CAPÍTULO 3..................................................................................... 34
3.4 DA REPARAÇÃO DE DANOS
Primeiramente, em se tratando de matéria de responsabilidade civil, o poder familiar acarreta ônus aos pais, então, neste sentido, o artigo 932 do atual Código Civil reza que, são responsáveis pela reparação civil os pais pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia.125
122 RODRIGUES, Silvio. Direito de Família, p. 413 e 414.
123 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito de Família, p. 368.
124 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito de Família. p. 369.
125 GONÇALVES, Carlos Alberto. Responsabilidade Civil. 9. Ed. Ver. De acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2005. p.134
42
Por outro lado, com relação ao cumprimento ou não dos deveres paternos, algumas decisões recentes emanadas do Tribunais de Justiça dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm acolhido a pretensão de filhos que se dizem abandonados ou rejeitados pelos pais, sofrendo transtornos psíquicos em razão da falta de carinho e de afeto na infância e na juventude.
Na visão dos referidos Tribunais de Justiça, não basta pagar a pensão alimentícia e fornecer os meios de subsistência aos filhos.
Estes fazem queixa do descaso, da indiferença e da rejeição dos pais, tendo alguns, obtido o reconhecimento judicial do direito à indenização como compensação pelos danos morais, ao fundamento de que a educação abrange não somente a escolaridade, mas também a convivência familiar, o afeto, o amor, o carinho, devendo o descaso entre pais e filhos ser punido severamente por constituir abandono grave.
A questão é polêmica, dividindo opiniões. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, de maneira oposta, proclamou que:
Não há amparo legal, por mais criativo que possa ser o julgador, que assegure ao filho indenização por falta de afeto e carinho.
Muito menos já passados mais de quarenta anos de ausência e descaso. Por óbvio, ninguém está obrigado a conceder amor ou afeto a outrem, mesmo que seja filho. Da mesma forma, ninguém está obrigado a odiar seu semelhante. Não há norma jurídica cogente que ampare entendimento diverso, situando-se a questão no campo exclusivo da moral, sendo certo, outrossim, que, sobre o tema, o direito positivo impõe ao pai o dever de assistência material, na forma de pensionamento e outras necessidades palpáveis, observadas na lei (Ap.2004.001.13664, 4ª Câm., Rel.
Des. Mário dos Santos Paulo, DJE, 4 nov.2004).
A questão é delicada, devendo os juízes ser cautelosos na análise de cada caso, para evitar que o Poder Judiciário seja usado, por mágoa ou outro sentimento menos nobre, como instrumento de vingança contra os pais ausentes ou negligentes no tratamento com os filhos. Somente casos especiais, em que fique cabalmente demonstrada a influência negativa do descaso dos pais na formação e no desenvolvimento dos filhos, com rejeição pública e humilhante, justifica o pedido de indenização por danos morais. Simples desamor e falta de afeto não bastam.126
Não se pode olvidar que, por muitos casos, a separação dos pais se dá de forma traumática, dificultando o relacionamento com os filhos, do cônjuge que não ficou com a guarda. É bastante comum a mãe, sofrida e desencantada com a ruptura da sociedade conjugal, criar obstáculos ao relacionamento do pai com a prole comum.
Todas essas circunstâncias devem ser levadas em consideração no julgamento de casos dessa natureza, especialmente para não transformar as relações familiares em jogo de interesses econômicos. 127
De acordo com um julgado retirado da internet, em 22 de abril foi debatido no STJ se o papel dos pais se limita ao dever de sustento, bastando prover materialmente o filho, ou se a subsistência emocional também é uma obrigação legal dos pais. A ação trata da ausência de afeto dos pais para com os filhos, podendo ser motivo de reparação por dano moral.
126 GONÇALVES, Carlos Alberto. Responsabilidade Civil. p.647.
127 GONÇALVES, Carlos Alberto. Responsabilidade Civil. p. 649 e 650.
44
Tal discussão se deu pela 4ª Turma do STJ, na qual, em um recurso especial, foi discutido a possibilidade de pagamento de indenização por dano moral ao filho em razão de abandono paterno.
