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I DENTIFICANDO AS CATEGORIAS DA QUALIDADE DE VIDA DOS CATADORES DA

ponte, havia um espaço onde os catadores jogavam futebol diariamente após o almoço. Na sede atual, não é possível praticar tal esporte, pois o local não é propício em termos de espaço físico, nem nas condições do solo. Outros encontram seu lazer nos finais de semana.

Então, as respostas sobre o questionamento acerca da hora de lazer concentram-se em sair, visitar os filhos, beber, dormir, como aponta um catador : “ [...] nós tem que se divertir também né viver só trabalhando tem que trabalhar e fazer festa né - trabalha pra trabalha o que sobra a gente a gente vai num parque vai na piscina com as crianças sorvete é tudo quanto é coisa é isso é aquilo né é bom dar pra eles agora que agora eles não tem responsabilidade ainda responsabilidade eles não tem ainda né nessa parte de dinheiro ainda pegar o dinheiro na mão então muitas coisas agora que é mais novinho é bom que eles tenham aí mais pa frente (C4).” E outro: “Ah eu saio dançar + a gente faz festa é isso que eu procuro fazer né - é ficar em casa eu não consigo + daí como eu tenho várias amigas assim - vários amigos a gente marca com a galerinha toda e se manda - só aparece no outro dia é triste (risos) (C22).” Mas, alguns dizem não ter momentos de lazer, só trabalham ou passam seu tempo de lazer apenas em casa descansando, conforme aponta uma catadora quando perguntada sobre essa questão: “Ai dormi - dormi é tão bom dormir cara - olha meu sono tá atrasado dormir é a melhor coisa pra se fazer - durmo durmo que é a melhor coisa que a gente faz - ah não tá louco.” (C13)

Como o trabalho de catação é uma atividade extremamente cansativa, o lazer parece se revelar para eles com o que Marcellino (2001, p. 45) classifica como válvula de escape da falta de QV ou até da baixa QV, de uma sociedade injusta e perversa. É raro abordar tal questão como a possibilidade da vivência de valores diferenciados no lazer, de forma que a QV não se fizesse presente apenas nas férias, feriados ou finais de semana, mas no cotidiano da vida das pessoas, mediante a consideração de valores que questionem a própria ordem estabelecida.

Há autores (Adriano et al, 2000; Buss, 2000; Dóro et al, 2004; Fortunato e Ruscheinsky, 2003; França e Rodrigues, 1997; Hollar, 2003; Zular, 2006)que relacionam o emprego ou trabalho a QV. Para os catadores, não é tão importante definir se a catação é um emprego, um trabalho ou profissão, o que realmente importa é a possibilidade de, com este serviço, conseguirem renda, porque é com esta que podem fazer contas, comprar coisas para os seus filhos e, catando, conseguem o dinheiro necessário. Um catador respondeu desta forma ao ser questionado sobre considerar este trabalho um emprego: “É pra mim é um emprego - que eu faço minhas conta compro pro meus fio compro carçado pro meus fio - sei

que eu cato eu ganho tem conta pra pagá né (C17).” E quanto a possibilidade de sentir vergonha pelo trabalho que desempenha informou: “Não - não tenho vergonha + tenho vergonha de pedir ++ eu fico assim imaginando comigo quando encontro assim as pessoas pedindo - que eu não fazeria a mesma coisa não - eu perfiro trabaiá aqui do que pedir [...]

(C17).” E outro completou: “Eu não [...] Porque eu não tô roubando né nada - tô trabalhando no papelão - a gente tem que ter vergonha quando é pá roubar né (C19).”

Uma questão inerente ao trabalho é a forma como este é realizado, algo que faz com que muitos catadores permaneçam no mesmo lugar durante anos: a autonomia, que é algo que se mostra muito importante para os catadores – o fato de não terem a quem obedecer, de estarem isentos de muitas regras inerentes às empresas comuns ou de não ter de prestar contas do seu trabalho, tudo isso traz a eles significativa satisfação. Portanto, autonomia no trabalho pode ser vista também como QV, conforme se pode observar na fala de um catador: “Ah eu gosto de puxar papel + o melhor é não ter ninguém pra ficar mandando o cara trabalha a hora que quer quando não quer não trabalha + eu eu gosto de trabalhar nesta área (C7)”. A liberdade de ter um trabalho no qual eles possam cumprir poucas regras coletivas e trabalharem conforme melhor lhes convêm é motivo para permanecer nele e na atividade exercida, não é tão presente a relação de subordinação a um chefe.

