Neste contexto, abordar o empreendedorismo popular como representante da economia “dos pobres”, embora esteja em parte correta por se tratar da economia do dia-a-dia da grande maioria das pessoas, reduz a percepção a algo que precisa ser superado, ligado ao atraso, à mera subsistência, negligenciando o poder transformador que vem dos trabalhadores e da capacidade de serem protagonistas de um novo modelo de desenvolvimento mais humano, social e sustentável, onde cumpre um papel fundamental, em razão da sua riqueza ser fortemente gerada na circulação, o que revela um caráter intrinsecamente distributivo (ARROYO e SCHUCH, 2006).
No entanto, como em outros processos humanos, também nas práticas de empreendedorismo ou economia popular convivem e se desenvolvem, de forma conflituosa e em tempos diferenciados, formas e graus variados de associação, solidarismo, autonomia, autogestão, democracia, participação, cooperação, responsabilidade social, enfim: desenvolvimento humano.
(POCHMANN, 2001, p.143)
A comunidade auto-sustentável será viabilizada através do fomento de ações empreendedoras de cunho social e de novas estratégias de inserção social e de sustentabilidade. Uma comunidade “empoderada” é terreno fértil para a criação, o gerenciamento e o desenvolvimento de empreendimentos. Portanto, as ações de empoderamento proporcionam uma base econômica capaz de assegurar o surgimento de novos empreendimentos, bem como sua sustentabilidade. A base social garante a solidariedade, o que viabiliza o surgimento de empreendimentos cooperativos, em um processo de transformação da sociedade (MELO NETO e FROES, 2002).
Um dos objetivos de qualquer programa de desenvolvimento planejado é desenvolver eficientemente todos os seus recursos, pelo fato de constituírem os elementos que vão gerar o desenvolvimento econômico. Trata-se da adoção de uma estratégia baseada em mudanças progressivas, mediante a utilização do potencial de desenvolvimento endógeno e, portanto, dos recursos disponíveis no próprio território.
Além disso, o processo de desenvolvimento econômico precisa da expansão produtiva e do aperfeiçoamento tecnológico, além de mudanças sociais que deverão ocorrer na população, que, sem sincronia, poderá causar obstáculos que prejudicarão o avanço da sociedade e do desenvolvimento econômico do país (LEITE, 1983).
Para analisar o desenvolvimento econômico de maneira integral haveria a necessidade de considerar os aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, tendo os econômicos e sociais como medidores do nível de vida da população, isto é, renda, emprego, saúde, educação, alimentação, segurança, lazer, moradia e transporte (CAVALCANTI, 2003).
Existem fatores econômicos, sociais, ambientais e culturais que podem contribuir para o desenvolvimento local, desde que sejam usados para absorver o potencial de cada região que eles representam e na medida em que trabalhando organizados possam proporcionar o surgimento dos distritos industriais e dos sistemas produtivos locais, pois se entende que existem características regionais que podem fazer a diferença para o desenvolvimento integrado e sustentável.
Sublinha-se, assim, o elo entre o conceito de sustentabilidade e as noções de dinamismo endógeno e participação social. Isto corresponde ao entendimento de que o potencial de autocriação e autogeração supõe a diversidade, a interdependência, o movimento das forças vivas de cada lugar, o tecido social construindo-se de modo a envolver e expressar as capilaridades: nesta acepção, típica às formulações em torno do desenvolvimento local, a sustentabilidade depende fortemente do protagonismo das bases da sociedade... o território como ator é entendido como um território impregnado de conhecimento vivo, compartilhado e conectável, capaz assim, de desenvolver-se (SILVEIRA, 2004, p.05 e 06).
No entanto, existe, ainda, a necessidade da solidariedade ou cooperação para readaptar ou redefinir as vocações locais, como um conjunto de potencialidades, não apenas econômicas, mas de condições socioculturais e ambientais que possam garantir a manutenção dos atores econômicos e a qualidade de vida da população.
Talvez o ponto mais relevante desse novo cenário social seja o debate da questão da sustentabilidade dentro dos conceitos de desenvolvimento, o que passou a ser um fato novo exatamente a partir da crise do modelo de produção capitalista da década de 70.
Na conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente, realizada em Estocolmo em 1972, pela primeira vez a ONU incorporou a questão do meio ambiente nas discussões sobre o desenvolvimento. Em 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) passa a incorporar, também, a questão do desenvolvimento humano, “concebido como um processo econômico, social, cultural e político abrangente em prol da melhoria e do bem estar da população e de cada indivíduo, com participação ativa e justa distribuição de benefícios” (MOURA et all, 2002, p.2).
Atualmente no mundo os temas ambientais se tornam preocupações centrais em todos os níveis de tomada de decisão. O consumo excessivo dos recursos da terra continua aumentando a taxas alarmantes, gerando enormes problemas ambientais locais, regionais e globais. Exemplos de problemas ambientais globais incluem as mudanças climáticas, a chuva ácida, o acúmulo de substâncias perigosas no ambiente, a degradação de florestas, a perda da biodiversidade, a contaminação e escassez de água, entre outros. Tais problemas afetam inevitavelmente a sociedade, o indivíduo e, em longo prazo, o desenvolvimento humano e a proteção dos ecossistemas e de todas as formas de vida no planeta.
