O jurista alemão Günther Jakobs, por volta do ano de 1985 desenvolveu uma teoria sustentada no conceito de ‘Direito Penal do Inimigo’. A ideia apresentada nesse conceito é a de que as pessoas que não se adéquam às normas estabelecidas pelo Estado para convívio em sociedade devem ser privadas do direito às proteções penais ou processuais penais (JAKOBS; MELIÁ, 2007). Esse dispositivo seria, portanto, uma via para a segurança do resto da sociedade, em seu direito de ser protegida (vigiada, controlada), sobretudo protegida da ação dos que são produzidos como inimigos. O inimigo, na visão dos autores, seria qualquer pessoa que não respeitasse as leis e a ordem legal de um Estado. Assim, sendo considerado uma ameaça, esse inimigo merecia perder todos os direitos como cidadão e como ser humano. Uma alusão a duas noções centrais à governamentalização da vida.
Nesta pesquisa ponho em análise o modo como o morador de favela foi produzido subjetivamente como um inimigo da sociedade, que precisa ser apartado por representar perigo e ameaça à segurança da população. Contudo, esse lugar de inimigo já foi ocupado (ou imposto) a diferentes grupos ao longo da história da humanidade: desde saqueadores, piratas, escravos, judeus, ciganos, comunistas, traficantes, terroristas, esquerdistas e todos os demais que, de alguma forma, fossem considerados uma ameaça à ordem e à continuidade de regras ou costumes. A essas distintas figuras, consideradas como perigosas, concedeu-se a alcunha de inimigo e buscou-se cassar seus lugares de sujeitos possuidores de direitos, ou, em muitos dos casos, literalmente, caçar suas vidas por meio de
aprisionamento e morte. Foucault (2012, p.135) chama de ‘estratégia de contorno’
essa prática estatal de, em vez de buscar os indivíduos que cometeram infrações, agir sobre a população considerada perigosa, provocando medo e intimidação na população que um dia pode vir a ocasionar problemas (por exemplo, os jovens desempregados).
Na história do Brasil, desde a invasão europeia, os indígenas foram alçados ao lugar de inimigo. Aqueles que ocupavam originalmente as terras tornaram-se ameaças por resistirem à dominação e exploração por parte dos colonizadores. Do mesmo modo, os negros que foram trazidos às terras tupiniquins já chegaram sob condição de escravos, coisificados e assujeitados. Suas iniciativas de fuga, desordenamento ou luta por libertação acirravam seu enquadramento como inimigos dos que estavam do lado dominante do exercício do poder, inimigos da ordem senhorial. Aos pobres, que o sistema capitalista não dá condições de acompanhar o mítico padrão de desenvolvimento selado pelo consumo e dependência do mercado, reservam-se a carência de serviços públicos, o confinamento em localidades precarizadas, a violação de suas propriedades e de sua dignidade.
As práticas racistas, associadas à política de morte, fazem parte do cotidiano da vida em favelas desde o surgimento das mesmas. Sabe-se que muitas favelas se formaram a partir de medidas governamentais higienistas de desapropriação, que removeram milhares de moradores de suas moradas para alojá-los em regiões de menor interesse do capital. Outras surgiram a partir da ocupação desordenada de espaços de difícil acesso, como morros e áreas de manguezal. Alternativas possíveis pelo modo de organização do espaço, de acordo com os interesses dos patrões que, de sua parte, precisavam ter os trabalhadores por perto e, da parte das famílias de trabalhadores, elas precisavam permanecer próximas aos seus locais de trabalho. Não tendo outra opção, o jeito foi arriscar a vida morando em locais insalubres e assentados de forma irregular. Desassistida por serviços básicos, sem garantia de emprego e dependendo de estratégias as mais diversas para sobreviver, a favela vai se convertendo no lugar do perigoso. Não da expressão da desigualdade, da usura, da exploração, mas do inimigo. Como pode se ver nos trabalhos de Pimenta (1926), Valladares (2005) e Nielsson e Wermuth (2018), são muitos os estudos que detalham o processo de remoção das favelas e ocupações para reordenação do espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro.
Desde a segunda metade do século XX, o argumento que se costuma difundir para a produção do inimigo é o combate ao comércio ilegal de armas, drogas e mercadorias. Como explica Batista (2003), tal estratégia é parte de um jogo de produção de subjetividades pelo qual se propaga a favela como sendo zona perigosa, ao mesmo tempo em que se cria uma campanha em nome da paz para justificar as abordagens violentas contra essa população.
