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Desdobramentos do ciclo de protestos globais

1.1 Uma primavera mundial?

1.1.8 Desdobramentos do ciclo de protestos globais

Os protestos levaram à reorganização das relações de forças na Tunísia e Egito como mostramos. De 2011 a 2017, os egípcios enfrentaram situação política turbulenta.

Depois de governo militar temporário, foram convocadas eleições em 2012, com a eleição de Muhammad Morsi, da Irmandade Mulçumana – considerada corrente islâmica radical.

Morsi tentou promulgar nova constituição buscando como inspiração o fundamentalismo islâmico, mas foi derrubado por um golpe civil-militar em julho de 2013.

Principal nome das Forças armadas, Abdel-fattah Al-Sissi34 foi eleito presidente com 96,91% dos votos. A ida de Al-Sissi para o governo não representou estabilização política. Ao contrário, aumentou a repressão por parte do governo aos grupos dissidentes.

No período de seis anos, após a derrubada da ditadura, a Tunísia enfrentou instabilidade política e tensão social frente à estagnação econômica35.

Frente aos conflitos tanto no Egito, quanto na Tunísia, outro desdobramento foi aumento do processo migratório. O Egito também enfrenta a ação de terroristas. Dois atentados ocorreram no período em que os cristãos comemoram o Domingo de Ramos, resultando na morte de 44 pessoas em igrejas de Alexandria e Tanta, no norte do país.

A Espanha teve como consequência importante a criação de um partido. Os protestos desencadearam amplo debate sobre a democracia e representação naquele país que culminou, nos anos que se seguiram, no processo de criação do Podemos36, em 2014.

Vale ressaltar que se trata de desdobramento e não continuidade entre o 15M e o Podemos.

Criado como alternativa ao Partido Popular (PP), de direita, e ao Partido Socialista Operário

34 Foi Morsi quem nomeou Al-Sissi comandante das Forças Armadas do Egito.

35Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2016/01/13/apos-5-anos-tensao- politica-alimenta-nova-revolucao-na-tunisia.htm?cmpid=copiaecola>.

36“Eleições em Barcelona e Madri marcam a virada política na Espanha”, disponível em:

<http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/internacional/1432510725_227200.html>. Acessado em 6 de novembro de 2015. A esquerda histórica critica o Podemos por entender que não foca na luta de classe, conforme a reportagem “Alvo de esquerda e direita Podemos enfrenta eleições gerais na Espanha. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/08/1675334-alvo-de-esquerda-e- direita-podemos-enfrenta-eleicoes-gerais-na-espanha.shtml >. Acessado em 6 de novembro de 2015.

Espanhol (PSOE), de centro-esquerda, o partido recebeu apoio popular e disputa a preferência do eleitorado espanhol. Em 2014, conquistou cinco cadeiras no parlamento espanhol. Em 2015, apoiou Manuela Carmena e Ada Colau, candidatas independentes que venceram as eleições municipais de Madri e Barcelona. Tendo com um dos principais nomes Pablo Manuel Iglesias Turrion, que iniciou sua militância na juventude comunista, o Podemos critica as organizações partidárias tradicionais e se constituiu como terceira força política da Espanha.

Segurado et al. (2014) destacam que o Podemos resulta de modelo de ativismo que desponta na Espanha em um contexto de crise econômica e política. Essa também acompanhada de descrédito ao modelo de representação e de uma busca por lideranças que sejam capazes ampliar a participação popular e garantir o cumprimento dos interesses da população na esfera institucional. Em 2010, muitos espanhóis foram as ruas na Catalunha retomando o movimento para independência de uma das regiões mais ricas da Espanha. Os protestos se seguiram até que em outubro de 2017 foi realizado referendo em que 90% da população votavam na independência da região, o que não foi aceito pelo governo central da Espanha37.

Trostes e Silva (2015) apontam como desdobramento do Occupy Wall Street o crescente desejo de renovação da elite política norte-americana, dominada pelos partidos Democrata e Republicano. Dados da empresa de pesquisa Gallup demonstram tendência de crescimento no número de eleitores que se declaram independentes, não se identificando nem com democratas nem republicanos. Outro aspecto apontado acerca de desdobramento é o surgimento do senador Bernie Sanders, que disputou, em 2016, as prévias no partido Democrata com Hillary Clinton. A própria eleição de Donald Trump, em 2016, pode ser lida como uma manifestação de cansaço de parte significativa do eleitorado com a política usual.

Depois dos protestos de 2013, a Turquia viveu momentos conturbados na política. Entre março e agosto daquele ano, o presidente Recep Tayyip Erdogan se apresentou de maneira autoritária. Houve repressão aos manifestantes. Meses depois, ministros e a família de Erdogan foram denunciados por corrupção. No entanto, para se livrar das denúncias, Erdogan iniciou processo de exonerações nas forças policiais, Ministério Público e Judiciário. Depois de por fim às investigações, o poder de Erdogan aumentou. Em abril de 2017, ele venceu plebiscito alterando a Constituição. Com a alteração, poderá permanecer no cargo até 2029.

37 A Catalunha foi anexada a Castela em 1492. Uma das mais ricas região da Espanha, tem governo

próprio conhecido como Generalitat. Disponível em: <

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/15/internacional/1505488932_556803.html>. Acessado em 10 dezembro de 2017.

Os opositores questionaram a votação e bateram panelas em protestos, mas Erdogan se afirma a partir da votação que ganhou por pequena margem – o “sim" somou 51,37% dos votos, enquanto o "não" ficou com 48,63%. As mudanças preveem eleições presidenciais em novembro de 2019. O presidente tem mandato de cinco anos e pode se reeleger por uma vez. Como ocorreram as mudanças, será como se ele estivesse concorrendo pela primeira vez em 2019, podendo se eleito, tentar a reeleição.Apesar das especificidades desses vários processos políticos, é possível identificar o surgimento de um ciclo de protestos com movimentos conectados pelas redes sociais e cujas ações têm uma dimensão transnacional (KAMINSKI, 2014). No entanto, ao olhar com atenção cada um, sem se configurarem como protestos coesos e unificados ao redor do globo, eles têm pontos de interseção, que também são identificáveis quando se investigam os levantes brasileiros.

