De acordo com Cano (2009)
69, a imagem do desaparecimento forçado está associada, no contexto da América Latina, às ditaduras engendradas na segunda metade do século XX.
Cano destaca o caso da Argentina, onde o desaparecimento forçado de pessoas foi uma estratégia
70sistemática do Estado contra a oposição política.
En 1987 el ex capitán del Ejército Federico Eduardo Mittelbach terminó su ‘Punto 30. Informe sobre desaparecedores’. Ese trabajo describía con precisión el ‘Sistema Nacional de Represión Ilegal’ materializado en la división del país en zonas, subzonas y áreas de seguridad, más los centros clandestinos de detención71, su
69CANO, Ignacio (2009). “O desaparecimento de pessoas no Rio de Janeiro hoje” em Süssekind, E. (org.) Memória e Justiça. Rio de Janeiro: Jauá Editores & Museu da República. Pg. 33-46.
70 A estratégia era composta por uma espécie de método repressivo, que incluía uma zonificação militar: “El 28 de Octubre de 1975 fueron distribuidas veinticuatro copias de la DIRECTIVA DEL COMANDANTE
GENERAL DEL EJERCITO, N° 404/75 (Lucha contra la subversión) (…) La ‘MISION DEL EJERCITO’
estuvo impuesta en el acápite 4 de la Directiva 404/75, que expresó: ‘Operar ofensivamente contra la subversión en el ámbito de su jurisdicción y fuera de ella en apoyo de las otras Fuerzas Armadas, para detectar y aniquilar las organizaciones subversivas... a. Tendrá responsabilidad primaria en la dirección de las operaciones contra la subversión en todo el ámbito nacional. b. Conducirá, con responsabilidad primaria, el esfuerzo de Inteligencia de la comunidad informativa contra la subversión (...) c. Establecerá la VF (Vigilancia de Frontera) necesaria a fin de lograr el aislamiento de la subversión del apoyo exterior. La "MISION DEL EJERCITO" se materializaría mediante la división territorial del país en ‘zonas’, ‘subzonas’ y ‘áreas’”. Información sobre la zonificación militar de la Argentina. (D’ANDREA MOHR, 1999).
71 Ver os Mapas da Memória com atualização dos Centros de Detenção Clandestina: Projeto SIG da Memória, projeto conjunto entre Arquivo Nacional da Memória da Secretaria de Direitos Humanos, a Secretaria de Direitos Humanos da Província de Buenos Aires, a Equipe de Voluntariado FADU-FFyL (Faculdades de Arquitetura, Desenho e Urbanismo e de Filosofia e Letras da UBA) e o Grupo Construir Projetar Identidade e o Mapa Educativo Nacional do Ministério da Educação que se propõe a integrar as Secretarias de Direitos Humanos e Comissões de Memória de todas as jurisdições da Rede Federal de Sítios de Memória. Disponível em: http://www.mapaeducativo.edu.ar/mapserver/aen/socioterritorial/memoria/index.php
dependencia orgánica y parte de la red de inteligencia militar72. (D’ANDREA MOHR, 199973).
De acordo com a classificação apresentada anteriormente, o desaparecimento forçado é considerado involuntário
74.
A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, por meio da resolução 20 (XXXVI), de 29 de Fevereiro de 1980, estabeleceu “pelo período de um ano, um grupo de trabalho composto por cinco dos seus membros, na qualidade de peritos a título individual, para examinar questões relativas ao desaparecimento forçado ou involuntário de pessoas”.
O Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários, instituído em 1980, se referia ao desaparecimento forçado como involuntário.
O grupo de trabalho foi o primeiro mecanismo temático a ser criado no âmbito do Programa de Direitos Humanos das Nações Unidas para tratar de violações específicas de direitos humanos de natureza particularmente grave, em escala mundial.