E, quando perguntados se trocariam o trabalho de catação por algum outro, assim se expressam: “Não + eu - eu não tenho patrão que me mande né - mas não é por aí - pode aparecer um patrão por aí que diga que vai pagar por dia cem real pra mim - eu largaria e ia trabalhar pra ele só o poblema é o seguinte - o poblema é que eu não trocaria + não trocaria - assim tá bom ++ ah assim tá bom demais pra mim [...](C24).” E outro catador igualmente não trocaria este trabalho por outro, justificando da seguinte maneira: “Porque assim a gente tá acostumada né - eu nunca trabalhei assim assim em coisa fichado aqui é melhor [...]

Porque assim aqui ganha bem - entra e sai na hora que quisé trabalha na hora que quisé (C14).”

Acostumar-se com o trabalho de catação, assim como com a autonomia que este lhes traz, também leva os catadores a não desejarem estar em um outro trabalho. Nesta sua atividade, são donos do seu próprio negócio, como confirma um catador quando fala os motivos que o levam a acreditar ser a catação melhor que outro trabalho: “Ah sei lá - sei que é melhor - que a gente não é mandado né - a gente sempre trabalha por conta né - conforme a gente trabalha ganha né - daí eu gosto de trabalhar (C15)”.

Predomina entre os catadores a opção por continuarem fazendo o mesmo trabalho, o que certamente ocorre por falta de melhores opções e carência de escolaridade. (BOEIRA et al, 2007, p. 49). Esta idéia está presente na fala de alguns com a justificativa de que já se acostumara com o trabalho, uma vez que se saem para buscar um emprego formal, por falta de escolaridade serão submetidos a um trabalho desgastante e com baixa renda e a catação tem a vantagem de ser realizada de modo autônomo “Ah não troco por outro não troco + sei que é doído que é coisa mas não troco”. (C13)

A saúde representa QV para vários autores (ADRIANO et al, 2000; BUSS 2000;

DÓRO et al 2004; FRANÇA; RODRIGUES, 1997, GOULART; SAMPAIO 2004; LAUER;

LAUER, 2005; PASCOAL; DONATO, 2005; FIGUEIREDO, 2005; SANTOS et al, 2002;

SANTOS; WESTPHAL; 1999; SILVA, 2005; SIRGY et al 2006; SOUZA; CARVALHO, 2000; TREVIZAN, 2000; ZULAR, 2006) que abordam questões ligadas à preocupação com a saúde e a possibilidade de que a saúde venha a potencializar melhor QV.

Quando os catadores se preocupam com determinados problemas que podem ocorrer com eles, tais como doenças que podem surgir em face a insalubridade do local que estão instalados. Um catador respondeu ao ser perguntado sobre possíveis problemas de saúde: “Ah doença - o que pode dar é a doença do rato só né + porque as vezes a gente pega alguma coisa assim meio estranha aqui - dá ruim né aqui tem muito rato e coisarada que junta - que nem aqui dá muito rato aqui né - que passa um canal de esgoto pelo Centro debaixo das árvore ali e tamo perto do mar né - daí junta bastante rato por ali o mais perigoso é isso aí.”

(C15)

Alguns catadores entendem que mesmo tendo alguns problemas de saúde é possível trabalhar, porque estes não chegam a ser empecilhos para o seu afastamento, o que pode ser notado nesta fala: “Dá sim - que se eu pego o sol me incha o rosto - dói as perna - cansa - canseira dá gripe - ataca garganta semana passada não conseguia nem falar porque tava aí puxando né - daí tá com o corpo suado daí toma garoa - daí faz mal.” (C17) Ou seja, os problemas existem mas são desconsiderados por eles enquanto problemas, como se fizessem parte do seu cotidiano. Boeira et al (2007, p. 50) verificam que há catadores que afirmam não ter nenhum problema de saúde.

É possível observar que alguns têm a consciência de que quando realizam um trabalho de modo exagerado, submetendo o corpo a horas acima do que suportaria, é inevitável o surgimento de problemas, conforme expressa um catador: “[...] as vezes fica muita gente com dor nos pé né - dor nas perna - e aí dão uns problema maior - mas também pegam cedo e

largam dez hora da noite né ++ só pode mesmo dar problema nas perna - na musculação”.

