Importância do papel do governo para o desenvolvimento da indústria
7. Análise de grau de internacionalização das desenvolvedoras brasileiras
7.3. Discussão
7.3.1. Relação das desenvolvedoras com o mercado externo
Os dados de internacionalização demonstram o grau de maturidade das empresas e de- vem ser sempre analisados considerando o grande número de desenvolvedoras de menos de dois anos e o nível de faturamento delas.
Cerca de 47% das pesquisadas não têm relação alguma com o mercado externo, o que é resultado de diversos fatores como o fato de não terem ainda lançado um produto ou ainda não terem buscado acesso aos mercados externos. Este número é maior por conta de incluir empresas que não estão no projeto BGD (57,3% destas empresas, se encontram nesta situa- ção). Por outro lado, se analisamos apenas empresas que participam do BGD o percentual de desenvolvedoras sem relação com o mercado externo cai para apenas 3,4%. Exatamente uma empresa cujo produto ainda está para ser lançado e outra em que o foco é em B2B (ver Figura 62).
Apenas 29,7% das desenvolvedoras declararam ter clientes em outros países. O per- centual relativamente baixo deve ser ponderado com outro tema pesquisado, refletido na questão ‘participou como expositor ou palestrante em eventos’. Há indícios suficientes para
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argumentar que a busca por clientes internacionais tende a ter mais sucesso quando o con- tato com o exterior se inicia em eventos internacionais, realizados fora ou dentro do Brasil.
A exposição de produtos e ideias para empresas estrangeiras, sejam elas Publishers, investi- dores ou contratantes de outsourcing, permite uma proximidade com as demandas efetivas do mercado, principalmente o externo, levando à concretização futura de negócios. Entre as desenvolvedoras que não estão ligadas ao BGD há menos empresas com clientes interna- cionais (20,3%) em comparação àquele registrado entre as desenvolvedoras ligadas ao BGD (67,2%).
FIguRA 62. Relação com o mercado internacional: total de empresas respondentes do Censo, empresas ligadas ao BGD, e não ligadas ao BGD
Relação com o mercado internacional do total de empresas respondentes do censo
com empresas dentro e fora do projeto BGD
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
TEM CLIENTES EM OUTROS PAÍSES
20,3%
Fonte: II Censo da IBJD (2018) 29,7%
PARTICIPOU COMO EXPOSITOR OU PALESTRANTE EM EVENTOS
16,4%
79,0%
29,0%
CONTRATOU SERVIÇOS NO EXTERIOR
12,9%
36,2%
17,6%
PARTICIPOU DE MISSÕES COMERCIAIS INTERNACIONAIS
58,6%5,2%
15,9%
TEM REPRESENTANTES COMERCIAIS EM OUTROS PAÍSES
4,7%
6,9%
TEM ESCRITÓRIOS COMERCIAIS EM OUTROS PAÍSES
8,6%1,3%
2,8%
TEM UNIDADES PRODUTIVAS EM OUTROS PAÍSES
2,4%
NÃO TEM RELAÇÃO COM O MERCADO INTERNACIONAL
57,3%
46,6%3,4%
OUTROS 8,6%
7,9%
67,2%
15,5%
7,8%
1,3%6,9%
NÃO BGD BGD GERAL
das empresas do BGD reforçam a análise acima. No levantamento do II Censo, quase 80%
das empresas afirmaram ter tido a experiência de ser expositor ou palestrante, sustentan- do, então, o percentual elevado de respondentes desta categoria com clientes no exterior, que chega a 67%. É possível refletir que, embora a época atual ofereça facilidades de in- formação para a distribuição digital global, poucas barreiras para trabalhos em diferentes locais do mundo e troca incessante de conhecimento, as empresas ainda buscam a relação de confiança representada pelos encontros pessoais para o entendimento de termos que permitem o fechamento de negócios. Entre as desenvolvedoras que não estão ligadas ao BGD, apenas 16,4% passaram por esta experiência, gerando, como sugere-se aqui, um número baixo de clientes.