Os métodos tradicionais de gestão do meio ambiente, conhecidos como
“comando e controle”, tendem a focalizar um meio particular ou um único problema ambiental e estão baseados em exigências do governo (por exemplo, padrões tecnológicos ou ambientais, limites, proibições). Eles normalmente resultam em um conflito de interesse entre atores do mercado (iniciativa privada) o governo e a sociedade, uma vez que, organizações e instituições não-governamentais têm atuado fortemente na busca de maior rigor, podendo causar importantes custos sociais.
Quando, por exemplo, orienta-se uma indústria sobre a instalação de um determinado filtro de ar ou equipamento de limpeza de água, as regras de “comando e controle”
tratam somente dos sintomas de problemas ambientais e não de suas causas subjacentes.
A complexidade e a quantidade de interesses ambientais nos tempos modernos exigem que nos voltemos às causas reais da degradação ambiental: os padrões de desenvolvimento econômico e o comportamento humano. Em 1992, a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, estimulou a adoção de um plano de ação para promover o desenvolvimento sustentável, através da publicação da Declaração do Rio e da Agenda 21.
A Agenda 21 é um plano formulado para ser adotado em todos os níveis de governo e por todos os atores sociais relevantes, a partir da integração de objetivos econômicos, sociais e ambientais e para a promoção do atendimento das necessidades das presentes gerações sem comprometimento do atendimento das necessidades das gerações futuras, segundo preconizava o Relatório da Comissão Brundtland, em 1987.
Uma das mensagens mais importantes da Conferência da ONU foi a de que o desenvolvimento sustentável e uma qualidade de vida melhor somente poderão ser alcançados se as nações reduzirem consideravelmente ou eliminarem padrões insustentáveis de produção e consumo. Estimulando a adoção de instrumentos econômicos inovadores, baseados em incentivos econômicos e na internalização dos custos ambientais.
Desde então, a busca por “instrumentos para a mudança” que sejam economicamente eficientes e eficazes, resultou em uma ampla mistura de instrumentos econômicos. Apesar da disponibilidade de novas soluções, é falha a ação dos atores relevantes para transformar objetivos em ações concretas.
Ainda que essa questão tenha dado margem a muitos debates, o importante a destacar aqui é a complexidade que assume o conceito de desenvolvimento, o qual passa a incorporar aspectos sociais, políticos, ambientais e culturais.
Pode-se especular se o fracasso do binômio Estado-mercado em criar uma sociedade que atendesse satisfatoriamente às pessoas em todas essas dimensões não estaria ligado ao fato de que esse modelo prendia-se excessivamente à dimensão
econômica, entendendo que as demais seriam atendidas como decorrência natural do crescimento econômico.
É o que chama atenção Sen (2000) quando escreve que as liberdades substantivas deveriam ser consideradas elementos constitutivos do desenvolvimento, e não serem estabelecidas a posteriori dentro de um processo de crescimento do PIB ou da industrialização, que são elementos tradicionais da medição do desenvolvimento no paradigma anterior. As liberdades mencionadas podem até ser favorecidas a partir desses indicadores, como crescimento do PIB ou das rendas individuais, mas elas devem ser o fim último do processo de desenvolvimento, e não uma simples decorrência dele.
O desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação da liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva de Estados repressivos. A despeito de aumentos sem precedentes na opulência global, o mundo atual nega liberdades elementares a um grande número de pessoas – talvez até mesmo à maioria (SEN, 2000, p.18).
O desenvolvimento sustentável pode, portanto, abrigar ainda a questão de alocar no seu processo de construção a busca dessas liberdades substantivas como uma finalidade, alargando ainda mais o conceito que se procura desenhar.
Para Sachs (2004) existem ainda cinco dimensões da sustentabilidade, a serem consideradas simultaneamente no processo de planejamento do desenvolvimento:
a) social – estabelece uma maior eqüidade na distribuição de bens e de serviços, atendendo a necessidades materiais e não-materiais;
b) econômica - alocação e gestão mais eficientes dos recursos gerais disponíveis em uma sociedade;
c) ecológica - vincula-se a uma série de medidas que visam racionalizar os processos produtivos e o consumo final, buscando a ecoeficiência plena do sistema.
Abarcando desde os princípios básicos contidos na redução, reutilização e reciclagem, quanto à pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais limpas, a
definição clara de objetivos e metas, além de instrumentos factíveis que visem à proteção ambiental;
d) espacial - objetiva um maior equilíbrio na distribuição territorial dos assentamentos humanos;
e) cultural - busca as especificidades culturais locais, privilegiando soluções endógenas.
Neste cenário e, com a revelação de um futuro incerto, retratado por meio de indicadores sociais e ambientais, que revelam uma fotografia de degradação completa, conforme afirma o Estado do Mundo (2004), as políticas públicas de redução da pobreza, em escala, passam a ser demandadas com urgência, trazendo luz aos programas de microfinanças, de uma maneira geral, e de microcrédito, de maneira particular.