Ora, se o objetivo fosse o combate à comercialização ilegal de drogas, ele teria que ocorrer em todos os territórios que compõem a cidade e não apenas em favelas. O funcionamento desse mercado se dá de acordo com as demandas de consumo, assim, a comercialização ilegal de drogas ocorre de modo capilarizado, estando presente tanto nas zonas pobres quanto nas zonas mais ricas das cidades.
Porém, a ação violenta do Estado se concentra apenas nas zonas mais pobres, nas que vive a parcela mais explorada da população e cujas vidas interessam menos ao Estado e principalmente ao mercado econômico.
Todo esse jogo de interesses político-econômicos elevou os trabalhadores do tráfico de varejo, geralmente moradores das regiões mais pobres, ao lugar de inimigos nacionais, enquadrados como ‘raça ruim’. Batista (2003, p. 36) afirma que todo o sistema de controle social, incluindo aí os meios de comunicação de massa, estabeleceu um inimigo a partir de um estereótipo: o jovem traficante que é recrutado pelo poderoso mercado de droga. Como salienta a autora,
O estereótipo do bandido foi-se consumando na figura de um jovem negro, funkeiro, morador de favela, próximo do tráfico de drogas, vestido com tênis, boné, cordões, portador de algum sinal de orgulho ou de poder e de nenhum sinal de resignação ao desolador cenário de miséria e fome que o circunda (BATISTA, 2003, p. 36).
Como parte das estratégias do Estado, os meios de comunicação de massa exercitam sua habilidade em narrar insistentemente uma realidade produzida de modo a construir significações e subjetividades pelas quais se forja mocinhos e
‘bandidos’, vítimas e culpados. No universo do comércio e uso de drogas, esse mecanismo midiático termina por abrandar e normalizar o consumo social das drogas e, em contrapartida, demoniza a prática varejista efetuada por jovens negros e pobres das favelas, enquadrando-os como traficantes.
O sistema convive com seu uso social, sua alta lucratividade, mas desenvolve um discurso moral esquizofrênico que demoniza a parcela da população atirada à sua venda pelo mercado de trabalho excludente e
recessivo. A manutenção da sua ilegalidade aumenta sua lucratividade e reduz à condição de bagaço humano uma parcela significativa da juventude pobre de nossas cidades (BATISTA, 2003, p. 41).
Em entrevista ao site Brasil de Fato, Batista (2010) pontuou que não se pode generalizar a categoria de ‘traficante’. Compreendendo que existem diferentes níveis de envolvimento dentro desse mercado, a autora prefere utilizar o termo
‘comerciantes varejistas’. Ela destaca que mesmo o menino, menor de 18 anos, ou seja, a criança ou o adolescente que trabalha fazendo a embalagem dos produtos a serem comercializados é também demonizado da mesma forma que o profissional que comanda o negócio das drogas em nível internacional. Como sintetiza Batista (2010), é preciso distinguir que nem todo mundo que trabalha nesse negócio barbarizado é bárbaro, mas esse menino também vai se barbarizando por causa dessa guerra.
Nessa mesma perspectiva, Aguiar e Berzins (201, p. 441) fazem uma crítica ao modo generalista de se referir aos que vivem do comércio ilegal e por isso chamados de traficantes, inclusive sempre associando-os aos moradores de favelas.
A figura dos traficantes [é] traçada com os mesmos contornos dos terroristas, ilustrando o consenso como uma narrativa interpretativa e homogeneizadora das classes perigosas, que forja uma correlação intrínseca entre os pobres moradores de zonas vulneráveis e o crime organizado (AGUIAR E BERZINS,201, p. 441).
Como afirma Coimbra (2001, p. 58), vão sendo produzidos "novos inimigos internos do regime". Uma parte específica da população passa a ser considerada
"suspeita" e, naturalmente, deve ser evitada e eliminada, seja pela morte ou pelo hiperencarceramento dos seus corpos. Como também defende Coimbra,
Hoje, dentro da nova ordem mundial, dos projetos neoliberais vigentes em escala planetária, os novos “inimigos internos do regime” - e tratados como tal - são os segmentos mais pauperizados: aqueles que os “mantenedores da ordem” consideram “suspeitos”, “perigosos” e que devem, portanto, não somente ser evitados, mas eliminados (COIMBRA, 1995, p. 6).
