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Os congressos sindicais

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 104-121)

2. A INDUSTRIALIZAÇÃO

2.5 Os congressos sindicais

associarem com estrangeiras caso necessitassem atualizar seu equipamento industrial. De fato, ao atentarmos para a política de câmbio, devemos levar em conta a advertência de Werner Baer: “Em meados de década de 1950, mudou o caráter do sistema cambial, deixando de ser considerado como simples instrumento para enfrentar as dificuldades do balanço de pagamentos e passando a ser visto, antes, como um método para promover conscientemente a industrialização” (1988, p. 47). Além da instrução 113, ainda havia a Lei das Tarifas e a Lei dos Similares93 para favorecer o ingresso de investimentos externos. Esse conjunto de políticas favoreceu um aumento da presença do capital estrangeiro na economia, o que ocasionou pesadas críticas por parte do movimento sindical, como veremos a seguir.

federação na tentativa de, senão substituir a direção superior, ao menos influir sobre suas políticas94.

Para entender essa questão, o estudo mais pertinente ainda é o de Albertino Rodrigues (1968). Após atestar que os dirigentes sindicais ligados à estrutura do MTIC95 vinham perdendo postos nos principais sindicatos do país em meados da década de 1950, Rodrigues observa que eles ainda se encontravam “encastelados” nas entidades de nível superior, ou seja, nas federações e confederações. A explicação se encontrava no fato de que o sistema eleitoral dessas entidades se beneficiava da pluralidade de pequenos sindicatos de mínima representatividade, espalhados por categorias de menor participação econômica e/ou presentes em cidades de pequeno porte96. Como, para a eleição da federação, cada sindicato representava um voto, independentemente da representatividade, era quase natural que o grupo dirigente da instância superior se perpetuasse. Além desse dispositivo eleitoral, contava bastante a atuação do MTIC, podendo invalidar a posse de chapas contrárias aos dirigentes de determinada federação. Desse modo, políticas por parte do Ministério mais favoráveis à democracia sindical tinham larga influência sobre o sucesso de dirigentes próximos à base nos níveis superiores do sindicalismo.

Quanto aos níveis inferiores, havia uma tendência para o crescimento do número de entidades e membros, o que foi modificando a relação entre cada sindicato individual e o Ministério. Nos anos 1950, o número de sindicatos cresceu 70% e se somaram 18 federações às 49 existentes no início da mesma década. Tudo isso dificultava cada vez mais o controle do MTIC, mesmo nos subperíodos mais antidemocráticos97.

O caminho mais rápido para a unificação de posições de diretorias democraticamente eleitas passava então pela realização de conferências e congressos. Nesses encontros, delegados dos principais sindicatos poderiam ser eleitos, e suas posições poderiam prevalecer

94 A Federação dos Metalúrgicos de São Paulo dos anos 1950 consistiu em um interessante estudo de caso sobre as disputas em torno de dois grupos comunistas, os trabalhistas com o apoio do vice-presidente Jango e os ministerialistas que passaram a apoiar o governado Jânio Quadros. Conferir Harding (1973, pp. 410–7) e Lopes (1992, pp. 51–2), entre outros. Para o estudo de caso de como a eleição da direção de um pequeno sindicato assumiu importância para as disputas em torno da federação, conferir o estudo de Braz Araújo (1984, pp. 30 e 54).

95 O termo utilizado por Rodrigues é o de “pelegos” (sempre com aspas). Embora corresponda à nossa definição, que busca sempre relacioná-los ao Ministério do Trabalho, o autor considerava que este grupo “representa um resquício do paternalismo nas relações obreiro-patronais entre nós” (1968, p. 153).

96 “É impressionante o elevado número de sindicatos com irrisória quantidade de sócios que não lhe garante representatividade de fato expressiva. Basta dizer que metade dos sindicatos tem 300 sócios e 20 por cento têm menos de 100. (...) É evidente que temos nesses e em muitos outros casos uma entidade meramente nominal, cuja vida associativa é quase nula: enfim, é um sindicato artificial” (RODRIGUES, 1968, p. 136).

