5.4 Anonimato
5.4.1 Uso de máscaras e lenços
139. A semente dessa forma de ativismo data de 2003, quando na rede social denominada 4Chan, um imageboard que funcionava como fórum de discussão. O grupo foi criado para defender os direitos humanos e as liberdades individuais por meio da postagem de imagens e pequenos textos Muitos eram transformados em memes e repostados em outras páginas. O conteúdo era agrupado na seção
"b - random", onde estava liberada a “trollagem”. A primeira ação ativista foi contra Hal Turner, radialista e blogueiro americano que defendia a supremacia branca. Fizeram ações coordenadas, como a divulgação do número de Turner para que todos pudessem “trollar” o radialista em seu site.
Várias pizzas também foram enviadas para a casa do radialista para que ele pudesse pagar. Outra ação foi contra a Igreja da Cientologia, quando convocaram os primeiros protestos de rua e sugeriram que as pessoas cobrissem os rostos. Foi quando deu início ao uso da máscara de Guy Fawkes.
140 Abreviatura de anonymous.
Nos protestos em Junho de 2013, máscaras, lenços ou outros recursos para encobrir a face foram amplamente utilizados por manifestantes que estiveram nas ruas das cidades brasileiras. Como discutimos no capítulo anterior, a máscara é usada como maneira de escapar do controle, que se expressa de diferentes maneiras: seja na repressão do Estado, por meio da ação da polícia, seja pela possibilidade de os sujeitos serem identificados, fotografados, catalogados e, dessa forma, se tornarem alvo para acompanhamento e controle. Máscaras também permitem escapar de categorizações pré- estabelecidas. Selfies de sujeitos com o rosto encobertos são recorrentes entre as imagens compartilhadas nas páginas analisadas.
As imagens demonstram que as máscaras141 se multiplicaram nas multidões que ocuparam as ruas de cidades como São Paulo e Belo Horizonte. Ao analisar as imagens compartilhadas nas páginas analisadas, chama atenção o número de manifestantes que usam a máscara em diferentes situações: ativistas sozinhos portando cartazes com reinvindicações; sujeitos em meio à multidão; pessoas em situações inusitadas, como, por exemplo, a imagem que mostra mascarados levando doação de alimentos para moradores de rua.
As máscaras não apagam as diferenças internas de grupos. Embora, em um primeiro olhar, a estética da ta´tica possa dar a ideia de homogeneidade. Solato et al. (2014) destacam que há divergências, cismas e fraturas internas. Alguns dos pontos que os que aderem à tática divergem entre si estão relacionados ao uso da ação direta, papel da violência nos protestos e a violência em relação aos policiais. Alguns defendem que a tática tem o intuito de proteger os manifestantes, enquanto outros aderem à lógica de ação mais agressiva, conforme Solano et al. podem identificar ao acompanhar protestos em São Paulo.
Os pesquisadores identificam, por exemplo, a discussão acerca de adolescentes que aderem à tática por modismo sem refletir sobre o significado da violência. Nessa direção, os pesquisadores revelam aspectos referentes às construções subjetivas:
Para o observador descuidad, toda manifestação é parecida, como ajustáel a determinismos matemáticos. Todo policial é parecido. São todas figuras sem identidade, sem nome, que podemos classificar e julgar sem conhecimento prévio. (SOLANO ET AL., 2014, p.771)
As máscaras não apagam as diferenças internas de grupos. Os sujeitos sabem, frequentemente, quem é quem por trás das máscaras. No entanto, para aqueles que não pertencem ao grupo, a máscara gera certo sentido de uniformidade e coletividade.
Ocultar o sujeito é também uma forma de resistir que caminha na contramão dos processos de subjetivação atuais, que incitam a exposição e mapeiam rastros, facilitando o controle. Então, é uma resistência porque
141 Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/06/1299052-v-de-vinganca-mascara- usada-em-protestos-foi-criada-em-quadrinhos-dos-anos-1980.shtml>.
induz a criação de outro sujeito menos personalista e anônimo, que pode circular e agir com mais facilidade. (FELINTO e COSTA, 2013, p. 31)
Assim, as máscaras são apresentadas como indicativo de luta que não é só do sujeito. Os dizeres contidos na FIG. 12 expressam bem essa questão: “porque a máscara?
porque quando alguém olhar para um de nós, não verá um rosto, mas sim uma legião.”
FIGURA 12 - AnonymousBrasil, dia 23 de junho de 2013.
Ao encobrir a face do sujeito, máscaras também permitem uma desidentificação, apagando marcas de pertencimentos impostos, leituras apriorísticas e identidades adscritivas. Máscaras transformam, momentânea e efemeramente, homens e mulheres de diferentes idades, etnias e crenças em um coletivo amorfo. Ademais, algumas das imagens postadas mostram que o uso da máscara permite ao manifestante apresentar publicamente proferimentos e atos agressivos (FIG. 13).
FIGURA 13 - Foto do dia 6 de junho de 2013.
Fonte: AnonymousBrasil.
Mascarados podem, por exemplo, carregar cartazes com diferentes dizeres ofensivos (FIG. 14). Além disso, a máscara, como representação, é usada para a confecção de memes que denunciam o controle; que colocam em xeque a política e a imprensa e denominam os manifestantes como alienados. Ao proteger os sujeitos em uma espécie de anonimato externo, máscaras configuram uma nova forma de rosto público, que permite outras formas de interlocução e expressão.
FIGURA 14 - Foto do dia 24 de junho de 2013.
Fonte: Anonymous Brasil.
FIGURA 15 - Foto do dia 22 de junho de 2013.
Fonte: Anonymous Brasil.
Atos de destruição de bens públicos e privados, que foram atribuídos a mascarados em Junho de 2013, levaram à proposição de leis antimáscaras, o que levou à discussão jurídica do direito ao anonimato. O uso de máscaras é apontado como ação de
"caráter simbólico, comunicativo e artístico" por Queiroz e Gervasoni (2014). Em setembro, foi aprovada lei que proíbe o uso de máscaras em protestos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.142 German e Arguello (2015) apontam que, como o discurso do Estado não pode se voltar para a contenção dos protestos, direciona-se, então, às práticas delitivas ocorridas no curso de manifestações. O discurso deslegitimador volta-se contra os manifestantes que cometem atos de “vandalismo” e violência durante os protestos.
142 Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/09/projeto-de-lei-que-proibe- mascaras-em-protestos-e-aprovado-no-rio.html>.
FIGURA 16 - Foto de Rodrigo Montezuma, do dia 27 de junho de 2013.
Fonte: Anonymous Brasil.
Na seção subsequente, analisaremos as imagens de multidão que foram amplamente compartilhadas durante Junho de 2013. A multidão aparece como corpo político, como veremos a seguir.