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As visitas periódicas à associação permitiram que os catadores passassem a conhecer a pesquisadora e sentir que ela, de algum modo, fazia parte daquele ambiente. Quando se passavam alguns dias sem o comparecimento dela, no seu retorno, os catadores acenavam positivamente e aproximavam-se, momento em que começavam as entrevistas.

Em muitos casos as entrevistas foram realizadas enquanto os catadores estavam desempenhando alguma função relativa a seu trabalho, assim, em alguns momentos eles falavam enquanto trocavam pneus dos carrinhos, caminhavam apressados, estavam triando, registrando o peso dos carrinhos na balança, jogando material dentro dos contentores, e poucos paravam para conversar, ou faziam isto enquanto comiam algo ou descansavam, uma vez que parar pode representar para eles perda de tempo e dinheiro.

Com o passar do tempo, com o conhecimento do outro, a formação da Associação, até aqueles que não fazem parte da mesma família são unidos aos demais. Como em qualquer trabalho, cada um faz a sua parte, com o sistema de pagamento por produtividade, ganha para si próprio ou para um grupinho de trabalho fechado (duas ou três pessoas), havendo divisão da renda. Mesmo assim, um se preocupa com o outro e com o melhoramento da Associação, de modo que hoje todos lutam por uma mesma causa: o direito ao trabalho.

Freqüentar o ambiente dos catadores levava a pesquisadora a sentir o que Malinowski (1976, p. 25) aponta sobre a diferença entre relacionar-se esporadicamente com as pessoas e estar efetivamente em contato com elas. Estar em contato significa que o pesquisador, no início, passa por uma aventura estranha e até desagradável, algumas vezes interessantíssima e

que, com o passar do tempo, assume um caráter natural e harmônico com o ambiente ao seu redor.

É possível observar que cada catador tem um estilo muito próprio de se arrumar para trabalhar. Alguns colocam roupas as mais simples possíveis, não se importam muito com a aparência; já outros se vestem com roupas da moda, usam correntes, cores vibrantes, tênis de marca; e as mulheres, em especial, preocupam-se com a aparência, o que se observa na fala de uma catadora: “Ah vai chegar num lugar como tu chega em várias lojas em vários apartamentos se tu chegar tipo - a imagem que eles fazem dos papeleiros né - sujo imundo desarrumado - se tu chegar num lugar assim - quem é que vai te dar papel se tu chegar numa loja aí de grife ou for entrar numa loja todo desarrumado - eles já não sai daqui não não tem a única coisa que eles vão dizer é isso - agora se tu chegar arrumado - bem educado pronto já era - eles te dão na hora - ah até guardo aqui pra ti pode vir pode passar uma duas vezes por semana + tem lugares que eu pego assim já é garantido - aí é bem melhor né - porque como é que tu vai entrar todo sujo num estabelecimento + nem eu não quero na minha casa não vem não (risos) - eu sou realista tá sujo tá isso tá aquilo aquele outro - como é que vai trabalhar desse jeito - não tu é pobre mas tu não é imundo né - é real (C22)”.

Importar-se com a aparência como demonstra a fala anterior não é algo apenas para satisfação pessoal, mas também faz parte de uma estratégia para conseguir materiais melhores, pois, se existe a consciência por parte dela de que a sociedade ainda não vê o catador com muitos bons olhos, trabalhar bem arrumado é uma forma de ser visto como um trabalhador digno de respeito.

É comum utilizarem a camiseta com o logotipo da associação como uniforme para trabalhar, principalmente aqueles que coletam nas ruas porque com ela é possível ser identificado como membro da ACMR e não como um catador independente ou como mendigo, algo que não gostam que aconteça.

Muitos catadores eram tímidos ou não queriam ser entrevistados, alguns acabavam surpreendendo porque olhavam para a pesquisadora transmitindo certa rejeição, mas, quando havia a aproximação e iniciava-se uma conversa, eles passavam a se sentir mais à vontade.

Houve também aqueles que pelo olhar transmitiam a mensagem de que desejavam ser entrevistados e assim era feito. Mesmo assim, alguns poucos não aceitaram ser entrevistados, alegando falta de tempo ou fugindo por causa da timidez; outros brincavam com aqueles que não haviam sido entrevistados, apontando-os para que a pesquisadora os entrevistasse também.

Em alguns momentos, a entrevista iniciou com a fala dos catadores, quando eles próprios tiveram a iniciativa de começar uma conversa, uma vez que haviam visto a pesquisadora conversar com outros catadores. Em um deles, uma senhora olhou a pesquisadora, acenou e aproximando-se disse: “Ei vem ver a foto dos meus filho (C12).”

Permitindo que, por meio das fotos mostradas, elas pudessem dialogar sobre outros assuntos;

outra vez ocorreu quando uma catadora convidou-a para conhecer a sua barraca: “ Vem cá ver o meu barraco - óia mora todo mundo aqui dentro - aqui tá mora os cachorro - mora todo mundo - aqui nóis tem botijão de gás - tem fogão - aqui tem colchão tem tudo [...]

