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Deslocamentos Históricos do Estado

No documento Rodrigo Henkels.pdf - Univali (páginas 31-43)

1. ESTADO

1.3. Deslocamentos Históricos do Estado

O estudo dos deslocamentos históricos do Estado não busca somente satisfazer a curiosidade deste estudo mas, além disso, contribuir para uma tipificação do Estado, de forma a tornar possível a elaboração de formulações quanto à uma evolução futura.

A possibilidade da tipificação do Estado se dá com a análise de todo o fato histórico, individualizando-se as semelhanças e apontando as diferenças, únicas em cada tipo, de modo que pode-se conceber o vocábulo “tipo” como a “mais perfeita essência do gênero”, todavia, utiliza-se para efeitos deste estudo o tipo empírico, que se traduz na “unificação de notas entre os fenômenos, unificação que depende do ponto de vista em que se coloque o investigador”65. Dessa forma, seguindo uma seqüência cronológica, passar-se-á a análise dos tipos de Estado.

62 Alguns Estados criados de forma atípica são a Cidade do Vaticano e o Estado de Israel (DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 49).

63 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 49.

64 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 49- 50.

65 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 52.

1.3.1. Estado Antigo

Os Estados Antigo, Oriental ou Teocrático66 são conhecidos como as “formas de Estado mais recuadas no tempo, que apenas começavam a definir-se entre as antigas civilizações do Oriente propriamente dito ou do Mediterrâneo”67.

Por volta de três mil anos antes de Cristo, formou-se um grande Império no Oriente, notadamente na baixa Mesopotâmia, onde não existiam doutrinas políticas, mas uma forma de governo dominante, a monarquia absoluta, pregada em nome de deuses protetores dos Povos68.

O feitio teocrático das monarquias absolutas garantia ao monarca a intitulação de representante das divinidades, descendente dos deuses. Em geral, aqueles Estados eram formados e mantidos pela força das armas, sendo que o imperador que vencesse o maior número de batalhas anexava os Territórios conquistados e escravizava as populações vencidas, caracterizando conglomerados de agrupamentos humanos heterogêneos69.

Como bem assinala Raymond G. Gettel, a família, a religião, o Estado e a organização econômica formavam um conjunto confuso, sem diferenciação aparente70.

Todavia, as características marcantes desse período são a natureza unitária e a religiosidade.

A natureza unitária, no Estado Antigo, aparece sempre como uma unidade geral, não admitindo qualquer divisão interior, nem territorial, nem de funções, persistindo por toda a evolução política da Antiguidade71. Havia, entretanto, cumulação de poderes por uma mesma pessoa, em que eram exercidas funções militar, judicial, sacerdotal e de coleta de impostos72.

66 Teocracia é um “ordenamento político pelo qual o poder é exercido em nome de uma autoridade divina por homens que se declaram seus representantes na Terra, quando não uma sua encarnação”. Exemplos de regimes desse tipo são o Vaticano, regido pela Igreja Católica e tendo como chefe de Estado um sacerdote (o Papa); o Tibet de Dalai Lama; o Japão Imperial; o Egito faraônico etc. (BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola;

PASQUINI, Gianfranco. Dicionário de Política. vol. 2. L-Z. 5. ed. Brasília: Universidade de Brasília, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000, p. 1.237-1.238).

67 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 53.

68 BOTELHO, Alexandre. Curso de Ciência Política. Florianópolis: Obra Jurídica, 2005, p. 155.

69 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 93-94.

70 GETTEL, Raymond G. Historia de las Ideas Politicas. México: Editora Nacional, 1951 apud DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 53.

71 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 53.

72 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 94.

A religiosidade, por sua vez, é um fator deveras marcante nesse período, chegando a ser denominado por muitos estudiosos como Estado Teocrático, visto que a influência religiosa determinava o comportamento individual e coletivo como expressões da vontade de um poder divino73.