Alguns autores associam os tipos de degradação ambiental ao nível de desenvolvimento de cada país ou região: dessa forma, indicam a existência da degradação típica de países ricos, que é aquela decorrente da poluição industrial, e, por outro lado, da degradação associada à pobreza, gerada seja por condições sanitárias deficientes, seja pela ocupação de áreas de risco nas periferias dos centros urbanos.
No Brasil, como em alguns outros países "recentemente industrializados", convive-se com os dois tipos de degradação ambiental (MUELLER, 1997).
Apesar de não haver uma relação direta entre pobreza e degradação ambiental, observa-se seus efeitos cumulativos indiretos claramente, mediatizados por outras variáveis intervenientes (STROH, 1995 – Apud RAMALHO, 1999).
A sociedade de risco não é uma opção que se pode escolher ou rejeitar no decorrer de disputas políticas. Ela surge na continuidade dos processos de modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus efeitos e ameaças.
De maneira cumulativa e latente, estes últimos, produzem ameaças que questionam e finalmente destroem as bases da sociedade industrial. (BECK, 1997: 16 – apud RAMALHO, 1999)
Há alguns riscos que transcendem as diferenças sociais e econômicas, são os conhecidos riscos globalizados, que afetam todos no planeta, como por exemplo, a destruição da camada de ozônio, as mudanças climáticas, entre outras.
Entretanto, há muitos riscos que são diferencialmente distribuídos entre ricos e pobres, como acontece no contexto urbano, gerado pelas construções que apresentam condições insalubres, construídas em locais sem a infra-estrutura necessária (saneamento básico, energia elétrica, água tratada e disponível), considerados perigosos, contaminação ambiental dentro da própria residência, entre outros, que tornam as pessoas menos favorecidas mais suscetíveis e vulneráveis à moléstias como doenças respiratórias, de pele, diarréia, que afetam mais diretamente as mulheres e crianças que, em geral, permanecem mais tempo no ambiente da casa.
A pobreza é definida como a incapacidade de satisfazer necessidades econômicas básicas. De acordo com um estudo do Banco Mundial realizado em 2002, metade da população mundial está tentando sobreviver com menos de US$ 2 por dia e um quinto dela está lutando para sobreviver com uma renda aproximada de US$ 1 por dia. A pobreza tem vários efeitos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente e tem sido identificada como uma das cinco maiores causas dos problemas ambientais que enfrentamos (MILLER, 2007, p. 483).
De acordo com DEMO (2003) a pobreza não se restringe à carência dada, natural, mas inclui aquela que é produzida, mantida e cultivada, por conta do confronto subjacente em torno do acesso a vantagens sociais, sempre escassas em sociedade.
Ser pobre não significa apenas não ter, mas, sobretudo ser impedido de ser, o que desvela situação de exclusão injusta. O cerne da pobreza é o massacre da dignidade humana, observado mais fácil ou imediatamente através de indicadores quantitativos, que escondem uma problemática muito mais complexa e profunda.
É assustador o número de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza1 no Brasil (mais de 1/5 da população) e o crescimento da informalidade nos grandes centros urbanos. Os pequenos negócios, urbanos e rurais, formais e informais, sofrem
1 Segundo estudos apresentados pelo Banco Mundial, em 2008, consideram-se pessoas abaixo da linha de pobreza, as que recebem renda per capita de menos de R$ 1,25/dia.
de aguda escassez de capital, o que gera baixa produtividade e baixo rendimento do capital, o que impede o efeito multiplicador da renda e, conseqüentemente, em termos macroeconômicos, o desenvolvimento econômico includente.
Grameencredit está baseado na premissa de que os pobres têm habilidades que permanecem inutilizadas ou subutilizadas. Não é, definitivamente, a falta de habilidades que faz os pobres se tornarem pobres. O Grameen acredita que a pobreza não é criada pelos pobres, é criada pelas instituições e políticas que os cercam. Com o objetivo de eliminar a pobreza, tudo o que precisamos fazer são mudanças apropriadas nas instituições e políticas, e/ou criar novas. O Grameen acredita que a caridade não é uma resposta à pobreza. Apenas ajuda a pobreza a continuar. Cria dependência e leva embora a iniciativa dos indivíduos para romper o muro da pobreza. Desencadear a energia e a criatividade em cada ser humano é a resposta à pobreza (YUNUS, 2004, p.
12).
O crédito, por si só, não poderia acabar com a situação de pobreza. Ele é apenas um dos meios que permitem sair da pobreza. Outras saídas podem ser abertas para facilitar a mudança. Mas para isso é necessário ver as pessoas de modo diferente e conceber um novo quadro para essa sociedade, coerente com essa nova visão (YUNUS, 2000, p. 9).
Observa-se que o microcrédito, de acordo com a sua proposta, vem auxiliando esse novo “olhar” para as pessoas menos favorecidas, oportunizando a geração de renda a partir do estímulo à aplicação de bens na produção (indústria, comércio ou serviços), tratando-os não como dependentes e necessitados, mais sim, como agentes de transformação, capazes de inovar e criar suas próprias oportunidades, de forma digna e participativa, gerando sua sustentabilidade e resgatando sua cidadania.