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Desafios da indústria e problemas específicos

No documento Organização: Realização: (páginas 100-103)

Tipos de a tividade realizadas

3.10. Percepção da indústria

3.10.4. Desafios da indústria e problemas específicos

Alguns dos problemas apontados pelas desenvolvedoras são referidos por todos os três públicos analisados neste estudo, como será visto adiante.

Um dos mais frequentemente citados diz respeito à tributação e à taxação no geral, e em específico àquelas envolvidas na aquisição dos equipamentos necessários ao trabalho de desenvolver e trabalhar um jogo digital. Os respondentes relatam como pode ser trabalhoso regularizar no país equipamentos comprados ou doados, sejam softwares, como engines para programação e produção do jogo, sejam hardwares mais potentes que aprimoram o trabalho por sua alta performance.

Ainda sobre a dificuldade de internalização de recursos, também é frequente a especi-

países específicos como os EUA, e a atribuição dessa alta carga tributária à falta de acordos comerciais entre o Brasil e os países de onde nossa indústria importa material de trabalho.

Houve a defesa do investimento em construção de engines nacionais, de modo a faci- litar o trabalho, e também aumentar a relevância e a rentabilidade da IBJD internacional- mente. Este ponto de vista, porém, é minoritário. A tendência mundial é o uso de softwa- re proprietário dos principais fornecedores mundiais de cada categoria, pois isso auxilia a contratação de pessoas, a troca de conhecimento com outros profissionais e a inserção em cadeias globais de valor.

Outro problema a princípio citado apenas pelas desenvolvedoras, mas que se descobriu ser comum a todas as categorias de respondentes deste estudo, é a questão do enquadra- mento das empresas, dos microempreendedores individuais (MEI) e de profissionais. As de- senvolvedoras especificamente explicitam a dificuldade de se enquadrarem nas categorias existentes hoje na hora de aplicar para editais, para citar um dos motivos elencados pelas desenvolvedoras; nesta pergunta também reaparece a questão da tributação para cada tipo de empresa, e as respondentes acreditam que o modo de tributar deveria ser revisto, pois ele dificulta o início de uma empresa, por exemplo.

As desenvolvedoras também destacaram como pode ser difícil manter uma empresa no Brasil, além de fundá-la: listam e comentam que a burocracia envolvida neste processo pode ser dificultosa e desestimulante à continuação do empreendimento. Também sobre a manu- tenção do negócio, o público comentou que é frequente a falta de conhecimento e orientação sobre a gestão e a administração do empreendimento.

Ainda sobre desconhecimento, as respondentes contam como é difícil buscar informa- ções sobre finanças ou sobre a área jurídica: há um tipo de cisão que ainda impede o setor de jogos digitais de se comunicar com áreas correlatas e vice-versa, o que significa que áreas correlatas ainda não participam tão ativamente na área de jogos e os profissionais dos jogos também desconhecem questões jurídicas e administrativas sobre como manter um negócio.

Sobre as questões jurídico-trabalhistas das desenvolvedoras, o que mais aparece é a di- ficuldade de formalização dos trabalhadores: as respondentes contam que contratar os tra- balhadores em regime CLT é custoso, especialmente para as empresas que estão no começo (59,6% das formalizadas e 37,3% das não formalizadas que têm até dois anos).

Somando-se à questão trabalhista o fato de que a receita das desenvolvedoras ainda é frequentemente insuficiente (outra resposta constante desta amostra), é possível compreen- der porque ainda há tantos trabalhadores e empresas do setor brasileiro de jogos digitais na informalidade.

Na mesma direção, outros problemas citados foram a falta de capital, tanto inicial quan- to de giro, para a manutenção independente das desenvolvedoras de jogos e a falta de in- centivos fiscais para alavancar o desenvolvimento do setor. A impressão é a de que, para as desenvolvedoras, mas não apenas para elas, a redução de impostos e o maior apoio para o desenvolvimento e manutenção dos negócios evitariam muitos dos problemas apontados.

As desenvolvedoras apontam ainda dificuldade para encontrar profissionais altamente

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capacitados e qualificados para assumir os mais variados cargos envolvidos no desenvol- vimento e produção de um jogo digital, seja o profissional da área ou de áreas correlatas (artistas, músicos, roteiristas, etc.). Mencionam repetidas vezes também que é difícil retê-los quando são mais maduros e bem preparados.

Categorizando as respostas dadas por afinidade de assunto, é possível perceber alguns padrões frequentes, apresentados a seguir.

1. Tributação e taxação. Como já mostrado, as desenvolvedoras apontam como um dos principais desafios a manutenção da alta carga tributária sobre o setor de jogos digitais – questão que se agrava quando se observa que são tributos não específicos ou que não consideram a configuração atual da indústria brasileira para obter um índice menos oneroso e mais vantajoso para ambas as partes. Pelo que se observa nas respostas, a previsão para os próximos cinco anos fica complicada no sentido de que a carga tributária frequentemente já leva grande parte da rentabilidade real das desenvolvedoras de jogos nacionais neste momento.