97 Neste ponto seguimos o raciocínio de HARDING (1973, pp. 318–23).

sobre as de pequenos sindicatos que davam suporte às federações. Seguiremos, portanto, a trajetória dessas reuniões.

Os metalúrgicos paulistanos novamente tomaram a dianteira da categoria. Nos dias 13 a 19 de fevereiro de 1955, realizaram a I Conferência Municipal dos Trabalhadores e Trabalhadoras Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico de São Paulo. Essa conferência foi marcada pelo trabalho que o sindicato vinha desenvolvendo, desde o início da década, de vigilância do cumprimento da CLT nas empresas, luta esta que ficava atestada nas sucessivas denúncias nos jornais da categoria, assim como no temário do evento em questão98. Questões mais amplas como a pauta desenvolvimentista ficaram para a formulação de posições e votação de delegados na Conferência Nacional (LOPES, 1992, pp. 63–4). No ano seguinte, no dia 5 de abril, foi a vez dos trabalhadores do Distrito Federal realizarem sua própria Conferência Municipal. Na ocasião, também estabeleceram pautas e delegados para a Conferência Nacional (JORDAN, 2000, p. 343).

Foi realizada em Volta Redonda, município que sedia a Companhia Siderúrgica Nacional, a I Conferência Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico, entre os dias que ocorreu no mesmo mês, do dia 27 de abril ao dia 1º de maio de 1956. O encontro contou com delegados do DF, RJ e SP e pequenas delegações de MG, RS, PE, PB, PR e PA. O principal resultado foi a criação de estruturas regionais que permitiriam a construção de uma série de quatro congressos nacionais bienais, a começar no ano de 1957 (IORIS, 2009, p. 213; JORDAN, 2000, p. 343). Desse modo, nos dias 14 a 17 de novembro, realizou-se o primeiro Congresso na cidade de Porto Alegre-RS. Nesse encontro, consolidou-se o trabalho de organização iniciado na conferência que lhe precedeu, formando- se a Comissão Nacional dos Metalúrgicos presidida por Benedito Cerqueira, o que demonstrou o protagonismo dos cariocas na organização. Segundo Thomas Jordan, essa proeminência fez-se sentir até a década seguinte, uma vez que entre 1961 e 1963, dois dos doze membros da comissão procediam do estado da Guanabara, além da liderança do próprio Cerqueira (JORDAN, 2000, p. 243).

Entre os dois anos que separaram o primeiro Congresso do segundo, os metalúrgicos conseguiram realizar encontros estaduais da categoria, o que, sem dúvida, demonstrou maior

98 A pauta continha os seguintes itens: previdência social; salário mínimo; aumento de salário, assiduidade, multa, suspensão, etc.; higiene e segurança do trabalho; imposto sindical e Fundo Social Sindical; direitos em face da CLT e sua divulgação; defesa do poder aquisitivo; estudo da defesa dos trabalhadores siderúrgicos em face de seus direitos assegurados na CLT; reforma estatutária dos sindicatos; o valor da imprensa sindical;

elaboração da carta dos direitos dos trabalhadores metalúrgicos de São Paulo para ser apresentada na Conferência Nacional; eleição de delegados para a Conferência Nacional (O METALÚRGICO, 1956b, p. 1).

amadurecimento organizacional. No estado de São Paulo, o I Congresso Estadual foi realizado em Ribeirão Preto, nos dias 20 a 22 de fevereiro de 1959. No mês seguinte, foi a vez dos trabalhadores do Distrito Federal — em conjunto com os do Rio de Janeiro — realizarem um congresso equivalente (LOPES, 1992, p. 80; TELLES, 1981, p. 77). Esses dois congressos serviram de preparativos para formação de delegações para o II Congresso Nacional, realizado nos dias 7 a 12 de abril em Itanhaém. Participaram delegações de 12 estados da federação, divididos em cinco comissões.

Na tentativa de investigar uma evolução da pauta política da conferência e dos dois congressos nacionais dos metalúrgicos, é possível identificar que a pauta99 da Conferência Nacional dos Metalúrgicos girou em torno da legislação trabalhista. Isto reforçava o debate salarial — reajustes e manutenção da hierarquia — que sempre teve uma atenção especial nesses encontros. A preocupação era de que, diante de um cenário de industrialização, as novas e velhas indústrias respeitassem os direitos dos trabalhadores.

