Lista 2 Agrupamentos lexicais para ‘pai’
3.1 Narrativa
3.1.2 Modelo Analítico de Hoey
298 Quanto a minha mãe como o meu pai aceitam ele em casa.
299 Tudo bem, assim, sem problemas.
Numa tentativa de resumir todas essas categorias organizacionais da narrativa, Labov formula seis perguntas para tentar identificar tais categorias:
Resumo – é sobre o quê?
Orientação – quem, quando, o que, aonde?
Ação Complicadora – o que aconteceu então?
Avaliação – e aí?
Resultado/Resolução – o que finalmente aconteceu?
uma série de perguntas previsíveis que refletem o relacionamento das frases do texto (HOEY, 2001, p. 140). A ordem que tais perguntas são respondidas não é, contudo, fixa. As perguntas mais simples são:
1- “Qual é/foi o problema?”, 2- “O que é/foi feito sobre isso?”
3- “Qual foi o resultado, positivo ou negativo?”.
O esquema básico do PPS estrutura-se conforme é apresentado na Figura 7:
Figura 7 – Estrutura do Padrão Problema-Solução, readaptado de Hoey (2001)
O texto organizado pelo PPS, em particular o texto narrativo, apresenta uma Situação, na qual são fornecidas as informações “pano de fundo” sobre o tempo-espaço e sobre os participantes, contidos na história. Em seguida, ou concomitantemente o texto apresenta o Problema, que corresponde a um aspecto da Situação exigindo uma Solução (HOEY,op.cit), podendo estar também marcado na Situação e caracterizando-a como “Situação marcada por Problema”. Assim sendo, o texto prossegue com a Solução, que se refere à resposta dada para cessar o aspecto problemático. Por fim, o texto exibe as Avaliações sobre a resposta, podendo essas ser positivas ou negativas. Caso a Solução tenha sido eficaz, por conseguinte, avaliada positivamente, o padrão se encerra. Veja o seguinte fragmento, retirado do corpus, para
melhor compreensão do PPS. Os números precedidos das sentenças foram adicionados com o propósito de facilitar a referência.
3.118
(1) O meu maior problema foi o meu pai ficou na implicância comigo. (2) Ele falava para a minha mãe que ia vir atrás de mim, ia me seguir (3) e se me visse agarrado como homem ia me matar. (4) O meu pai me pressionou muito. (5) meu pai me tirou muita coisa. (6). Na época 17 e18 anos eu não trabalhava ainda. (7) eu pedia dinheiro e não me dava. (8) aí comecei a perceber que teria que ter minha vida. (9) então falei assim “oh pai, estou saindo de casa. (10) Vou morar com uma pessoa.” (11) e fui para campo grande.(12) E aí esse tempo que eu fiquei longe ele começou a rever os conceitos dele. (13) Pedia para eu voltar para casa e ele falava que ele não ia ter preconceito comigo.(14) Foi a melhor coisa ter saído de casa. (15) Assim, não bato de frente com meu pai.
Conforme observado no fragmento 3.1, esse pequeno texto narrativo se inicia com a Situação (1-7) que descreve a relação entre pai e filho. Com base nas perguntas para buscar a relação de Problema-Solução no texto, observa-se que a Situação já é marcada como Problema, inclusive no léxico usado pelo narrador (meu maior problema). O Problema se estende também pelas frases (2), (3), (4), (5), (6) e (7), que configuram o pai não aceitar a condição sexual do filho, querendo, portanto matá-lo e desprovê-lo de ajuda financeira. A Solução (9), (10) e (11) encontrada pelo filho, então, é querer ter sua própria vida, sair de casa e ir para Campo Grande. Solução essa que é avaliada negativamente pelo pai em (13) e (14), mas positivamente pelo narrador em (15), quando aí se fecha o padrão.
Esse exemplo ilustra a possibilidade esperada do PPS, que tem as Avaliações positivas encerrando o padrão. No entanto, há ainda as Avaliações negativas que podem acompanhar a Solução, isso quando as providências tomadas para os aspectos problemáticos não apresentam eficácia. Para isso, Hoey (op.cit, p. 130) identifica dois possíveis movimentos do padrão, conforme na Figura 8:
18 As seguintes cores foram usadas para facilitar a visualização dos elementos do PPS.
Figura 8 - Possíveis movimentos do PPS sob Avaliações negativas Hoey (op.cit, p. 130).
A Figura 8 mostra que os movimentos do PPS seguem por ‘reciclagem’ ou pela Solução Irremediável. A ‘reciclagem’ ocorre quando a Solução acrescida de Avaliações negativas não obtém a recuperação do Problema logo de primeira. O mesmo passa por um processo de redefinição, até achar uma Solução adequada. O fragmento 4.2 é um exemplo da
‘reciclagem’ do Problema.
3.2
(1) Na puberdade começou um desejo mais forte por homens.(2) Comecei a me masturbar pensando em homens e aquilo para mim foi muito ruim, né? (3) Então, ficava naquela de ficar me masturbando pensando em homens e fazendo força para pensar em mulheres, sabe? (4) Então, era meio que eu mesmo me punia (5) Eu era muito rígido comigo mesmo. (6) Então, foi um processo meio doloroso para mim.
