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D EFORMAÇÕES DO C ONCRETO

No documento Fundamentos do concreto protendido (páginas 60-65)

2. MATERIAIS

2.1 C ONCRETO

2.1.8 D EFORMAÇÕES DO C ONCRETO

As deformações que ocorrem no concreto, principalmente as causadas pela retração e pela fluência, são particularmente importantes no estudo e no projeto das peças em Concreto Protendido.

A retração configura-se em uma diminuição do volume de concreto, sendo causada principalmente pela perda de água por evaporação durante o endurecimento do concreto. A fluência42 é a deformação no concreto ao longo do tempo causada por tensões de compressão mantidas constantes ao longo do tempo. A retração e a fluência aumentam a deformação axial e a curvatura de seções transversais de peças em Concreto Armado e Protendido, redistribuição de tensões locais entre o concreto e a armadura, e aumentos significativos nos deslocamentos verticais (flechas) e nas perdas de força de protensão.[1]43

A Figura 2.8 mostra as deformações que ocorrem no concreto de um corpo de prova submetido a tensões de compressão e temperatura mantidas constantes ao longo do tempo. A deformação por retração (cs) inicia-se após o lançamento do concreto ou após a cura úmida, no tempo td da Figura 2.8, e continua a aumentar ao longo do tempo em uma taxa decrescente. Quando a tensão de compressão co é aplicada no instante to ocorre um salto no diagrama, correspondente à chamada deformação imediata (instantânea - ci), sendo seguida pelo aumento gradual da deformação por fluência (cc), e assim como a retração, com uma taxa decrescente ao longo do tempo. Portanto, se a tensão é mantida constante, o concreto apresenta deformações dependentes do tempo adicionais àquelas por retração e imediata, que podem superar em várias vezes a imediata. Ocorre também a deformação causada pela temperatura (cT), não tratata neste item. As deformações podem ser consideradas independentes e determinadas separadamente, o que não é correto, mas é aceitável, e combinadas para a obtenção da deformação total.[1] Com a temperatura sendo considerada constante, a deformação total do concreto (c(t)), não fissurado e carregado axialmente, em um tempo qualquer t é:

42Informações adicionais sobre fluência e retração estão apresentadas nos itens 2.1.8.2 e 2.1.8.3, respectivamente, e no item 5.5.3 estão apresentados processos para cálculo das perdas de protensão por retração e fluência.

43 O texto deste item está apresentado conforme a Ref. [1].

UNESP (Bauru/SP) Fundamentos do Concreto Protendido 53

c(t) = cs(t) + ci(t) + cc(t) Eq. 2.22

A previsão do comportamento de peças de concreto quanto às deformações dependentes do tempo depende da história de como as tensões são aplicadas, bem como das propriedades dos materiais, e por meio de métodos mais ou menos precisos as deformações podem ser determinadas. Os apoios e as armaduras existentes na peça restringem a fluência e a retração, e assim modificam a história das tensões aplicadas.

Figura 2.8 – Deformações no concreto em função do tempo quando submetido a tensões constantes ao longo do tempo.[1]

Se as tensões iniciais são removidas após um período curto de tempo, a deformação elástica imediata é recuperada rapidamente, como mostrado na Figura 2.9. No caso da deformação por fluência, se o carregamento é removido após um período de tempo, uma parte é gradualmente recuperada, e outra parte não é recuperável (Figura 2.9).[3] A fluência praticamente cessa após alguns anos, sendo assim expressa pela fluência no infinito (cc,), tomada ao longo do tempo de 30 anos, ou no tempo da vida útil da peça.

Tensão Deformação total

td

cc (t) - fluência

0

co

Tempo (t)

to t

to 0

ci (t) - imediata

Tempo (t)

cs (t) - retração

Cap. 2 - Materiais 54

Figura 2.9 – Variação esquemática da retração e fluência do concreto ao longo do tempo.[3]

2.1.8.1 Deformação Imediata

A deformação imediata do concreto depende da intensidade da tensão de compressão aplicada, da taxa de aplicação, da idade do concreto e da relação tensão x deformação imediata do concreto.