Como já apontado anteriormente, das respostas válidas do II Censo para esta pergun- ta (290), cerca de 20% são de participantes do projeto BGD. Neste grupo, a proporção em relação ao total de respondentes que declararam ter participado ou exposto em eventos e tem clientes em outros países é muito maior. Das empresas que declararam no II Censo ter participado ou exposto em eventos, 55% são empresas que fazem parte do projeto BGD, en- quanto das que afirmaram ter clientes em outros países 45% são associados a BGD.
As missões comerciais internacionais são outro fator importante para que as empresas possam conhecer melhor o mercado externo e seus atores. Estas missões comerciais levam desenvolvedoras ou organizações de áreas de apoio até a Indústria de Jogos Digitais para entender melhor a dinâmica das relações comerciais ou mesmo para conversar com pos- síveis parceiros. É muito comum que missões comerciais ocorram em paralelo a eventos internacionais. Um exemplo é o caso da GDC 2018, no qual o ministro da Cultura participou da missão que acompanhou as empresas ao evento. As missões podem gerar resultados fa- voráveis tanto para os negócios das empresas quanto para futuras formulações de políticas públicas.
O total das empresas do II Censo que participou de missões é muito baixo. Mas os nú- meros comparativos apresentam as nuances da questão. Enquanto quase 59% das empresas ligadas ao BGD, portanto que têm apoio da Apex, tiveram a possibilidade de participar de missões, apenas 5,2% das que não estão no programa tiveram esta oportunidade. Entre as empresas que participaram de missões, 74% estão vinculadas ao BGD.
A contratação de serviços fora do Brasil é um outro fator que demonstra o quanto as empresas se relacionam com o exterior. Quando empresas brasileiras contratam serviços fora, em geral elas adquirem junto com o serviço novas competências, expertise ou ainda tecnologia, em termos de produtos e processos. Cerca de 17,5% das empresas declararam ter contratado serviços no exterior. Aquelas que não fazem parte do BGD constituem 13%
desta categoria. Em relação às empresas do BGD, o percentual vai para 36,2%. O custo do dólar e o porte da maioria das empresas são obstáculos para operações de contratação de serviços no exterior, embora a qualidade, e muitas vezes o preço nominal, ser atraente. Este foi o item em que a pesquisa indicou o mais baixo percentual de empresas ligadas ao BGD, na questão da internacionalização. Isto é, entre as empresas que participam do programa, 41% contratam serviço fora. Porém, ainda que baixo, comparado as outras formas de relação com o mercado exterior, o percentual é significativo quando verificado que ele é quase três vezes maior do que o percentual para as empresas não ligadas ao BGD.
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A existência de uma representação comercial fora do país é também um sinal que aju- da a determinar o grau de relação das empresas com o exterior. Apenas 7% das empresas pesquisadas no II Censo afirmaram ter representantes comerciais fora do país. Em relação as empresas que não fazem parte do BGD apenas 4,7% têm um representante. Os custos relacionados a este tipo de ação são altos, apesar de os resultados da proximidade com os clientes serem potencialmente interessantes. Já entre as empresas que participam da BGD, 15,5% têm este tipo de relação.
Para o fortalecimento dos vínculos de internacionalização, o passo seguinte ao de ter uma representação comercial no exterior é abrir uma operação comercial própria em outros países, seguidos de unidades produtivas. Quando analisado os dados de todos os respon- dentes do II Censo, cerca de 3% das empresas declararam ter escritórios comercias fora do país, e menos de 2,5% registraram ter unidades produtivas. A exemplo de outros itens já analisados, as empresas fora do projeto BGD registram percentuais mais baixos em relação às ligadas ao BGD. Para estes itens, elas são apenas 1,3% para cada uma das atividades.
