• Nenhum resultado encontrado

5 PERCURSO METODOLÓGICO

Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho e na ação-reflexão”

Paulo Freire

Foi um percurso longo, dolorido e de muito crescimento.

Iniciei o Mestrado no segundo semestre de 2013 e tive a alegria de ter como orientador o professor Dr. Luis Ágea Cutolo e como co-orientadora a professora Dra. Antônia Egídea de Souza. Caminhamos juntos até janeiro de 2015, quando ambos os professores se desligaram do Programa. Por esse motivo, eu tive que recomeçar meu processo com outro(a) orientador (a), o que foi muito difícil pelo fato de restar somente mais um semestre para a conclusão do Mestrado.

Além disso, fiquei grávida em fevereiro de 2015 e a nova condição levou-me a fazer a escolha entre viver a nova experiência com o máximo de intensidade ou dividi-la com os estudos de mestrado, casamento e trabalho. Decidi renunciar aos estudos e retomá-los posteriormente.

Abro esse tópico com particularidades contextuais de meu processo, no plano privado, para que o leitor possa compreender que as etapas constitutivas do percurso metodológico, descritas a seguir, correspondem a duas trajetórias: a primeira, vivenciada na experiência inicial de mestrado, de 2013 a 2015, e a segunda no período 2016-2018.

A técnica utilizada foi pesquisa-ação.

Segundo Leopardi (2011), a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica, concebida e realizada com estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e na qual os pesquisadores e os participantes, representativos da situação ou do problema, estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Por meio desta técnica, o conhecimento é produto do coletivo; pesquisadores e grupos interessados, com iguais prerrogativas, discutem em reuniões e seminários o problema que direciona a pesquisa. A argumentação, gerada pela discussão e diálogo, é uma de suas características.

Trata-se, portanto, de um tipo de pesquisa participante engajada, que considera a prática como lócus de produção de conhecimento e compreensão. Um tipo de pesquisa atrativa pelo fato de poder levar a um resultado específico imediato, no contexto do ensino aprendizagem. Pode ser aplicada em qualquer ambiente de interação social que se caracterize por um problema, no qual estão envolvidos pessoas, tarefas ou procedimentos (MONTEIRO et al., 2010).

Na visão de Thiollet (1996), a pesquisa ação tem como características: a) ação conjunta entre pesquisadores e participantes; b) problemas existentes na situação social estudada, e a própria situação social estudada são o objeto do estudo; c) resolução dos problemas observados na situação social estudada constituem o objetivo o estudo. Quanto aos seus objetivos, cabe citar: “propor soluções que auxiliem o grupo de pesquisa na sua atividade transformadora da situação-problema [...] e aumentar o conhecimento de determinadas situações” (LEOPARDI, 2011, p. 105).

Em síntese, a pesquisa-ação entende que o processo é libertador, já que, durante a reflexão gerada pela pesquisa, espera-se que os sujeitos desenvolvam uma consciência crítica sobre o seu cotidiano, ampliando seus horizontes de transformação e intervenção. E era exatamente isso que buscávamos na primeira fase do processo de mestrado, já que tínhamos como objetivo a construção de uma tecnologia social visando contribuir com o modelo de gestão local.

Os participantes desta primeira fase do estudo foram diretores ou seus representantes, supervisores, coordenadores e gerentes da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) das áreas afins dos departamentos de Atenção Básica e Especializada, de Urgência e Emergência, de Vigilância Epidemiológica e Sanitária, do Controle de Avalição, de Auditoria, Jurídico, de Recursos Humanos, do setor de Compras, Patrimônio, Manutenção, Almoxarifado, Fundo Municipal de Saúde e Administração, Transporte. Foram também convidados para participar 04 (quatro) profissionais da ESF (02 enfermeiras e 02 médicos), totalizando 30 (trinta) pessoas.

Cada um foi convidado individualmente pela pesquisadora, após um primeiro contato para agendamentos prévios, feitos por telefone ou e-mail. Esse movimento-convite exigiu duas semanas para ser concluído, uma vez que, além da necessidade de socializar com os participantes, a indispensabilidade de anuência em um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi necessário gerar um consenso sobre o dia a ser agendado para a aplicação da técnica, dado que todos são trabalhadores dos serviços e que eu queria reunir os representantes de todos os departamentos. Feita a escolha do dia, era a hora de decidir sobre o local.

Em um primeiro momento, escolhemos, em conjunto, a SMS do município como local para o desenvolvimento da técnica. No entanto, por falta de estrutura física que favorecesse a metodologia a ser aplicada, acabamos realizando a pesquisa no Instituto Fayal de Ensino Superior (IFES), que nos cedeu gratuitamente uma sala de aula por solicitação da própria SMS. Foram realizadas três oficinas entre novembro e dezembro de 2014.