A Assembléia Geral das Nações Unidas já tinha aprovado a Resolução “sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados”, em 18 de dezembro de 1992
75. O artigo 1 declara que “todo ato de desaparecimento forçado constitui um ultraje à dignidade humana”.
Para o documento, um desaparecimento forçado ocorre quando “pessoas são presas, detidas ou raptadas contra a sua vontade ou de outra forma privadas de liberdade por agentes governamentais de qualquer ramo ou nível, ou ainda por grupos organizados ou particulares que atuam em nome, ou como apoio, direto ou indireto, consentimento ou aquiescência do
72"Em 1987, o ex-capitão do Exército FedericoEduardoMittelbachterminou o ‘Ponto30. Relatório sobreDesaparecedores’.Esse trabalhodescreveu com precisãoo ‘Sistema Nacional de Repressão Ilegal’, materializado nadivisão do paísem zonas,subzonase áreasde segurança, mais os centros de clandestinos de detenção, suaunidade organizacional e parte da rede de inteligência militar” (D'ANDREA MOHR, 1999).
73 D’ANDREA MOHR (1939 - 2001) foi membro do Centro de Militares para a Democracia Argentina - CEMIDA, aposentado compulsoriamente no posto de capitão pelo ditador Jorge Videla, em 1976, e destituído em 1987 pelo Conselho de Guerra. Sua obra mostrou com documentos oficiais o desenvolvimento e aplicação do método repressivo de desaparecimento forçado (1999). Desenvolveu o site: http://www.nuncamais.org
74Os desaparecimentos forçados podem também implicar violações graves das Regras Mínimas para o
Tratamento de Reclusos, aprovadas pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas em 1957, bem como do Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei e do Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão, adotados pela Assembléia Geral em 1979 e 1988, respectivamente.
75 A declaração, em seu artigo 1, prevê que “todo ato de desaparecimento forçado constitui um ultraje à dignidade humana. É condenado como uma negação dos objetivos da Carta das Nações Unidas e como uma violação grave e manifesta dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, reafirmados e desenvolvidos em outros instrumentos internacionais”.
Governo, que de seguida se recusam a revelar o destino ou paradeiro das pessoas em causa ou se recusam a reconhecer a privação de liberdade, assim subtraindo tais pessoas à proteção da lei”.
Segundo o artigo 17, os atos que consubstanciam um desaparecimento forçado deverão ser considerados um “crime continuado enquanto os seus autores continuarem a esconder o destino e o paradeiro das pessoas desaparecidas e estes fatos não ficarem esclarecidos”.
A Resolução da Assembléia Geral da OEA de junho de 1994 adotou, em Belém do Pará, a Convenção Interamericana Sobre O Desaparecimento Forçado De Pessoas
76. O Brasil assinou o documento na mesma ocasião.
Em seu artigo II, a convenção interamericana entende por desaparecimento forçado:
A privação de liberdade de uma pessoa ou mais pessoas, seja de que forma for, praticada por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos de pessoas que atuem com autorização, apoio ou consentimento do Estado, seguida de falta de informação ou da recusa a reconhecer a privação de liberdade ou a informar sobre o paradeiro da pessoa, impedindo assim o exercício dos recursos legais e das garantias processuais pertinentes.
A convenção compromete os Estados Partes a “não praticar, nem permitir, nem tolerar o desaparecimento forçado de pessoas, nem mesmo em estado de emergência, exceção ou suspensão de garantias individuais” (Art. I).
Na definição da convenção há centralidade do Estado no que se refere à promoção do desaparecimento. Nesta tese, são considerados agentes também aqueles que não atuam sob o consentimento ou não possuem qualquer tipo de vínculo com o Estado. O texto da convenção faz referência ao consentimento do Estado, mas não explicita de forma clara quais são os elementos que compõem esse consentimento, e quais as possíveis mediações envolvidas.
A convenção interamericana estabelece em seu artigo III que os Estados se comprometem a adotar as medidas legislativas necessárias para tipificar como delito o desaparecimento forçado de pessoas e a impor-lhe a pena apropriada que leve em conta sua extrema gravidade. De acordo com o artigo, o delito será considerado continuado ou permanente, enquanto não se estabelecer o destino ou o paradeiro da vítima, portanto, não há prescrição.
