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Lista 2 Agrupamentos lexicais para ‘pai’

2.1 Corpus

O corpus desta pesquisa consiste de 7 (sete) depoimentos de homossexuais assumidos do sexo masculinos, oriundos da cidade do Rio de Janeiro. Os depoimentos foram obtidos por meio de Entrevista Narrativa (EN) e submetidos a três etapas de análise: uma para mapear a organização, uma para radiografar os itens lexicais e outra para analisar os aspectos avaliativos dos itens lexicais predominantes. Em outras palavras, comecei por olhar o texto em seu nível macro, descendo a um nível do léxico, mas me concentrando naquele léxico mais frequente nos sete textos. Após isso, investiguei que tipo de linguagem avaliativa estaria porventura presente nesse léxico.

Contudo, é importante ressaltar que o primeiro passo da pesquisa, isto é, a coleta dos dados, não foi uma tarefa fácil. Antes da EN ser efetivamente escolhida como método de coleta de dados, passaram-se quase dois meses, tentando, em vão, obter os dados através de coleta pela internet, através do blog chamado Minha Vida Gay.

O uso da internet para obtenção dos dados para compor meu corpus, ao contrário do que eu esperava, não deu o resultado positivo esperado. Inicialmente, pensei na criação de um espaço virtual, no qual homossexuais em questão pudessem escrever suas histórias de “sair do armário”. Assim sendo, seriam economizados tempo e esforços na coleta de dados, além de ter garantida anonimidade para os depoentes.

Foi conseguida a permissão de usarmos o blog Minha Vida Gay, um blog dedicado a discussão das questões gays. Com o apoio do blogueiro dono do Blog, que relatou a sua própria experiência, começaram a surgir narrativas pessoais escritas. Entretanto, o material

colhido não continha qualquer indicação de faixa etária ou da localização dos depoentes, o que impunha ao material muitas variáveis para análise. Passei a divulgar o blog através de e- mails e em rede sociais, e até com uso de panfletos circulados na universidade, na qual fazia o curso de mestrado, onde explicava que haveria anonimidade, mas que era necessária a identificação da idade e localização.

Para minha decepção, passaram-se duas semanas, um mês, dois meses de divulgação, e apenas um depoimento foi escrito no ambiente digital. Finalmente optei por outro método de coleta, a Entrevista Narrativa.

Foi pertinente a exposição dessa etapa da pesquisa para salientar que o uso da internet para obtenção de narrativas pessoais pode não ser o melhor caminho, para quem objetiva colher histórias de cunho sensível, por conta do resultado incipiente obtido quando instados a contribuir com material pessoal. Optei pela Entrevista Narrativa para, de fato, ter a experiência do “sair do armário” narrada em sua íntegra, ainda que o processo de transcrição fosse mais trabalhoso. Portanto, no item a seguir, a Entrevista Narrativa será explicada e serão descritas as etapas de sua condução de modo geral.

2.1.1 Entrevista Narrativa

A Entrevista Narrativa (doravante EN) visa criar uma situação que encoraje e estimule o entrevistado a contar uma história sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social (JOVCHELOVITCH e BAUER, 2008, p.90). Seu princípio básico é reconstruir acontecimentos sociais a partir da perspectiva dos informantes, tão integralmente quanto possível.

A EN pode ser utilizada como uma alternativa às entrevistas semi-estruturadas (FLICK, 2009, p.164). Essa técnica parte do ceticismo de até que ponto é possível obter as experiências subjetivas no esquema de perguntas e respostas das entrevistas tradicionais, ainda que esse seja de uma forma flexível. Com uso de narrativas, o pesquisador tem a possibilidade de abordar o mundo empírico até então estruturado do informante, de forma abrangente.

Esse método para coleta de dados é introduzido, em um manuscrito não publicado, pelo sociólogo alemão Schütze por volta dos anos 70. O sociólogo desenvolve uma proposta

sistemática para criar narrativas com fins de pesquisa social. Suas propostas difundiram-se abrangentemente como uma literatura não oficial e se tornaram foco de um verdadeiro método de pesquisa em comunidade na Alemanha.

No âmbito nacional, o método de Schütze surge, especialmente, através de dois capítulos referenciais neste trabalho para decorrer sobre EN: “Entrevista Narrativa” de Jovchelovitch e Bauer, presente no manual organizado por Bauer e Gaskell (2002) e

“Narrativas” de Flick em Introdução à pesquisa qualitativa (2009). Ambos os capítulos apresentam brevemente características e os procedimentos da técnica EN assim como algumas considerações sobre a estrutura da narrativa do conhecimento.