(C3)”. Esse tipo de comportamento mostra haver interesse por parte dos catadores nas pessoas que estão realizando trabalhos com eles.

Quando se aproximava da balança onde o balanceiro registrava o peso dos carrinhos, era comum os catadores olharem-na e comentarem alguma coisa com ela, ali também surgiram possibilidades de novas entrevistas. Algumas vezes, eles puxavam o carrinho com tanta força que bastava a pesquisadora emitir alguma opinião sobre o peso que carregavam para se sentirem orgulhosos deles mesmos, da própria capacidade em fazer aquele trabalho de puxar o material e ter força suficiente para puxar ainda mais.

É corriqueiro, no local, ver pessoas alimentando-se em momentos diferentes; alguns catadores param e fazem rápidas refeições. Sempre que isso acontecia, ofereciam o que estavam comendo, não somente para a pesquisadora, mas para os demais que ali se encontravam. Cada um preparava a sua refeição ou a de mais uma ou duas pessoas, enquanto os demais continuavam a trabalhar. Alguns aguardavam enquanto seus filhos ou esposas vinham trazer a comida de casa; mas nem todos se alimentavam na associação, havia quem fizesse refeição nas ruas da cidade.

Quando alguém tem algum problema, geralmente recorre ao presidente. Houve um dia em que um catador chegou à Associação, explicando ao presidente que seu carrinho havia quebrado perto do terminal de ônibus da cidade; este, então, começou a buscar pessoas e ferramentas para consertar e remover o carrinho do local. Essa atitude demonstra ser ele uma pessoa que ajuda os catadores e se importa com o que acontece, imagem compartilhada por boa parte dos catadores.

Com a mudança de sede de debaixo da ponte para o aterro, ficou mais complicado cozinhar na associação. Isso porque agora cada um tem o seu barraco e não mais um fogão coletivo como antes e o acesso à água é inexistente dentro do local. Para tomarem água, é necessário alguém do grupo sair e comprar ou conseguir na vizinhança para repartir com os

demais. Do mesmo modo, para realizar as necessidades fisiológicas, é preciso buscar um lugar fora do espaço de trabalho, o que incomoda muitos trabalhadores, conforme aponta um deles: “Em baixo da ponte era melhor né - lá tinha luz tinha água tinha banheiro né - podia chover podia trabaiá que não tinha pobrema nenhum né + e aqui - já quando chega a noite às vezes a noite é bom de trabalha - porque é fresquinho né - como é que vou ficar trabalhando? Não tem luz ++ quando chove nóis têm que ir tudo pra casa né - e é lógico que rende mais que é mais fresco + durante o dia é calorão né - nós trabaiamo de noite já um monte de vez - é bom porque é mais fresquinho que durante o dia nesse sol quente (C4) [...]”.

Boa parte dos associados que sabe onde seus colegas coletam materiais não age desonestamente, coletando o material antes. Existe esse princípio ético entre eles, e a lei diz que quem consegue o ponto primeiro é o dono dele; assim, nos lugares em que não há um dono, o material é de quem chega primeiro. Contudo, há algumas raras exceções de desrespeito a esse princípio, gerando problemas dentro da associação, como, por exemplo, o relatado por um catador quando perguntado do que ele menos gostava: “Há + tem uns que já tem lá uns lugar né - se tomar o lugar do outro pegar - aí briga na hora de coletar a gente tem uma loja que é só a gente né aí a gente vai lá e vai pegar o papelão com o cara - e se ele diz não já veio outro pegar aí né começa o rolo e aí a gente já sabe porque os papeleiros um conta pro outro - mas aqui o pessoal mais respeita é o pessoal de fora que não respeita o pessoal da o pessoal que não é associado tem muita pessoa que puxa papel aí que não é daqui (C4).”

Durante o trabalho de separação do material (em especial o material vindo dos shoppings), muitas vezes, eles encontravam objetos que podem ser utilizados por eles próprios ou por algum colega. É comum acharem relógios, rádios, celulares, roupas, comidas, bijuterias, maquiagens, dinheiro, dentre outros. Assim que eram encontrados, o que havia sido considerado como lixo para uns passava a ganhar importância novamente nas mãos dos catadores que ficavam contentes com cada coisa útil que aparecia.

Quando conversavam sobre o trabalho de catação, alguns diziam estar contentes de poder trabalhar, de ter a família trabalhando junto, de se sentir orgulhosos em ser catador.

Outros se mostravam apáticos, sem vontade de conversar e repartir seus sentimentos, apenas puxavam seus carrinhos como se não quisessem perder tempo ou como a desaprovar a atitude dos que estavam conversando.

Há reuniões periódicas para discutir o melhoramento da associação ou problemas que surgem. Às vezes, coincidia de a pesquisadora estar em um momento em que havia reunião e,

assim que ela chegava, era convidada a participar da reunião, unindo-se ao pessoal. Algumas vezes, até lhe pediam opinião. Esse era um dos momentos nos quais ela fazia o que Malinowski (1976, p. 35) recomenda ao etnógrafo, deixava o seu lado de máquina fotográfica, lápis e caderno para participar do que estava acontecendo.

