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i - a da Penitenciária do Estado, constituída de duas subseções reservadas aos condenados às penas de detenção e de reclusão;

ii - destinada aos que forem sujeitos à medida de segurança detentiva, nos termos dos artigos 88, §1º, n. III e 93 do Código Penal42 e artigos 14 e 15 do Código das Contravenções43;

iii - reservada ao cumprimento de prisão simples de indivíduos que foram considerados perigosos à chamada “ordem social”.

O sistema carcerário imposto na Ilha Anchieta é similar, em muitos quesitos e desde seu modo operacional, às técnicas disciplinares e à necessidade do controle minucioso sob qualquer atividade, havendo a intensa e incessante obrigação de se regular, ordenar e punir, a diversos espaços carcerários de sua época, inclusive de ilhas-prisão situadas em outros espaços, como na América Latina.44 A regulação diária dos corpos era estruturada pela categorização e sua separação, por meio do tempo e dos horários, do trabalho, das turmas, dos juízes de pavilhão, das escoltas e da presença dos militares da Força Pública.

homens encarcerados. Em levantamento bibliográfico observamos que é afirmado, enfaticamente, que, entre 1951 e 1952, a situação de violência e conflitos constantes entre administração e presos foi menor do que em outros períodos, nos quais a mudança repentina no comportamento dos encarcerados fora planejada em vista de atender a um planejamento de uma rebelião, pensada por um grupo. Mas em nenhum momento as arbitrariedades, punições físicas e outras formas de coação física foram deixadas de lado.

Pelo regulamento, os internados seriam mantidos em dependências separadas, segundo sua categoria em relação ao fundamento da internação, diferenciando-se, principalmente, em relação ao Educandário, no qual estava previsto que: “[...] por sua vez, disporá de um pavilhão que fica reservado para os menores com absoluta separação dos internados adultos.”45 Sabemos que esta diferenciação nunca chegou a ocorrer dentro dos pavilhões e que, inclusive, a questão do pavilhão destinado aos menores só foi resolvida durante a administração de Paulo Vianna, entre 1949 e 1950.

Foi um fato envolvendo menores que levou Paulo Vianna a ser afastado do posto.

Na ilha, a pederastia causava brigas de toda a sorte. Um dia um preso apelidado Zé Pretinho foi atacado e mais de setenta presos participaram da tentativa de assassinato, usando estiletes e o infeliz não morreu. Foi encaminhado para a enfermaria, babando verde e não morreu. Esse foi o motivo alegado para o afastamento do Diretor Paulo Vianna, que diante da barbaridade ocorrida, nos autorizou a “descer o cacete” nos presos. 46

Somente após oito anos a determinação do regulamento fora cumprida, a separação entre adultos e menores ocorreu. Porém, essa separação não ocorria entre os que estavam em medida de segurança, os com até cinco anos de reclusão ou os mais perigosos – a distinção em relação à tipologia de crime também não foi levada à efetividade. A única separação que ocorreu após a dos menores, foi em junho de 1952, quando os encarcerados que participaram da rebelião foram todos transferidos para o Pavilhão 7.

O regulamento definiu, também, a divisão do tempo, dentre o período de 24 horas, que foi composta por: oito horas de trabalho, oito horas de instrução, higiene e alimentação e oito horas de repouso.47 “A alvorada e o silêncio serão anunciados pelo corneteiro ou clarim da guarnição militar, no verão, às 5 e 22 horas e, no inverno, às 6 e 21 horas.48 A rotina diária era estipulada, além do toque da Alvorada e do toque de silêncio, em toque do Rancho (café). Às

45 Capítulo III “Do regime penal do Instituto”. Artigo 21, Decreto nº 13.182, de 12 de janeiro de 1943.

46 FRANCO, 2001, p. 24.

47 Capítulo III “Do regime penal do Instituto”, Artigo 23, Decreto nº 13.182, de 12 de janeiro de 1943. Aos domingos os presos tocavam músicas, compunham peças de teatro, realizavam torneios de boxe ou futebol.

