4. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA LUTA PELAS REFORMAS DE BASE
4.4 Definindo um programa de lutas
O conjunto de manifestações ocorridas em 1962 foi a demonstração de um movimento sindical vigoroso capaz de influir em diversos aspectos da política brasileira.
Como buscamos sempre salientar, foi um resultado do acúmulo de lutas das décadas anteriores. No entanto, tal acúmulo trouxe consigo o desafio de síntese e de hierarquização da pauta de lutas, que, por sua vez, contribuiria para a coordenação do movimento. A renúncia de Jânio Quadros, sucedida pela posse de Jango sob um regime parlamentarista, abriu a
possibilidade de que a pauta dos trabalhadores tivesse influência sobre o Executivo. No entanto, conseguir formar um “governo democrático nacionalista” não era simples: era tentar encontrar elos entre o discurso do novo Presidente com aquilo que já vinha sendo discutido e reivindicado pelo movimento sindical. Os trabalhadores atuavam nas mais diversas frentes, que, por seu turno, poderiam entrar em interlocução com várias instituições estatais. Como articular essas frentes para forçar discussões que nem sempre eram de interesse do Executivo?
É desse esforço de articulação que trataremos neste tópico. Para tanto, recuaremos nossa narrativa para o mês de novembro de 1961, quando, no calor das ações grevistas, realizava-se o III Encontro Sindical dos Trabalhadores na Guanabara.
O local escolhido para a abertura do evento, a Assembleia Legislativa da Guanabara (Palácio Tiradentes), já pode ser considerado como símbolo do crescente reconhecimento institucional. O Presidente João Goulart foi quem deu início aos trabalhos. Para uma plateia de cerca de 10 mil trabalhadores, Jango teve a oportunidade de colocar, em discurso, a unidade dos trabalhadores, assim como o retorno ao regime presidencialista, como condições essenciais para a realização das Reformas de Base; mais essencial inclusive que a formação de uma maioria no Congresso Nacional, em sua opinião. O presidente comprometia-se com a instituição do salário-família, medida igualmente defendida pelo também presente Ministro do Trabalho, Franco Montoro (PDC-SP). Na mesma plenária de abertura, os sindicalistas criticaram o Gabinete de Tancredo Neves como um gabinete de conciliação desprovido de um programa consistente de reformas. (HARDING, 1973, p. 539–40). O tom das críticas refletia as mudanças de orientação que viviam os sindicalistas comunistas que já se sentiam mais seguros para dar relevo a pontos que diziam respeito ao desenvolvimento econômico em termos mais gerais. A continuidade dos trabalhos do conclave ocorreu no Palácio dos Metalúrgicos, com a participação de cerca de mil delegados. Sobre a discussão apenas conseguimos extrair um panorama geral dado pelo jornal Novos Rumos.
Rompendo completamente o cerco estreito da luta pelas reivindicações estritamente salariais e profissionais os líderes sindicais, nesse III Encontro, afirmaram-se senhores da convicção de que a solução dos problemas específicos dos trabalhadores está na dependência da solução dos problemas de ordem, política e econômica e social do país. Afirmando como força independente o movimento sindical examinou a situação política, econômica e social nacional, tirou suas próprias conclusões e atualizou o seu programa de lutas (NOVOS RUMOS, 1961d, p. 2).
Segundo a reportagem, as resoluções do encontro foram divididas nestas três “ordens de problemas”. Por situação política, entendia-se o perigo do rompimento do regime democrático e, em geral, da Constituição de 1946. A avaliação do encontro é de que a greve
da legalidade, junto com a articulação de Brizola com as forças amaradas, foi crucial para que se evitasse o golpe de Estado. Já a situação econômica representava um quadro de estagnação e inflação que não seria superado “enquanto não forem removidas suas verdadeiras causas, que estão na estrutura arcaica e feudal em que se assenta nossa economia”. A situação social era identificada pelos efeitos do processo inflacionário sobre os trabalhadores, descrito por um estudo trazido pela bancada de São Paulo — provavelmente em colaboração com o DIEESE.
Porém, o problema do custo de vida de modo algum poderia ficar restrito a soluções advindas da revisão salarial. A ênfase do encontro era de incorporar à pauta sindical as reformas de base apontadas nos discursos de Jango170.
[...] a resolução conclui que não se deve enfrentar a questão combatendo somente as suas consequências. Ao invés do combater os efeitos, cita a resolução, devem-se atacar as causas básicas. Dentre estas, que estão a exigir um ataque Imediato, pronto e decidido, pode-se apontar, justamente, as deficiências estruturais da economia nacional, que se localizam em setores fundamentais, quais sejam: estrutura agrária, estrutura tributária e estrutura do comércio exterior (Ibidem, p. 2).
