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Culpa consciente e inconsciente

No documento VIA PÚBLICA (páginas 66-79)

3.2 DO ELEMENTO SUBJETIVO DO CRIME

3.2.2 C ULPA

3.2.2.1 Culpa consciente e inconsciente

Também a culpa divide-se em dois tipos, culpa consciente (ou culpa com previsão) e culpa inconsciente, dependendo da previsão que o agente tinha do resultado. No entanto, lembra Paschoal137:

Na verdade, existem apenas duas formas de culpa, a imprudência e a negligência, podendo-se falar em imperícia quando qualquer daquelas formas for praticada por um profissional em seu âmbito de atuação.

E Mirabete138 traz as seguintes considerações sobre a culpa inconsciente e a consciente:

A culpa inconsciente existe quando o agente não prevê o resultado que é previsível. Não há no agente o conhecimento efetivo do perigo que sua conduta provoca para o bem jurídico alheio.

A culpa consciente ocorre quando o agente prevê o resultado, mas espera, sinceramente, que não ocorrerá. Há no agente a representação da possibilidade do resultado, mas ele a afasta por entender que o evitará, que sua habilidade impedirá o evento lesivo que está dentro de sua previsão.

Na seqüência, explica, citando a Exposição de Motivos do CP de 1940, que pela lei penal a culpa inconsciente e a culpa com previsão estão equiparadas: "tanto vale não ter consciência da anormalidade da própria conduta, quanto estar consciente dela, mas confiando, sinceramente, em que o resultado lesivo não sobrevirá".139

Um bom exemplo de culpa consciente é trazido por Paschoal140:

O motorista que desrespeita as normas de trânsito, excedendo, por exemplo, a velocidade permitida, via de regra não quer

137 PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal – parte geral. Barueri, SP: Manole, 2003. p.

76. 138 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 2004. p. 150.

139 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 2004. p. 151.

140 PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal - parte geral. 2003. p. 77.

atropelar alguém, também não acha que, se atropelar, estará tudo bem. Na verdade, ao guiar em velocidade excessiva, o motorista imprudente acredita em suas habilidades, ele crê que não causará acidentes. Ao causar, responde pelo resultado, a título de culpa.

Este é o principal argumento trazido pelos defensores da culpa consciente nos homicídios e lesões corporais provocados pelos rachas: a intenção dos participantes é apenas vencer a disputa; não querem matar ninguém, tampouco aceitam esse resultado caso ocorra.

3.2.3 Dolo eventual e culpa consciente nos crimes de corridas, disputas ou competições automobilísticas não autorizadas

Em um crime de disputa automobilística ilegal, o participante pode agir de duas maneiras: com dolo direto ou eventual ou com culpa consciente ou inconsciente.

A linha que diferencia o dolo eventual e a culpa consciente é muito tênue, e a diferenciação entre os dois é bastante subjetiva. Mas a doutrina tem feito a separação da seguinte forma, conforme o ensinamento de Holanda141:

Se o agente visualiza o resultado lesivo e sinceramente acredita que não irá ocorrer, estará incidindo em culpa consciente. Ao contrário, se antevê o resultado e prossegue na conduta, pouco lhe importando as conseqüências danosas daí advindas, haverá dolo eventual.

Como pode ser constatado pela explicação acima, é muito difícil distinguir um do outro. A diferenciação depende principalmente de saber o que o agente estava pensando na hora da conduta, e por ser uma avaliação muito subjetiva, muitas vezes não é possível saber qual era a vontade do agente.

Quanto a isso, Speretta142 comenta:

141 HOLANDA, Cornélio José. O dolo eventual nos crimes de trânsito. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 326, 29 maio 2004. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5263>.

Acesso em: 18 out. 2007

142 SPERETTA, Mário Sérgio. Crimes de trânsito: a embriaguez e os rachas. 19 set. 2007.

Disponível em: <http://www.speretta.adv.br/pagina_indice.asp?iditem=26>. Acesso em 20 fev.

2008.

Alguns a identificam com o dolo eventual. Outros a distinguem da seguinte forma: na culpa consciente o agente prevê o resultado mas espera que ele não aconteça; no dolo eventual o agente aceitou o risco de produzir o resultado. No primeiro caso a certeza do resultado faria o agente recuar, ao passo que no segundo ele continuaria agindo.

Consciente disso, a doutrina acabou criando duas teorias para tentar uma diferenciação entre os dois institutos: a teoria da probabilidade e a teoria do consentimento.

A teoria do consentimento procura, como o próprio nome diz, identificar se o sujeito consentia (concordava) com o resultado. Já a teoria da probabilidade verifica o grau de probabilidade de ocorrência do evento danoso.

Holanda resume da seguinte maneira: "se o resultado é previsto apenas como possível, há culpa consciente; ao contrário, se é representado mentalmente como provável, estaremos no campo do dolo eventual"143.

A lei penal brasileira adota a teoria do consentimento, como pode ser observado no art. 18, I, 2ª parte, CP, que diz que o agente "assumiu o risco de produzi-lo", reconhecendo a teoria finalista da ação.

