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Da importância do estudo de caso

No documento universidade federal de minas gerais (páginas 73-76)

CAPÍTULO 4 METODOLOGIA

4.2 Da importância do estudo de caso

Estudos de caso têm se mostrado uma fonte sempre presente de produção de pesquisas de qualidade nas ciências sociais, em especial na ciência política. Contudo, a forma de sua utilização e as inferências que podem ser derivadas de seus resultados constantemente envolvem os metodólogos em debates. Os estudos mais seminais e que produziram as correntes de pensamento mais relevantes neste campo podem ser dispostos, para fins de simplificação, em dois polos que têm buscado harmonização: 1) a clássica frequentista, que revolucionou a forma como os cientistas políticos pensavam a construção de seus métodos e a produção de inferências, conferindo um conjunto de ferramentas quantitativas e um panorama de análise proveniente de modelos econométricos, que poderia melhorar consideravelmente a qualidade dos trabalhos qualitativos; 2) a qualitativa revisada, que buscou sistematizar e divulgar as ferramentas específicas dos pesquisadores qualitativos, ponderando pelas considerações da primeira corrente, e oferecendo-as como poderosos acessórios também à disposição dos pesquisadores quantitativos.

67 Do ponto de vista técnico, um painel ainda é perfeitamente exequível mesmo quando os dados estão dispostos de maneira desbalanceada ao longo do período temporal sob análise. Isso requer um artifício para extração de um painel balanceado de uma distribuição temporal desbalanceada que desemboca em uma perda enorme de eficiência (BALTAGI, 2005). Assim, considerando que nas eleições analisadas, somente 13, dos 54 candidatos eleitos em 2002 conseguiram chegar ao pleito de 2014 (dos quais, 2 inclusive nem disputaram os pleitos em 2006 e 2010 – Patrus Ananias de Sousa e Odair Leão Carneiro Sobrinho), o trabalho com os resilientes também produziu um painel muito mais eficiente.

O principal expoente da primeira corrente, sem dúvida, é King, Keohane e Verba (1994), doravante KKV. Para os autores, o conjunto de possibilidades oferecidas pelas análises de regressão e estatística proveriam um cabedal inferencial importantíssimo para as pesquisas qualitativas. O foco principal da obra está em estruturar a importância do desenho de pesquisa e do rigor analítico na produção científica em ciências sociais, destacando quatro características básicas contidas nesses desenhos: 1) o objetivo é a inferência, significando que a acumulação de dados se mostra insuficiente, se não realizada com o objetivo de inferir algo além do observado; 2) os procedimentos são públicos, ou seja, é essencial a disponibilização das informações e dados levantados para replicação e posterior verificação de validade; 3) As conclusões são incertas, uma vez que os dados representam apenas uma simplificação do mundo real e chegar à conclusões precisas é, portanto, impossível; 4) O conteúdo da ciência é o método, já que a pesquisa científica precisa acatar uma diversidade de regras de inferência e métodos e isso pode ser aplicada para a infinidade de objetos de estudos possíveis (KING;

KEOHANE; VERBA, 1994, pp. 4-7).

Quando KKV se detêm especificamente sobre o processo de produção de inferências, as repartem entre inferências descritivas e inferências causais. Retratam a importância da inferência descritiva na construção de boas teorias como subsídio essencial na conformação de estudos quantitativos. O estudo de caso é relatado como a principal fonte de inferência descritiva e deve ser usando com ponderação para produção de inferências causais68. Isso se deve, em larga medida e como já explicitado, pelo panorama explicativo com foco na análise experimental e estatística, implicando essa espécie de estudos em dois problemas importantes que afetariam severamente seu status cientifico para produção de inferências causais: a indeterminação como desenho de pesquisa e o viés de seleção (REZENDE, 2011, p. 306).

O contraponto a essa corrente não demorou a surgir. Brady, Collier e Seawright (2010) sugerem que KKV não se debruçam o suficiente sobre a diferenciação entre a pesquisa quantitativa e qualitativa, levando a uma interpretação restritiva que não reconhece a contribuição das ferramentas qualitativas no desenho de pesquisa em ciência política.

