2.6 Debates conceituais sobre os componentes e tipos de currículos a luz
Primeiro é importante compreender o significado de competência profissional.
Santos, 2011 destaca que essa pode ser descrita como a capacidade do indivíduo de mobilizar, articular e aplicar os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para um desempenho eficiente e efetivo das atividades requeridas nas situações reais de trabalho. Inclui ainda o uso integrado do conhecimento com a comunicação, habilidades técnicas, emoções, raciocínio crítico e reflexivo na prática dos serviços de assistência ao sujeito e às coletividades. Brasil, 2011 complementa que a competência profissional se expressa na capacidade de responder satisfatoriamente às necessidades e demandas dos indivíduos e coletividades por meio do trabalho compartilhado, consciente e crítico, no contexto em que se realiza, para efetiva contribuição na qualidade de vida da população.
O currículo integrado se caracteriza pela integração do ensino e da prática profissional, avançando na construção de teorias e busca de soluções para várias situações da realidade profissional, considerando as características sociais, econômicas, culturais e de saúde de uma determinada estrutura social. Esse modelo curricular não limita a aprendizagem à memorização de conteúdo e foca o processo de ensino aprendizagem para a prática cotidiana, na tentativa de solucionar os problemas comuns do exercício profissional, buscando a motivação para a aprendizagem, tornando-a significativa e proporcionando maior flexibilidade para o aprendizado (SANTOS, 2011; SILVA E SANTANA, 2014).
Entretanto, é preciso ressaltar que para a definição de currículos orientados por competência, inicialmente, faz-se necessário determinar uma opção conceitual sobre o conceito de competência que são diferentes nos campos da educação e saúde.
Nesse contexto, Santos, 2011 afirmou que o conceito de competência em saúde representa um conjunto de capacidades para desempenhar ações, em consonância com o campo da prática profissional, mas que isso não restringe competência à aplicação de uma série de tarefas, com excelência técnica, e avaliada de forma descontextualizada e fragmentada. Pois um enfoque de competência reduzido resulta na subestimação do desenvolvimento e da avaliação de capacidades centradas na aprendizagem.
Durante o processo de construção de currículos orientados por competência devem ser selecionados os conteúdos legítimos e relevantes para a formação e definidas as estratégias educacionais para o seu desenvolvimento.
A educação baseada nas competências requer uma organização do currículo que integre e alterne a aquisição dos conhecimentos, com o desenvolvimento de habilidades e atitudes necessárias ao desempenho da prática profissional. Por essa razão o uso de situações reais ou simuladas da prática profissional (desde o início do curso) é essencial nesse tipo de currículo, porque garante uma aproximação da aprendizagem ao mundo do trabalho e das reais necessidades de saúde da população; e favorece a construção de novos saberes a partir do reconhecimento da prática vivenciada ou observada. Com essa proposta, a organização curricular passa a focar o desenvolvimento das áreas de competência com a integração e exploração dos conteúdos a partir das situações reais, que representam um estímulo para o desencadeamento do processo ensino-aprendizagem.
Os currículos por competência devem estar centrados no perfil do egresso e nos papéis a serem desempenhados por esse profissional, e para isso, devem ser estruturados para os resultados a serem obtidos no fim do programa educacional, ou seja, os resultados dirigem o processo educacional. Isso muda o foco do processo de ensino aprendizagem, do que tem que ser ensinado para o que deve ser aprendido pelo educando, e modifica as relações entre os sujeitos envolvidos, colocando o estudante como centro dessa dinâmica, com uma postura ativa (SANTOS, 2011).
Na construção desse modelo curricular a identificação e definição de competências para a formação é uma etapa crítica, pois cada uma das competências selecionadas deverá contemplar um conjunto de habilidades, capacidades, atitudes e conhecimentos necessários para à boa prática e considerando os diversos contextos do exercício profissional e as influências sociais, culturais, geográficas e políticas sobre a formação e atuação junto à população.
Portanto, os conhecimentos, habilidades e atitudes devem ser claramente descritos, mensuráveis e, em conjunto, devem refletir a aquisição da competência especificada. Assim como os desempenhos esperados, para cada nível de desenvolvimento curricular, devem ser objetivamente definidos.
Os pressupostos pedagógicos que auxiliam na construção desse modelo de organização curricular foram discutidos por Araújo, 2007 e incluíram os seguintes aspectos: os objetivos educacionais devem estar baseados em situações concretas de trabalho; as competências relacionadas ao processo de trabalho devem incluir as dimensões técnicas, sociais, políticas, culturais, econômicas, históricas e outros; o conceito de competência deve abranger a concepção de valores, conhecimentos e habilidades; o currículo deve ser desenho em módulos e o ensino centrado na relação dialogada entre professor e estudante (ativo no processo); diversificação dos cenários de aprendizagem, reconhecendo a complexidade das situações educativas;
formação orientada para a problematização de situações relevantes para a prática profissional; mudanças no processo de avaliação, integrando os tipos de avaliação existentes e incluindo os professores e práticas educativas nos feedbacks;
integração da visão interdisciplinar e a pesquisa ao ensino.
Esses pressupostos pedagógicos apontam a complexidade na formulação dessa proposta curricular e demonstra a necessidade de mudanças nas estruturas de todo o ciclo de ensino, aprendizagem e avaliação na graduação em saúde.
No que se refere a proposta de competências relacionadas a vigilância em saúde, considerando os pressupostos discutidos e as recomendações das diretrizes curriculares sobre gestão em saúde, e ainda, o arcabouço e diretrizes legais sobre o tema, é importante que estejam descritos os conhecimentos, as habilidades e atitudes necessárias no currículo, de forma clara e concisa, para a construção de um perfil egresso que possa colaborar para a transição do modelo assistencial. Bem como contemplar atividades práticas integradas à teoria, nos diversos cenários de aprendizagem em saúde, principalmente na atenção básica, a fim de enfatizar a construção de um perfil egresso comprometido com o cuidado integral, humanizado e contínuo direcionado para as necessidades de saúde dos sujeitos. Nesse contexto, a formação de vínculos com os pacientes, equipes de saúde e a própria organização dos serviços são elementos que contribuem para o desenvolvimento
das competências.
3 METODOLOGIA