legitimação eficaz ao direito penal, cumprindo com a sua função tanto de defesa social – pois que nenhuma das lesões restará impune – como de defesa individual.
A doutrina, em sua maioria, adota os posicionamentos da absorção do crime de disputa ou competição automobilística não autorizada pelo crime mais grave. Surge então uma nova dúvida: o racha ou a competição não autorizada serão absorvidos pelo art. 302 CTB ou pelo 121 do CP? Segundo Andreazza100, o que irá determinar a resposta “será o entendimento de que o resultado morte deriva de culpa consciente do autor, no primeiro caso, ou de dolo eventual, no segundo”, o que será analisado no terceiro e último capítulo.
2.5 CRIMES E INFRAÇÕES ADMINISTRATIVAS COMETIDOS JUNTO COM OS
I – com o lacre, a inscrição do chassi, o selo, a placa ou qualquer outro elemento de identificação do veículo violado ou falsificado;
[...]
IV – sem qualquer uma das placas de identificação;
[...]
VI – com qualquer uma das placas de identificação sem condições de legibilidade e visibilidade:
Infração – gravíssima
Penalidade – multa e apreensão do veículo Medida administrativa – remoção do veículo
Convém aqui valer-se da explicação de Rizzardo102 acerca das placas de identificação, pois segundo ele, a norma “abrange o estrago e o rompimento da placa e do lacre”:
O lacre corresponde ao mecanismo que impede a retirada da placa sem o seu rompimento. Constitui-se de um arame convenientemente colocado e tornado invulnerável por uma chumbada comprimida por instrumento próprio que os DETRAN possuem. Por esse sistema, unicamente pelo rompimento e pela violência é possível a remoção da placa.
Como é sabido, as placas de identificação do veículo devem estar afixadas nas partes dianteira e traseira do veículo, conforme art. 1° da Resolução 231 do CONTRAN de 15 de março de 2007.
2.5.2 Dirigir sem permissão ou carteira de habilitação
O crime de direção sem carteira de habilitação está previsto no art. 309 do CTB:
102 RIZZARDO, Arnaldo. Comentários ao Código de Trânsito Brasileiro. 2007. p. 459.
Art. 309 – Dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida Permissão para Dirigir ou Habilitação ou, ainda, se cassado o direito de dirigir, gerando perigo de dano:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.
O objetivo deste artigo, conforme Jesus103, é preservar “a incolumidade pública, no que tange à segurança das pessoas no trânsito”.
Para compreender a diferença entre permissão para dirigir e habilitação, pode-se recorrer a Capez e Gonçalves104, que ensinam que a habilitação:
será apurada por meio de exames que deverão ser realizados junto ao órgão ou entidade executivos do Estado ou do Distrito Federal, do domicílio ou residência do candidato, ou na sede estadual ou distrital do próprio órgão, devendo o condutor ser penalmente imputável, alfabetizado e possuir carteira de identidade ou documento equivalente. São necessários exames de aptidão física e mental, sobre legislação de trânsito (por escrito), noções de primeiros socorros (conforme regulamentação do CONTRAN) e de direção em via pública.
Da mesma maneira, explicam a permissão para dirigir:
O candidato aprovado nos exames para habilitação receberá um certificado de Permissão para Dirigir, com validade de um ano. Ao término desse período, receberá a habilitação, desde que não tenha cometido nenhuma infração grave ou gravíssima, nem seja reincidente em infração média.
Novamente, assim como a absorção do crime de racha pelos crimes de homicídio culposo e lesão corporal culposa, a direção sem carteira de habilitação terá três posições. Segundo Jesus105, são elas: “1ª) há
103 JESUS, Damásio E. de. Crimes de trânsito: anotações à parte criminal do código de trânsito. 2006, p. 202.
104 CAPEZ, Fernando; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Aspectos criminais do Código de Trânsito Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 6.
105 JESUS, Damásio E. de. Crimes de trânsito: anotações à parte criminal do código de trânsito. 2006, p. 193.
concurso material de infrações, uma não absorvendo a outra. 2ª) o “racha”
absorve a direção sem habilitação. 3ª) há concurso formal”.
O autor aplicou o princípio da consunção neste conflito aparente de normas, adotando a segunda posição, assim como a maior parte da doutrina.
2.5.3 Alteração de equipamentos ou características que afetem a segurança ou funcionamento do veículo
A Resolução n° 262 do CONTRAN, de dezembro de 2007, apresenta todas as modificações permitidas nos veículos automotores e as medidas que devem ser tomadas para a regularização das mudanças.
Na explicação de Secchi106:
As alterações básicas feitas pra aumentar a velocidade de um veículo seriam a colocação de chip de potência e turbo. Também pode ser usado combustível especial, ou algum equipamento interno que aumente a cilindrada, porém desde que tudo esteja legalizado.