[...] nesses últimos vinte anos, no Brasil essa indústria [metalúrgica] tem se desenvolvido e se expandido, apesar, de todas as barreiras que lhes são levantadas pelos grupos monopolistas estrangeiros. [...] Entretanto, ao mesmo tempo (...), aqueles que mais contribuíram com seus esforços veem reduzidos muitos dos seus direitos, transformados em letras mortas nas leis sociais (A VOZ DO METALÚRGICO, 1955. p. 1).

No item de maior interesse para o presente capítulo, “Defesa da indústria metalúrgica e da economia nacional”, podemos observar uma preocupação incipiente com a presença do capital estrangeiro na estrutura produtiva e com a manutenção de posições conquistadas pelas empresas estatais nas indústrias de base:

DEFESA DA INDÚSTRIA METALÚRGICA E DA ECONOMIA NACIONAL Medidas visando impedir a concorrência desigual da indústria estrangeira com a indústria metalúrgica nacional; defender, consolidar e impedir a venda da companhia siderúrgica nacional; apoio ao Congresso de Defesa dos Minérios; defesa da Petrobras e do monopólio estatal do petróleo; criação da Liga de Defesa de Volta Redonda. A conferência autorizou sua Comissão Permanente a entrar em contato com todas as entidades patrióticas, democráticas, de indústrias, etc. tendo em vista o cumprimento dessa resolução (O METALÚRGICO, 1956a, pp. 5 e 6).

O I Congresso Nacional dos Metalúrgicos seguiu o mesmo padrão da conferencia, no que pese seu maior alcance organizacional insistindo na pauta referente à legislação100. No

99 Melhoria das condições de vida e de trabalho; aplicação e ampliação da assistência e seguros sociais;

ampliação das escolas técnicas e profissionais; defesa das liberdades sindicais e democráticas; organização regional e nacional dos metalúrgicos; defesa da indústria metalúrgica e da economia nacional; e proposições de mensagens.

100 Liberdade e autonomia sindical; melhoria de condição de vida e trabalho; aplicação e ampliação da Previdência e Seguros Sociais; defesa das liberdades democráticas e da soberania nacional; legislação Sindical e

entanto, já é possível identificar no decorrer daquele ano, 1957, uma das manifestações dos sindicatos em torno de pautas industrializantes.

A questão da origem do capital investido na produção, simbolizada sobretudo na Instrução 113, foi um grande alvo de denúncias do movimento sindical. Nesse caso, a preocupação dava-se pela ameaça de destruição de companhias nacionais consolidadas e sua substituição por empresas cujas tecnologias poupavam mão de obra. Esse foi o caso da campanha dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Paulo contra a vinda da empresa American Can.

Um truste norte-americano ameaça fechar inúmeras fábricas de latas em São Paulo e lançar ao desemprego perto de 2000 trabalhadores metalúrgicos...

Pretendem montar em São Paulo uma grande fábrica de latas e, de acordo com a instrução 113 da SUMOC, poderá trazer para o Brasil máquinas modernas (...). Com esta facilidade o truste ianque em pouco tempo liquidará os seus concorrentes nacionais, não hesitando mesmo em vender o produto, por algum tempo, a baixo custo para, depois de liquidada a concorrência, colocar os preços que desejar.

[...] Portanto, o governo não pode de maneira alguma permitir que o truste aqui penetre prejudicando aos industriais e lançando grande número de operários ao desemprego. (O METALÚRGICO, 1957, p. 7).

A campanha contra a American Can contou com a adesão da União Nacional dos Estudantes e da Federação das Sociedades dos Amigos de Bairro. Culminou com um grande comício em 1958 no centro de São Paulo (CHEMP, 1958, p. 4). Três anos antes, no Distrito Federal, os metalúrgicos da Carrosserie Grassi haviam defendido, junto com os seus patrões, a proibição da importação de chassis, tendo em vista que esse produto já fazia parte da cadeia de produção paulista.