Destaca ainda Georg Jellinek duas formas de manifestação teocrática:

O soberano é representante do poder divino e sua vontade é semelhante a da divinidade, estando limitado pelo poder desta, que expressa a vontade superior do Estado mediante outros órgãos. Deste modo, a teocracia pode ter como resultado o fortalecimento do poder do Estado ou a debilitação do mesmo. [...] O segundo tipo, pelo contrário, planta um dualismo dentro da vida do Estado, formado por dois poderes: um humano e outro de origem suprema. Até que ponto este segundo poder exercitado pelos sacerdotes não apenas limita senão domina e chega a transformar o dualismo no sentido favorável ao primeiro tipo, é uma questão que só pode ser afirmada em cada Estado particular74 (tradução livre).

Outro ponto a destacar é o explicitado por Alexandre Botelho ao tratar dos requisitos da personalidade civil, no Estado Antigo:

Três eram os requisitos da personalidade: a liberdade, a cidadania e a família, designados respectivamente com as expressões status libertatis, status civitatis e status familiae. A perda de um desses requisitos chamava-se capitis diminutio. A capitis diminutio excluía ou restringia a capacidade de direito. Assim, não a possuíam de modo restrito, por serem privados do status libertatis, os peregrinos ou estrangeiros, por lhes faltar o status civitatis, e os filhos famílias enquanto não tinham o status familiae75.

Coerente, em linhas gerais, sublinhar que a natureza unitária, inadmitindo sequer divisões funcionais e territoriais, e a religiosidade, em que o soberano do Estado figura como representante direto de um poder supremo e divino, representam o marco fundamental do Estado Antigo, componente inaugural dos deslocamentos históricos aventados.

73 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 53.

74 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 284. “El soberano es representante del poder divino, y su voluntad es semejante a la de la divinidad, o está limitado por el poder de ésta, que expresa su voluntad superior al Estado mediante otros órganos. De este modo, la teocracia puede tener como resultado el fortalecimiento del poder del Estado o la debilitación del mismo. [...] El segundo tipo, por el contrario, plantea un dualismo dentro de la vida del Estado, formado por dos poderes: uno humano y otro de origen supra-humano. Hasta qué punto este segundo poder ejercitado por los sacerdotes no sólo limita sino domina y llega a transformar el dualismo en el sentido favorable al tipo primero, es cuestión que sólo puede fijarse en cada Estado particular”.

75 BOTELHO, Alexandre. Curso de Ciência Política. Florianópolis: Obra Jurídica, 2005, p. 157-158.

1.3.2. Estado Grego

A característica fundamental do Estado Grego ou helênico é a cidade-Estado, ou seja, a polis76, como a Sociedade política de maior expressão77.

Na visão de Aristóteles, a polis representava um modelo de auto-suficiência, salientando que:

Quando várias aldeias se unem numa única comunidade, grande o bastante para ser auto-suficiente (ou para estar perto disso), configura-se a cidade, ou Estado – que nasce para assegurar o viver e que, depois de formada, é capaz de assegurar o viver bem. Portanto, a cidade-Estado é uma forma natural de associação, assim como o eram as associações primitivas das quais ela se originou78.

Outra característica da cidade-Estado, no intuito de preservar sua auto-suficiência, era que mesmo quando efetuadas conquistas e o domínio de outros Povos, não se efetivava a expansão territorial e não se procurava realizar a integração entre vencedores e vencidos79. Vicente Lentini Plantullo destaca ainda que no Estado Grego a autoridade exercida pelo governante não possuía natureza divina, havendo uma diversidade de formas de governo80.

Tecendo algumas ponderações, Sahid Maluf aduz que, inicialmente, o Estado Grego era monárquico e patriarcal. “Cada cidade tinha o seu Rei e o seu Conselho de Anciãos. Só em casos de maior importância se convocavam as Assembléias Gerais dos Cidadãos”. O governo era apoiado na classe aristocrática, sendo que tanto na monarquia como na república, se manteve como classe dominante81.