Entre as respondentes ligadas ao BGD, os números ficaram para o primeiro caso, 8,5% e no segundo 7%. Os números são baixos e refletem a juventude da indústria desenvolvedora de jogos no país: cerca de 43,2% das empresas têm até 2 anos de criação. Poucas chegam ao nível de internacionalização caracterizado pela vinculação com outras empresas globais em seus próprios mercados. Neste item, quando consideramos as proporções, as empresas associadas a BGD marcam 63% e a amostra total 57%. ,
Outra forma de analisar a relação com o mercado internacional é comparar as empresas ligadas e as não ligadas ao BGD com os negócios formalizados e não formalizados. A Figura 63 apresenta resultados que serão discutidos a seguir.
ligadas ao projeto BGD com negócios formalizados e não formalizados com negócios formalizados e não formalizados
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
NÃO TENHO RELAÇÃO COM O MERCADO INTERNACIONAL
57,0%
Fonte: II Censo da IBJD (2018)
69,0%3,0%
39,3%
NÃO BGD BGD NÃO FORMALIZADO FORMALIZADO
PARTICIPOU COMO EXPOSITOR OU PALESTRANTE EM EVENTOS
16,4%
8,5%79,3%
35,6%
TEM CLIENTES EM OUTROS PAÍSES
20,3%
15,5%67,2%
34,2%
CONTRATOU SERVIÇOS NO EXTERIOR
12,9%
8,5%36,2%
20,5%
PARTICIPOU DE MISSÕES COMERCIAIS INTERNACIONAIS
5,2%
58,6%1,4%
20,5%
TEM REPRESENTANTES COMERCIAIS EM
OUTROS PAÍSES
5,0%
0,0%16,0%
9,1%
TEM UNIDADES PRODUTIVAS EM OUTROS PAÍSES
1,0%
0,0%7,0%
3,2%
TEM ESCRITÓRIOS COMERCIAIS EM OUTROS PAÍSES
1,3%
8,6%1,4%
3,2%
OUTROS
7,8%
8,6%5,6%
8,7%
Os dados mostram que as empresas não formalizadas são as que têm menos exposição ao mercado internacional, se constituindo em 69% das respondentes, sendo que entre estas nenhuma têm representação comercial ou unidades produtivas em outros países. O número de empresas não formais com escritórios comerciais e que participaram de missões fica na faixa de 1,4%. Essa categoria foi melhor em relação à existência de clientes em outros países,
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com registro de 15,5% com resposta positiva; 8,5% entre elas declaram ter participado ou feito palestras em eventos e terem contratado serviços no exterior.
Já as empresas formalizadas demonstram ter mais familiaridade com o mercado inter- nacional, na medida em que pouco o percentual de não ter relação com o exterior é menor que as não formalizadas, 39,3%. Como observa-se na Figura 64, o percentual para a parti- cipação ou palestra em eventos está muito próximo do indicador da existência de clientes em outros países, 35,6% e 34,2% respectivamente. A participação em missões comerciais e a contratação de serviços no exterior apareceram para 20,5% destas empresas; 9,1% têm repre- sentação no exterior e 3,2% possuem unidades produtivas e escritórios comercias em outros países. Em geral, apesar dos números melhores para a totalidade das respondentes, perma- nece o padrão de haver mais respostas positivas para os itens de internacionalização para as ligadas ao BGD, que mostram, em relação às empresas formais, praticamente o dobro dos indicadores em todos os critérios, reforçando ainda mais o argumento da importância de programas para estimular a internacionalização.
Para completar a análise, foram comparados os resultados das empresas formalizadas divididas em até R$ 360 mil de faturamento e acima de R$ 360 mil de faturamento com a mesma divisão das empresas participantes da BGD. Os números podem ser observados na Figura 3.