É interessante notar que Eugênio Chemp, dirigente metalúrgico paulista, ao tecer considerações sobre ambas as lutas, ofereceu indícios de que a política de “defesa da indústria nacional” não era consenso entre os operários.

Surgiram algumas incompreensões, entre outros setores de trabalhadores sobre essa política de defesa da nossa indústria. Isso, motivado por uma política sindical estreita, voltada fundamentalmente contra a indústria nacional e não contra o imperialismo norte-americano, e outro lado, devido a manobras dos divisionistas e inimigos da classe operária, alguns trabalhadores foram induzidos a acreditar que os dirigentes sindicais se tinham vendido aos patrões.

Mas a ampla discussão nas portas das empresas, os comícios nos refeitórios, dentro dos sindicatos, na rua e, sobretudo através dos alto-falantes instalados nos carros de propaganda contra a American Can, avalanche de cartazes e boletins e o próprio comício, esclareceram grande parte dos trabalhadores e populares (CHEMP, 1958, p. 4).

Justiça do Trabalha; defesa da Indústria Nacional e do Ensino Técnico Profissional; Organização (regional, nacional e internacional) dos delegados representando Federações e Sindicatos de Metalúrgicos; e convênios e recomendações da OIT (LOPES, 1992, p. 82).

Outro alvo de denúncias dos metalúrgicos foi a Rede Ferroviária Federal S.A. que estava realizando a importação de vagões e outros materiais ferroviários dos EUA, apesar de esses produtos já serem produzidos no Brasil. Esse tema foi um ponto relevante de discussão nos preparativos para o II Congresso Nacional dos metalúrgicos. É o que podemos observar em uma das teses preparatórias, Defesa da Indústria e da Economia Nacional, elaborada no II Congresso dos Metalúrgicos do Estado de Minas Gerais de dezembro de 1958. Posicionando- se no eixo de uma disputa característica da década posterior, os metalúrgicos propuseram aliar-se “conjuntamente com as correntes nacionalistas em defesa da indústria e da economia nacional [...] reforçando a frente única nacional capaz de modificar a política e a correlação de forças que ainda são um entrave ao nosso desenvolvimento” (O METALÚRGICO, 1959a, p.

7). O caso ferroviário então aparecia como um ponto desse embate mais geral:

Nesse particular, temos a sublinhar a questão por nós levantada em defesa da indústria de material ferroviário nacional.

Os metalúrgicos e todo o movimento sindical com o apoio da opinião pública fizeram sentir ao governo a política criminosa levada a cabo pelo Sr. Renato Feio, à frente da Rede Ferroviária Federal S. A. Política esta que não somente contraria as metas do governo no setor ferroviário, como está levando a bancarrota a indústria de material ferroviário nacional, devidamente aparelhada para atender as necessidades de nosso parque ferroviário. Com extrema documentação – sindical, parlamentar, jornalística, etc. – ficou provado a participação direta e efetiva, do presidente da Rede em defesa do truste norte-americano “THE BUDD COMPANY”, hoje, camuflado sobre o rótulo de uma empresa nacional, a MAFERSA. Apesar das provas que colocam o Sr. Renato Feio como um inimigo declarado e consciente contra os interesses nacionais, nada de positivo foi feito por parte do governo para afastar da direção da Rede este senhor e todos aqueles que no setor de nossas ferrovias seguem a sua orientação entreguista (O METALÚRGICO, 1959a, p. 7).

Fato interessante era a preocupação em verificar o cumprimento das “metas do governo” e em denunciar a infração delas, o que demonstra um claro interesse do congresso metalúrgico em participar da condução da política industrial. No entanto, esse interesse não encontrava eco no governo de JK.

Fatos esses poderão ser alinhavados para demonstrar que o senhor Juscelino não tem levado em conta a opinião dos trabalhadores, não tem neles se apoiado para levar a bom termo as diretrizes nacionalistas que todos reclamam e sentem com única capaz para impulsionar nosso desenvolvimento econômico e tornar menos angustiante e miserável a vida de nosso povo. Julgamos ser tempo de posições claras. Assim exigem os trabalhadores e o movimento sindical (Ibidem, p. 7).