Apesar de termos poucos dados sobre o III Encontro, podemos supor que as reformas propostas pelo PTB que tomam a forma das Reformas de Base — a partir da convenção desse partido em 1959 — facilitaram o estabelecimento de uma contrapartida que o movimento sindical poderia pleitear em troca da restituição do regime presidencialista. Como vimos no tópico anterior, esse processo político passava pela luta de formação de um “gabinete nacionalista” que culminou na greve geral de julho de 1962. O IV Encontro Nacional Sindical, que ocorreu no mês seguinte, não se restringiu a cobrar um alinhamento programático, mas a estabelecer arenas em que os diversos debates seriam tratados. Como é bem sabido, foi nesse encontro que se criou o CGT. Interpretamos a formação dessa intersindical como uma etapa importante na articulação de arenas de debates que teriam prosseguimento nos meses posteriores.
O IV Encontro foi realizado na cidade de São Paulo, no Cine São José, e contou com cerca de 2.500 delegados. As sínteses de suas discussões podem ser encontradas em dois documentos. O primeiro documento era o “Programa de 18 pontos”:
1. Luta concreta e eficaz contra a carestia, mobilizando todos os meios de transporte para a condução de gêneros essenciais dos centros produtores para os consumidores, chegando-se, se necessário, até o confisco dos estoques existentes;
170 Um apanhado dos discursos que permite identificar o modo como o Presidente compreendia o tema das Reformas de Base pode ser encontrado em GOULART, João. “Desenvolvimento e Independência”. Discursos 1961 e 1962. Brasília, 1962-1963.
2. Reforma agrária radical e imediato reconhecimento dos sindicatos dos trabalhadores rurais;
3. Reforma urbana como única solução para o problema da casa própria.
4. Reforma bancaria com a nacionalização dos depósitos
5. Reforma eleitoral, com direito de voto aos analfabetos, aos cabos e soldados das forças armadas e a instituição da cédula única para as eleições de 7 de outubro 6. Reforma universitária e a participação de 1/3 de estudantes nas Congregações,
Conselhos Departamentais e Conselhos Universitários;
7. Ampliação da atual política externa do Brasil pela conquista de novos mercados, em defesa do desarmamento total e autodeterminação dos povos;
8. Repúdio e desmascaramento da política financeira do Fundo Monetário Internacional;
9. A aprovação da lei que assegure o direito de greve, nos termos do projeto aprovado pelos trabalhadores em suas conferencias e congressos;
10. Encampação com tombamento de todas as empresas estrangeiras que exploram os serviços públicos;
11. Controle da inversão de capitais estrangeiros no país e limitação da remessa de lucro;
12. Participação dos trabalhadores nos lucros das empresas;
13. Revogação de todo e qualquer acordo lesivo aos interesses nacionais;
14. Fortalecimento da Petrobras com o monopólio estatal da importação de óleo bruto, da distribuição de derivados a granel, da indústria petroquímica e a encampação das refinarias particulares;
15. Medidas concretas e eficazes para o funcionamento da Eletrobrás;
16. Criação da Aerobras instituindo o monopólio estatal na aviação comercial;
17. Manutenção das atuais autarquias que exploram o transporte marítimo;
18. Aprovação da lei que institui o 13º salário.171
O segundo documento constituía o “Manifesto à Nação”, um texto que introduziu esses 18 pontos para a população. O tom do documento era de desconfiança das possibilidades de o Executivo implantar os pontos, mesmo se conquistada a volta do regime presidencialista.
[...] reafirmamos mais uma vez que não haverá solução favorável ao povo pela forma como procedem as cúpulas partidárias e o Governo, com conciliações que atendem aos trustes e monopólios, seus agentes, inimigos da Nossa Pátria.
Só com a participação dos trabalhadores, dos patriotas civis e militares derrotaremos nossos inimigos.172
Não é difícil identificar ecos da linha política do PCB. Os dirigentes sindicais comunistas que lideravam o Encontro e as composições feitas por Jango para formar seus gabinetes ministeriais eram expressões de “vacilações” da burguesia nacional que, por sua vez, costumava “conciliar” com o “latifúndio” e o “imperialismo”.
Examinando profundamente e coletivamente a situação econômica, política e social do nosso país, concluí-mos que não houve, que não se tomou nenhuma medida eficiente para enfrentar as causas do atraso e da miséria em que vive o nosso povo.
