2.2 A Mostra sem conflitos ou os conflitos da Mostra
2.3.3 Desconstruindo estereótipos
gerou uma reação de respeito ao que antes era tratado por alguns colegas de sala como algo que deveria envergonhá-la.
existem quem diga que não. Uma “pulga atrás da orelha” pode ser o suficiente para abalar as convicções que acompanham uma visão preconceituosa.
O palestrante da federação de umbanda foi à escola com uma roupa, nos dizeres de Patricia Santos, “totalmente civil”. Ou seja, uma pessoa que faz compras, fica na fila do banco, pega ônibus e pode eventualmente estar ao lado de alguns dos alunos torcendo pelo mesmo time de futebol. Identificar em adeptos de uma religião diferente da sua a mesma humanidade que há em você é reconhecer que estas pessoas não podem ser rotuladas como se fossem partes de uma massa uniforme, homogênea, igual. Enxergar o outro é reconhecer o que aquele indivíduo tem de único e, ao mesmo tempo, o que significa para ele aquela religião.
Neste aspecto, uma das questões que mais apareceram nas entrevistas como obstáculos a serem superados é a associação direta e exclusiva entre Negros, África e macumba. Como se todos os africanos fossem candomblecistas e umbandistas e todos os adeptos destas religiões fossem negros. Diz Renata Cordeiro: “A gente tem casos de alunos que colocam 'ah, não, professora, isso é coisa de preto'.” (CORDEIRO, 2013). Segundo as professoras, muitos alunos entendem os três elementos como se fossem peças de uma única engrenagem. Isto é um problema, posto que reduz um continente amplo e complexo, uma identidade racial com muitos significados e duas religiões a apenas uma parte do que elas significam e representam.
[...] um senhor mais velho, cabelo branco, olhos claros, veio de terno com a esposa loira para falar sobre a umbanda e sobre o candomblé. Aí eles perguntaram:
“professora, não, ele não é macumbeiro não, professora. Como ele é macumbeiro se ele é branco, se ele não veio com aquela roupa, se a mulher dele não está girando aqui?” Foi o que eles falaram pra mim. Então a gente também consegue com essa Mostra quebrar estereótipos, porque eles achavam que vinha uma pessoa negra, com a roupa, com a vestimenta, aí a gente tem que explicar que é uma vestimenta de ritual e tal. (CORDEIRO, 2013)
(…) comentando com eles sobre o que era África, que era um continente, que havia uma diversidade tremenda. Porque eles pensam logo a África: pobreza, miséria e negro. Não, tem gente branca, tem gente loira, tem gente negra, tem de tudo. E aí eles pensam que a África “ah, é macumba”, não, a maior parte do norte da África é do Islamismo. (FERREIRA, 2013)
Não é a minha pretensão desconsiderar a relação entre a África, os negros, o candomblé e a umbanda, tanto que assinalei anteriormente a associação entre discriminação religiosa e racismo. Quando um adepto da umbanda sofre um preconceito, quando a escola silencia sobre a África, o racismo está presente. Concordo com Adaílton Moreira quando afirma que “a discriminação do candomblé, na sociedade e na escola, mesmo este tendo
muitos integrantes brancos, também é uma discriminação racial” (CAPUTO, 2012, p. 244) No entanto, é fundamental compreender que, apesar de possíveis aproximações, não dá pra considerar a África, o negro e o candomblé uma coisa só. Para as professoras, a Mostra sobre Diversidade Religiosa ajuda a desconstruir esta ideia e colocar o ser humano, com suas identidades e contradições no centro da reflexão sobre a questão religiosa.
Como já foi citado neste trabalho, é necessário “Compreender o outro atrás de seus véus e templos, rituais e orações” (SILVA, 2010, p. 206), pois isto abre novas possibilidades para os estudantes reconhecerem a existência da diferença. E compreender que o mundo, multicolorido, não se resume às cores que enxergamos em um primeiro olhar.
Eu vejo a questão com relação aos alunos, com relação às palestras, deles identificarem uma outra cultura, com formas diferentes de pensar. A questão de se colocar, de questionar, de compreender que mesmo que ele não se identifique com aquela religião, de compreender que tem uma coisa diferente da dele. Você precisava ver na palestra do Fernando, falando do Islamismo. Ele estava mostrando uma cerimônia em uma mesquita, era aquela que tem a Caaba, milhares de pessoas em volta, ele mostrando o vídeo. “nossa, isso tudo são pessoas aí em volta?” Eles viram um outro mundo que eles nem imaginavam que existia. Eu vejo assim essa abertura pro diálogo com o outro, abertura para o conhecimento de coisas diferentes.
(…) mas eu sinto uma abertura de visão de mundo nos alunos, acho que esse é o objetivo principal, ver que tem coisas além do que ele acredita, outras coisas que outras pessoas acreditam e ele nem imaginava. (FERREIRA, 2013)
3 A MOSTRA EM QUESTÃO
Bruno era estudante da escola Elisa Lucinda em 2014 quando presenciou um caso de discriminação religiosa ocorrido na escola:
A garota, só porque a mãe dela fez o negócio dela na casa de santo, que teve que raspar a cabeça, geral começou a se afastar dela. Não sei se era amiga, começou a tacar negócio nela, chamar ela de macumbeira, acabou que a garota saiu da escola.
[...] Aí ela sentava no canto, sozinha lá e geral mais pra cá.
Este aluno participou da Mostra Sobre Diversidade Religiosa em 2013, onde assistiu a palestra de José Carlos Gentil, representante da Federação Brasileira de Umbanda. Perguntei a ele qual foi a reação dos estudantes em relação à palestra, se teve alguma resistência ou incômodo em relação ao palestrante: “Não se incomodaram muito porque tem que ter respeito, essas coisas. [...] Com ele não, mas passou um ano só e começou com a garota só porque ela raspou a cabeça”.
Bruno apresentou uma situação desigual: enquanto o palestrante representando a Umbanda teve o aval das professoras e foi bem recebido e respeitado (ao menos publicamente) pelos alunos, o mesmo não ocorreu com a estudante que havia raspado a cabeça em um ritual do candomblé. Na escola ela foi perseguida, discriminada, ficou isolada e acabou saindo da escola. Ao contrário do que aparece na maior parte das produções e dos discursos sobre a Mostra, esta história não teve um final feliz.
A narrativa de Bruno é fundamental por dois motivos: primeiro, porque podemos perceber que o potencial da mostra para enfrentar a discriminação religiosa presente na escola é limitado. A invisibilidade e a discriminação sobre os estudantes adeptos de religiões de matriz africana não foram eliminados, nem poderiam: este problema é muito complexo e extenso para ser enfrentado com uma única atividade pedagógica. Em segundo lugar, a narrativa do Bruno deixa evidente que os estudantes têm olhar crítico e questionam a utilidade da Mostra, refletem sobre qual seria a sua função, além de apontar os seus problemas.
Professores e seus projetos são avaliados o tempo todo pela comunidade escolar, tanto por alunos quanto por responsáveis, outros professores, coordenadores, diretores. Por isto, as professoras responsáveis pela Mostra desenvolveram algumas estratégias para legitimar esta atividade.