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CRIME MILITAR E CRIME COMUM
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Se porém esse mesmo civil ingressar clandestinamente num quartel da Polícia Militar, não poderá ser processado na Justiça Militar estadual. Lembro-me de um caso em que um rapaz que fez pichações e causou danos no muro de um Quartel do Exército, foi processado por tal fato pela Justiça Militar federal, o que não ocorreria se o Quartel fosse da Polícia Militar. Não que o fato seja atípico. Esse civil teria cometido o ilícito de danos. Só que ele não seria processado na Justiça Militar estadual, mas sim na Justiça Comum. E isso porque a própria Constituição Federal determina que compete à Justi- ça Militar estadual processar e julgar os policiais militares e bombeiros militares, nos crimes militares definidos em lei (artigo 125, §4º), sem estender esta competência, no caso, aos civis. E como já vimos, essa lei é o Código Penal Militar.
Além disso, se um militar do Exército, em co-autoria com um civil, praticam crime de peculato, ou seja, apropriação indevida ou subtração de determinado bem de pro- priedade do Exército, ambos (o civil e o militar) serão processados na Justiça Militar Federal. Isso, entretanto, não ocorre no âmbito estadual. O policial militar será pro- cessado na Justiça Militar estadual e o civil na Justiça Comum.
Outro caso de interesse: policial militar que pratica abuso de autoridade, comete crime militar? A resposta é negativa. Já dissemos que crime militar é o que está previsto na lei, no caso, no Código Penal Militar. E o crime de abuso de autoridade não está previsto no Código Penal Militar, mas sim em lei especial, que não se aplica à Justiça Militar. E será ele julgado na Justiça comum. Isso causa um gravame ao policial, pois se além do abuso de autoridade ou em decorrência dele, praticar uma lesão corporal, teremos dois processos: um tramitando da Justiça comum (que irá apurar o abuso de autoridade) e outro na Justiça militar (que irá apurar a lesão corporal), com o risco de se ter duas decisões antagônicas. Até porque as provas carreadas em um ou em outro podem ser diferentes. Concluindo, nenhum crime ausente no Código Penal Militar, ne- nhuma lei especial como a lei de abuso de autoridade, tortura, sonegação fiscal, tóxi- cos, hediondos, defesa do consumidor, etc., será objeto da competência da Justiça Militar. Também poderia ocorrer essa dicotomia de julgamentos na hipótese em que um policial militar e um policial civil, em co-autoria cometessem lesão corporal contra um civil. O policial militar responderia na Justiça especializada e o civil na comum. É isso o que atualmente consta da Súmula 90 do Superior Tribunal de Justiça.
Mais um caso de interesse: lesão corporal culposa, causada por policial militar em serviço, como motorista de uma viatura oficial. Desde 1.984, quando iniciei minhas atividades como operador do direito na Justiça Militar, já havia entendimento de que a Justiça militar não era competente para apreciação do fato. E isso eu nunca havia entendido, pois se o policial militar, de serviço, com uma viatura oficial, de forma imprudente, desrespeita regras de trânsito e provoca um acidente que ocasiona le- são corporal em outras pessoas, deveria responder perante a Justiça Militar. No en- tanto a competência era da Justiça comum. E nesse ponto ressalto a importância de eventos como este. Foi exatamente num desses eventos, realizado em outro Estado, que o Dr. Ronaldo João Roth, como participante, trouxe a informação de que nós (do Estado de São Paulo) éramos o único Estado da Federação cuja Justiça Militar não julgava esse tipo de delito. Com base nisso passamos a nos dar por competentes em casos dessa natureza, provocando assim a manifestação do Tribunal de Justiça Mi- litar. Este, por sua vez, acolheu os argumentos por nós expostos e acabou por firmar
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jurisprudência no sentido de fixar nossa competência para apreciação do fato. E tal posicionamento foi levado também ao Procurador Geral de Justiça que concordou conosco. Graças a esse intercâmbio de idéias, como o que estamos realizando hoje, mudamos algo que era como se fosse um dogma para o assunto e atualmente temos a competência plena para apuração e julgamento de delitos de lesão corporal culposa.