Especialmente ao focarem em excesso na importância do aumento no número de observações, não permitindo vislumbrar os diferentes tipos de observação e as diferentes formas com que os dados são dispostos e utilizados nesses dois tipos de estudos. Com efeito, a busca pelo aumento no número de observações pode levar o pesquisador que possui aspirações

68 Mesmo assim admitem que em princípio não haveria problema na utilização deste tipo de desenho de pesquisa para a produção de inferências causais.

qualitativas a atingir níveis desnecessariamente elevados de generalização e perda de especificidade contextual69 (BRADY; COLLIER; SEAWRIGHT, 2010).

Nessa dissertação será utilizada a delimitação teórica de estudo de caso como sendo a descrita adiante:

“A case connotes a spatially delimited phenomenon (a unit) observed at a single point in time or over some period of time. […] [It] may be created out of any phenomenon so long as it has identifiable boundaries and comprises the primary object of an inference. A case study may be understood as the intensive study of a single case for the purpose of understanding a larger class of cases (a population). […] Case study research may incorporate several cases. However, at a certain point it will no longer be possible to investigate those cases intensively. At the point where the emphasis of a study shifts from the individual case to a sample of cases we shall say that a study is cross-case.” (GERRING, 2008, p. 94-95).

Os estudos de caso, inclusive, se diferenciam de estudos cross-case, especialmente porque operam em níveis distintos de análise. O primeiro abarca uma variação dentro do próprio caso e o segundo uma variação entre os casos analisados. Isso, obviamente, não exclui uma possível variação entre casos, no estudo de caso, ou uma variação dentro do mesmo caso, nos estudos cross-case, porém essas se tornam secundárias. De toda forma, as duas abordagens pretendem realizar uma explanação a partir de uma determinada quantidade de casos (GERRING, 2008, p. 96-97).

Proceder com um desenho de pesquisa com estudo de caso tem trade-offs significativos que devem ser levados em conta por qualquer pesquisador que tenha um objeto de pesquisa que permita a possibilidade de escolha. Os principais custos de abrir mão de uma pesquisa cross-case com um N amplo incluem, não restritivamente, uma abdicação das poderosas ferramentas de validade de mensuração trazidas por estudos de N amplo, assim como a óbvia perda de generalização que advém de estudos com um elevado número de casos (COLLIER; BRADY; SEAWRIGHT, 2010, p. 22). Gerring (2008) também cita os comprometimentos da escolha entre ambos em duas dimensões de implicações: 1) Para os objetivos da pesquisa, a depender da orientação em relação à hipótese, à validação, aos insights causais e ao escopo da proposição; 2) Para os fatores empíricos, contingente a população de casos, força causal, variação útil e disponibilidade de dados70.

69 Contudo, os autores afirmam não estarem tentando incitar um descolamento epistemológico entre essas duas frentes, mas antes deixar delimitadas as diferenças entre estudos qualitativos e quantitativos e a qualidade inferencial que pode ser derivada de cada um deles (BRADY; COLLIER; SEAWRIGHT, 2010, p. 19).

70The case study research design exhibits characteristic strengths and weaknesses relative to its large-N cross-case cousin. These tradeoffs derive, first of all, from basic research goals such as (1) whether the study is

De toda sorte, o mais importante de notar é que o estudo de caso tem como função precípua a observação intensiva de um único ou um pequeno grupo de casos para análise de possíveis implicações para um grupo maior de casos. O que o diferencia de um estudo cross- case é o nível de análise em que opera, ou seja, no seu modo singular de definir as observações (GERRING, 2008). Contanto que sejam sobrepesados os custos e benefícios da substituição de um desenho de pesquisa ou outro, ambos podem produzir inferências úteis ao objeto de pesquisa analisado.

No documento universidade federal de minas gerais (páginas 73-76)