A liberdade dos indivíduos na cidade-Estado consistia exclusivamente na capacidade e possibilidade de participação na formação das leis soberanas, entretanto, estas leis se põem

76 Sahid Maluf anota que “a Polis era uma associação política e ao mesmo tempo uma comunidade religiosa, mas não se confundiam Estado e Religião nas mesmas instituições. As divinidades gregas não conferiam caráter místico à autoridade, como ocorria nas monarquias orientais. Não obstante, a Polis era de certo modo onipotente, e seu poder só encontrava limites na intervenção do povo – demos – nos negócios estatais e na distribuição da justiça” (Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 98).

77 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 54.

78 ARISTÓTELES. Política. Aristóteles – Vida e Obra. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Os Pensadores). p.

145-146.

79 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 54.

80 PLANTULLO, Vicente Lentini. Uma Análise Histórica do Estado Democrático de Direito. Temas de Direito em Debate. Curitiba: Juruá, 2004, p. 209.

81 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 97.

totalmente acima da real concepção de liberdade concebida modernamente, que reconhece a individualidade de cada membro do Estado82.

Os habitantes da polis, por sua vez, dividiam-se em políticos e idiotas, sendo que os políticos participavam da vida da cidade-Estado, enquanto aos idiotas cabia, no máximo, preocupar-se consigo mesmo83.

Logo, a participação do indivíduo no Estado Grego se dará de duas formas principais.

Na primeira, há uma elite composta pela classe política com grande participação nas decisões do Estado, condizentes com assuntos de caráter público. Na segunda, nas relações de caráter privado a autonomia da vontade individual é bastante restrita84.

No mesmo sentido é o apontamento de Darcy Azambuja, ao enfatizar que a Democracia existente naquela época era muito mais ideal do que real, visto que mais da metade da população das cidades gregas era formada por escravos, sem Direito algum, em que uma ínfima minoria governava85.

Assinala Dalmo de Abreu Dallari:

Mesmo quando o governo era tido como democrático, isto significava que uma faixa restrita da população – os cidadãos – é que participava das decisões políticas, o que também influiu para a manutenção das características de cidade-Estado, pois a ampliação excessiva tornaria inviável a manutenção do controle por um pequeno número86.

A consciência da liberdade individual como instituição de caráter jurídico está condicionado a uma oposição entre indivíduo e Estado, no entanto, esse pensamento falta aos gregos e quando, em época posterior, desperta o individualismo e esse sentimento de oposição, já havia desaparecido a independência do Estado Grego87.

82 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 286.

83 BOTELHO, Alexandre. Curso de Ciência Política. Florianópolis: Obra Jurídica, 2005, p. 156.

84 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 54.

85 AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 35. ed. São Paulo: Globo, 1996, p. 140. No mesmo diapasão é o entendimento de Sahid Maluf ao mencionar que “o Estado grego antigo, geralmente apontado como fonte de democracia, nunca chegou a ser um Estado democrático na acepção do direito público moderno. O próprio Estado ateniense, no auge da sua glória, sob a liderança de Péricles, apresentava, na sua população de meio milhão de habitantes, cerca de 60% de escravos, sem direitos políticos de qualquer espécie, além de cerca de 20.000 estrangeiros. Resumiam-se a pouco mais de 40.000 os cidadãos que governavam Atenas e constituíam a soberania do Estado” (Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 97).

86 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 54.

87 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 298.

De outro norte, os Direitos políticos eram reconhecidos verdadeiramente como Direitos individuais, podendo ser reduzidos na exigência de participar da administração da justiça e na vida do Estado, além de reconhecer instrumentos que impediam a valoração arbitrária das leis88.

Dessa forma, destaca-se que os Estados gregos foram de pequena população e extensão, eram cidades, polis89; “originariamente era uma aldeia fortificada; mais tarde, a cidade edificada em torno desta aldeia chega a formar o Estado, ou ao menos o núcleo de uma comunidade estatista cuja magnitude territorial era análoga a de um cantão suíço”90 (tradução livre).