Da mesma forma, entendemos que deveríamos julgar os crimes de fuga de preso, na modalidade culposa. Atualmente vigora o posicionamento de que se uma pessoa presa em um estabelecimento penal comum foge, o policial militar que fazia a segu- rança externa do presídio ou a escolta deste preso, responderá perante a Justiça comum. Mas se o preso estiver sob a custódia do Presídio Militar, a competência será da Justiça Militar. Entendemos que em ambas as situações o policial militar deveria responder perante a Justiça Militar, tendo em vista estar de serviço.
Outras duas questões de relevância que já foram tema de muitas controvérsias, mas que atualmente estão pacificadas, com alteração do Código Penal Militar. São elas: o uso da arma da corporação, por um policial militar de folga para praticar um crime comum e a atuação propter officium do policial militar.
Anteriormente se um policial militar fizesse uso de uma arma da corporação, para a prática de uma ato ilícito, mesmo que estivesse de folga e em trajes civis, a compe- tência para julgá-lo seria da Justiça Militar. Tivemos diversos casos nesse sentido. Só para dar um exemplo, lembro-me de um processo em que um policial que praticou um roubo contra um supermercado. Embora estivesse de folga e em trajes civis, a competência era da Justiça Militar, pois utilizou-se, para a prática do delito de arma- mento de propriedade militar. O artigo 9º, inciso II, alínea “f” do Código Penal Militar assim determinava. Em outra ocasião um policial atirou em sua sogra e a matou utilizando-se de arma pertencente à Corporação. Também foi julgado por essa Justi- ça especializada. Atualmente não temos mais esse tipo de problema, uma vez que aquela alínea foi revogada. Portanto, para a configuração de crime militar, pouco im- porta que se use uma arma da corporação ou particular. Deve-se ter em conta as demais alíneas do Código Penal Militar.
Por outro lado se um policial militar estivesse de folga e um seu vizinho, sabendo da sua condição de policial o chamasse para ajudá-lo em uma ocorrência, mesmo que naquele momento agisse como policial militar, responderia por eventual delito praticado na Justiça Comum. Atualmente foi alterado artigo 9º, inciso II, alínea “c” sendo que a nova redação determina que é crime militar o praticado por militar em serviço ou atuan- do em razão da função, mesmo que fora do lugar sujeito à administração militar.
É interessante lembrar o caso de um policial militar de um Estado que comete um crime militar em outro Estado da Federação. Na hipótese, o interesse penalmente tutelado é do Estado a cuja corporação pertence o militar acusado (muito embora o delito tenha sido praticado no território de outro Estado), o que justifica a aplicação do princípio geral do direito pelo qual, em caso de conflito de critérios para fixação de competência, o especial prevalece sobre o geral. Atualmente há Súmula do Superior Tribunal de Justiça a respeito.
Finalmente citaria as hipóteses de crime praticado entre policiais militares.
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a) dois policiais militares em serviço sendo que um atira contra o outro e o mata.
Sabemos que os homicídios não são mais julgados pela Justiça Militar, mas sua com- petência prevalece quando autor e vítima são militares. Assim, mesmo diante de um crime doloso contra a vida, se praticado entre militares, a competência continua sen- do da Justiça Militar.
b) marido e mulher – ambos policiais militares de folga e em trajes civis. Tivemos diversos casos nesse sentido, inclusive de homicídios. Um deles, há pouco tempo, em que um policial militar, por questões de ciúmes, matou sua esposa, que também era Policial Militar. Mesmo que o motivo determinante do delito não se prenda a um fato de interesse militar, a competência é da Justiça Militar.
c) dois policiais militares, ambos de folga e em trajes civis. Um atira contra o outro e o mata. Nenhum dos dois tinha ciência de que o outro era policial militar. Pelo crité- rio objetivo adotado pelo nosso Código, entendemos, em que pese posicionamentos contrários, que a competência é da Justiça Militar.
Lauro Ribeiro Escobar Jr., juiz auditor da 2ª auditoria Militar de São Paulo