Argumentamos que o questionamento à hierarquia, o distanciamento e uma recusa muito forte aos modos naturalizados de governar e de viver juntos – além da amarração ideológica neoliberal, a força das ideias autonomistas e a crescente personalização da política – são traços a atravessar esses vários protestos. Dito isso, podemos nos mover ao próximo capítulo em que exploramos, especificamente as manifestações de 2013 no Brasil.

2 JUNHO DE 2013: UM MÊS QUE NÃO ACABOU

As imagens de cidades brasileiras tomadas por multidões em Junho de 2013 já podem ser consideradas históricas. A experiência de ocupar as ruas foi vivida por, pelo menos, 1,4 milhão de pessoas em mais de 100 municípios, de acordo com levantamento do G138, em 20 de junho de 2013. A Folha de S. Paulo39 informou que mais de 1 milhão de pessoas saiu às ruas em 388 cidades, incluindo 22 capitais.

Uma pesquisa feita pelo Ibope, em 20 de junho, em oito capitais brasileiras traçou as preferências dos manifestantes40. A maioria dos manifestantes dizia não se sentir representada por partido (89%) ou político brasileiro (83%). Entre os entrevistados, 96%

alegaram não ser filiados a nenhum partido político e 86% não eram filiados a nenhum sindicato, entidade de classe ou entidade estudantil. As pessoas saíram às ruas desejosas de nova política e acreditando que os atos representariam uma nova forma de fazer política:

Os novos ativistas querem outro tipo de política. Uma política de cidadãos, não só de políticos, militantes partidários ou entidades. Desejam atuar de forma mais livre e horizontal, mediante ações que se organizam no calor da hora e em função dos recursos e da disponibilidade dos participantes. Nas manifestações dos nossos tempos líquidos, não há partidos ou sindicatos no comando. Não se fazem assembleias à moda antiga em que as decisões são quase sempre manipuladas. Há muita festa e determinação, bem mais que disciplina militante. Admite-se que cada um é livre para seguir o que pensa, votar como acredita ser melhor, sonhar o sonho que quiser”

(NOGUEIRA, 2013, p. 53-54).

A pesquisa apontava que 49% dos manifestantes afirmavam lutar contra a corrupção e desvios no dinheiro público. O descontentamento com o transporte público aparece como motivação para as mobilizações por 38% dos entrevistados. As mudanças no ambiente político são apontadas por 30%. Outros dados também são bastante elucidativos:

11% alegavam a necessidade de mudança e 10% se diziam insatisfeitos com os governantes de forma geral.

No período, jornalistas e especialistas tentavam dar sentido ao que ocorria nas ruas, que era diferente de outros movimentos de grande adesão popular, como as Diretas e Impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Uma geração viveu, pela primeira vez, a experiência de estar em protestos de larga escala. Se as mobilizações em

38 Infográfico Manifestações pelo Brasil, disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/protestos- 2013/infografico/platb/>. Acessado em 3 de abril de 2014.

39 Em dia de maior mobilização protestos levam mais de 1 milhão de pessoas às ruas do Brasil em

Folha de São Paulo, Cotidiano, 20/06/2013. Disponível em:

<http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/20/em-dia-de-maior-mobilizacao- protestos-levam-centenas-de-milhares-as-ruas-no-brasil.htm>. Acessado em 30 de agosto de 2015.

40 Disponível em: <http://www.ibope.com.br/pt-br/noticias/Paginas/89-dos-manifestantes-nao-se- sentem-representados-por-partidos.aspx>.

favor do impeachment tiveram os caras-pintadas pedindo o afastamento do presidente Fernando Collor e, nas Diretas Já, foi entoado coro pela redemocratização, as ruas de 2013 abrigaram um mosaico em termos de composição dos manifestantes e se apresentarem como uma esfinge com questões a serem decifradas.

Há vasta literatura que procura identificar as causas dos protestos, a conjuntura em que eles eclodiram e seus desdobramentos (JUDESNAIDER et al., 2013, SILVA, 2014;

RICCI e ARLEY; 2014; GOHN, 2014; CASTELLS, 2013; CAVA, 2103; MARICATO et al., 2013; BRINGEL, 2013; MENDONÇA e ERCAN, 2015; SINGER, 2013; SCHERER- WARREN, 2014; SILVA, 2014; NOBRE, 2013; NOGUEIRA, 2013; PEREIRA e SANTOS, 2014; AVRITZER, 2016). Boa parte da literatura sobre junho de 2013 procura reconstituir a conjuntura política brasileira, o que é fundamental dado que os protestos, de certa maneira, irromperam em um cenário de aparente tranquilidade e calmaria. Na interpretação, a partir da teoria do processo político, as jornadas podem ser explicadas por um conjunto de oportunidades políticas: a) à participação, b) às mudanças no alinhamento e c) à repressão e à facilitação da ação coletiva41.

Na teoria do processo político, os confrontos políticos se devem mais ao surgimento de oportunidades de ação coletiva do que à vontade dos atores sociais. Se, como Tarrow (2009) destaca, os sujeitos não identificam ao mesmo tempo o surgimento dessas oportunidades políticas, podem-se esperar tempos distintos para se engajar na ação coletiva. É o que nos ajudam a perceber as diferentes fases de Junho de 2013 com a constituição de atores e atrizes nas ruas em momentos diversos.