O direito à indenização foi estabelecido em segunda instância, conforme voto do juiz relator Unias Silva, da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais, reconhecendo o dano moral e psíquico causado ao filho pelo abandono do pai. Em primeiro grau, o pedido havia sido considerado improcedente, tendo o juiz da Vara Cível entendido não haver a comprovação do dano ao filho, hoje maior de idade, após em segunda instancia o pedido foi procedente.
A apelação do filho foi atendida com base no artigo 227 da Constituição Federal. O acórdão do TA-MG ressalta que "a responsabilidade (pelo filho) não se pauta tão-somente no dever de alimentar, mas se insere no dever de possibilitar desenvolvimento humano dos filhos, baseado no princípio da dignidade da pessoa humana". A indenização foi fixada em 200 salários- mínimos.
Há também que se destacar um artigo encontrado no Espaço Vital128, segundo o qual foi negado provimento, dizendo que não cabe indenização por dano moral alusivo à abandono afetivo. A conclusão, por quatro votos a um, é da 4ª Turma do STJ, que deu provimento a recurso especial de um pai de Belo Horizonte para modificar a decisão do Tribunal de Alçada de Minas Gerais que havia reconhecido a responsabilidade civil no caso e condenado o pai a ressarcir financeiramente o filho num valor de 200 salários mínimos.
128 ESPAÇO VITAL: disponível em: http: www.jus.com.br
Na ação de indenização por abandono afetivo proposta contra o pai, o filho afirmou que, apesar de sempre receber pensão alimentícia (20% dos rendimentos líquidos do pai), tentou várias vezes uma aproximação com o pai, pretendendo apenas amor e reconhecimento como filho. Segundo a ação, ele recebeu apenas "abandono, rejeição e frieza", inclusive em datas importantes, como aniversários, formatura no ensino médio e por ocasião da aprovação no vestibular.
Em primeira instância, a ação do filho contra o pai foi julgada improcedente, tendo o juiz considerado que não houve comprovação dos danos supostamente causados ao filho, hoje maior de idade.
Após examinar a apelação, a 7ª Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais, no entanto, reconheceu o direito à indenização por dano moral e psíquico causado pelo abandono do pai. "A responsabilidade (pelo filho) não se pauta tão-somente no dever de alimentar, mas se insere no dever de possibilitar desenvolvimento humano dos filhos, baseado no princípio da dignidade da pessoa humana". A reparação foi fixada em 200 salários mínimos (hoje, R$ 60.000,00), mais juros de mora.
No recurso para o STJ, o advogado do pai afirmou que a indenização tem caráter abusivo, sendo também uma tentativa de
"monetarização do amor". Alegou que a ação de indenização é fruto de inconformismo da mãe, ao tomar conhecimento de uma ação revisional de alimentos, na qual o pai pretendia reduzir o valor.
A defesa afirmou que, a despeito da maioridade do filho, o pai continua a pagar pensão até hoje. Em seu parecer, o Ministério Público opinou pelo provimento do recurso do pai. "Não cabe ao Judiciário condenar
46
alguém ao pagamento de indenização por desamor", afirmou a promoção ministerial.
Por maioria, a 4ª Turma deu provimento ao recurso do pai, considerando que a lei apenas prevê, como punição, a perda do poder familiar, antigo pátrio poder. "A determinação da perda do poder familiar, a mais grave pena civil a ser imputada a um pai, já se encarrega da função punitiva e, principalmente, dissuasória, mostrando eficientemente aos indivíduos que o Direito e a sociedade não se compadecem com a conduta do abandono, com o que cai por terra a justificativa mais pungente dos que defendem a indenização por dano moral", observou o Ministro Fernando Gonçalves, ao votar.
Ao ser provido o recurso, foi considerado ainda que, por maior que seja o sofrimento do filho - a dor do afastamento - o Direito de Família tem princípios próprios, que não podem ser contaminados por outros, com significações de ordem material, patrimonial.
Único a votar pelo não-conhecimento do recurso do pai, o ministro Barros Monteiro considerou que a destituição do pátrio poder não interfere na indenização porque "Ao lado de assistência econômica, o genitor tem o dever de assistir moral e afetivamente o filho", afirmou. Segundo Barros Monteiro, o pai estaria desobrigado da indenização, apenas se comprovasse a ocorrência de motivo maior para o abandono.