Observa-se, no fragmento 3.2, que (1) se apresenta como Situação pura e simples. O Problema (2) corresponde à estimulação sexual promovida pelos pensamentos voltados à figura masculina, que é avaliado negativamente (aquilo foi muito ruim, né?). A Solução proposta, então, é vincular a imaginação à figura feminina. Entretanto, a Solução (4), (5) e (6) não apresenta eficácia, visto que o resultado da resposta é expresso por Avaliações negativas, realizando, portanto a redefinição do Problema.
Já o segundo movimento, que se refere ao fim do padrão pela Solução Irremediável, que acontece quando a Solução não alcança o estágio de recuperação, encerrando o padrão sem corrigir os aspectos problemáticos. Suponha-se que o Problema instaurado do fragmento 3.1, após de inúmeras tentativas de solucioná-lo, inclusive com a Solução de sair de casa, não
tivesse êxito e ambos continuassem a viver em “pé de guerra”, teríamos um exemplo, no qual o padrão termina com Soluções Irremediáveis.
Além das perguntas mentalmente projetadas para identificar a relação das orações por meio de Problema-Solução, Hoey (op.cit, p.128) ressalta que o reconhecimento do PPS é provocado pelas marcas linguísticas, quais ele classifica como BASE para conformar a existência dos elementos do PPS. Por exemplo, no fragmento 3.1, os recursos Base do Problema são: o próprio uso do “problema” e “implicância” em (1), relacionado ao “pai”; o recurso “pai” associado à “matar”, “pressionar”, respectivamente em (3) e (4). A Solução é sinalizada pela estrutura “eu fiz X”, como na estrutura em (8), que inicia a Solução até (11). A Avaliação é marcada pelos recursos que marcam a mudança de atitude do pai, como “rever os conceitos” “pedir para voltar” “não ter preconceito” e o uso de qualificadores, como em “a melhor coisa” para avaliar a Solução.
Os elementos que compõem o PPS podem ser atribuídos pelos participantes do texto (HOEY, op.cit, p.133). O Problema pode ser reconhecido por X, solucionado por Y e avaliado por Z. É importante frisar, especialmente sobre o componente Problema, que algo identificado como tal, não significa que isso reflita consenso geral, ou seja, como se todo mundo considerasse um determinado fato problemático. Por exemplo, tem-se a própria questão da identidade gay, que é avaliada negativa ou positivamente dependendo do tempo e do espaço.
Na maioria dos países da Europa, a identidade sexual do indivíduo não interfere nas relações sociais, ao passo que na maioria do continente africano, com exceção da África do sul, a relação homossexual é considerada um crime. (SANTOS, 2012, p.320). Na Grécia antiga o conceito de homossexualidade não existia. Portanto, tem de se pensar que os elementos do PPS podem ser atribuídos pela perspectiva dos participantes do texto.
Para ilustra a atribuição dos componentes do PPS pelos participantes, veja o fragmento 3.3:
3.3
(1) Ele (pai) achou que ia me botar na psicóloga e a mulher ia me curar, né? (2) E a psicóloga foi muito a minha amiga. (3) ela falou assim: “Meu filho”, olha só, eu percebi que na sua casa, a melhor pessoa resolvida sexualmente na sua casa é você.”(4)”Então, a primeira coisa que você tem que fazer é conseguir independência financeira para você se livrar dos seus pais e poder dar dinheiro em casa para eles pararem de cobrar aonde você vai e com quem você está dormindo.” (5) E eu segui o conselho dela. (6) E ela foi muito importante.(7) Porque ela me ajudou.(8) Ela foi uma boa psicóloga
Percebe-se, no fragmento 3.3, que o Problema em ser gay é originado pelo pai e é solucionada por duas perspectivas: a do pai e a da psicóloga. O pai põe o filho em tratamento psicológico, pensando na possibilidade de “curar” o filho da “possível” doença de ser gay. Já a psicóloga soluciona a questão pela busca da independência financeira. Solução essa que avaliada positivamente pelo sujeito que decide seguir o conselho dela e a elogia. A topologia na Figura 9 é uma tentativa de demonstrar as atribuições dos constituintes do PPS pelas perspectivas dos participantes do fragmento 3.3.
Problema para o pai: ser gay Solução do pai: tratamento psicológico Solução da Psicóloga: independência financeira
Avaliação do sujeito: importante
Figura 9 – Topologia das atribuições dos elementos do PPS pela perspectiva dos participantes
De acordo com Shepherd (1988, p.54), a aplicação do Padrão Problema-Solução parece ser bem sucedida para explicar a organização e o atrativo das narrativas em histórias infantis. Em geral, todos os padrões textuais de Hoey focam nos textos escritos. Eles foram desenvolvidos com o intuito de facilitar a análise textual no que tange à organização e à leitura/interpretação do texto. O PPS, em particular, organiza não somente as narrativas em histórias de criança como também um grande número de narrativas encontradas em diversas produções textuais.
Com enfoque do PPS em textos escritos, a utilização desse aspecto de organização textual em narrativas orais é um dos fatores que torna esta pesquisa, ao mesmo tempo, pertinente e desafiadora. Portanto, este capítulo prossegue com a seção de análise, propriamente dita, com base não somente no modelo de Hoey, mas o de Labov, para verificar de que maneira são organizadas as histórias de “sair do armário” e se há recorrência de padrões narrativos.