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interlocutor que, certa vez, uma sentinela capturou uma teresinha e a levou diretamente ao diretor do ICIA, que desacreditava, constantemente, dos avisos de uma possível rebelião, ele dizia “[...] quem vai querer fazer uma rebelião? Estamos em uma Ilha!”, e como antigamente a penitenciária era destino de presos políticos, ele brincava: “[...] é só dar uma bola vermelha pra eles!”

Só posteriormente quando foi autorizado pelo Sadi Ferreira, que havia uns bailes, então, em alguns bailes eles tocavam.” (OLIVEIRA, 2005, p. 67).

Segundo Vianna (1987),

[...] criaram um jazz, com vários instrumentos musicais, adquiridos com a colaboração espontânea de todos os residentes na Ilha, lista essa encabeçada pelo Diretor, para formalizar a autorização ao pretendido. O jazz, a princípio, apenas tocava aos sábados à tarde e aos domingos, na frente do Presídio, no local a que deram o nome de “mercadinho”, pois era ali que as canoas vindas do continente e de ilhas adjacentes [...] vendiam seus produtos ao pessoal de serviço na Ilha.

(VIANNA, 1987, p. 55).

E continua: “[...] mais tarde o jazz começou a animar festas de aniversários em casa de funcionários e até de soldados. A camaradagem entre presos, funcionários, em geral, era reinante e tendia, a cada dia, a aumentar mais”. (VIANNA, 1987, p. 55).

Em outra passagem, “Escoteiro” afirma a existência de teatro:

– Eles nunca pediram pra fazer uma festa interna, um baile, alguma coisa?

– Não, lá chegou até a ter teatro, rapaz! Houve teatro, teve teatro.

– É mesmo?

– É, teve.

– E quem é que participava do teatro, os próprios presos?

– Eram os próprios presos.

– E quem é que escrevia as histórias? [...]

– Era comédia, tipo comédia, né? Fazer graça, né? E tinha um camarada lá que tinha um lado só, parecia até um Frank Sinatra... Mas era uma papagaiada desgraçada!

Houve concurso lá, de boxe, havia luta de boxe...

– Mas esse teatro, onde ficava ele?

– O teatro ficava dentro do Quadrado, ficava onde antes tinha a padaria. [...] Ah, montavam, ficava tudo montado. Eles faziam com tábua e tudo... Pregos, faziam cortina [...]

– Mas quem é que escrevia?

– Ah, isso eu não sei... Eles escreviam lá! [...] (OLIVEIRA, 2005, p. 67-68).

“Escoteiro” também se refere ao boxe que era praticado no “quadrado”, no qual se não havia futebol, ou banda, era o boxe ou o teatro que tomava conta do final de semana dos presos. O objetivo, segundo Escoteiro, era entreter os presos, intermediando as atividades.

Sobre o futebol, o ex-chefe penal afirmou que havia um campeonato interno dos presos, no qual se utilizavam os nomes e uniformes – alguns eram apenas camisas tingidas e outros eram doados por alguma empresa – dos times cariocas, citando Vasco, Flamengo, Portuguesa, Botafogo, América, entre outros.

Sobre a dinâmica que envolvia os jogos, Escoteiro nos revela suas características:

– Tinha algum prêmio para o time campeão de futebol?

– Ah, tinha taça. Eles compravam umas taças meio baratas, meio matusquelas, né.

Então, o time que era campeão, eles faziam aquela papagaiada lá, e iam entregar a taça. Tudo isso era feito... As homenagens...

– Mas como é que é feita a entrega dessa taça?

– Eles formavam uma mesa na carceragem, e a taça ficava lá, quando fosse pra entregar. E, após a conquista, o time que era campeão, aí a taça era entregue pelo serviço da diretoria. Era aquela ovação e tal, bate palmas entendeu?

– Os times que tinham perdido batiam palmas também, ou não?

– Ah, batiam, não havia esse negócio. O perigoso ali era o Juiz [...] O Juiz pra sair de lá, precisava sair escoltado. Deus o livre e guarde! Às vezes a gente tinha que botar ele na Isolada, ficava uma semana na Isolada. 165

“Escoteiro” lembra ainda que, inclusive, uma vez apitou uma partida, mas nunca mais quis repetir, pois “daqui a pouco sobra pra mim, eu era funcionário!” (OLIVEIRA, 2005, p.