Sobre a proximidade da culpa consciente com o dolo eventual, Mirabete faz uma distinção144:

A culpa consciente avizinha-se do dolo eventual, mas com ela não se confunde. Naquela, o agente, embora prevendo o resultado, não o aceita como possível. Neste, o agente prevê o resultado, não se importando que venha ele a ocorrer.

Sobre o mesmo assunto, Costa Júnior é da seguinte opinião145:

O dolo eventual aproxima-se da culpa consciente. Em ambos, há a previsão do resultado antijurídico. Só que enquanto no dolo

143 HOLANDA, Cornélio José. O dolo eventual nos crimes de trânsito. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 326, 29 maio 2004. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5263>.

Acesso em: 18 out. 2007.

144 MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 2004. p. 150.

145 COSTA JÚNIOR, Paulo José. Comentários ao Código Penal. 2002. p. 75.

eventual o agente empresta anuência à realização do resultado, preferindo prosseguir na ação, embora arriscando-se a produzi-lo, na culpa consciente o agente não aceita a realização do evento.

Repele mentalmente o resultado previsto, agindo na esperança ou persuasão de que o evento não irá verificar-se.

Logoz apud Hungria criou a famosa fórmula de diferenciação entre dolo eventual e culpa consciente: "por que, em um e outro caso, a previsão das conseqüências possíveis não impediu o culpado de agir?"146. Da mesma forma, Costa Júnior147 comenta que para o penalista alemão Frank "haverá dolo eventual (e não culpa consciente) quando se possa provar que o agente teria igualmente operado mesmo que tivesse previsto o evento como conseqüência certa de sua conduta".

Pode-se citar também a fórmula simples de Costa Júnior148 para identificar a culpa consciente:

O agente haverá de emitir um juízo afirmativo: o evento poderá verificar-se. Se o juízo assertório do autor, ao prever o evento, confia na sua habilidade ou na boa fortuna para que ele não se verifique, estaremos no campo da culpa consciente.

No caso específico das corridas, disputas e competições automobilísticas não autorizadas, Rizzardo acredita tratar-se de dolo, conforme seu comentário sobre a questão149:

Na ocorrência de acidentes com lesões corporais ou mortes, as tipicidades não são as dos arts. 302 e 303 do CTB, eis que evidente o dolo, no mínimo eventual, na actio que conduziu ao resultado. Por conseguinte, se houver morte, configura-se o homicídio; decorrendo lesões corporais estas terão as cominações estabelecidas no CP, fixadas de acordo com a sua gravidade.

146 HUNGRIA, Nélson; FRAGOSO, Heleno Cláudio. Comentários ao código penal. 5 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1978. v.1 t. II.

147 COSTA JÚNIOR, Paulo José. Comentários ao Código Penal. 2002. p. 74.

148 COSTA JÚNIOR, Paulo José. Comentários ao Código Penal. 2002. p. 75.

149 RIZZARDO, Arnaldo. Comentários ao Código de Trânsito Brasileiro. 6. ed. São Paulo:

Revista dos Tribunais, 2007. p. 398.

De maneira distinta, Paschoal150 acredita que as disputas clandestinas com vítimas tratam-se de culpa consciente:

Cada vez mais, em situações de prática de crimes culposos, tem- se acusado pessoas da prática de crimes dolosos, sob o fundamento de que se trataria de dolo eventual. Muitas vezes, esse tipo de imputação acaba tendo lugar em fases em que se repetem determinadas ocorrências, como as mortes acarretadas por corridas, conhecidas como "rachas".

Na seqüência, justifica da seguinte maneira a posição adotada 151:

Parte-se do pressuposto de que a grande previsibilidade do resultado (ferimento ou morte) em uma corrida de racha faz crer que o motorista assumiu o risco de produzir o resultado, não se importando com essa possibilidade, o que, na verdade, é uma presunção. Já que, por mais reprovável que seja, o jovem que se envolve nesse tipo de atividade busca apenas se divertir, acreditando que nada acontecerá. Situação típica dos crimes culposos [...].

Acompanhando essa opinião, Shecaira apud Honorato152 entende que:

Ocorrendo morte ou lesão corporal em razão da realização do

“racha”, somente se poderia falar em dolo eventual quando existisse uma ligação direta entre o autor do fato e a vítima, aplicando-se, nesse caso, o art. 121 do Código Penal. Caso contrário, o tipo penal apropriado seria o previsto no artigo 302 da Lei n° 9.503/97, havendo, ainda, a absorção do “racha” pelo homicídio.

Ferracini153 apresenta seu entendimento sobre o problema explicando também a vontade dos agentes, comentando que, quando dois sujeitos vão disputar um racha, sua vontade é apenas saber quem será o

150 PASCHOAL, Janaína Conceição. Direito Penal - parte geral. Barueri, SP: Manole, 2003. p. 75.

151 FERRACINI, Luiz Alberto. Vontade e finalidade em matéria penal. 2000. p. 76.

152 HONORATO, Cássio Mattos. Trânsito: infrações e crimes. Campinas: Millennium, 2000. p.

456.