Por quatro votos a um, a decisão afastou a indenização a ser paga pelo pai, determinada pelo tribunal mineiro. "Inexistindo a possibilidade de reparação a que alude o artigo 159 do Código Civil de 1916,
não há como reconhecer o abandono afetivo como passível de indenização", reiterou o relator. (REsp nº757411 - com informações do STJ).
Como pôde ser observado, o pagamento por parte do genitor a título de indenização por danos morais ao filho, trata-se de assunto novo e, por óbvio, bastante polêmico e contraditório.
48
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Iniciou-se esta pesquisa com o propósito de estudar o instituto do Poder Familiar no direito brasileiro e a Responsabilização Civil dos Pais.
Através dos estudos realizados, constatou-se que em Roma Clássica a família era submetida à pátria potestas de um chefe, ou seja, o pai detinha todo o poder em suas mãos, poder de vida e de morte sobre seus descendentes, podendo até mesmo matar o filho recém-nascido se caso achasse necessário, este poder era tão grande como o que era exercido sobre os escravos.
Após a promulgação da Lei das XII Tábuas, o pai poderia abandonar, rejeitar e vender o filho, deixando de lado o direito de matar seu descendente.
O pátrio poder no direito Romano antigo visava somente o interesse do chefe de família, pois ninguém podia opinar ou ter suas próprias vontades satisfeitas, ao contrário da família moderna, baseada no casamento do chefe, a família de Roma antiga é de base patriarcal, onde tudo gira em torno do paterfamilias ao qual, sucessivamente, se vão subordinando os descendentes, até que ocorra a morte do chefe.
A mulher era colocada sempre como dependente de alguém, porque durante sua infância dependia de seu pai; durante sua juventude de seu marido, e com a morte do marido, dependia de seus filhos,
caso não os tivesse, seria dependente de parentes próximos, pois nunca deveria governar-se por sua própria vontade.
Promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, esta trouxe grandes alterações no campo familiar, pois foi proclamada a plena igualdade de direitos e deveres do homem e da mulher na vida conjugal, garantindo também aos filhos prioridade absoluta, sendo a proteção, o dever da família, da sociedade e do Estado.
Importante também se faz ressaltar para os dias de hoje, a importância que a Lei n°8.069/90, denominada Estatuto da Criança e do Adolescente, que tem por objetivo proteger, integralmente, todos os direitos das crianças, de maneira que cada brasileiro que nasça possa ter assegurado seu pleno desenvolvimento, partindo das exigências físicas até o aprimoramento moral e religioso.
Para a realização da presente monografia, foram levantadas - conforme consta na introdução desta monografia - algumas hipóteses, as quais passa-se a comentar.
Hipótese primeira - O pátrio poder de Roma Antiga, embora seja o precursor do atual poder familiar brasileiro, em muito se difere deste, em relação à autoridade paterna.
Tal hipótese restou totalmente confirmada, pois o poder - absoluto - que era atribuído, com exclusividade ao paterfamilias, agora deve ser exercido no interesse do filho, deixando para trás o Direito Romano Antigo, que visava somente ao interesse do pai sobre as pessoas dos filhos, da mulher, dos empregados, entre outros.
50
Hipótese segunda - A função atual do Poder Familiar brasileiro é a proteção, em todos os sentidos, dos filhos enquanto menores de idade e não emancipados.
Esta hipótese se confirmou totalmente, tendo em vista o art.
5°, I e 226 § 5°, ambos da atual Constituição Federal de 1988, combinados com dispositivos legais do Estatuto da Criança e do Adolescente, bem como do Código Civil vigente, pois o poder familiar não é mais concebido como um direito discricionário e absoluto do pai, mas um direito voltado totalmente à proteção dos interesses do menor, sendo exercido por ambos os genitores, em situação de igualdade.
Hipótese terceira - O exercício do Poder Familiar por parte dos genitores implica no cumprimento de vários deveres. A inobservância destas obrigações resultará em várias conseqüências jurídicas que, na esfera cível, podem ser denominadas Responsabilização Civil dos Pais.