48 Disposições Gerais, Artigo 40, Decreto nº 13.182, de 12 de janeiro de 1943.

08h00 era o toque de Expediente, formatura geral dos presos no “quadrado”49 para a distribuição de serviços; às 11h00 eles retornavam do serviço e às 12h00 era o toque para almoço; às 13h00 começava o segundo expediente, que durava até às 16h00; às 17h00 era o horário para jantar, porém não havia mais toque de corneta; a partir das 18h00 os presos eram recolhidos aos seus pavilhões. O relato do preso Ary da Silva é revelador sob a forma como aquela rotina era perpetuada repetidamente:

[...] a gente levantava com o toque de clarim, fazia as filas com toque de clarim, almoçava com toque de clarim, ia dormir com toque de clarim; eu já não aguentava mais ouvir toque de clarim. De noite, enquanto dormia parece que o toque de clarim me acompanhava, pois até pegar no sono era só o barulho de toque de clarim que zumbia em meus ouvidos e, assim, ia passando os dias. (SILVA, 1981, p. 82).50

Figura 12 - Oscilação populacional e três conflitos: rebelião de menores em janeiro de 1948, rebelião de 20 de junho de 1952 e ameaça de nova rebelião em janeiro de 1955

Fonte: Informes, relatórios, radiotelegramas e relações nominais entre 1946-1954. Arquivo PEIA.

O levantamento de distintos relatórios, radiotelegramas e informes internos permitiram uma breve reconstituição da população carcerária entre 1946-1954. Apesar de incompleta, podemos levantar alguns pontos.

O rápido aumento entre maio e dezembro de 1946 deve-se aos japoneses da organização Shindo Renmei, que foram transferidos para a Ilha Anchieta.51 No mesmo

49 A expressão “formatura geral” é uma expressão tipicamente militar. O “quadrado” é o pátio central entre os pavilhões.

50 “Ao primeiro rufar de tambor, os detentos devem levantar-se e vestir-se em silêncio [...] ao segundo rufar, devem estar de pé e fazer a cama. Ao terceiro [...]”, e assim sucessivamente. Foucault (2009) inicia a caracterização de uma das bases de regulação do cotidiano dentro de uma prisão. A mesma forma, obviamente, procedeu no Instituto Correcional da Ilha Anchieta, acompanhada também da minuciosidade temporal característica das instituições disciplinares.

51 Em 10 de junho de 1947 havia 155 japoneses na Ilha Anchieta. Informe interno do capitão Enoch Torrentes, diretor interino. “Relação nominal dos japoneses recolhidos neste Instituto Correcional, por determinação do Ministério da Justiça”. Arquivo PEIA.

período, entre 1946-1948, o presídio sofreu com carestias em relação à alimentação, principalmente, e com uma rebelião dos menores, em janeiro de 1948, pois estes ainda dividiam os pavilhões com os presos maiores de idade, o que, segundo Vianna (1987), contribuía com problemas à administração. Em ofício de 25 de março de 1947, o então diretor interino Enoch Torrentes expõe a situação ao diretor geral da Secretaria de Segurança Pública:

[...] anualmente é o Instituto dotado de verba “gêneros alimentícios” de acôrdo com o número de presos existentes bem como da população. Assim sendo, para o corrente ano, foi proposta a de Cr$ 750.000,00, levando-se em conta que na ocasião, em maio de 1946, contavamos apenas 90 internados, sem perspectiva de ser esse número aumentado de forma que foi, pois logo a seguir, inopinadamente, recebemos quase duas centenas de japonesês da organização terrorista “Shindô-Remei” e no decorrer do ano as entradas previstas, atingindo, em 31 de dezembro, o total de 340, contando atualmente com 362 internados, isto é, 4 (quatro) vezes mais do que o esperado; entretanto por motivos que esta Diretoria desconhece, a verba de Cr$