Houve um dia em que estava ocorrendo uma reunião no momento em que a pesquisadora chegou e, quando perguntou o motivo da reunião, obteve a seguinte resposta:

“Isso a gente faz né + quando tem umas coisa meio urgente - então essa reunião já era pra ter saído já + daí é que tem uma pessoa aqui né que ela vai puxar e entrega pra outro comprador ++ e ele tem um problema né que qualquer coisa ele sai correndo tudo e vai pra delegacia - vai lá e denuncia denuncia a associação - qualquer coisa às vezes acontece uma discussão com um associado ele vai lá - e denuncia a associação - não tem como a gente mantê uma pessoa assim (C6).”

O fato de os catadores reunirem-se para discutir qual será o melhor procedimento a tomar quando uma pessoa está destoando do grupo mostra que eles se importam com o padrão de desempenho e atitude e, para o bem de todos, é importante que as pessoas possam agir de maneira parecida umas com as outras. Portanto, quem não obedece a algumas regras implícitas passa a ser problema para os demais. Esse era um dos momentos em que a pesquisadora deixava seu lado máquina, o que era feito não somente nas ocasiões em que ocorriam reuniões, mas também quando surgiam brincadeiras em que participava por sua iniciativa ou quando era incluída sendo chamada para participar, quando alguém queria mostrar sua barraca, seus enfeites e saber a sua opinião, se tinha gostado ou não; quando alguém colocava uma roupa ou um acessório e mostrava, ou, quando, no meio do material, surgia uma máquina ou calculadora diferente, e os catadores perguntavam como esses equipamentos funcionavam. Desse modo, eles demonstravam a importância da pesquisadora para eles e o quanto era considerada.

Para eles, os melhores dias de catação são aqueles em que há sol, mas não está muito quente. Essa preferência é porque o trabalho é desgastante e exige muita força; desse modo, se o sol está forte, aumenta o cansaço. Por outro lado, quando chove, a dificuldade torna-se maior, pois saem, a maioria deles, sem proteção; já no frio, as mãos ardem, e isso dificulta o trabalho. Há os que preferem trabalhar à noite porque é o período em que a maioria das lojas disponibiliza o material para a coleta e a temperatura está mais amena, se não é inverno.

Então coletam e, no dia seguinte, pegam o material para a triagem.

Alguns catadores que trabalham com ajudantes têm mais de um carrinho (dois ou três).

Conseqüentemente , quando completam uma carga e regressam à associação, o outro carrinho já está vazio e eles podem retornar às ruas; há alguns poucos que saem com dois carrinhos para as ruas e coletam em ambos. Apesar de os carrinhos parecerem muito pesados, são facilmente puxados se estiverem em locais planos. O maior problema para carregar surge quando precisam subir um morro ou correr com o carrinho para atravessar alguma avenida movimentada, conforme aponta um catador: “Muitas vezes se tu ver a gente puxando carrinho - pesado pesado não é tão pesado assim esses carrinhos já foi construído pra peso mesmo se ele tiver em reto ele desliza mesmo ta vendo só em subida que ele pesa tu vê as meninas ali elas que puxam o carrinho (C4).”

Cada catador tem a sua própria casa para morar, há quem more com os pais, outros com seus filhos e há os que moram com colegas. Alguns dormem às vezes na associação, conforme apontou uma catadora quando a pesquisadora descobriu que ela dormia lá porque na sua barraca tinha colchão: “[...] não é sempre que a gente não dorme é só de vez em quando agora a gente faz pouco mas antes a gente fazia muito antes a gente ficava aqui direto aí conseguia tirar um valor bem mais alto mais que todo mundo né (C3).” Dessa maneira, como geralmente eles cataram durante todo o dia, à noite, o cansaço é intenso e são poucos os que catam material por noite. Aqueles que fazem isso, fazem-no porque algumas lojas ainda disponibilizam bons materiais nesse período ou porque é o momento do dia em que a temperatura está mais agradável.

O fato de fazerem parte da associação não impede que alguns catadores deixem de comparecer para trabalhar, iniciando seu trabalho na metade da semana, já que o pagamento é realizado no final desta e, para alguns casos especiais, diariamente. Assim, quando é realizado o pagamento, alguns questionam o valor recebido quando verificam que muitos outros ganharam valor superior. Essa atitude demonstra que alguns deles não sabem como ser dono do seu próprio negócio, tendo dificuldade para administrar tanto o seu dinheiro quanto os dias que resolvem ficar de folga. Mesmo assim, há os que conseguem administrar bem essa questão ou têm a consciência de que o valor recebido é justo porque deixaram de comparecer algum dia durante a semana.

O dia-a-dia dos catadores passou a ser compreendido à proporção que ocorriam as conversas e as entrevistas eram gravadas; assim como pela observação das atitudes deles, pela forma de se portar, pelos olhares, os sorrisos, os sinais. Com base nisso, foi possível adentrar no campo da qualidade de vida e entender de que modo esta se manifesta entre eles.

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