Conforme dispositivos legais insertos no Código Civil brasileiro, esta hipótese restou parcialmente confirmada, pois o mau uso do Poder Familiar acarretará conseqüências jurídicas aos pais como: a suspensão ou até mesmo a destituição do poder familiar.
Todavia, embora não haja consenso entre os alguns Tribunais de Justiça pátrios, há, ainda, mesmo que de maneira tímida, a possibilidade de o filho pleitear, em juízo, reparação dos eventuais danos morais causados por seus pais.
BRASIL. Lei n°8.069/90. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado.
Comentários Jurídicos e Sociais. Obra coletiva de autoria da Editora Malheiros com colaboração de Antônio Fernando do Amaral e Silva, Munir Cury, Emílio Garcia Mendez.3 ed. Brasil: Malheiros, 2000.
CARVALHO, João Andrades. Tutela, curatela, guarda, visita e pátrio poder. Rio de Janeiro: AIDE editora e Comércio de Livros Ltda, 1995
COULANGES, Numa Denis Fustel de. A cidade antiga, estudos sobre o culto, o direito e as instituições da Grécia e de Roma. Bauru-São Paulo: Edipro, 1998.
CRETELLA Júnior, José. Comentários à constituição brasileira de 1988. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.
CRETELLA JÚNIOR, José. Curso de direito romano: o direito romano e o direito civil brasileiro. 6. ed. rev. e aum,. Rio de Janeiro: Forense, 1978.
CUNHA, Sérgio Sérvulo da. Dicionário compacto do direito. 2. ed. ver. e ampl.
São Paulo: Saraiva, 2003.
DA SILVA, Américo Martins. O dano moral e sua reparação civil. 2. ed. Revista atualizada e ampliada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002.
DIAS, Maria Berenice; PEREIRA, Rodrigo da Cunha (Coord.). Direito de família e o novo código civil. 3. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2003.
52
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro : direito de família. 18. ed.
aum. e atual. de acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2002. v.
5.
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro : responsabilidade civil.
17. ed. aum. e atual. de acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2003. v. 7.
DINIZ, Maria Helena. Código Civil Anotado. 11. ed. ver., aum. e atual. de acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Sariva, 2005.
FACHIN, Luiz Edson. Elementos Críticos do direito de família. Rio de Janeiro:
Renovar, 1999
GONÇALVES, Carlos Alberto. Responsabilidade Civil. 9. ed. ver. de acordo com o novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2005.
GOMES, Orlando. Direito de Família. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002
ISHIDA, Valter Kenji. Direito de família e sua interpretação doutrinária e jurisprudencial. São Paulo: Saraiva, 2003.
ISHIDA, Valter Kenji. Estatuto da criança e do adolescente: doutrina e jurisprudência. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2004.
LISBOA, Roberto Senise. Manual de direito civil: direito de família e das sucessões. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004.
MARKY, Thomas. Curso elementar de direito romano. 6. ed. São Paulo:
Saraiva, 1992.
MEIRA, Raphael Corrêa de. Curso de direito romano. 2. ed. São Paulo:
Saraiva, 1987.
NERY JUNIOR, Nelson. Código Civil anotado e legislação extravagante:
atualizado até 2 de maio de 2003. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Editora RT, 2003
OLIVEIRA, Euclides Benedito de. A Constituição Federal e as inovações no direito de família. In: COLTRO, Antônio Carlos Mathias (Org.). O direito de família após a Constituição Federal de 1988. São Paulo: Celso Bastos e Instituto de Direito Constitucional, 2000.
POLETTI, Ronaldo. Elementos de direito romano público e privado. Brasília, DF: Livraria e Editora Brasília Jurídica, 1996.
RIZZARDO, Arnaldo. Direito Civil. Direito de família. Rio de Janeiro:Aide Ed.
1994.
RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 27. ed. atual. por Francisco José Cahali, com anotações ao novo Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2002. v. 6.
SANTOS, João Manuel de Carvalho. Código Civil Brasileiro Interpretado. 9. ed.
Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1978
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 5. ed. São Paulo: RT, 1989.
WALD, Arnold. O novo direito de família. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2000.
54
http://www.apamagis-lex.com.br
http://www.suapesquisa.com/idademedia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_Antiga
http://www.jus.com.br