Convencida de que esses inimigos precisam ser contidos e eliminados, a população passa a apoiar e aplaudir os extermínios e as chacinas, até mesmo a se sentir autorizada para praticar linchamentos contra ‘esse povo’. Nesse contexto, Aguilera (2016, p. 72) destaca que o Batalhão de Operações Especiais – BOPE, tropa de elite da polícia, se converteu em um símbolo das forças de elite que protegem o poder político mediante o extermínio daqueles que considera inimigos.
Como afirma Coimbra (1995, p. 6), institui-se oficiosamente uma política pública de morte e extermínio das parcelas mais empobrecidas de nossa população, com a aquiescência das elites e das classes médias.
De acordo com o Sistema de Informações Estatísticas do Sistema Penitenciário Brasileiro – Infopen14, o quantitativo de pessoas privadas de liberdade no Brasil, somente no primeiro semestre de 2019, era de 752.277. Os dados indicam que naquele momento mais de 95,06% dos encarcerados era do sexo masculino.
Dentre todos os encarcerados, 55,69% não possuía ensino fundamental completo e 66,08% dos que declararam sua cor de pele/raça/etnia se considerou preto ou pardo.
Numa rápida análise do histórico do sistema prisional brasileiro, associada a um passeio pelas notícias sobre o crescimento da violência policial nas favelas, percebe-se que a atuação do Estado, em seu poder de privação de liberdades, tem legitimado a criminalização do estereótipo pobre, negro e favelado. Delineiam-se aí as características de quem o Estado considera seu inimigo.
Em uma análise sobre sujeito racial, governo de corpos e branquitude a partir das teorias do Achille Mbembe, Teles (2018) chama de “campos” os territórios precarizados que estão sob constantes ações violentas do Estado. Também inspirado em Frantz Fanon o autor acredita que na matriz da guerra ao inimigo e das políticas de morte, a cidade “é um mundo cortado em dois”, cujas fronteiras são mantidas pela militarização crescente da vida e do cotidiano (Teles, 2018, p. 27).
As favelas e periferias pobres das grandes cidades, territórios habitados majoritariamente por negros, são historicamente precarizados e se tornam alvos dos “mecanismos técnicos para conduzir as pessoas à morte”. Os
“campos”, ou poderíamos dizer as favelas, não seriam o resultado do mau funcionamento do Estado, mas antes um projeto necropolítico (TELES, 2018, p. 28).
Como interrogam Facina, Silva e Lopes (2019, p. 21), de que forma é possível pensar a política em territórios onde o Estado tem evidente prática de extermínio?
Como pensar no Estado como indutor de políticas públicas para melhoria da vida na
14 O Infopen é um sistema utilizado pelo Departamento Penitenciário Brasileiro, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Nacional, para sintetizar informações sobre os estabelecimentos penais e a população prisional do Brasil. O banco de dados contém informações de todas as
unidades prisionais brasileiras, incluindo dados de infraestrutura, seções internas, recursos humanos, capacidade, gestão, assistências, população prisional, perfil das pessoas presas, entre outros. Os dados aqui apresentados estão disponíveis em: < http://dados.gov.br/dataset/infopen-levantamento- nacional-de-informacoes-penitenciarias1>.
favela quando o próprio Estado entende as particularidades e diferenças da favela como algo a ser criminalizado e, se possível, eliminado.
Essa prática de tratar a diferença como algo a ser combatido é uma característica que denota a incorporação de valores neoliberais à prática do Estado.
Foi a partir de intensificações e modulações das relações liberais que o neoliberalismo se estabeleceu, passando a instituir políticas afirmativas que primam por tratar o diferente de forma diferente. Ao invés de invisibilizar suas diferenças ou pressioná-lo para que se enquadre nos padrões de normalidade preestabelecidos, passou-se a controlar essas diferenças de forma isolada e segregada, evitando inclusive que estes indivíduos desviantes venham a ameaçar o desempenho daqueles que se adequam às normas. De acordo com Calveiro (2019, p. 17),
O neoliberalismo cultiva certa tolerância que longe de reconhecer a diferença como tal, a integra para funcionalizá-la e controla-la, ao tempo em que isola cada particularidade entre os iguais sem trocas nem comunicação efetiva desse com os outros (CALVEIRO, 2019, p. 17).