A colocação do turbo requer homologação legal, pelo aumento expressivo da velocidade. A alteração da pressão da turbina, bem como o comando de válvulas, ou escapamento em geral gerando barulho acima do permitido – o que ocorre quando se tira o silenciador, peça que inibe o barulho -, da mesma forma que a alteração do diâmetro das rodas, saindo das características originais e afetando a segurança, são todas atividades ilegais.
Normalmente para rachas há alteração na suspensão e no diâmetro, gerando a instabilidade do carro e prejudicando a segurança.
Para fazer qualquer alteração na potência do motor é necessário procurar uma oficina credenciada com o INMETRO e Detran para fazer testes de segurança – como frenagem estabilidade – e
106 SECCHI, Betina Zappelini. Publicação eletrônica. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <[email protected]> em 11 maio 2008.
depois a nova potência ficará marcada no documento do carro, no campo das observações.
Vescovi107 descreve com maior detalhamento as exigências da Resolução 262:
Primeiramente é preciso fazer um requerimento para a autoridade competente - responsável pelo registro e licenciamento – pedindo uma autorização para que o carro possa ser modificado. Como exemplo vou usar a colocação do turbo compressor. Assim que a autorização for obtida e o turbo for instalado, o carro deve ser levado a uma loja credenciada do INMETRO para que seja feita uma vistoria, apresentando-se as notas fiscais das peças e do serviço. São testados os freios, a suspensão, etc. Passando na vistoria, será expedido um laudo.
O laudo comprovará que o carro está em perfeitas condições de uso e está seguro para rodar nas ruas. Este laudo é levado junto ao Detran para que o documento do carro seja averbado, fazendo constar no campo de observações que o veículo é turbo alimentado.
Não há problema em fazer alterações no veículo, desde que sejam inspecionadas e autorizadas, para que haja garantia de que o veículo continua sendo seguro após as modificações. Além da modificação citada no exemplo acima, a Resolução faz exigências quanto a suspensão, obrigando os motoristas ao mesmo procedimento de inspeção e fazendo constar no documento do veículo a nova altura108. A Resolução apresenta um anexo com todas as modificações permitidas e as exigências que devem ser observadas para fazê-las.
2.5.4 Portar dispositivo anti-radar
Geralmente os participantes de corridas, disputas e competições automobilísticas não autorizadas escolhem vias desertas e
107 VESCOVI, Giancarlo. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por
<[email protected]> em 29 abr. 2008.
108 Art. 6°, parágrafo único: Para os veículos que tiverem sua suspensão modificada, deve-se fazer constar no campo das observações do Certificado de Registro de Veículo - CRV e do Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo - CRLV a nova altura do veículo medida verticalmente do solo ao ponto do farol baixo (original) do veículo.
afastadas, que não possuem radares ou qualquer fiscalização de controle de velocidade. Entretanto, em alguns casos os rachas acontecem em rodovias de grande tráfego, com radares instalados em alguns trechos.
O radar, na explicação técnica de Rizzardo109:
apanha à distância a velocidade dos veículos que se encontram em determinado ponto bastante próximo de onde está o aparelho, através do emprego de ondas eletromagnéticas extra curtas, as quais, refletindo num obstáculo, acusam a presença do mesmo e a sua localização. Presentemente, os radares utilizados possuem sistema de “mira”, semelhante a uma pistola, fatores estes impossibilitadores de equívocos sobre a autoria e materialidade.
Para burlar a fiscalização, muitos rachadores preparam seus veículos com dispositivos anti-radar, prática coibida pelo CTB:
Art. 230 – Conduzir o veículo:
[...]
III – com dispositivo anti-radar
Secchi110 faz um importante esclarecimento:
Detector de radar e anti-radar são dois aparelhos diferentes. O anti-radar é ilegal. Através de ondas, com uma atividade semelhante a um sensor, capta a existência de um radar, confundindo-o através da emissão de sinais que se misturam aos emitidos pelo radar, fazendo que as medições fiquem imprecisas, e por isso, mesmo que o veículo passe a uma velocidade acima do limite, não será fotografado. Já o detector de radar apenas avisa sobre a existência de um radar, permitindo que o motorista reduza a velocidade a tempo.
Apesar de proibidos, os aparelhos anti-radar são facilmente encontrados para compra, sendo vendidos até mesmo pela Internet, por isso sua
109 RIZZARDO, Arnaldo. Comentários ao Código de Trânsito Brasileiro. 2007. p. 461.
110 SECCHI, Betina Zappelini. Publicação eletrônica. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <[email protected]> em 11 maio 2008.
grande popularidade entre os proprietários de veículos preparados para disputas ilegais.
2.5.5 Descarga livre ou silenciador avariado do motor
Para aumentar o ruído do motor, os motoristas retiram propositalmente o silenciador do escapamento do veículo. Isso passa a impressão de que o motor é mais potente do que realmente é, porém expele mais gases poluidores111. Em vista disso, tal conduta também foi tipificada no mesmo artigo:
Art. 230 – Conduzir o veículo:
[...]