153 FERRACINI, Luiz Alberto. Vontade e finalidade em matéria penal. 2000. p. 55.

vencedor da disputa, sem consentir ou aceitar que ocorra algum evento danoso dessa ação:

A e B vão disputar um “racha” no perímetro urbano. [...] A e B em suas consciências, e é sabido que tal vontade é finalista, uma vez que o dolo é consciência e vontade de se praticar um fato considerado delituoso, segundo a doutrina clássica, cogitam:

“nossa vontade é saber qual de nós irá ser o vencedor nessa disputa”.

Por outro lado, segundo o autor, haveria dolo eventual se ao invés disso o pensamento deles fosse o seguinte154:

"Vamos disputar um racha, mas, aconteça algum dano ou mal pior, grave ou de qualquer caso para outrem, agiremos, que se dane o mundo!"

Ao comparar as opiniões, vê-se que o principal argumento utilizados pelos doutrinadores que defendem a corrente da culpa consciente é de que os motoristas que “tiram rachas” não querem ferir ou matar ninguém, e também não é o caso de não se importarem se isso ocorrer. Eles acreditam, na verdade, que possuem habilidade suficiente para participar da corrida sem perder o controle do veículo, e sem causar qualquer acidente.

Em oposição a esta corrente, Capez e Gonçalves155 escrevem:

Dependendo do caso concreto (modo como se desenrolou a disputa) é até possível o reconhecimento de homicídio doloso, pois não é demasiado entender que pessoas que se dispõem a tomar parte em disputas imprimindo velocidade extremamente acima do limite e ainda em locais públicos assumem o risco de causar a morte de alguém.

E Honorato156 segue a mesma linha:

154 FERRACINI, Luiz Alberto. Vontade e finalidade em matéria penal. 2000. p. 55.

155 CAPEZ, Fernando; GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Aspectos criminais do Código de Trânsito Brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 54.

Seguindo a jurisprudência dominante, e considerando que o Código de Trânsito não criou um tipo penal preterdoloso ou agravado pelo resultado, entendo que se deve considerar como homicídio doloso, nos termos do art. 121 do Código Penal, por haver dolo eventual.

Seguindo a mesma linha das argumentações anteriores, Speretta157 conclui:

[...] nada mais justo do que em casos de embriaguez ao volante e participação em rachas a jurisprudência se forme no sentido de mandar o motorista a júri popular, respondendo por crime doloso.

Isto porque o dolo nada mais é do que a intenção de cometer um fato contrário à lei com conhecimento de sua ilicitude. Na palavra intenção inclui-se a representação (previsão antecipada do resultado) e a vontade (querer o resultado) porque antecipadamente ele sabe dos riscos.

Apresentado e analisado o elemento subjetivo do crime de corrida, disputa ou competição automobilística não autorizada, bem como feito um comparativo entre as correntes existentes na doutrina, passa-se às considerações finais.

156 HONORATO, Cássio Mattos. Trânsito: infrações e crimes. Campinas: Millennium, 2000. p.

455.

157 SPERETTA, Mário Sérgio. Crimes de trânsito: a embriaguez e os rachas. Speretta Advogados Associados. 19 set. 2007. Disponível em:

<http://www.speretta.adv.br/pagina_indice.asp?iditem=26>. Acesso em 20 fev. 2008.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como objetivo investigar, à luz da legislação e da doutrina, o crime de corridas, disputas e competições automobilísticas não autorizadas em via pública no ordenamento jurídico brasileiro.

A escolha do tema ocorreu em face a constatação da alta periculosidade desse crime e a importância da diferenciação entre dolo e culpa na conduta dos participantes em casos de homicídio e lesão corporal.

Para uma melhor compreensão do tema abordado o trabalho foi dividido em três capítulos.

O primeiro discorreu acerca dos crimes de perigo no Código de Trânsito Brasileiro e o concurso de pessoas na corrida, disputa e competição automobilística não autorizada em via pública, que é de concurso necessário de agentes.

O segundo abordou o próprio crime de corrida, disputa e competição automobilística não autorizada em via pública e os delitos e infrações mais freqüentemente cometidos juntamente com ele.

No terceiro e último capítulo, a abordagem concentrou-se no elemento subjetivo do crime de corrida, disputa e competição automobilística não autorizada, e seu enquadramento em dolo eventual ou culpa consciente em casos de acidente com vítimas.

Por fim, retomam-se as hipóteses levantadas na introdução:

Primeira hipótese: o elemento subjetivo é levado em consideração na aferição do crime de corrida, disputa ou competição automobilística não autorizada em via pública.

Análise da primeira hipótese: a hipótese foi confirmada pelo resultado da pesquisa.

Segunda hipótese: para a doutrina o crime de corrida, disputa ou competição automobilística não autorizada em via pública expõe a perigo o bem jurídico.

Análise da segunda hipótese: a hipótese foi confirmada pelo resultado da pesquisa.

Terceira hipótese: havendo lesão corporal de natureza grave ou morte, o crime de corrida, disputa ou competição automobilística não autorizada em via pública é absorvido.

Análise da terceira hipótese: a hipótese foi parcialmente confirmada pelo resultado da pesquisa.

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