Os resultados comprovam que as empresas ligadas ao BGD têm maior relação com o mercado internacional em relação às não ligadas, nas mesmas faixas de receita. No entan- to, as empresas do BGD com faturamento inferior a R$ 360 mil apresentaram resultados melhores em relação àquelas não ligadas ao BGD com faturamento superior a R$ 360 mil, corroborando a forte influência do BGD na internacionalização.
ligadas ao BGD com até R$ 360 mil de faturamento e acima de R$ 360 mil de faturamento dentro e fora do projeto BGD com até R$ 360 Mil
de faturamento e acima de R$ 360 Mil de faturamento
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
NÃO TENHO RELAÇÃO COM O MERCADO INTERNACIONAL
6,1%
Fonte: II Censo da IBJD (2018) 46,2%
0,0%
14,0%
PARTICIPOU COMO EXPOSITOR OU PALESTRANTE EM EVENTOS TEM CLIENTES EM OUTROS PAÍSES CONTRATOU SERVIÇOS NO EXTERIOR
PARTICIPOU DE MISSÕES COMERCIAIS INTERNACIONAIS TEM REPRESENTANTES COMERCIAIS EM
OUTROS PAÍSES TEM UNIDADES PRODUTIVAS EM OUTROS PAÍSES
TEM ESCRITÓRIOS COMERCIAIS EM OUTROS PAÍSES
ACIMA DE R$ 360 MIL BGD ATÉ
R$ 360 MIL ATÉ NÃO FORMALIZADO
R$ 360 MIL BGD ACIMA DE
R$ 360 MIL
60,5%
24,2%
16,8%
52,0%
37,2%
7,4%
0,0%
16,0%0,6%
14,0%
0,0%
3,0%
16,0%1,2%
11,6%
1,2%
9,1%
24,0%6,4%
20,9%
0,0%
45,5%
24,9%
96,0%
74,4%
13,6%
48,0%
15,0%
72,0%
44,2%
1,2%
72,7%
28,3%
88,0%
67,4%
7,4%
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Cabe ressaltar dois itens em que os números mostram que o faturamento das empresas é um fator de influência menor do que a ligação ao BGD, como sinalizador de internaciona- lização. A análise de participação como expositor, ou palestrante em eventos e de participa- ção em missões comerciais internacionais, indica que as empresas ligadas ao BGD superam as não participantes, mesmo em faixas menores de receita. Enquanto 88% das empresas do BGD, com faturamento acima de R$ 360 mil, já participaram como expositor ou palestrante em eventos, as não ligadas ao programa na mesma faixa de faturamento compõem 67,4% do item. Entre as empresas do BGD, com faturamento abaixo de R$ 360 mil, 72,7% responde- ram positivamente ao item sobre participação em eventos, um percentual maior, portanto, em relação ao registrado para as empresas com faturamento acima de R$ 360 mil, mas sem ligação com o BGD. A comparação evidencia que a facilidade dos membros do BGD para acessar as oportunidades de participação em eventos internacionais proporcionadas pelo projeto influencia fortemente a inserção no mercado internacional. Custos menores para os eventos e acesso às ferramentas destes ajudam a aproximá-las de publishers e outros atores da indústria de Jogos Digitais.
Da mesma forma ocorre com as missões. A BGD procura promover missões comerciais paralelamente aos eventos, com representantes dos governos e com empresas. Estas mis- sões não necessariamente estão vinculadas aos eventos. Elas podem ser específicas para reconhecimento de oportunidades de negócios. No item relativo às missões, também as empresas participantes do projeto BGD, tanto acima de R$ 360 mil de faturamento (72%), como abaixo deste valor (48%), superaram as empresas acima de R$ 360 mil que não estão na BGD (44,2%).
A pesquisa detectou um caso fora dos padrões analisados até aqui: uma única empresa sem ligação com o BGD, e com faturamento até R$ 360 mil, declarou ter uma unidade pro- dutiva fora do país. Nenhuma das empresas do BGD, respondentes do II Censo, com este nível de faturamento indicaram ter unidades fora do país.
A seguir discutir-se-á a maturidade das empresas de Jogos Digitais.