Regulamentação em excesso sufoca a criatividade. Estrangula a inovação.
Dá aos dinossauros do passado um poder de veto sobre o futuro. Desperdiça a oportunidade extraordinária para criatividade democrática que a tecnologia digital oferece.
Além desses prejuízos sérios, existe mais um que era considerado pelos nossos antepassados, mas parece esquecido atualmente. Regulamentação em exceção corrompe os cidadãos e enfraquece o papel da lei.
A guerra que está acontecendo atualmente é uma de proibição. Como em todas as guerras de proibição, ela alveja o comportamento de uma quan- tidade muito grande de cidadãos. De acordo com o New York Times, 43 milhões de americanos baixaram música em Maio de 2002. [168] De acordo com a RIAA, o comportamento desses 43 milhões de Americanos é um crime capital. Portanto precisamos de um conjunto de regras que transforme 20%
de todos os americanos em criminosos. Conforme a RIAA lança processos não apenas contra os Napsters e KaZaAs do mundo, mas contra estudantes que constroem mecanismos de buscas, e cada vez mais contra usuários con- vencionais que baixem conteúdo, as tecnologias para compartilhamento de arquivos irão avançar no caminho de proteger e ocultar os usos ilegais. Ela é uma corrida armamentista ou uma guerra civil, com os extremos de um lado exigindo respostas cada vez mais extremas do outro lado.
A tática das indústrias de conteúdo envolve explorar as falhas no sistema legal americano. Quando a RIAA processou Jesse Jordan, ele sabia que em Jordan encontram um bode expiatório, não alguém que pudesse defender seus direitos. A ameaça de ter de pagar tanto todo o dinheiro do mundo em multas (15 milhões de dólares) ou quase todo o dinheiro do mundo para defender-se do fato de ter que pagar todo o dinheiro do mundo em multas (ele precisaria de 250 mil dólares em taxas legais) levou Jordan a lhes dar todo o dinheiro que tinha no mundo (12 mil dólares) para fazer o processo desaparecer. A mesma estratégia disparou os processos da RIAA contra usuários individuais. Em Setembro de 2003, a RIAA processou 261 pessoas
— incluindo uma garota de 12 anos que morava em um orfanato e um senhor de 70 anos que não fazia a menor idéia do que era compartilhamento de arquivos. [169] Como esses bodes expiatórios descobriram, iria sempre lhes ser mais caro defender-se de tais processos do que simplesmente entrarem em um acordo. (A garota de 12 anos, por exemplo, como Jesse Jordan, pagou suas economias de 2 mil dólares para fazer um acordo.) Nossa lei é um sistema grotesco quando envolve defender seus direitos. É um embaraço para a nossa tradição. E a conseqüência disso é que nossa lei do jeito que está é que aqueles que possuem poder podem usar a lei para destroçar quaisquer direitos que causem-lhe oposição.
Guerras de proibição não são algo novo na América. A que está aconte- cendo agora é apenas mais extremista do que qualquer coisa que tenhamos visto anteriormente. Nós já tivemos a experiência desse tipo de coisa com a proibição do consumo de bebidas alcoólicas, em uma época em que o consumo per capita de álcool era de 5,678 litros por ano. A guerra contra a bebida inicialmente reduziu esse consumo para 30% dos níveis de antes da proibição, mas que no fim da proibição estava em 70% dos níveis antes da proibição.
Os americanos estavam bebendo tanto quanto antes, mas agora uma grande quantidade deles tinham se tornado criminosos. [170] Nós também lançamos uma guerra contra as drogas visando reduzir o consumo de narcóticos legais que agora 7% (ou 16 milhões) dos americanos agora usam. [171] Essa foi uma queda dos valores altos (por assim dizer) de 1979 de 14% da população.
Nós regulamentamos os automóveis ao ponto de que uma grande quantidade de americanos violam a lei todo dia. Nós temos um sistema de impostos tão complexo que a maioria dos negócios regularmente trapaceia ele. [172]
Somos orgulhoso de nossa “sociedade livre”, mas um conjunto sem fim de comportamentos cotidianos é regulamentado dentro de nossa sociedade. E como resultado, uma proporção enorme dos americanos regularmente viola alguma lei.
Esse estado de situação não vem sem conseqüências. Esse é particular- mente saliente para professores como eu, cujo trabalho é ensinar aos alunos de
direito a importância da “ética”. Como o meu colega Charlie Nesson disse a uma classe em Stanford, todos os anos as escolas de direito admitem milhares de estudantes que têm baixado ilegalmente música, consumido ilegalmente álcool e drogas, ilegalmente trabalharam sem pagar seus impostos, ilegal- mente dirigiram carros. Eles são pessoas para quem agir ilegalmente tem se tornado cada vez mais a norma. E então nós, como professores de direito, supostamente temos que lhes ensinar como agir eticamente — como dizer não a subornos, como manter os fundos de seus clientes separados, como honrar uma exigência de divulgação de um documento que irá significar o encerra- mento de seu caso. Gerações de Americanos — mais significativamente em algumas partes da América do que em outras, mas na prática atualmente em todo os Estados Unidos — não conseguem viver sua vida normalmente e legalmente, já que “viver normalmente” tem exigido um certo grau de ilega- lidade.
A resposta à essa ilegalidade geral pode ser tanto impor a lei de maneira mais severa ou a mudar. Nós, como sociedade, aprendemos como fazer nossas escolhas mais racionalmente. Se uma lei faz sentido depende, em parte, ao menos, de se os custos da lei, tanto diretos quanto indiretos, superam os benefícios. Se os custos, diretos e indiretos, sobrepõe os benefícios, então a lei deveria ser mudada. De modo alternativo, se os custos do sistema legal são muito maiores que os custos de uma alternativa, então temos uma boa razão para considerar a alternativa.
Minha opinião não é tola: apenas porque algumas pessoas violam a lei, nós deveríamos a repelir. Obviamente, nós poderíamos reduzir as estatísticas de assassinato dramaticamente pela legalização do assassinato nas Quartas e Sextas. Mas isso não faria o menor sentido, já que assassinato é errado em qualquer dia da semana. Uma sociedade tem o direito de proibir assassinato sempre e em todo lugar.
Minha opinião é, de fato, uma que as democracias entenderam por gera- ções, mas que estamos recentemente aprendendo a esquecê-la. O papel da lei depende das pessoas as obedecerem. Quanto mais, e mais repetidamente, nós como cidadãos experenciarmos a violação das leis, menos nós a respeitamos.
Obviamente, na maioria dos casos, o fato importante é a lei, não o respeito à ela. Eu não me importo se um estuprador respeita ou não a lei; eu quero pegar e trancafiá-lo. Mas eu me importo se meus estudantes respeitam a lei. E eu me importo se o papel da lei dissemina, na verdade, um crescente desrespeito dela por causa da excessiva regulamentação que ela impõe. Vinte milhões de americanos alcançaram a maioridade desde que a Internet intro- duziu essa nova definição de “compartilhamento”. Precisamos garantir que tais pessoas possam ser chamadas de “cidadãos”, não de “bandidos”.
Quando pelo menos 43 milhões de cidadãos baixam conteúdo da In-