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“O empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais”.

(SCHUMPETER apud DORNELAS, 2001, p. 37)

O austríaco Joseph Schumpeter, um dos mais importantes economistas do século XX discute a questão do empreendedorismo, na década de 1940, como alternativa de mudança na economia capitalista, fruto de um processo de “destruição criadora”, que muda a ordem através da capacidade revolucionária dos indivíduos, por meio do desenvolvimento de novas tecnologias, novas invenções, novas idéias ou novas formas de uso para o aprimoramento das já utilizadas, trazendo o conceito de

inovação, como elemento indispensável para o desenvolvimento econômico, trazendo progresso contínuo e melhoria nos padrões de vida da população.

Segundo Schumpeter (1985), empreender é inovar a ponto de criar condições para transformar radicalmente um determinado setor, onde o mesmo atua, criando um novo ciclo de crescimento, capaz de promover uma ruptura no fluxo econômico contínuo, realizando novas combinações dos meios produtivos, capazes de propiciar desenvolvimento econômico, a partir da introdução de um novo bem, de um novo método de produção, abertura de um novo mercado, conquista de uma nova fonte de matéria-prima, constituição ou fragmentação de uma posição monopolista.

Acredita-se que o empreendedor seja o “motor da economia” um agente de mudanças. O empreendedorismo não é um tema novo ou modismo: existe desde sempre, desde a primeira ação humana inovadora, com o objetivo de melhorar as relações do homem com os outros e a natureza. O fundamento do empreendedorismo é a cidadania. Visa à construção do bem-estar coletivo, do espírito comunitário, da cooperação. (DOLABELA, 2008, pg. 23)

Então, o empreendedor é um agente de mudanças, alguém que exercita a sua capacidade de concretizar suas idéias, através da identificação de oportunidades de negócio, gerando e gerindo sua criação, correndo riscos calculados através do planejamento e monitoramento de suas atividades. Algumas de suas características elementares são concensuais, dentre a grande maioria dos estudiosos da área, com pequenas alterações.

Utiliza-se aqui como referência para reflexão a abordagem apresentada por Schumpeter (1985), em seu livro “O Fenômeno Fundamental do Desenvolvimento Econômico”, onde o autor trata de forma clara e objetiva, dos principais comportamentos inerentes aos empreendedores, são eles: obstinação acima da média;

planejamento e racionalização de ações persistentemente; forte intuição; profunda compreensão intelectual sobre a realidade em que atua; enorme força de vontade;

obsessão pela inovação (pioneira e transformadora); capacidade de liderança para orquestrar a implantação das mudanças/inovações; motivação pelo lucro, como consequência de um trabalho realizado com sucesso.

Para fins de validação e análise conjunta, observa-se uma discussão mais recente, numa dinâmica econômica diferenciada, apresentada por Dolabella em seu livro “O Segredo de Luísa”, onde o autor trabalha o tema “empreendedorismo” a partir de uma história romântica contando a trajetória de sua personagem num processo de construção de um novo negócio, contemplando todas as dificuldades e orientações pertinentes, apresentando ainda, em seus estudos as características observadas por ele, que corroboram a visão de Schumpeter (1985):

O empreendedor tem um “modelo”, uma pessoa que o influencia. Tem iniciativa, autonomia, autoconfiança, otimismo, necessidade de realização.

Tem perspectiva e tenacidade. Considera o fracasso um resultado como outro qualquer, aprende com resultados negativos, com os próprios erros.

Tem grande energia. É um trabalhador incansável. Ele é capaz de se dedicar intensamente ao trabalho e sabe concentrar seus esforços para alcançar resultados. Sabe fixar metas e atingi-las. Luta contra padrões impostos. Diferencia-se. Tem a capacidade de ocupar espaços não ocupados por outros no mercado; descobre nichos. Tem forte intuição.

Tem sempre alto comprometimento.

Cria situações para obter feedback sobre seu comportamento e sabe utilizar tais informações para se aprimorar. Sabe buscar, utilizar e controlar recursos. É um sonhador realista. É líder. Tem alta capacidade de influenciar pessoas. Tece “redes de relações”. Assume riscos moderados.

Tem alta tolerância a ambigüidade e a incerteza. É orientado para resultados. Traduz seus pensamentos em ações. É um fixador de metas e mantém um alto nível de consciência do ambiente em que vive.

(DOLABELLA, 2008, p. 32)

A expansão do empreendedorismo no mundo vem se consolidando a cada dia como uma oportunidade para a melhoria nas condições de vida da população, criando postos de ocupação e renda para muitos indivíduos sem acesso ao sistema formal de empregos, eliminando barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, globalizando e renovando os conceitos econômicos, criando novas relações de trabalho e novos empregos, quebrando paradigmas e gerando riqueza para a sociedade.

Nas últimas décadas ocorreram grandes mudanças nas relações de trabalho. O aumento do desemprego e as reduções nos postos de trabalho levaram a uma precarização destas relações, bem como à exclusão social e, consequentemente, à recorrência a novas estratégias como alternativa de sobrevivência.