XI – com descarga livre ou silenciador de motor de explosão defeituoso, deficiente ou inoperante
Para a compreensão dessa proibição, Rizzardo112 dá uma explicação técnica precisa da seguinte maneira:
O combustível é queimado, convertendo a energia que contém em força, a qual movimenta o mecanismo do motor, que, por sua vez, impulsiona o carro. Os gases queimados nos cilindros passam ao que se chama coletor de escapamento, e daí para uma peça chamada silenciador, que os expele para o ar livre, provocando a poluição ambiental. E justamente o encontro ou choque entre os gases e o ar provoca os estouros ou um barulho ensurdecedor. A função do silenciador é reduzir o ruído decorrente do choque: “o ruído produzido pelo choque dos gases com o ar exterior é reduzido pelo silenciador, que lhes tira a velocidade e força, gradualmente, desde a entrada até o ponto de saída para a atmosfera.
Por essa explicação é possível perceber que a falta do silenciador resulta no aumento dos ruídos desejado pelos rachadores, mas resulta em prejuízos mais graves para o meio ambiente, além de provocar poluição
111 RACHAS E PEGAS. Lista de Discussão. Lista mantida por Tuning 4 Girls. Disponível em
<http://www.tuning4girls.com.br>. Acesso em 02 abr. 2008.
112 RIZZARDO, Arnaldo. Comentários ao Código de Trânsito Brasileiro. 2007. p. 465.
sonora, principalmente em horários noturnos, quando a maioria das corridas clandestinas acontece.
2.5.6 Embriaguez ao volante
Previsto atualmente no art. 306 do CTB, este delito estava inserido na Lei de Contravenções Penais, no art. 34, da mesma maneira que os rachas, como: “dirigir colocando em perigo a segurança alheia”. Com o novo CTB, foi elevado à crime:
art. 306 – Conduzir veículo automotor, na via pública, sob a influência de álcool ou substância de efeitos análogos, expondo a dano potencial a incolumidade de outrem:
Penas – detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
Sobre este assunto, é necessária uma definição clara sobre o que seria embriaguez. Rizzardo113 apresenta uma excelente e sucinta explicação:
A embriaguez corresponde a um estado temporário de intoxicação da pessoa, provocada pelo álcool ou substância análoga ou de semelhantes efeitos, que a priva do poder de autocontrole e reduz ou anula a capacidade de entendimento.
Prossegue ele, fazendo um importante esclarecimento sobre o artigo em questão:
Não se exige a embriaguez total. Basta a mera influência, ou a presença de alguma quantidade de álcool no sangue. [...]
Portanto, qualquer que seja a quantidade de álcool encontrado no organismo do agente pode permitir que ele cometa o delito previsto no art. 306. Mesmo estando abaixo do limite permitido pelo próprio CTB (6 decigramas de álcool por litro de sangue), é capaz de estar influenciado pela substância entorpecente, gerando perigo na direção do veículo.
113 RIZZARDO, Arnaldo. Comentários ao Código de Trânsito Brasileiro. 2007. p. 615.
E acrescenta: “pensa-se que se trata de crime de perigo abstrato, ou, mais apropriadamente, de crime de mera conduta”.
No mesmo sentido, Silva Júnior114 comenta sobre o assunto:
Não bastando, por exemplo, para o crime de embriaguez ao volante, simplesmente, a condução de veículo automotor na via pública, sob influência de álcool. É necessário que o motorista conduza o veículo de forma anormal, expondo a dano potencial a incolumidade de outrem.
Comentando sobre o consumo de bebidas alcoólicas e a direção de veículos de maneira geral, não restrita às disputas não autorizadas, Roesler115 afirma:
[...] as restrições à propaganda de bebidas são poucas e insuficientes, permitindo uma estranha associação entre álcool e atividades esportivas, automobilismo, lazer, mulheres bonitas, sensação de bem estar, etc. Esquece-se que a embriaguez é a principal causa de acidentes de trânsito, quase sempre fatais.
Na maioria das reportagens divulgadas nos meios de comunicação relativas às corridas ilegais, nota-se que os participantes quase sempre estão embriagados nos casos de acidentes.
Encerradas as considerações sobre os crimes de corridas, disputas e competições automobilísticas não autorizadas em via pública, no próximo e derradeiro capítulo, como forma de finalizar a presente pesquisa, será enfocada a questão do elemento subjetivo do referido crime.
114 SILVA JÚNIOR, Edison Miguel da. Crimes de Perigo no Código de Trânsito Brasileiro. Bol.
do IBCCrim, n. 76, mar. 1999. p. 7.
115 ROESLER, Átila Da Rold. Novas (e velhas) polêmicas sobre os crimes de trânsito. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 250, 14 mar. 2004. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4949>. Acesso em: 15 jan. 2008.