Nas estruturas de concreto, as tensões de compressão causadas pelos carregamentos atuantes nas peças em serviço, geralmente não excedem a metade da resistência do concreto à compressão (0,5fc), de forma que o comportamento elástico linear para o concreto pode ser assumido durante a ocorrência da deformação imediata, dada por:

c c

ci E

) t ) ( t (  

 Eq. 2.23

No caso de tensões c de tração, embora a deformação imediata ocorrida antes de iniciada a fissura apresente comportamentos elásticos e inelásticos, em projetos comuns o comportamento do concreto pode ser considerado como elástico e frágil, e para tensões de tração menores do que a resistência do concreto, a relação entre a deformação imediata e a tensão de tração pode ser assumida linear. É usual assumir o módulo de elasticidade do concreto à tração igual ao módulo para compressão, e a pré-fissuração à deformação imediata à tração pode ser também determinada com a Eq. 2.23.

2.1.8.2 Fluência

Como comentado no item anterior, a retração é uma deformação natural do concreto, que ocorre mesmo na ausência de carregamento externo. A fluência, por outro lado, é uma deformação que

vida útil

expansão deformação

não recuperável

fluência recuperada

expansão

deformação elástica imediata ci

DeformãoDeformão

Tempo (t)

sob água carregamento constante

armazenamento em U = 50 %

carregamento removido

recuperação elástica

retração

cs (t)

cs,máx Tempo (t) fluência

cc (t)

UNESP (Bauru/SP) Fundamentos do Concreto Protendido 55 ocorre somente com a existência de carregamento externo, aquele que causa tensão de compressão sobre o concreto. A fluência depende de vários fatores além do tempo: umidade relativa do ar, traço, tipos dos agregados, dimensões e forma da peça, idade do concreto na aplicação da carga, etc., e da mesma forma que a retração, a fluência pode ser reduzida com armadura complementar.

Define-se fluência como o aumento da deformação de encurtamento no concreto ao longo do tempo quando submetido à tensão de compressão permanente e constante. É muito importante no estudo de flechas e no projeto de peças protendidas, pois a protensão aplica tensões de compressão no concreto, que causam fluência e assim uma redução do alongamento da armadura de protensão, e, consequentemente há uma perda de força de protensão.

A Figura 2.10 mostra que após ocorrida a deformação por fluência, uma parcela da deformação é recuperável, mas uma parcela é irrecuperável, ou irreversível.

Figura 2.10 – Fluência recuperável e não recuperável.[1]

Na medida da deformação por fluência no concreto é usual a aplicação do coeficiente de fluência

(t;to),44 e em um corpo de prova de concreto sob tensão de compressão (co) constante no tempo e inicialmente aplicada no tempo to , no tempo t o coeficiente de fluência é:

) t (

) t

; t ) (

t

; t (

o ci

o cc

o

 

 Eq. 2.24

e considerando a Eq. 2.23, a deformação por fluência no tempo t, causada pela tensão co aplicada inicialmente em to , é:

) t ( )E t

; t ( ) t ( ) t

; t ( ) t

; t (

o c

co o o

ci o o

cc

 

 Eq. 2.25

Ec (to) = módulo de elasticidade no tempo to .

O coeficiente de fluência  aumenta com o tempo de maneira decrescente e o valor final é

(t;to) = cc(t;to)/ci(to), e o tempo t = ∞ é muitas vezes tomado como 30 anos, com a faixa de

44A determinação do coeficiente de fluência conforme a NBR 6118 está apresentada no item 5.5.3.

Tempo (t) t1

fluência irrecuperável

cc,f (t;t

1)

t1 Tensão

Deformação por fluência

cc(t)

fluência recuperável

cc,d (t;t1)

co

Tempo (t) to

to

cc,f

cc,d

Cap. 2 - Materiais 56 valores variando usualmente entre 1,5 e 4,0.45 A deformação por fluência (cc) depende da idade do concreto no instante do primeiro carregamento, como mostrado na Figura 2.11, e do mesmo modo também o coeficiente de fluência , ou seja, a deformação e o coeficiente diminuem com o aumento da idade de aplicação do primeiro carregamento.[1]

Figura 2.11 – Efeito da idade do primeiro carregamento sobre o coeficiente de fluência ().[1]

Considerando a Eq. 2.23 e a Eq. 2.25, a soma da deformação imediata (ci) com a deformação por fluência (cc) causada pela tensão co mantida constante e aplicada inicialmente na idade to , é dada por:

 

) t

; t ( ) E

t

; t ( ) 1 t ( ) E t

; t ( ) t (

o ef , c

co o

o c

co o

cc ci

 

 

 Eq. 2.26

onde Ec,ef (t;to) é o módulo de elasticidade efetivo do concreto, dado por:

) t

; t ( 1

) t ( ) E

t

; t ( E

o o c o

ef ,

c   Eq. 2.27

Se a tensão co for aplicada gradualmente no concreto durante um período de tempo, a deformação por fluência é diminuída, porque o concreto envelhece durante esse tempo, e isso requer um ajuste no coeficiente de fluência (), de modo que para um incremento de tensão Δc(t) aplicado ao concreto gradualmente, iniciado no tempo to , a deformação dependente da carga pode ser determinada modificando a Eq. 2.26:

 

) t

; t ( E

) t ) (

t

; t ( ) t

; t ( ) 1 t ( E

) t ) (

t

; t ( ) t (

o ef , c

c o

o o

c c o

cc ci

 

 

 

 Eq. 2.28

onde o módulo de elasticidade efetivo do concreto ajustado com a idade é dado por:

) t

; t ( ) t

; t ( 1

) t ( ) E

t

; t ( E

o o

o c o

ef ,

c    Eq. 2.29

com (t;to) = coeficiente de envelhecimento, o qual depende da taxa de aplicação da tensão graduamente aplicada e da idade da primeira aplicação, sendo um valor que varia de 0,4 a 1,0. Para peças submetidas a cargas mantidas constantemente ao longo do tempo, onde a mudança de tensão no concreto é causada pela restrição que armaduras aderentes ao concreto impõem à retração e à fluência, o coeficiente de envelhecimento pode ser aproximado para (tk;to) = 0,65, quando o tempo

45O valor preconizado pela NBR 6118 para o coeficiente de fluência () está apresentado no item 5.5.3.

cc(t2)

t2 to t1

Deformação por fluência, cc(t;ti)

Tempo (t)

cc(to)

cc(t1)

UNESP (Bauru/SP) Fundamentos do Concreto Protendido 57 tk excede 100 dias, de modo que vale também para o tempo t = ∞. E em situações onde a deformação é mantida constante e a tensão no concreto é relaxada, o coeficiente de envelhecimento final pode ser tomado como (t;to) = 0,80.[1]

2.1.8.3 Retração

Sob ação dos carregamentos e de forças da natureza, o concreto apresenta deformações que aumentam ou diminuem o seu volume, que geralmente originam fissuras. Dependendo da abertura e do ambiente a que a peça está exposta, as fissuras podem ser prejudiciais à durabilidade e à estética.

As principais causas de deformações no concreto são a retração, a fluência e por variação de temperatura, adicionais àquelas causadas pelos esforços solicitantes.

Define-se retração como a diminuição de volume do concreto ao longo do tempo. É a deformação cs na Figura 2.9.46 As causas para a retração são de origens diferentes, sendo a principal a chamada retração hidráulica (ou retração por secagem), cuja origem é o fato de que os concretos, para apresentarem a trabalhabilidade requerida, têm uma quantidade de água maior que a necessária (a/c ≈ 0,26, ou seja, o concreto necessita de aproximadamente 26 litros de água para a hidratação de 100 kg de cimento). A água não utilizada na hidratação do cimento evapora ao longo do tempo, e causa diminuição de volume do concreto.47 É importante salientar que a retração ocorre mesmo na ausência de cargas sobre o concreto, ou seja, se caracteriza como um fenômeno natural do material.

Quando uma peça encurta por efeito da retração, a armadura de protensão também encurta, e ocorre então uma perda de força de protensão, de grande importância no projeto das peças protendidas.

A retração é afetada por vários fatores: relação a/c, umidade e temperatura do ambiente, traço, tipo dos agregados e do cimento, dimensões e forma da peça, etc. Os efeitos da retração podem ser diminuídos executando uma cura cuidadosa, durante pelo menos os primeiros sete dias após a concretagem da peça.48 Uma armadura complementar, chamada armadura de pele, também contribui para diminuir os efeitos da retração.

Nas estruturas comuns e de pequenas espessuras, o fenômeno da retração é considerado praticamente concluído no período de dois a quatro anos. Para a cura úmida, cerca de 50 % da retração total ocorre no primeiro mês, e aproximadamente 90 % no primeiro ano.[3]

A deformação por retração máxima (ou última) assume valores médios de 8x10-4 para cura úmida e 7,3x10-4 para cura térmica a vapor, com umidade relativa de 40 % (U). Naaman[3] sugere nesses tipos de cura respectivamente os valores de 6x10-4 e 4x10-4 para os concretos comumente aplicados nas peças protendidas.

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