Como formas alternativas de geração de ocupação e renda, encontram-se as atividades caracterizadas como de trabalho autônomo ou por conta própria: as terceirizações que estão cada vez mais presentes, trazendo vantagens competitivas para as organizações formais que estão demandando menor contingente de funcionários legalmente vinculados; o crescimento na área de prestação de serviços que exigem menores qualificações; os trabalhos temporários, que atendem a períodos de maior demanda e; principalmente pelo crescimento do setor informal.

Das atividades elencadas dar-se-á maior ênfase à questão do setor informal, por se tratar do público-alvo com maior expressividade nas carteiras de microcrédito. Para caracterização e delimitação das atividades informais no Brasil várias pesquisas vêm sendo desenvolvidas no decorrer dos anos, com grandes divergências em suas contextualizações, exatamente por se tratar de um público de difícil mensuração e acessibilidade, por muitas vezes não fazerem parte das estatísticas apresentando características muito peculiares.

Em razão da grande dimensão que este mercado tem assumido e da necessidade de conhecimento do tamanho e das características principais, foi desenvolvida uma pesquisa pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa) apresentada no relatório Economia Informal Urbana (2003), estabelecendo alguns parâmetros de classificação, a saber:

Para delimitar o âmbito do setor informal, o ponto de partida foi a unidade econômica - entendida como unidade de produção – e não o trabalhador individual ou a ocupação por ele exercida;

Fazem parte do setor informal as unidades econômicas não-agrícolas que produzem bens e serviços com o principal objetivo de gerar emprego e rendimento para as pessoas envolvidas, sendo excluídas aquelas unidades engajadas apenas na produção de bens e serviços para autoconsumo;

As unidades do setor informal caracterizam-se pela produção em pequena escala, baixo nível de organização e pela quase inexistência de separação entre capital e trabalho, enquanto fatores de produção;

A definição de uma unidade econômica como informal não depende do local onde é desenvolvida a atividade produtiva, da utilização de ativos fixos, da duração das atividades das empresas (permanente, sazonal ou ocasional) e do fato de tratar-se da atividade principal ou secundária do proprietário da empresa.

Cabe salientar ainda que, para as atividades beneficiadas pelo microcrédito existe outra particularidade com relação à informalidade, elas majoritariamente não são regulamentadas pelo poder público, não recolhendo impostos. Em razão de não estarem formalmente constituídas, empregam sem registro em carteira de trabalho, sem remuneração fixa e sem a garantia dos direitos trabalhistas, principalmente pelos elevados custos de implementação e manutenção de uma empresa formalizada, bem como, da burocracia para o acesso à documentação pertinente, o que vem sendo corroborado através de várias pesquisas (SEBRAE) já realizadas para este segmento.

Atividades informais, porém legítimas, merecem políticas públicas adequadas, que as tratem não como problema social, mas como parte da solução econômica que temos que construir para direcionar o desenvolvimento nacional no rumo da inclusão e da sustentabilidade. É uma economia que avança com a organização dos empreendedores populares, aqui entendidos como o conjunto de trabalhadores por conta própria: autônomos, profissionais liberais, micro e pequenos empresários, na formalidade ou não, que individualmente ou de alguma forma coletiva buscam alternativas econômicas a partir de sua própria iniciativa. (ARROYO e SCHUCH, 2006, pg. 34)

Trata-se de cerca de 20 milhões de brasileiros e brasileiras definidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como “trabalhadores por conta própria”, “micro e pequenos empresários”. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE, 2003), este segmento gera 80% dos postos de trabalho do País – e 95% dos novos postos de trabalho – e movimenta algo em torno de 30% do Produto Interno Bruto do Brasil. Portanto, trata-se de um segmento vital e potencial para o conjunto da economia que precisa ser tratado adequadamente para que suas potencialidades sejam otimizadas, cumprindo um papel estratégico para a construção de um novo modelo de desenvolvimento que seja justo, solidário e sustentável.

Neste contexto, abordar o empreendedorismo popular como representante da economia “dos pobres”, embora esteja em parte correta por se tratar da economia do dia-a-dia da grande maioria das pessoas, reduz a percepção a algo que precisa ser superado, ligado ao atraso, à mera subsistência, negligenciando o poder transformador que vem dos trabalhadores e da capacidade de serem protagonistas de um novo modelo de desenvolvimento mais humano, social e sustentável, onde cumpre um papel fundamental, em razão da sua riqueza ser fortemente gerada na circulação, o que revela um caráter intrinsecamente distributivo (ARROYO e SCHUCH, 2006).

No entanto, como em outros processos humanos, também nas práticas de empreendedorismo ou economia popular convivem e se desenvolvem, de forma conflituosa e em tempos diferenciados, formas e graus variados de associação, solidarismo, autonomia, autogestão, democracia, participação, cooperação, responsabilidade social, enfim: desenvolvimento humano.

(POCHMANN, 2001, p.143)

A comunidade auto-sustentável será viabilizada através do fomento de ações empreendedoras de cunho social e de novas estratégias de inserção social e de sustentabilidade. Uma comunidade “empoderada” é terreno fértil para a criação, o gerenciamento e o desenvolvimento de empreendimentos. Portanto, as ações de empoderamento proporcionam uma base econômica capaz de assegurar o surgimento de novos empreendimentos, bem como sua sustentabilidade. A base social garante a solidariedade, o que viabiliza o surgimento de empreendimentos cooperativos, em um processo de transformação da sociedade (MELO NETO e FROES, 2002).