76 No dia 05 de abril de 2011, o Senado aprovou, após 16 anos em discussão no Congresso Nacional, a Convenção Interamericana Sobre O Desaparecimento Forçado De Pessoas.O ato internacional havia sido aprovado pela Câmara em 2008. A promulgação pelo presidente do Senado Federal ocorreu em 12 de abril de 2011.
Essa concepção vai ao encontro da definição de desaparecimento adotada nesse estudo, que é a continuidade da caracterização do desaparecimento enquanto o desfecho ou a sua localização não se tornarem conhecidos, por aqueles que compõem o seu entorno.
O Brasil ratificou, em 1998, o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional
77, que entrou em vigor em julho de 2002. Para o estatuto, o "desaparecimento forçado" se configura como crimecontra a humanidade, “quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil”
78(Art. 7).
A Assembléia Geral adotou, no dia 20 de dezembro de 2006, a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados. A convenção, em seu preâmbulo, considera os documentos internacionais referentes ao desaparecimento, como a Declaração de 1992 e o Estatuto de Roma de 1998.
No artigo 1, está estabelecido que nenhuma pessoa será submetida a desaparecimento forçado e nenhuma circunstância excepcional, seja estado ou ameaça de guerra, “instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública, poderá ser invocada como justificativa para o desaparecimento forçado”. Na convenção entende-se por desaparecimento forçado:
(...) a prisão, a detenção, o sequestro ou qualquer outra forma de privação de liberdade que seja perpetrada por agentes do Estado ou grupos de pessoas agindo com a autorização, apoio ou aquiescência do Estado, e a subsequente recusa em admitir a privação de liberdade ou a ocultação do destino ou do paradeiro da pessoa desaparecida, privando-a assim da proteção da lei.
Além da caracterização do desaparecimento forçado, a convenção prescreve que a sua prática generalizada ou sistemática constitui crime contra a humanidade, tal como define o direito internacional (Art. 5). A convenção ainda considera que o desaparecimento não poderá ser considerado crime político ou conexo a um crime político, nem crime inspirado por razões políticas, de forma que nenhuma solicitação de extradição poderá ser negada com base nesses fundamentos (Art. 4 a 8).
77 O Tratado Internacional, acedido por 106 países, cria o Tribunal Penal Internacional, com a competência para exercer jurisdição sobre os cidadãos dos países membros. A ideia partiu das experiências de criação de dois tribunais especiais temporários para punição das graves violações do direito internacional humanitário ocorridas na ex-Iugoslávia e em Ruanda. A criação desses tribunais indica o interesse da comunidade internacional na defesa pelo julgamento de crimes contra a humanidade, genocídios e crimes de guerra (NETO, Walter José de Souza. O Estatuto de Roma perante a Constituição da República Federativa do Brasil. Agosto de 2008) Acesso em: 26 jul 2012. Disponível em: http://jus.com.br.
78 O estatuto entende “ataque contra uma população civil”, como qualquer conduta que envolva a prática múltipla dos atos listados no estatuto, entre eles o desaparecimento forçado, “contra uma população civil, de acordo com a política de um Estado ou de uma organização de praticar esses atos ou tendo em vista a prossecução dessa política” (Art. 7 Parágrafo 2).
A definição da convenção internacional é bastante similar à definição da Convenção Interamericana Sobre O Desaparecimento Forçado De Pessoas, na qual a participação do Estado é fundamental para a produção do desaparecimento. Entretanto, a convenção internacional não incorporou algumas das compreensões adotadas na Declaração de 1992 e na Convenção Interamericana de 1994, como a proibição do julgamento dos autores de desaparecimento forçado por cortes militares.
De acordo com a definição de desaparecimento trabalhada na tese, não há necessariamente vinculação do Estado na produção do desaparecimento forçado ou involuntário. A não vinculação direta do desaparecimento forçado com o Estado não o exime das suas responsabilidades quanto à tomada das medidas cabíveis para localização das pessoas desaparecidas ou dos seus restos mortais, punição dos responsáveis e reparações para sobreviventes e famílias, processos considerados também pela convenção.