Evocando o abalizado ensinamento de Georg Jellinek, pode-se conceber o Estado Grego como “uma associação de cidadãos, unitária, independente e que tem como base leis e autoridades próprias. Essa associação oferece um duplo caráter: estatista e religioso. O princípio superior para a administração e o direito é, nessa associação, a conformidade com a lei”91 (tradução livre), faltando, apenas, um conhecimento mais claro quanto à capacidade jurídica de que gozava o indivíduo.

1.3.3. Estado Romano

Ao tratar do tema, Dalmo de Abreu Dallari aponta que o Estado Romano “teve início com um pequeno agrupamento humano, experimentou várias formas de governo, expandiu seu domínio por uma grande extensão do mundo, atingindo povos de costumes e organizações absolutamente díspares, chegando à aspiração de construir um império mundial” 92.

Destaca-se, outrossim, que uma das características mais importantes dessa forma de Estado é a base familiar como forma de organização, sendo que eram concedidos privilégios especiais às famílias patrícias, descendentes dos fundadores do Estado93.

88 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 299-300.

89 AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 35. ed. São Paulo: Globo, 1996, p. 141.

90 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 291-292.

“Originariamente es la aldea fortificada; más tarde, la ciudad edificada en torno a esta aldea llega a formar el Estado, o al menos, el núcleo de una comunidad estatista cuya magnitud territorial era análoga a la de un cantón suizo”.

91 JELLINEK, Georg. Teoría General del Estado. México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 301-302. “El Estado helénico es una asociación de ciudadanos, unitaria, independiente y que tiene como base leyes y autoridades propias. Esta asociación ofrece un doble carácter: estatista y religioso. El principio superior para la administración y el derecho es, en esta asociación, la conformidad con la ley”.

92 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 54- 55.

93 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 55.

Perfilando diretrizes nesse sentido, Sahid Maluf preconiza que:

A família era constituída pelo pater, seus parentes agnados, os parentes destes, os escravos (servus) e mais os estranhos que se associavam ao grupo (famulus). A autoridade do pater familia era absoluta: pontífice, censor dos costumes, juiz e senhor, com poder de vida e morte sobre todos os componentes do grupo (jus vita et necis) 94.

Além disso, “gradualmente os romanos foram separando o Direito e a Moral, mas incorreram no vício grave de confundir lei e Direito, de sorte que as decisões do povo, do Senado e dos magistrados eram a própria justiça, e nenhum desacordo era ilícito contra elas”95.

É possível também perceber a nítida separação entre o poder público e o poder privado, com a distinção entre Direito público e Direito privado96.

Assim como no Estado Grego, durante muito tempo o Povo participou diretamente do governo, sendo que de forma lenta e gradativa, outras camadas sociais foram adquirindo e ampliando seus Direitos sem que desaparecesse a base familiar e a ascendência do poder tradicional97.

O primitivo Estado-Cidade dos romanos, portanto, era uma reunião de gens.

As gentes reunidas formavam a Curia; várias Curias formavam a Tribu; e diversas Tribus constituíam a Civitas. Esta possuía um Senado cujos membros eram os pater familias. Por isso mesmo, ainda no decorrer do Império, os senadores conservaram o título tradicional de pater98.

Vale ainda mencionar o exposto por Fustel de Coulanges ao cotejar o Estado Romano:

Onde a religião dominava a vida privada e pública; onde o Estado era uma comunidade religiosa, o rei um pontífice, o magistrado um sacerdote, a lei uma fórmula santa; onde o patriotismo era a piedade; o exílio, a excomunhão; onde o homem era sujeito ao Estado pela alma, pelo corpo, pelos seus bens; onde o ódio era obrigatório contra o estrangeiro; onde a

94 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 101.

95 AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 35. ed. São Paulo: Globo, 1996, p. 142.

96 PLANTULLO, Vicente Lentini. Uma Análise Histórica do Estado Democrático de Direito. Temas de Direito em Debate. Curitiba: Juruá, 2004, p. 210.

97 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p. 55.

O conceito povo, nesse momento, deve ser entendido de forma estrita, em que pese haver efetivamente a participação de apenas uma faixa estreita da população.

