelas estudam?
Retornando aos números, constatamos que, em 2010, do número total de habitantes de Tucano - 52.418 – 18,1% estavam na faixa etária dos 6 aos 14 anos, aproximadamente, 9.487 residentes nessa categoria de acordo com dados do IBGE (BRASIL, 2010a). Nesse mesmo ano, a matrícula total do município (esferas estadual, municipal e privada) no Ensino Fundamental foi de 10.726 estudantes, segundo o INEP (BRASIL, 2010b). Por esses números, a impressão é a de que já conseguimos superar as metas estabelecidas visto que mais de 100% dos estudantes para essa faixa etária estariam matriculados. O contexto, no entanto, exige cautela, principalmente, quando consideramos, para esse mesmo ano, o índice de 51,2% em distorção idade-série e taxas de aprovação bem abaixo dos patamares do Estado da Bahia e do Brasil. O percentual de abandono – 14,4% – também é sintomático da grande dívida social do poder público para com essa população. Desta forma, entre reprovação e abandono, quase 30% dos alunos e alunas ficaram pelo caminho, nesse ano. Analisemos a Tabela 02:
Tabela 02: Desempenho dos Estudantes % - Ensino Fundamental, Ano de Referência: 2010
Esferas Aprovação Reprovação Abandono
Brasil 86,6 10,3 3,1
Estado da Bahia 77,7 15,7 6,6
Município de Tucano 70,4 15, 2 14,4
Fonte: PDE Interativo/MEC/2012.
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É nesse contexto maior que se insere a Escola Cristóvão Colombo – locus de nossa pesquisa. Situada às margens da BR 116, a 13 Km do município de Araci. Vejamos a ilustração 01:
ILUSTRAÇÃO 01 – REIS, José Ferando Santos. Mapa do município de Tucano, 2013.
Os estudantes da Cristóvão Colombo advêm, geograficamente, de espaços bastante diversificados. Grande número vive na fronteira entre municípios – Tucano/Araci, Tucano/Nova Soure. Muitos deles ainda trazem a representação dos Assentamentos – Amazonas, Fonte Viva, Santa Virgínia, São José do Marimbá, Pé de Serra e Mundo Novo – vinculados às políticas públicas de Reforma Agrária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Curiosamente, o Assentamento Pé de Serra está mais próximo da cidade de Nova Soure do que da sede do nosso município. Acrescentemos ainda os estudantes do Acampamento Santa Luzia, vinculado à Pastoral Rural.
Os percentuais dessa instituição, no contexto da Tabela 03, apresentam números bastante preocupantes, também, pois dos 360 estudantes matriculados em 2010, somente 59,5% lograram aprovação. Logo os índices de reprovação e abandono – 40,5% – chamam a
atenção porquanto ultrapassam, inclusive, os do município que, por sua vez, já estão bem abaixo do esperado.
Tabela 03: Desempenho dos Estudantes % - Ensino Fundamental, Escola Municipal Cristóvão Colombo.
Ano Aprovação Reprovação Abandono
2010 59.5 18.6 21.9
Fonte: PDE Interativo/MEC/2012.
A Tabela 04, abaixo, mostra-nos um panorama, no intervalo entre 2008 e 2010, do desempenho desses alunos. Percebemos que, entre 2008 e 2010, houve um crescimento instável nos índices de aprovação visto que em 2009 acontece um avanço de 6%, porém, no ano seguinte, o que se percebe é uma retração de 2,2%. Enquanto as taxas de reprovação caem, as de abandono crescem, inexoravelmente, simbolizando um problema sociocultural grave visto que muitas crianças e jovens estão excluídos do processo formal de educação, ou seja, de acesso à herança cultural, considerando que, para poder transformar a realidade objetiva, é fundamental dominar o capital cultural (BOURDIEU, 2007) sobre o qual determinada sociedade constrói sua legitimidade, seu consenso e seu dissenso.
Tabela 04: Desempenho dos Estudantes % - Ensino Fundamental, Escola Municipal Cristóvão Colombo, Anos de referência: 2008-2010.
Ano Aprovação Reprovação Abandono
2008 55.7 31 13.3
2009 61.7 21.4 16.9
2010 59.5 18.6 21.9
Fonte: PDE Interativo/MEC/2012.
Eis nossa problemática: um contexto escolar rural cujos índices demonstram que muitas crianças e jovens têm ficado à margem dos processos de escolarização. Segundo Leite (2002, p. 79),
Nem sempre a escola se estabelece como força entre os rurícolas, pois em se tratando de sobrevivência material da família, o trabalho em si é mais forte que a escolarização, o que muitas vezes leva a família rural em direção oposta à escola. Ao nosso ver, no atendimento às necessidades básicas, vitais, sustenta-se o maior problema que a escola rural enfrenta: evasão e repetência escolar. Realidade bastante conhecida por todos, a evasão e a repetência escolar no meio rural, geralmente têm seu fundamento na relação escolaridade/produção [...].
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Essa relação, de acordo com esse autor, é uma das consequências do calendário escolar padronizado conforme as escolas do meio urbano. Essa uniformização dos tempos escolares desrespeita, inclusive, a recomendação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9394/96, Parágrafo 2º, Artigo 23 (BRASIL, 1996) – de que haja adequação às peculiaridades locais, inclusive climáticas e econômicas.
Em função disso, durante os meses mais chuvosos do ano – junho e julho, entre nós do Sertão – os estudantes, como sujeitos integrados à produção da agricultura familiar, ajudam seus pais e mães no plantio e na colheita ou vendem sua força de trabalho nas roças e fazendas, geralmente, próximas ao seu entorno. Os que não se inserem nesse contexto, muitas vezes, não conseguem chegar às escolas porquanto parte das estradas e veredas ficam intransitáveis, impedindo a circulação dos transportes.
A evasão e a repetência acentuadas também nos incitaram a perguntar como se configuram as relações entre o currículo proposto pela Escola e os contextos socioculturais dos seus estudantes? Quais seriam os critérios de seleção dos conhecimentos considerados válidos para figurar no currículo dessa escola, localizada no território do rural? Como esses conhecimentos dialogam com as diversas culturas locais? Quais relações os estudantes estabelecem com esse conhecimento “eleito como formativo”? (MACEDO, 2010). Qual o lugar do debate da Educação do Campo no currículo da escola?
Assim, o objetivo geral desta pesquisa é compreender como se configuram as relações entre o currículo proposto pela Escola Municipal Cristóvão Colombo e os contextos socioculturais dos seus estudantes na perspectiva da Educação do Campo. E os objetivos específicos são entender os critérios de seleção dos conhecimentos legitimados como válidos para a instituição; compreender como o currículo proposto pela Escola dialoga com as culturas locais e os saberes dos estudantes; analisar as relações construídas pelos estudantes da Escola Municipal Cristóvão Colombo com o conhecimento “eleito como formativo” e compreender como o debate da Educação do Campo está se materializando no currículo proposto pela escola.