171 IV Encontro Nacional Sindical, “Programa de 18 pontos”, Reproduzido integralmente em Leite (1983, p. 88).
172 IV Encontro Nacional Sindical, “Manifesto à Nação”, Reproduzido integralmente em Telles (1981, pp. 171–
3).
Por isso estamos convencidos de que se não lutarmos com energia, essa situação se agravará muito mais (Ibidem).
É interessante ressaltar que o documento também deixa transparecer certo sentimento de que mesmo direitos já conquistados não seriam implantados sem a pressão popular.
Reclamamos medidas imediatas e eficientes do Governo contra a insuportável alta constante do custo de vida e contra os exploradores do povo. Lutaremos pela aplicação integral de todas as conquistas das leis sociais e trabalhistas e da Lei Orgânica da Previdência Social. (Ibidem).
Um mês após o IV Encontro, ocorreu a renúncia do Primeiro Ministro Brochado da Rocha. O Congresso, em seguida, aprovou uma emenda ao ato adicional, antecipando o plebiscito para janeiro e permitindo a Jango formar um novo Gabinete, chefiado por Hermes Lima. O processo de sucessão de ministérios desse mês foi tenso, envolvendo a participação do movimento sindical no que ficou conhecido como a Greve do Plebiscito. Esta greve ocorreu nos dias 14 e 15 de setembro (sexta-feira e sábado) e contou com uma adesão menor que a greve nacional anterior, embora replicasse seu modelo: maior mobilização na cidade do Rio de Janeiro e em Santos, maior incidência nos setores de transportes urbanos e trabalhadores da orla marítima e forte esquema repressivo por parte das forças policiais de nível estadual. Como foi decretada greve geral na aviação comercial, os parlamentares
“presos” em Brasília puderam votar na antecipação do Plebiscito para 06 de janeiro. As cidades afetadas foram, além das duas já citadas, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, São Paulo e Santos173.
O novo Ministro do Trabalho, João Pinheiro Neto, assumiu o cargo com a tarefa imediata de garantir a soltura dos sindicalistas presos. O novo ministro era um político bastante alinhado a Jango e, com sua nomeação, abriu-se novamente a oportunidade de ter um Ministério do Trabalho com relações abertas às demandas de sindicatos democraticamente eleitos. Do mesmo modo, significou uma nova esperança ao ver um ministério comprometido com a fiscalização das leis trabalhistas. A diferença básica dessa oportunidade com a anterior
— a saber, a da gestão do João Goulart no ministério, em 1953 — é que o movimento sindical havia, doravante, avançado consideravelmente em torno da unificação e de um programa de reivindicações e de coordenação de intervenções públicas.
173 A análise mais completa da greve é de Melo (2013, pp. 225–8). Para a (pequena) repercussão da greve na cidade de São Paulo, conferir Grieco (1979, p. 296).
Preocupado em dar respostas às reivindicações feitas nas greves gerais, Pinheiro Neto assumiu como prioridade duas questões: a revisão do salário mínimo e o sindicalismo rural.
Deixaremos para abordar a segunda questão mais adiante. No que diz respeito à primeira, o Ministro contou com o apoio de Jango, que convocou uma delegação do CGT composta por quatro líderes sindicais: Pellacani, Pacheco, Correia e Bastos. O resultado da reunião foi a obtenção por parte do Gabinete de um crédito de confiança da intersindical de 30 dias para só então garantir três itens: revisão do salário mínimo, controle do preço dos gêneros de primeira necessidade e a participação do CGT na discussão do futuro gabinete caso o presidencialismo fosse restituído.
A afinidade de João Pinheiro com o programa do CGT ia além das atribuições possíveis para a sua pasta. Logo no início do mês de dezembro, o ministro fez declarações contrárias ao envio, por parte de Jango, de uma comissão para renegociar a dívida externa com o FMI174. Essa comissão precedeu a visita do presidente John Kennedy ao país. Pelo fato de o ministro ter feito denúncias de que haveria uma “ditadura financeira”, o Presidente optou pela exoneração de Pinheiro Neto por receio de que as relações diplomáticas dos dois países viessem a ser comprometidas. Por mais que, como veremos, o CGT manifestasse críticas à atuação do ex-ministro na condução da política salarial do governo, a entidade se viu obrigada a defender a restituição de seu cargo. Em substituição na gestão do ministério, assumiu Almino Afonso, que deu continuidade à política do predecessor e, em alguns pontos, aprofundou-a. Nas três próximas seções teremos a oportunidade de verificar a relação do Ministério do Trabalho com um movimento sindical provido de instrumentos de pressão e um programa de reivindicações abrangente.