A EN se processa por meio de quatro estágios: iniciação, narração, questionamento e fala conclusiva. Contudo, antes dessas fases, o entrevistador deve ter preparado uma

“pergunta gerativa de narrativa” (RIEMANN e SCHÜTZER, 1987, p.353 apud FLICK, op.cit, p.165). Como o próprio nome da pergunta já diz, ela é a questão que vai gerar a narrativa. De acordo com Jovchelivitch e Bauer (op.cit, p.97), a pergunta gerativa tem a natureza exmanente, ou seja, refere-se ao tópico de estudo e estimula a narrativa principal do entrevistado. Em outras palavras, a pergunta exmanente cumpre o papel de expor ao entrevistado uma formulação convincente do tópico central, designado a provocar uma narrativa reportável.

No decorre da EN, ocorrem dois tipos de pergunta: exmanente e imanente.

Primeiramente, inicia-se com a pergunta exmanente para apresentar o tema e começar narrativa. Em seguida, quando a narrativa chega ao seu desfecho, aplicam-se as perguntas imanentes. Essas são perguntas que convidam o narrador a voltar em algum ponto da narrativa que não ficou claro no contexto global da narração. Elas são formuladas exclusivamente a partir da própria linguagem do entrevistado e acionadas logo após da narração, na fase do questionamento.

A fase da narração é a produção do relato espontâneo do entrevistado sobre sua vida, isto é, o evento importante que interessa ao entrevistador. Nesse momento, a intervenção do entrevistador é a mais mínima possível, com o apoio não verbal ou para-linguísticos (“hmmm”, “sim”, “sei”), até a indicação de finalização por parte do narrador “Coda”.

Entretanto, a intervenção, no decorrer na narração, só é necessária quando o entrevistador não é capaz de compreender o conteúdo relatado, quando então, pede esclarecimentos.

Na fase do questionamento, as perguntas imanentes entram em ação. Mas, antes de iniciar os questionamentos, o entrevistador tenta investigar algo mais com as possíveis perguntas: “É tudo o que você gostaria de me contar?” ou “Haveria ainda alguma coisa que gostaria de me dizer?” (JOVCHELOVITCH e BAUER, op.cit, p.99), para comprovar com clareza o fim da narrativa central. Posteriormente, o entrevistador, com a utilização da própria linguagem do informante, lança algumas perguntas referentes a potenciais narrativos da história contada, que se revelam em alusões, ambiguidades, e passagens implausíveis.

Perguntas potenciais são: “Que aconteceu então quando ...?”; O que você quis dizer com ...?”;

“Não compreendi quando você disse ...”.

Em seguida, formulam-se também perguntas descritivas sobre situações vividas, sobre outras pessoas, sobre relações sociais e etc. Por exemplo, são elaboradas perguntas como:

“Como as pessoas faziam para ... naquele tempo?”; Como lidavam com ...”?; “Como eram relações entre ... naquela situação?”.

No momento de questionar, Jovchelovitch e Bauer (op.cit, p.99) ainda sugerem que se evitem perguntas do tipo “por que?”, que não se façam perguntas diretamente sobre opiniões e atitudes e não se apontem contradições na narrativa para evitar um clima de investigação detalhada. Além de reiterar algo mal compreendido na narrativa, os autores supracitados caracterizam também a fase do questionamento como um momento para eliciar material novo ou adicional além do esquema auto-gerador da história.

Por fim, na fase da fala conclusiva, o entrevistador cessa a gravação e faz perguntas que interessam ao pesquisador. Nesse momento, são permitidas perguntas do tipo “por quê”

para gerar respostas de argumentação, racionalização e teorização. Os narradores costumam revelar teorias e explicações sobre si mesmos e de ações sob a forma de comentários argumentativos.

Resumidamente, as fases principais da Entrevista Narrativa se estruturam das seguintes formas, como mostrado no Quadro 1. Salienta-se que para cada uma dessas fases, é sugerido um determinado número de regras. As regras não são tanto para induzir um compromisso cego de tais, mas elas propõem um guia e orientação com fim de obter uma

narração rica sobre um tópico de interesse, assegurando o distanciamento do esquema pergunta-resposta da entrevista. O acompanhamento dessas regras certamente garante ao entrevistador uma situação isenta de constrangimento, o que manterá a disposição do entrevistado de contar uma história de acontecimentos importantes.

Fases Regras

Preparação Formulação da questão exmanente

1. Iniciação Formulação do tópico inicial pra narração

2. Narração central Não interromper

Somente encorajamento não verbal para continuar a narração

Esperar para os sinais de finalização (“coda”) 3. Questionamento Somente “Que aconteceu então?”

Não dar opiniões ou fazer perguntas sobre atitudes Não discutir sobre contradições

Não fazer perguntas do tipo “por que?”

Ir de pergunta exmanente para imanentes

4. Fala conclusiva Para de gravar

São permitidas perguntas do tipo “por que?”

Fazer anotações imediatamente depois da entrevista.

Quadro 1 – Fases da entrevista narrativa adaptado de Jovchelovitch e Bauer (op.cit, p.97)