(C8)

Outros acreditam que, como o trabalho é autônomo, há possibilidade de optar por preservar a saúde ou não, uma vez que é possível compensar o trabalho em dias vindouros, não se expondo as intempéries do tempo: “Não - saúde não prejudica não o dia que tiver chovendo se eu quiser me molhar eu vou - se eu não quiser eu não - vou e aí que tá a vantagem né.” (C20)

Além destas questões já mencionadas acerca da QV relacionada aos catadores, há algumas que surgem, mas são menos freqüentes, tais como a importância da inclusão social por meio de projetos, bolsa família, escolas, cursos e têm importância para alguns associados, conforme esta fala: “[...] eles dão né ganham bolsa escola - daí dá dezoito real por mês cada um + eles ficam aqui no Centro - eles entram as oito e meia da manhã saem as cinco e meia”. (C17) Deste modo, entendem que é possível aproveitar os benefícios que recebem do governo ou do estado, e que também são formas de lhes proporcionar uma vida com melhor qualidade.

Verificou-se que há catadores que alegam estar trabalhando porque têm contas e essas contas são de compra de eletrodomésticos, passeios, cartão de crédito, casa própria, roupas, calçados, dentre outros. Dessa forma, a possibilidade de adquirir algo, de ter dinheiro e poder gastá-lo, ou seja, as necessidades fisiológicas inerentes ao dinheiro que podem ser alcançadas por meio da renda e também consumo de bens e serviços, mostram-se como um sinônimo de QV, definição que vem ao encontro do que alguns autores pesquisados sobre definições de QV defendem. (Adriano et al, 2000; Hollar, 2003; Herculano, 1997; Simões, 2001;

Figueiredo, 1995; Aslaksen et al 1999, Fortunato e Ruscheinsky; 2003; Campos, 1996).

Quando perguntados sobre o motivo que os levava a estar ali e não em outro lugar, eram comuns respostas em torno do dinheiro porque com a catação há possibilidade de adquirir muitas coisas. Há alguns catadores que, antes ou depois de algum tempo de catação, trabalharam em empresas com serviços gerais, motorista, ou com costura em casa, na roça, mas alegaram que nada disso proporcionaria a eles o dinheiro conseguido na venda do papelão. Um deles chegou a dizer que ali ele ganhava bem e quando perguntado “o que é ganhar bem?”, ele respondeu: “Ganhar bem é ganhar dinheiro eu ganho bem no papelão (C4).” E vários catadores informavam que não trocariam este serviço por outro, sendo um dos principais motivos a renda.

O dinheiro que ganham varia conforme o material coletado. Quem tem pontos fixos para pegar o material consegue material de melhor qualidade; por outro lado, os que não têm os pontos ou têm poucos pontos não conseguem materiais bons. Mesmo assim, é difícil encontrar algum catador insatisfeito com o valor semanal recebido. Eles sabem que, para ganhar bem na sua profissão, é preciso ter esforço, pontos para pegar papel e sorte (sorte para eles significa a possibilidade de encontrar no material reciclável algo de maior valor ou materiais de melhor qualidade).

Há catadores que aceitam receber materiais, roupas, móveis; porém, para eles, isso não representa mendicância. Em se tratando de receber comida, eles não encaram do mesmo modo, alguns acreditam estar sendo confundidos com coitados, com mendigos, outros têm medo de que o alimento possa lhes causar algum tipo de problema, então jogam fora ou alimentam seus animais de estimação. Há ainda os que aceitam a comida quando alguém entrega nas mãos deles porque entendem como um agrado.

Houve um trabalhador que voltou da Sede do bairro Itacorubi para o Centro da cidade e justificou sua decisão com base no valor semanal obtido e, quando a pesquisadora perguntou como era a renda lá, disse o seguinte: “Ah - a renda de lá é horrorosa ih não conseguiria ganhar nada nada nada na primeira semana que a gente foi pra lá a gente ganhou trinta reais aí a gente tentou tentou mas não dava cem reais dava oitenta cem por semana [...](C3).” E questionado sobre a diferença de renda complementou: “Nossa ++ é enorme imagina na primeira semana eu pagava babá eu comprava as coisas da minha filha então dá em torno de cem reais isso toda semana a gente não conseguiu fazer nada e aqui dá bem (C3).”

Não são todos os catadores que gostam e aceitam falar sobre a renda, então desviavam o assunto; outros falavam abertamente e havia os que preferiam, por algum motivo, ocultar o valor recebido. Se indagados sobre a possibilidade de trocar a catação por outro lugar, mais de um catador dizia que não, ou que não valeria a pena: “Ah depende né se se levar o que eu ganho aqui né que dê pra acompanhar o preço o salário que eu ganho daí sim pode ser que eu pegue agora se é pra mim sair daqui e ganhar menos aí já não vô (C15).” Eles têm consciência de que é muito difícil, sem ter estudo, conseguir trabalhar em algum lugar ganhando o mesmo valor recebido na catação .