750.000,00 pedida, que tornou-se irrisória devido não só ao aumento de presos como também a elevação sensível do custo dos gêneros de 1ª. Necessidade, foi atendida com o corte de Cr$ 100.000,00.52

Anualmente a Diretoria do ICIA realizava um planejamento financeiro para os gastos em relação às verbas recebidas, e a oscilação de tal magnitude não era prevista. Este trecho reforça a questão de uma margem estatal: i) a diretoria, sem ter consultada sua opinião, recebeu uma leva de presos que não estava prevista em seu orçamento, além do aumento de presos do Estado que foram transferidos para lá53; ii) o desconhecimento da diretoria perante os mecanismos e decisões da Secretaria de Segurança Pública, não só neste, mas em outros casos averiguados, apontam um total descompasso nas relações entre as instituições e na comunicação, por vias quase essencialmente burocráticas, que causam sérias dificuldades administrativas no ICIA; iii) o corte de gastos e a situação de penúria do ICIA, fato que ocorreu também entre 1954 e 1955, como em outras épocas, revelam uma relação total de submissão e, no limite, descaso com a instituição carcerária.

Entre 1948 e 1951 os japoneses seriam gradativamente liberados do ICIA após o cumprimento da pena, sendo que grande parte dos japoneses presos não só na Ilha, mas como em outras prisões do estado, foram deportados para o país de origem. O crescimento vertiginoso entre 195054 e 1952, segundo parte da bibliografia, corresponde à política do então diretor Fausto Sadi Ferreira que:

52 Declaração de Enoch Torrentes. Ofício nº 224, 25 de março de 1947. Arquivo PEIA.

53 Em junho de 1947 havia 155 japoneses e por subtração simples, aproximadamente 205 presos de nacionalidade brasileira, outro forte contraste com os 90 presos de maio de 1946. Simultaneamente, o ICIA absorve dois processos: japoneses presos e o aumento dos presos do próprio Estado, no período de um ano.

54 Paulo Vianna (1987) afirma em 1950, ao redigir um relatório recomendando o fechamento do presídio às Secretarias, que havia 240 presos no ICIA, o que nos leva a questionar o número de 99 de janeiro de 1951.

Pensando agradar seus superiores, toda vez que lhe oferecia oportunidade solicitava remessa de presos para o Instituto, sem conhecimento das impossibilidades do estabelecimento de recebê-los. Foi assim que reuniu naquele presídio, os mais afamados e perigosos delinquentes que cumpriam pena em diferentes cadeias e penitenciárias do Estado55

Outros documentos isolados mostram um padrão em relação ao número de funcionários e militares. Uma das principais requisições do ICIA à Secretaria de Segurança Pública era de aumentar o efetivo de militares na Ilha, questão que nunca foi atendida. Mesmo com as oscilações da população carcerária, o número de militares e funcionários (principalmente o de Guarda de Presídios56) permanecia estático e constante, o que levou, na manhã do dia 20 de junho de 1952, a uma escolta de dois militares guardando 117 presos, quando, em um procedimento militar padrão seria recomendável que dez militares fizessem uma escolta deste porte. Mais uma vez a negligência das secretarias se faz presente na sua relação com as diretorias do ICIA.

Por meio de leituras de vários documentos (recibos, ofícios, radiotelegramas, informes, expedientes etc.) percebe-se que o trânsito de presos era constante, principalmente entre a Penitenciária do Estado, a Casa de Detenção e o ICIA. Após a rebelião de junho de 1952, grande parte dos presos foi transferida para as “autoridades competentes da capital”, transferências, em sua maioria, para a Penitenciária do Estado.57 Conjuntamente com o Inquérito Policial Militar, os presos trabalhavam na reconstrução das dependências do ICIA e os principais envolvidos na rebelião de 1952 voltariam ao ICIA ao final de 1953, permanecendo no Pavilhão 7.