Na edição do jornal O Metalúrgico em que se apresentam as resoluções do II Congresso, os metalúrgicos ainda tiveram que protestar contra o projeto de lei da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, que possibilitaria um empréstimo do Banco Eximbank à RFFSA para a importação de material ferroviário. No ano de 1959, trinta e quatro entidades

sindicais paulistas entregaram um memorial ao governador de São Paulo, Carvalho Pinto, no qual salientavam que os trabalhadores:

tomados de inquietação ao saber que se cogitavam medidas que ignoravam as raízes da indústria nacional e a capacidade do trabalhadores brasileiro (...) o Estado estará atuando como agente de desequilíbrio da paz social fator perturbador na economia e instrumento de destruição da indústria brasileira, tão evidentes são as consequências dessa ato: desemprego, desassossego social, aumento do volume de recursos industriais ociosos, queda na procura de matérias-primas nacionais, descrédito ao produto do pais e cessação de atividade em um grande setor de indústria de base na nação (O METALÚRGICO, 1959c, p. 4).

O jornal A Voz do Metalúrgico, que tinha no seu diretor Izaltino Pereira um ardoroso defensor da indústria nacional, contribuiu pessoalmente na confecção de dossiês e teses sobre esse ponto. Pereira teve a oportunidade de participar da direção da Comissão de Desenvolvimento Econômico Nacional na II Convenção dos Trabalhadores do Distrito Federal de agosto de 1958. Nesse relatório de comissão, podemos ver uma tentativa de articular a luta pela defesa da indústria nacional de material ferroviário com outras lutas do período:

Os interesses dos trabalhadores e do movimento sindical estão intimamente ligados à defesa e ao progresso da indústria nacional. Graças à vigilância dos trabalhadores e do povo, pôde-se impedir a instalação em nosso país da American Can Co, que pretendia aqui se instalar em condições excepcionais, com o fim de liquidar a indústrias de estamparia e lataria nativa que se encontra perfeitamente aparelhada para atender o nosso consumo interno, e mesmo, se necessário duplicar a sua atual produção.

Graças, ainda, às lutas dos trabalhadores (...), conseguiu-se manter a Petrobras, a Cia. Siderúrgica Nacional, a Eletrobrás, etc. dentro dos princípios estabelecidos pelo povo; impediu-se, há meses passados, a transferência da “Loched Air Services” que pretendia controlar todo o serviço de manutenção da aviação comercial em nosso país (A VOZ DO METALÚRGICO, 1958, p. 6)

A comissão estabeleceu seis resoluções. Dentre os pontos (de “a” a “f”), cabe destacar a articulação da defesa da indústria de material ferroviário com as condições de vida dos trabalhadores metalúrgicos.

e) manifestar ao Sr. Ministro do Trabalho medidas no sentido de amparar os trabalhadores dispensados daquelas empresas que se encontram em dificuldades por falta de encomendas de material ferroviário;

f) congratular-se com a comissão indicada pelo conselho nacional da CNTI, no Distrito Federal, pelo seu esforço e trabalho nas investigações e estudos que vem procedendo no sentido de defender o interesse de nossa indústria de material ferroviário e os trabalhadores desse setor, vítimas de desemprego (Ibidem, p. 6)

Segundo os diversos artigos do jornal acerca do assunto, o caso das práticas de importação de material ferroviário já tinha ocasionado “a dispensa de cerca de 500 operários das firmas Santa Matilde, em Minas Gerais, Fábrica Nacional de Vagões, no Distrito Federal, e COBRASMA, em São Paulo, por falta de serviço” (A VOZ DO METALÚRGICO, 1958, p. 6). Se essa política continuasse, seria um total de 3.000 empregados que estariam ameaçados de demissão.