O dinheiro da maioria dos catadores serve para o consumo imediato, há quem compre carro, casa, moto, mas muitos gastam o dinheiro com roupas, tênis, eletrodomésticos, pintura do cabelo, presentes (dentre outros) ou consomem o dinheiro em festas, jogos, bebidas,

shows. Conseqüentemente, quando passa o final de semana, novamente iniciam a dura jornada para se restabelecer financeiramente para o final de semana seguinte; então há momentos em que estão sem dinheiro e se obrigam a buscar no material coletado algo para saciar a fome.

Um catador em especial alegou estar guardando dinheiro para sua aposentadoria, porque sabe que não terá uma aposentadoria comum, mas precisará de dinheiro para seu sustento. Assim sendo, ele deposita a maior parte do valor recebido para que quando não puder mais trabalhar ter a possibilidade de usufruir do que conseguiu enquanto catava.

Há pessoas que começaram a trabalhar lá ainda crianças ou quando eram adolescentes para ajudar no sustento da família ou para poder adquirir o que desejam comprar. Uma catadora diz que não sairia da catação, pois começou quando ainda era bem pequena e se acostumou com o trabalho a ganhar um salário alto em relação à maioria das pessoas com o mesmo nível de instrução dela e, como sabe que, para ter outro trabalho com a mesma renda obtida na catação seria preciso mais estudo, prefere ficar onde está.

Ter renda para o consumo de bens e serviços é algo que buscam ainda que em um grau bem menor do que classes sociais um pouco mais elevadas. Na fala de alguns catadores, é possível constatar essa questão. Um adolescente que estava trabalhando justificou-se dizendo que ali estava porque precisava pagar suas contas, seu curso, pagar roupa e tênis, então estudava de manhã e catava à tarde porque ainda era de menor. Mas, quando tivesse seu diploma do curso de informática e fizesse dezesseis anos, poderia conseguir um emprego que já havia sido oferecido a ele; mesmo assim, tem consciência de que neste emprego ganhará bem menos do que na catação, porém deixará de catar porque na sua visão é um trabalho sem futuro. Um outro catador, ao ser questionado sobre onde gasta seu dinheiro, disse: “Conta conta conta - eletrodomésticos + cabelo + supermercado e assim vai indo - passeio + dá pra sobreviver (C3).” Esse consumo está além das necessidades básicas, mas é visto como fator de QV porque proporciona satisfação a eles.

A educação também é vista como sinônimo de QV por alguns autores (ADRIANO et al, 2000; FORTUNATO; RUSCHEINSKY, 2003; HERCULANO, 1997; LAUER; LAUER, 2005) e é compartilhada do mesmo modo pelos catadores. Pelo fato de eles próprios não terem tido condições de estudar, assim, estão proporcionando tais condições aos seus filhos.

É comum vê-los desejando um futuro e um trabalho diferente aos filhos, conforme assevera um catador: “Não não não quero que eles trabalhem aqui - porque eu dou estudo pra eles - pra eles aprenderem porque eu trabaio porque eu tenho que trabalhá - eu não tenho estudo entende? Eu não tenho estudo - então eu quero dar estudo pra eles pra eles não trabalhar

aqui catando - pra eles não trabalhá aqui que é muito sofrido - eu eu tenho que gostá porque eu não tenho como eu vou lá na firma e não vou arrumar emprego. (C17)”. E outro: “[...]

pra eles vamo querer uma coisinha bem melhor né eles podem estudar não precisam trabalhar + já e eles podem com dezoito dezenove anos estar estudando né eles - tem renda pra isso porque o que o pai deles deixou pra eles eles - não vão precisar trabalhar só saber administrar”. (C4)

Mesmo assim, há na catação algumas famílias em que trabalham pais e filhos. Muitos começaram ainda quando crianças ou adolescentes, porque o dinheiro que conseguem é mais fácil e rápido do que se estivessem estudando e houve incentivo ou permissão por parte dos pais. No grupo pesquisado, há um adolescente que os pais não desejam que ele trabalhe com a catação, mas, como há muitas contas para pagar, segundo os pais, às vezes, ele cata material mesmo a contragosto deles. Outros freqüentam o local e deixam de ir para a escola, então começar a catar é uma questão de tempo.