A convenção internacional, em seu artigo 24, declara que a vítima
79tem o direito de saber a verdade sobre as circunstâncias do desaparecimento forçado, o andamento e os resultados da investigação e o destino da pessoa desaparecida. Prevê ainda um organismo de controle independente, o Comitê sobre Desaparecimentos Forçados
80(Art. 26).
A convenção entrou em vigor em dezembro de 2010, sendo ratificada por 21 países
81. Na América do Sul, entre os países que a ratificaram, destacam-se, além do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Uruguai.
O relatório de março de 2012 do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários
82registrou um total de 53.778 casos examinados e comunicados pelo grupo aos governos, desde sua criação em 1980, abrangendo 82 Estados.
79 Na Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados, o termo vítima se refere à pessoa desaparecida e a todo indivíduo que tiver sofrido dano como resultado direto de um desaparecimento forçado (Artigo 24).
80 O comitê, composto por dez peritos, deve atuar, de acordo com a convenção com imparcialidade e
independência. Os seus membros são eleitos pelos Estados Partes e por meio de voto secreto. Os membros com mandato de quatro anos podem concorrer à reeleição uma única vez (Art. 26).
81 Albânia, Argentina, Brasil, Bolívia, Burkina Faso, Chile, Cuba, Equador, França, Alemanha, Honduras, Iraque, Japão, Cazaquistão, Mali, México, Nigéria, Paraguai, Senegal, Espanha e Uruguai.
82 O Grupo de Trabalho foi instituído pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas em 1980 para auxiliar as famílias a descobrir o destino e localização de parentes desaparecidos (23/12/2010). Acesso em: 26 jul 2012. Disponível em: http://unicrio.org.br
O Brasil, embora seja signatário dessas convenções e de outros pactos, tratados internacionais, de uma forma geral, historicamente não se caracterizou como um país que envidou esforços para tipificar o desaparecimento como delito e, menos ainda, em estabelecer o paradeiro das pessoas desaparecidas, especialmente no que se refere aos desaparecimentos políticos. A não tipificação impacta diretamente a elucidação dos casos de desaparecimentos comuns, como veremos no capítulo 2.
No que se refere à legislação nacional, grande parte daquelas que têm como objeto o desaparecimento ou que dispõem sobre ele em alguns dos seus artigos, referem-se a estatutos profissionais, especialmente militares.
No âmbito militar, marca-se a diferença entre o desaparecimento e a deserção, crime este registrado no Código Penal Militar, no qual o militar, sem licença, ausenta-se da unidade em que serve, ou do lugar em que deve permanecer, por mais de oito dias. É necessário que não seja configurada deserção para caracterização do desaparecimento. A deserção seria um ato voluntário, já o desaparecimento um ato involuntário. Entretanto, não são citadas outras possibilidades para a ocorrência do desaparecimento, que não como decorrência do próprio serviço militar, com a exceção da calamidade pública.
Art. 91. É considerado desaparecido o militar na ativa que, no desempenho de qualquer serviço, em viagem, em campanha ou em caso de calamidade pública, tiver paradeiro ignorado por mais de 8 (oito) dias. Parágrafo único. A situação de desaparecimento só será considerada quando não houver indício de deserção83.
Na rotina militar, estão previstas comunicações aos superiores hierárquicos sobre diversas questões, como viagem ao exterior, prestação de processo seletivo público. Nesse sentido, a deserção seria um crime militar que, além da ausência injustificada e desautorizada, implica na não comunicação do militar, de forma intencional.
As legislações de uma forma geral não conceituam o desaparecimento, e as profissionais fazem referência, principalmente, à situação do indivíduo, após a sua ausência do cotidiano de trabalho da organização. Nessas legislações também são referenciados os benefícios e direitos dos(as) familiares da pessoa que se encontra desaparecida como uma etapa burocrática posterior à caracterização do desaparecimento, que poderá ser considerado falecimento
84.
83Lei nº 6.880, de 9 de dezembro de 1980. Dispõe sobre o Estatuto dos Militares.
84 “2º Em caso de naufrágio, sinistro aéreo, catástrofe, calamidade pública ou outros acidentes oficialmente reconhecidos, o extravio ou o desaparecimento de militar da ativa será considerado, para fins deste Estatuto,