Aceitar a infância como uma categoria social é compreendê-la como um processo contínuo, historica- mente construído a partir das relações estabelecidas entre as crianças, assim como entre crianças e adultos que as cercam. É também considerar o contexto no qual essa infância está inserida, ou seja, as práticas sociais, os valores sociais, políticos e econômicos de uma determinada socie- dade e as suas formas de representações em uma determi- nada época. A infância como processo cultural está sempre mudando a partir da interação dos fatores que a compõem (SARMENTO, 2005).
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Elegemos, portanto, dois termos como essenciais para a compreensão da infância: processo e construção.
Ambos associam à categoria infância a ideia de movimento, dinamicidade e complexidade. A construção do ator social criança é um processo que abriga experiências diversas, culturalmente, socialmente e subjetivamente. Ao mesmo tempo em que constrói a sua individualidade, sua subjetivi- dade e suas representações acerca da realidade, a criança participa de uma série de experiências sociais as quais deve gerenciar, junto aos seus pares, às instituições sociais e entre as gerações que a cercam. O “ofício de criança” nos traz uma dimensão plural da infância e de suas instâncias socializadoras que demarcam o papel ativo das crianças naquilo que a sociedade estabelece (SARMENTO, 2005;
SIROTA, 2001). Para compreendermos esse ofício temos que ter em vista o que certo número de trabalhos científicos já apontou (cf. SIROTA, 2001): a infância é uma construção social, ou seja, um componente estrutural e cultural de um grande número de sociedades existindo, portanto, modos diversos de construção da infância. As crianças são atores sociais plenos, pois são ao mesmo tempo produtores e produtos dos processos sociais. A infância é uma categoria sociológica que não desaparece, apesar de seus membros mudarem constantemente (SARMENTO, 2005). Portanto, apesar da categoria infância permitir certa homogeneização
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em sua análise, também comporta uma grande diversidade já que é composta de crianças que vivem em condições e culturas diversas.
O percurso que as várias representações de infância foram assumindo, assim como as transformações ocasio- nadas nas vidas das crianças, é apresentado em conso- nância com as mudanças e avanços tecnológicos ocorridos no espaço midiático. A relação, que se estabelece entre infância e mídia, constrói, determina, reforça, desafia, ou evoca modelos de infância traçados ao longo da história.
A infância contemporânea nasce no mundo globali- zado, fenômeno econômico e cultural que traz importantes mudanças para a sociedade também nos aspectos políticos e sociais. A sociedade globalizada é predominantemente informacional, tendo como base uma infraestrutura calcada no desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação (CASTELLS, 2003). A “redução das distâncias”
e a “informação em tempo real” são as grandes premissas que as tecnologias da informação e comunicação trazem para a sociedade globalizada. A sociedade contemporânea é ainda caracterizada pelos excessos: de imagens, de infor- mações, de objetos, assim como pela efemeridade de seus objetos e a globalização de modos de vida e de costumes.
O consumo seria uma forma de compartilhar códigos e
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símbolos, independente da etnia, classes sociais e nações (CANCLINI, 2001). Da mesma forma, somos impulsionados a nos inscrever no mundo do consumo tecnológico e midi- ático sob pena de nos tornamos invisíveis. É nesse cenário que a infância contemporânea se constrói: de consumo, de espetáculo midiático, tecnológico, rápido, efêmero, em que o tempo flui.
Na sociedade contemporânea as instâncias sociali- zadoras da infância são redefinidas e as crianças passam a ocupar novos lugares na sociedade (BARRA, 2004;
SARMENTO, 2004). A escola, instituição voltada para a socia- lização da criança e a educação dentro de determinados padrões, passa a ser cenário de trocas culturais, colocando sua ação em estado de crise entre duas posições antagô- nicas: a escola autoritária e disciplinadora ou a “educação para a cidadania” e a busca da autonomia da criança. A família também sofre transformações em sua estrutura. Cada vez menos crianças são concebidas e os adultos têm pouco tempo dedicado a elas, apesar dos discursos de valorização dos vínculos familiares. A solução encontrada é que esse tempo deve ter “qualidade”, já que não disponibilizamos de
“quantidade”. A criança desempenha novos papéis e habita novos lugares, pois são criadas outras formas de controle e ocupação do seu tempo, como as escolas de formações
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complementares, escolas de esportes, espaços próprios destinados ao lazer, com regras e controles baseados na disciplina e não na liberdade e na espontaneidade que a maioria dos discursos enaltece (SARMENTO, 2004).
Vale salientar, porém, que as crianças são protago- nistas na construção da cultura infantil. A cultura da infância surge nas práticas cotidianas, é elaborada e reelaborada nas práticas sociais e culturais de cada grupo de crianças e é historicamente significada. As crianças estão em contato com realidades diversas e é a partir delas que encontram elementos para a construção de sua identidade pessoal e social, nos cruzamentos e relações que estabelecem entre os diversos elementos que compõem os contextos onde se encontram, tais como, família, escola, amigos, comunidade (SARMENTO, 2004).
Entre as formas culturais produzidas pelas crianças, as brincadeiras e jogos infantis ocupam um espaço privi- legiado, muitas vezes escapam à intervenção do adulto, são transmitidos pelas próprias crianças e se desenvolvem especialmente nas relações entre as crianças e seus pares.
A ludicidade é o traço característico da infância, mas não exclusivo. Na infância ela adquire uma função determinante nos processos de aprendizagem, sociabilidade, apreensão do real, desenvolvimento cognitivo, motor, afetivo. O brincar
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é uma das atividades mais sérias que a criança desenvolve.
É também no brincar que a criança imagina o mundo, o interpreta e o recria, estabelece mundos de faz de conta que permitem a transposição da realidade para o mundo da imaginação e vice-versa. A ludicidade é, portanto, um eixo importante da cultura da infância que é continuamente estru- turada nas condições históricas, sociais e econômicas da sociedade na qual se insere e para a qual as crianças estão sempre trazendo novos elementos que determinam a espe- cificidade dessa construção.