Ter uma moradia ou até as condições em que uma pessoa tem a sua moradia é notada por alguns autores (ADRIANO et al, 2000; CONCEIÇÃO et al, 2004; HOLLAR, 2003;

SANTOS et al, 2002) como QV, de modo que quanto melhores as condições da moradia, melhor é a QV, do mesmo modo, há catadores que acreditam que QV seja sinônimo de moradia e lutam para conquistar um lugar para morar: “Importante é juntar dinheiro - que eu quero ter o meu carrinho ainda né + tive tal mas agora não tenho mais - e ter minha casa própria sabe - porque aonde eu moro é desse carinha que eu trabalho junto”. C10

Ter um lugar para morar mostra-se sinônimo de QV para os catadores tanto na fala quanto e na expressão facial deixam transparecer a felicidade que sentem em ter um lar e o orgulho por terem conquistado, por meio do seu esforço pessoal, a sua casa, conforme exprime na seguinte fala: “[...] uma casa boa pra mim é é pra mim e pra minha filha eu comprei agora depois do natal a gente conseguiu comprar paguei dois mil uma casa com três peças um banheiro tem um terreno bom pra mim e pra ela ta bom + ela não dorme sozinha não precisa de quarto pra ela dorme comigo o importante pra mim não é nem a casa é o que a gente tem dentro porque se a gente tem uma casa feia com coisa feia dentro é pior ainda né a minha casa por dentro é bonita por fora é um barraquinho a gente comprou tudo novo também”.(C3)

Há quem tenha a sua casa própria mas sinta vontade ou necessidade de fazer manutenções, conforme aponta este catador: “ [...] tenho que fazer uma reforma lá em casa sabe a casa ta velha vou ter que fazer uma reformazinha”.(C22) E mais um quando diz: “[...]

hoje nós temo a nossa casa + a minha casa dá nove por sete e meio - minha casa é madeira de pinheiro mesmo araucária - como dizem aquele pinheiro que dá pinha pra ser mais bonito pra você né + e é uma casa grande né - nossa casa tem dois quarto grande - um banheiro de material - e a sala é uma só mas é um salão daquele como aquele barraco [...] daqui um tempo quando nós conseguir se livrar um pouco das coisas - nós vê que vai dar - que nós conseguir ver que vai engrenar a coisa - quero fazer uma casa de dois piso + quero fazer tudo no meu terreno - no meu terreno entra um carro lá dentro sabe ++ quero fazer a casa assim mais ou menos - dar uns vinte por doze - não não dá uns dez por uns quinze quadrado no meu terreno - eu quero fazer um porão grande - ponha o carro lá drento de baixo - daí quero fazer o piso e levantar pra cima + tá ficando só casa boa em roda né + a minha casa é uma casa bem bonita pintada - toda pintada.” (C8)

Outra questão relativa a QV apontada pelos autores (CAMPOS, 1996; FORTUNATO;

RUSCHEINSKY, 2003; HERCULANO, 1997; LAUER; LAUER, 2005) está na participação política, na liberdade de expressão, nas lutas que se enfrentam no dia-a-dia, indo de encontro ao que os catadores acreditam que seja a sua própria liberdade de expressão e manifestação pública, quando buscam o seu espaço na sociedade “ [...] tivemos mais de quinze reunião que não tinha e pressionando nóis pra levar nóis pra levar o pessoal lá e não tinha jeito + um dia eu fui lá na COMCAP e disse óia não tem jeito nós vamos espalhar pior o pessoal - se o senhor não quer que vire num inferno essa cidade papeleiro pra lá papeleiro pra cá - já tinha papeleiro em baixo da ponte Hercílio Luz tinha papeleiro na Beiramar tinha papeleiro lá no canto de lá tinha papeleiro aqui tinha papeleiro na Phipasa tinha papeleiro em toda parte - imagina nóis com cento e poucas pessoas - tava né na época nós fizemos área de - área tirada ali não teve jeito um dia resolvi paremo sessenta + setenta por cento mais ou menos da associação ++ vortei pra ponte me meteram a polícia em cima e eu metí-lhe a televisão + a ora que chegou a polícia chegou a televisão junto já filmando + não puderam com nóis( C8)”

As participação política também está presente no ambiente de trabalho, por meio das eleições que a associação realiza, momento em que ocorrem brigas por causa de cargos e opiniões divergentes, o que se expressa na fala deste catador: “É agora - agora essa época aí é tudo de briga né - um faz uma chapa outro faz outra mas é só na hora da eleição mesmo - que daí um quer pegar o cargo outro não quer - negócio é ficar esperto. (C15).” Em contrapartida há aqueles que entendem que cada um tem o direito de escolher e até mesmo de se candidatar para algum cargo, conforme aponta este associado: “[...] é um direito que ele

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