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Desconstruindo a imagem do inimigo desumanizado

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-122)

3.2 Propostas para aulas

3.2.1 Desconstruindo a imagem do inimigo desumanizado

Esse tipo de gente, você não pode tratá-lo como se fosse um ser humano normal, tá? Que deve ser respeitado, que é uma vítima da sociedade. Não podemos deixar os policiais continuarem morrendo nas mãos desses caras.

O Exército Brasileiro acabou de perder três jovens garot os para o crime, agora. Temos que fazer o quê? Em local que você possa deixar livre da linha de tiro as pessoas de bem da comunidade, ir com tudo para cima deles. E dar para o policial, dar para o agent e de segurança pública, o excludent e de ilicitude. Ele entra, resolve o problema. Se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado [o policial] e não processado.”144

Uma possibilidade que a ficção oferece aos docentes e que pode ser explorada em sala de aula, é a exposição de aspectos da realidade em escalas fora do comum, realçando assim certos traços e potencializando a troca de ideias. A ficção possibilita a construção de episódios que provavelmente não ocorreriam de maneira tão explícita na realidade, e desta forma, ainda que sejam baseados em situações hipotéticas, estes podem nos possibilitar estabelecer laços verossimilhantes com o mundo onde vivemos. Esse é o caso do quinto episódio, Man against fire (engenharia reversa, em tradução livre), da série antológica

144 Jair Bolsonaro, ainda como presidenciável, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto de 2018. Entrevista completa disponível em: < https://tinyurl.com/2p93dv4t >. Acesso em: 18/04/2022.

britânica, Black Mirror (espelho quebrado, em tradução livre) em sua terceira temporada145.

Nesse episódio, nos é apresentado um mundo pós-apocalíptico distópico, onde a humanidade lida com criaturas antropomórficas, denominadas pelos personagens como baratas, espécimes com aparências que mesclam traços de seres humanos com os de insetos. Dentro deste contexto, soldados são enviados para combater e eliminar constantemente essas baratas, afirmando que estas representam uma ameaça para a espécie humana, sendo responsáveis por roubos, causar pânico, entre outras coisas. O soldado Stripe, um dos designados a eliminar as baratas, protagonista do episódio e ao qual seguiremos ao longo do episódio, começa a notar comportamentos estranhos em algumas destas criaturas, passando a questionar as suas reais motivações e a investigar o que realmente se passa naquele mundo distópico.

O episódio em questão, possibilita a nós, docentes, de maneira ficcional, mostrar aos alunos a instrumentalização da figura do inimigo comum, visando gerar o desprezo extremo a um tipo de ser, neste caso as baratas, e relacionar este a desumanização que é feita por alguns sujeitos em diversos episódios da história que tem por objetivo formar a percepção de que estes são “seres descartáveis”. Como exemplos podemos citar a desumanização dos judeus pelo regime nazista, o trecho da fala de Jair Messias Bolsonaro destacado no início desta subseção 146, a demonização dos povos africanos e seus descendentes pelos agentes das potências imperialistas147, ou ainda, a que nos é aqui pertinente, a desumanização realizada pelos sujeitos negacionistas da ditadura militar brasileira aos opositores do regime.

145Para os interessados em assistir ao episódio em questão, é importante destacar que o presente trabalho contém spoilers de seu desfecho. Recomendo assistir o mesmo antes de ler a presente subseção, para que a experiência não seja comprometida. O episódio pode ser assistido por aqueles que possuem assinatura, pelo canal de streaming Netflix, através do link:

< https://tinyurl.com/5yu8swu8 >. Acesso em: 30/03/2022.

146 Esse trecho e outros podem ser usados para evidenciar a exploração da desumanização do inimigo comum no presente.

147Mbembe (2016) fala sobre a desumanização, e como esse recurso retira dos algozes a sensação de que cometeriam um assassinato. Para tal, a desumanização tenta emular situações que levam os algozes a crerem que suas ações violentas não estão sendo desencadeadas contra seres humanos, busca tornar essas práticas impessoais e “aceleradas”, como uma linha de produção no mundo moderno. O autor cita o emprego deste recurso em episódios como os campos de concentração nazistas ou no processo de dominação realizado pelas potências europeias em países periféricos.

Retomando a descrição do episódio, ao longo da trama nos é revelado que de fato, as baratas seriam humanos indesejáveis para aquela sociedade, devido à escassez de suprimentos tornou-se necessário uma seleção dos que deveriam ou não ser contemplados com a possibilidade de viver. Os soldados antes de serem encarregados de eliminá-las, passavam por um procedimento que apagava as suas memórias e, além disso, recebiam uma inserção tecnológica por via ocular, fazendo- os enxergar as baratas daquela forma, criaturas não humanas e repugnantes. A motivação por trás desses atos também nos é revelada, essa desumanização das baratas facilitava a eliminação das mesmas pelos soldados, pois ao verem criaturas de aparência desagradável, os soldados não apresentavam resistência ou desconforto ao abatê-las, enquanto, ao lidar com sujeitos de aparência humana, questões como ética, empatia e remorso pesavam no momento de apertar o gatilho, os sentimentos influenciavam na tomada de decisões.