Para que as oficinas pudessem acontecer com todos os diretores, supervisores e gerentes da SMS, primeiramente solicitamos autorização do Secretário Municipal de Saúde da época e o mesmo se mostrou acessível e concordou com a saída dos profissionais para que essa pesquisa acontecesse. Também contamos com a colaboração de duas pessoas que nos auxiliaram, desde os preparativos iniciais até a arrumação da sala de aula ao final. Após a realização de cada oficina, os dados foram registrados em áudio e transcritos na íntegra para posterior análise dos dados.

Realizamos a coleta de dados através de 03 (três) oficinas, com duração de aproximadamente três horas e meia cada uma.

Oficina é uma forma de construir conhecimento, com ênfase na ação, sem desconsiderar, porém, à base teórica. É uma oportunidade de vivenciar situações concretas e significativas baseadas no tripé sentir-conhecer-agir; vai além do foco tradicional de aprendizagem (cognição); é uma maneira prática da ação-reflexão (PAVIANI; FONTANA, 2009). A opção pelas oficinas se justificou, uma vez que, sua técnica gerou um produto coletivo com o objetivo de transformação da realidade, justamente o que desejávamos inicialmente para essa dissertação.

Aplicamos uma metodologia problematizadora proposta inicialmente por Charles Maguerez, na década de 1970 e, posteriormente adaptada por Berbel denominada “Método do Arco” (BERBEL, 1996). A versão de Berbel indica o seu uso como metodologia de ensino, de estudo e de trabalho, em situações em que os temas estejam relacionados com a vida em sociedade (BERBEL, 1998). Nela existe a participação ativa e o diálogo constante entre os

sujeitos envolvidos no processo educativo. Aparece na perspectiva da transformação, ou seja,

“na ideia de que deseja ultrapassar a forma já existente de se tratar as questões do conhecimento e da vida em sociedade, através de uma nova ação, subsidiada pela reflexão metódica e informada cientificamente” (BERBEL, 1995, p. 13).

O Arco de Maguerez é composto por cinco etapas. A primeira: observação da realidade (problema); a segunda: pontos-chave; a terceira: teorização; a quarta: hipóteses de solução; e a quinta e última: aplicação à realidade (prática).

Figura 4 – Proposta de Maguerez

Fonte: Berbel (1996).

Primeira oficina dia 04/11/2014

A primeira oficina aconteceu no dia 04 de novembro de 2014, com início às 13h30min e término às 17h00min, com intervalo de 30 minutos para um coffee breack. Esta oficina contou com 18 (dezoito) participantes, dos 30 (trinta) que haviam sido convidados: 01 (um) médico de família e comunidade, 02 (dois) enfermeiros(as) de família e comunidade, 04 (quatro) supervisores, 04 (quatro) coordenadores, 03 (três) gerentes, 01 (um) diretor e 03 (três) pessoas que representaram os diretores convidados.

Antes dos participantes chegarem, dispusemos as cadeiras em círculo e deixamos uma folha de papel sulfite em cima de cada carteira com uma pergunta disparadora – Qual é o principal objetivo da SMS –, a ser respondida conforme os mesmos iam chegando. Nesta folha (ANEXO B), os participantes inseriram as iniciais de seus nomes, idade, formação/profissão, função/cargo, forma de contratação, tempo de atuação na SMS/UBS e se

exercem outras funções/cargos concomitantes, com o objetivo de identificar e analisar o perfil dos sujeitos de pesquisas. Após todos terem respondido, iniciamos a oficina agradecendo a presença de todos e resumidamente explicamos novamente o objetivo da pesquisa e a metodologia a ser aplicada.

Primeiramente solicitamos para que individualmente cada um fosse se apresentando de forma a se identificar e responder verbalmente, em seguida, a pergunta disparadora.

Tínhamos o objetivo de observar a realidade (problema) vivenciada por cada sujeito no seu processo de trabalho e compreender o que cada um pensava ser o principal objetivo da SMS.

Esse momento durou em torno de uma hora.

Posteriormente ao momento de apresentações e contextualização dos sujeitos, pedimos que fossem feitos quatro grupos aleatórios (02 grupos com 05 pessoas e 02 grupos com 4 pessoas), disponibilizamos cartolinas, 30 minutos de discussão e solicitamos que cada grupo definisse e escrevesse numa frase o principal objetivo da SMS, com a intenção de apresentarem num segundo momento a definição ao grande grupo. Cada grupo compartilhou sua produção e explicou o porquê da frase escolhida. Com todas as frases expostas, solicitamos que todos, individualmente, analisassem as definições e votassem naquela que mais correspondia ao que eles acreditavam.

Por último buscamos identificar as concepções sobre gestão, integralidade e sobre a relação entre as duas categorias. Entregamos uma tarjeta de cartolina azul para cada pessoa e solicitamos que respondessem com uma palavra o que significa gestão. Após escreverem individualmente a palavra, os participantes foram convidados a se levantar, colar a tarjeta num painel disponibilizado na parede, dizer a palavra em voz alta e o porquê da escolha da palavra.

Seguidamente, entregamos uma tarjeta rosa a cada um e perguntamos: o que significa integralidade para você? E por último, questionamos se, e de que modo, integralidade e gestão se relacionam. Assim foi concluída a primeira oficina, por meio da qual a primeira etapa do arco foi completada (observação da realidade/problema).