Como síntese de todas essas movimentações sindicais, o II Congresso Nacional dos Metalúrgicos de 1959 desdobrou o ponto de pauta “defesa da indústria nacional e do ensino profissional” em 10 itens (apresentados no quadro 01, pp. 114-5), ampliando sobremaneira a pauta geral do congresso101. A partir das descrições do número de questões abordadas, podemos observar como se construiu uma demanda por maior controle do Estado no processo de industrialização: monopólio estatal em áreas de infraestrutura, proteção da indústria nacional e restrição ou expropriação de indústrias estrangeiras. O que podemos observar, ainda, é que a experiência do processo de industrialização no período JK fez com que os sindicatos, em sucessivos encontros, fossem passando de posições gerais a respeito da industrialização para posições cada vez mais precisas102.

Segundo a análise de Rafael Ioris (2009, pp. 230–1) acerca do mesmo encontro, os metalúrgicos estavam estabelecendo um programa nacionalista de industrialização que pudesse fazer com que as indústrias nacionais pudessem concorrer, nas mesmas condições, com a indústria estrangeira. O autor ressalta a percepção que a categoria vinha construindo em torno da ideia de autonomia por meios da integração de elos de cadeia industrial com base em indústrias nacionais privadas e estatais. Para o autor, o maior exemplo dessa construção foi a tese apresentada no II Congresso Nacional de Metalúrgicos contra a “Desnacionalização da Indústria Automobilística”.

Evitando ater-nos à discriminação da nacionalização de cada elo da cadeia automobilística reivindicada pelos metalúrgicos, consideramos interessante a tese apresentada no congresso em virtude de sua distinção conceitual (e mesmo de pressuposto analítico) com relação aos documentos governamentais, principalmente aos elaborados na época pelo Grupo de Estudos da Indústria Automobilística (GEIA). Segundo a tese apresentada no Congresso, os órgãos governamentais confundiam “nacionalização” com “fabricação nacional”. Para melhor entender essa distinção, apresentaremos um excerto de um documento do GEIA citado pela tese, porém sem a devida referência:

À medida que as novas fábricas de peças (...) iniciam sua produção, aumenta o contingente de nacionalização das unidades automotivas fabricadas, reduz-se a necessidade de importação por unidades, podendo ser aumentado o volume de produção, sem que isso venha a redundar em efeitos cambiais excessivamente onerosos para a Balança de Pagamentos. (A VOZ DO METALÚRGICO, 1959a, p.

6)

101 Previdência e assistência social; relações com todos os povos; aperfeiçoamento do regime democrático;

liberdades democráticas e sindicais; defesa e ampliação da indústria nacional e do ensino técnico profissional; e direito a greve. (A VOZ DO METALÚRGICO, 1959b, pp. 8 e 3)

102 Evitamos o termo “específico” pelo fato de, no jargão sindical, esse termo ser muitas vezes entendido como referindo-se a questões salariais e de condições de trabalho.

Apresentaremos, em seguida, a contraposição da tese do Congresso:

[...] não é somente o fato das peças e dos automóveis serem fabricados no Brasil que se tornam automaticamente nacionais. Não podemos esquecer-nos do fato que, nas bases em que foi colocada a instalação de fábricas de motores veículos no país, dentro em breve, sofreremos no Balanço de Pagamento, uma grande sangria, não de exportação (sic) de peças, pois estas passaram a ser construídas aqui, mas de remessas de lucros para o exterior. Dessa forma, na medida em que for se desenvolvendo a fabricação de veículos, desenvolver-se-á a remessa de lucros e, consequentemente, teremos sempre um déficit na balança de pagamentos pelo fato de não se ter querido constituir uma verdadeira indústria nacional de veículos (Ibidem, p.6).

Por fim, gostaríamos de indicar possíveis relações da constituição das pautas industrializantes dos congressos dos metalúrgicos com os congressos de outras categorias do mesmo período histórico. Em nossa pesquisa, nos periódicos sindicais disponíveis no Arquivo Edgard Leuenroth, podemos identificar o movimento de centralização política em trabalhadores de diversos setores econômicos. Embora não tenhamos investigado a fundo a trajetória político-organizacional desses outros segmentos, apenas pretendemos explicitar que as preocupações são as mesmas já apresentadas no II Congresso Nacional dos Metalúrgicos

— monopólio estatal no setor de infraestrutura, restrição do capital externo e defesa da indústria nacional — porém com diferentes ênfases.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 104-121)