2. Burocracia. Outra questão levantada com frequências pelas respondentes, tanto atualmente quanto nos próximos cinco anos. O processo de abertura e manutenção do negócio requer o acompanhamento e o cumprimento de muitas rotinas adminis- trativas, o que pode inibir ou mesmo desencorajar a fundação de negócios em solo nacional (também há o dado de que, com frequência, os empreendedores cogitam fundar a empresa no exterior, pela facilidade oferecida em lugares como os EUA, por exemplo).

3. Falta de ambientes de ensino voltados ao setor. A percepção de falta de cursos espe- cializados é um fator bastante levantado como desafio nos próximos anos. Na falta de ambientes de preparo de boa mão de obra, pode ficar ainda mais difícil construir boas equipes requeridas para a gerência e desenvolvimento de grandes projetos de jogos digitais. Além da necessidade de diversificação dos cursos técnicos e gerenciais focados na indústria, existe também um certo desconhecimento das opções existen- tes de cursos.

4. Encontrar e reter profissionais capacitados. Em grande parte, acontece em decorrên- cia do último desafio listado. Se não surgirem mais opções de qualificação, a tendên- cia é de que fique ainda mais difícil encontrar os profissionais nos próximos anos. No decorrer do estudo, observa-se que o profissional bem preparado, para os respon- dentes, não é aquele que entende apenas do funcionamento do processo de desen- volvimento dos jogos digitais. São requeridas noções de mercado, de administração e empreendimento e também conhecimento mínimo sobre questões jurídicas, para ser possível transitar bem entre as oportunidades encontradas em editais públicos, entender como proteger sua propriedade intelectual e também sobre os processos de contratação trabalhista, por exemplo. Portanto, um dos desafios é não só encontrar mas, antes, formar profissionais que saibam também dialogar com áreas correlatas, tanto aqueles que atuem nessas áreas quanto os profissionais em jogos digitais.

5. Regime de trabalho/contratação. O regime de contratação formal é importante para que todos os direitos dos trabalhadores sejam assegurados. O desafio é poder arcar com o grande custo que isso implica, especialmente para aquelas desenvolvedoras que estão começando. Pelas respostas observadas, este é outro desafio para elas, tan- to agora como para os próximos cinco anos.

6. Rotinas de administração do negócio. Observa-se que o profissional que tem em- preendido na área de jogos digitais possui poucas noções sobre as rotinas adminis-

um verdadeiro desafio para os próximos cinco anos. Questões de manutenção das contas, de declaração de impostos, de recursos humanos ou ainda de atividade do empreendimento no mercado parecem ser difíceis para as desenvolvedoras.

7. Identificar perfil dos jogadores, público-alvo e como fidelizá-lo. Uma das tarefas essenciais quando se tem um negócio é saber para quem e porquê é vantajoso para o consumidor. Rotinas de estudos e análises de mercado e de público-alvo são fun- damentais para quando se quer ingressar e produzir bem no mercado. Esta pode ser uma defasagem também advinda dos cursos, cuja tendência é se especializar cada vez mais, e perder noções mínimas sobre outras áreas do conhecimento.

8. Rentabilidade e altos custos. A rentabilidade foi um assunto abordado de modos diferentes nas respostas. Há desenvolvedoras que dizem ser um desafio manter o negócio rentável e autossuficiente. Também é difícil manter o negócio com o atual alto custo de bons equipamentos para a manufatura e concretização dos projetos sob demanda ou autorais da desenvolvedora. Com o alto custo da criação da empresa e a frequente falta de capital inicial ou de giro para a manutenção em casos de receita baixa, há prejuízo para o funcionamento do negócio, de modo que a rentabilidade se torna um desafio para os próximos anos.

9. Comparecimento aos eventos. Os custos com o comparecimento a eventos também costumam ser bastante onerosos. As desenvolvedoras em geral dizem que o custo de grandes viagens para os locais onde acontecem os maiores eventos é um desafio, agora ou para os próximos anos.

10. Manter atividades de desenvolvimento constante. Essa manutenção parece sofrer dificuldades porque os negócios em sua maioria ainda são pouco rentáveis. Por isto, os sócios e também os trabalhadores das desenvolvedoras frequentemente precisam exercer outras atividades para se manter financeiramente, e conseguir também man- ter a empresa.

11. Projetos autorais e propriedade intelectual própria. Outro desafio apontado para os próximos anos que pode ser sanado com a melhor preparação dos profissionais da área ou de campos correlatos. As respondentes relatam que é grande a dificuldade de encontrar informações ou profissionais que conheçam a legislação de que o setor de jogos digitais costuma fazer uso, mesmo aquela que regulamenta os direitos autorais e de propriedade intelectual dentro do setor.

No documento Organização: Realização: (páginas 100-103)