Segunda oficina dia 18/11/2014

A segunda oficina aconteceu no dia 18 de novembro de 2014 e estavam presentes 12 (doze) participantes dos 18 (dezoito) que haviam participado da primeira oficina e mais 01 (um) sujeito de pesquisa que não compareceu na primeira, totalizando 13 (treze) pessoas. A propósito importa ressaltar que destes 13, 10 eram representantes da Atenção Básica.

Antes de as pessoas chegarem, deixamos a sala preparada com a exposição dos painéis produzidos na primeira oficina e mantivemos a disposição das cadeiras em círculo. Iniciamos às 13h30min fazendo uma síntese da oficina anterior e solicitamos para quem não esteve presente na primeira oficina se apresentasse da mesma maneira solicitada aos demais anteriormente.

Essa oficina aconteceu em três momentos. Primeiramente aprofundamos a discussão da primeira oficina, quando reconhecemos que para os participantes gestão e integralidade se relacionam. Em seguida, selecionamos palavras descritas pelos participantes sobre o que é gestão (apoiar, gerenciar, administrar, articular, fiscalizar) e sobre o que é integralidade (empatia, união, cuidado, acesso), na ocasião da primeira oficina. Num terceiro momento, relacionamos estas palavras em uma questão e a apresentamos ao grupo: de que maneira a gestão pode apoiar, gerenciar, administrar, articular e fiscalizar na prática a empatia, a união, o cuidado, o acesso, etc.? Para a elaboração da resposta, dividimos os participantes em 02 grupos e após 30 minutos de discussão os mesmos apresentaram sugestões, por eles definidas como estratégias de gestão para qualificar a atenção à saúde dos serviços públicos do município em estudo.

Nesse momento de discussão, já fomos levantando outros problemas, além de pontos chaves, ou seja, os possíveis determinantes dos problemas identificados na primeira etapa.

Com a intenção de completar a etapa dois do arco, entregamos um caso – “O caso de Ana” – (ANEXO C) para ambos os grupos e solicitamos que eles identificassem os problemas de gestão apresentados no mesmo.

Após uma hora de discussão, os grupos apresentaram suas produções em cartolinas, explicando o porquê de suas escolhas. Por último, voltamos novamente à primeira oficina, para desenvolver uma reflexão conjunta sobre o atributo “qualidade”, porque naquela oficina todos os participantes haviam dito que a função principal da SMS é a qualidade dos serviços e/ou qualidade na atenção. Entregamos tarjetas a eles(as) e perguntamos: o que vocês quiseram dizer com qualidade dos serviços e/ou qualidade da atenção, na primeira oficina, como resposta ao objetivo principal da SMS? Os participantes responderam individualmente, depois colocaram suas tarjetas em um painel para em seguida verbalizar as respostas.

Terminamos a oficina completando a etapa número 2 do arco, apesar de termos entrado muitas vezes nas etapas números três e quatro.

Terceira oficina dia 25/11/2014

A terceira oficina aconteceu no dia 25 de novembro de 2014 e estavam presentes 14 (quatorze) pessoas.

Todo o material produzido nas oficinas anteriores estava exposto na sala e as cadeiras em círculo. A oficina aconteceu em dois momentos. Primeiramente convidamos o professor Cutolo e a professora Antônia para fins de teorização dos conteúdos trabalhados, com o objetivo de reforçar a sua apropriação e, com efeito, contribuir com as proposições de hipóteses de solução para os problemas já identificados nas etapas anteriores. Esse processo durou aproximadamente uma hora e meia.

Após o intervalo, os participantes foram divididos em 02 (dois) grupos para a apresentação das hipóteses para a melhoria dos serviços da gestão municipal e consequentemente da atenção à saúde. A eles disponibilizamos o mapa do município com a identificação setorial dos serviços de saúde, a lista dos especialistas da rede, a quantidade de equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF) e respectiva distribuição. Em seguida, pedimos que construíssem algo que, na visão deles, fosse possível colocar em prática dentro da realidade do município estudado. Após uma hora e meia, os grupos apresentaram a produção coletiva em cartolinas: o primeiro grupo dividiu o município por regiões e fez um check list das soluções para os problemas anteriormente levantados. O segundo grupo propôs um novo organograma para a SMS, além de sugerir também hipóteses para os problemas identificados.

Terminamos assim as oficinas, contemplando as etapas três e quatro do arco.

Tendo em vista que o processo de pesquisa no mestrado carece de seu desenvolvimento em tempo hábil pré-determinado, e que o período de coleta de dados é relativamente reduzido em relação à complexidade da produção de conhecimento e transformação da realidade, não completamos a etapa cinco do arco que se refere à aplicação a realidade. No final da quarta etapa desafiamos os participantes a levar o aprendizado para seus cotidianos de trabalho, com a intenção de, com o produto, contribuírem com a transformação do que não está bom na realidade.