70). Sobre o fato dos times serem cariocas, afirma que na Ilha, à época, os sinais de rádio

“pegavam” mais os do Rio de Janeiro do que os de São Paulo, e isto se sucedia em relação às músicas e às narrações dos jogos.

Em relação à Copa do Mundo de 1950, ele afirma:

– Ah, a Copa do Mundo foi o dia mais triste que eu tive. [...] Logo que começou o jogo, eu não falei com ninguém e fui sozinho para o mato. Eu não queria saber do resultado, porque foi o maior time que nós tivemos na época. Foi um timaço!

– Como é que foi a reação das pessoas no Presídio? Dos presos aos funcionários, quando o Brasil perdeu a Copa?

– Ah, foi todo mundo com cara de choro, lá. Uma choradeira disgramada. Chorava funcionário, preso, criança, todo mundo. Esse foi o campeonato mais esquisito que eu já vi!

– Tinha preso chorando no ombro de guarda?

– Tinha preso lá que sentiu, que chorou mesmo, de verdade. [...] Os presos estavam todos no Quadrado, porque esse jogo foi à tarde, né? Eles estavam escutando, porque tinha um rádio lá depois da grade (referindo-se aos portões de ferro que fechavam o Quadrado, entre o prédio da administração e os pavilhões) [...] No outro dia foi aquela amargura, todo mundo trabalhando de cabeça quente, é ou não é?

(OLIVEIRA, 2005, p. 86-88).

Esta ilustração nos permite observar a característica de um sentimento que é partilhado por todos, funcionários e presos, a ligação criada em momentos de tristeza ou sofrimento.

Por fim, com relação às sessões cinematográficas que ocorriam à noite, “Escoteiro”

comenta que estas eram realizadas no “quadrado”.

– [...] o cara vinha com a máquina e eles armavam a tela mais ou menos perto da cozinha do Quadrado. Mas era uma coisa improvisada e ficava feito uma tela. Eles assistiam... Dava para assistir. [...] Mas e depois ele foi abolido por causa desse fato, foi o China Show [que neste caso “enfiou um espeto nas costas do cara”]. E porque à noite é sempre perigoso, e não era conveniente a gente passar aqueles filmes com aquela presalhada toda solta. Aí, foi resolvido.

165 Depoimento de “Escoteiro” em Oliveira (2005, p. 69-70).

– Que filmes que passavam?

– Ah, era filme que não era proibido por censura nada, era coisa tudo...

– Bíblico? [...]

– De faroeste. Naquele tempo era o Buck Jones. (OLIVEIRA, 2005, p. 77).

É importante retomar a epígrafe deste capítulo, quando cito Pierre Clastres.

Reforçando, o autor diz:

O ser social tem, portanto, simultaneamente, necessidade da troca e da guerra para poder a uma só vez conjugar o ponto de honra autonomista e a recusa da divisão. É com essa dupla exigência que se relacionam o estatuto e a função da troca e da guerra, que se desdobram em planos distintos. A impossibilidade da guerra de todos contra todos opera, para uma comunidade dada, uma imediata classificação da gente que a cerca: os outros são de saída classificados em amigos e inimigos. Com os primeiros se tentará fazer alianças, com os segundos se aceitará – ou se buscará – o risco da guerra. Seria um erro reter dessa descrição apenas a banalidade de uma situação inteiramente geral na sociedade primitiva. Pois é preciso agora colocar a questão da aliança: por que uma comunidade primitiva tem necessidade de aliados?

A resposta é evidente: porque ela tem inimigos. Ela teria que estar muito segura de sua força, estar muita certa de uma vitória repetida sobre os adversários, para dispensar o apoio militar, ou mesmo apenas a neutralidade dos aliados. Na prática, isso nunca acontece: uma comunidade nunca se lança na aventura guerreira sem antes proteger sua retaguarda por meio de iniciativas diplomáticas – festas, convites – que resultam em alianças supostamente duráveis, mas que devem constantemente ser reativadas, pois a traição é sempre possível e, com frequência, real.

(CLASTRES, 2004, p. 259).

É inegável o fator virtual de a proximidade e a aparente integração ter levado a uma situação confortável aos presos, de confiança entre as categorias antagônicas. Sem dúvida, o embate nos discursos dos interlocutores e bibliografia afirmando ora o caráter “positivo” das relações, ora o caráter “negativo” das práticas, como da violência, mostra o quanto interação não condiz com integração. Há uma política neste meio. A recreação lúdica, neste caso, foi base fundamental para o planejamento da grande rebelião de 1952.