Seguindo um desfecho que pode ser comparado em certos pontos com a alegoria da caverna platônica, Spike, quase no encerramento do episódio, tem de escolher entre a luz da realidade, passando a ser um pária, perseguido como uma barata pelos demais militares, ou abraçar as trevas da ignorância, tendo suas memórias novamente apagadas, para que possa seguir eliminando as baratas, relegando o mundo das ideias e abraçando o conforto do interior da caverna.

O primeiro plano de aula aqui desenvolvido se assenta sobre a seguinte possibilidade: apresentar o episódio em questão em sala de aula, intercalando-o com trechos das obras negacionistas analisadas na seção anterior. Esses trechos selecionados em narrativas negacionistas, devem conter descrições dos opositores da ditadura civil-militar brasileira, que em essência transformam esses em criaturas unidimensionais vazias, desprovidas de traços básicos humanos, que poderiam despertar nos leitores/espectadores quaisquer auto identificação, evitando qualquer sinal de empatia ou compaixão.

Como objetivo central desta abordagem, podemos destacar que esta visa levar os discentes a perceberem os meandros usados pelos sujeitos negacionistas em suas abordagens, além de trazer uma questão ético-moral relevante: seres humanos não podem ou devem ser vistos e tratados como sujeitos descartáveis.

Essa parte pode ser acompanhada por trechos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e/ou da constituição brasileira de 1988, com trechos que evidenciam a defesa da vida e da integridade dos indivíduos. Esta é uma proposta de atividade

introspectiva, que preza por suscitar no alunado a reflexão de como é construído o arquétipo de um inimigo comum.

Destacamos em seguida alguns trechos das obras negacionistas analisadas que podem ser utilizados nesta abordagem. Com o objetivo de evitar repetições, apresentaremos apenas quatro trechos que podem ser utilizados nessa empreitada, mas decerto existem outros que cumpririam a mesma função, alguns, inclusive, que já foram expostos ao longo deste trabalho:

Enfim, uma guerra suja, pois como escreveu Marighella, era uma guerra onde eles viviam camuflados numa sociedade que pretendiam destruir, para implantar, com a força das armas, o comunismo no Brasil. (US TRA, 1987, não paginado)

Treinada para obedecer aos chefes, disciplinada, jamais saindo da linha proposta pelo partido, foi, antes de tudo, um fant oche à disposição do exército vermelho. Cumprindo sempre, cegamente, as det erminações, deixou seu marido russo B.P. Nikitin, e m dezembro de 1934, para acompanhar prestes que voltava ao Brasil. (US TRA descrevendo Olga Prestes, 2007, p.46)

Segundo a esquerda radical, revolucionário comunista não é assassino. Os assassinatos de pessoas- inclusive de seus companheiros de partido- são chamados de “justiçament os”, feitos em nome da “liberdade e da democracia”. Em nome desses valores distorcidos, um “Tribunal Vermelho”, composto às vezes por duas ou três pessoas, julgava, sumariamente, todos os que desejavam abandonar as fileiras da organizaç ão, desiludidos com a ideologia, ou aqueles que se tornavam suspeitos de uma possível delação.

Os ‘juízes’ desse tribunal variavam de acordo com o contato com as vítimas.

A partir de 1934, os comunistas perpetraram crimes com requinte de perversidade, em nome de sua ideologia, para eliminar não só os representantes da lei que os combatiam, mas, também, para justiçar alguns de seus próprios companheiros. (USTRA, 2007, p. 54)

1917 – Assaltos a bancos e agitações nos quartéis do exército imperial russo. A revolução assassina brutalmente a família imperial Romanov para implementar uma ditadura que tinha Lenin como Deus e Stalin e Trotsky como papas vermelhos. Os soviéticos desenvolvem um plano para conquistar o mundo e implantar o comunismo em todos os países. O reino do terror vermelho se espalha nas décadas seguintes. O Holodomor e os Gulags são alguns dos genoc ídios que resultam das ditaduras totalitárias. A doutrina iniciada por Lenin é levada adiante por Stalin. (transcrição da fala do narrador do vídeo Brasil Paralelo (2019), aos 06 minutos e 17 segundos)

Algumas falas advindas de sujeitos influenciados pelo olavismo também podem ser exploradas na realização desta abordagem. Algumas destas, já aqui citadas, expressam essa desumanização e o desprezo pela figura do outro. Não entraremos aqui nessa abordagem, visando manter a concisão textual, mas decerto é uma possibilidade válida para intercalar a prática docente com fatos cotidianos, mais próximos à realidade dos estudantes.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 118-122)