98 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 102.

noção do Direito, do dever, da justiça e da afeição terminava nos limites da cidade99.

Não obstante o exposto e com esteio na lição de Sahid Maluf é possível caracterizar algumas peculiaridades do Estado Romano além das já discutidas, como: a) garantia da propriedade privada; b) relativa liberdade em face do poder estatal, não sendo obrigado a fazer ou deixar de fazer algo, senão em virtude de lei; e c) o Estado Romano era considerado como fonte legítima do Direito100.

Distinguem-se ainda três espécies de poder, inerentes ao Estado Romano: 1) dominum, relativo ao âmbito familiar; 2) potestas, poder próprio dos magistrados com funções civis determinadas; e 3) imperium, poder político, soberano, de comando interno e externo do Estado, exercido pelos cônsules101.

1.3.4. Estado Medieval

Admite-se como marco inicial da Idade Média o século V, a partir da queda do império romano no ocidente (ano de 476), terminando no século XV, com a queda do império romano no oriente102.

O Estado Medieval possui três características que, analisadas, possibilitam a compreensão desse período.

A primeira delas, o cristianismo, traz a afirmação de igualdade entre os homens, considerando como temporariamente desgarrados os que ainda não fossem cristãos103.

Ressalta-se também a unidade da Igreja, com o objetivo de integrar toda a humanidade como cristã, a fim de que todos seguissem os mesmos Princípios e adotassem as mesmas normas de comportamento público e particular104.

O papa São Gelásio I sustentou, nos fins do século V, que Deus quis separar o poder espiritual do poder temporal para evitar os abusos que decorreriam fatalmente da acumulação

99 COULANGES, Fustel de. apud AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 35. ed. São Paulo: Globo, 1996, p. 142. (O autor não menciona os dados ou a obra da qual fez a citação).

100 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 103.

101 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 104.

102 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 107.

103 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p.

56. Deve-se consignar que o Estado era de fundamento teológico que, por sua vez, não deve ser confundido com a teocracia das monarquias, no Estado Antigo.

104 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p.

56.

dos dois poderes, acentuando que no domínio eclesiástico o bispo é superior ao imperador, porquanto no domínio das coisas laicas o imperador é superior ao bispo105.

Dante Aliguieri, em sua obra de maior contribuição política, intitulada “Monarquia”, afirma que:

O poder temporal não recebe do poder espiritual sua existência, nem o poder, que é sua autoridade, nem mesmo sua atuação pura e simples.

Recebe, sim, do poder espiritual influência para poder agir com maior eficácia mediante a luz da graça de Deus, no céu, e a bênção do sumo pontífice, na terra, lhe infundem106.

Disso se conclui que “a faculdade de conferir autoridade ao reino temporal é contrária a natureza da Igreja”, de forma que se consegue demonstrar de modo suficiente que a autoridade do império independe da Igreja107.

A Igreja ainda estimula a afirmação do Império como unidade política, buscando formar um Império da Cristandade. Entretanto, o que se presencia é a luta entre o Papa e o Imperador, ambos tentando influir nos assuntos de ordem temporal e nos assuntos de ordem eclesiástica. Essa verdadeira luta pelo poder só vai terminar com o nascimento do Estado Moderno, quando se afirma a supremacia absoluta dos monarcas na ordem temporal108. Quanto à segunda característica, a saber, as invasões dos bárbaros, introduziram novos costumes e estimularam as próprias regiões invadidas a se estabelecerem como unidades políticas independentes, culminando no aparecimento de numerosos Estados109.

Dessa forma, no Estado Medieval, se percebe que a ordem era sempre precária, pela improvisação de chefias, pelo abandono ou transformação dos padrões tradicionais, pela presença de uma burocracia poderosa e voraz, pela constante situação de guerra e pela própria indefinição de fronteiras políticas110.

105 MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 111.

106 ALIGUIERI, Dante. Monarquia. São Paulo: Escala, [200-?]. (Grandes Obras do Pensamento Universal). p.

99.

107 ALIGUIERI, Dante. Monarquia. São Paulo: Escala, [200-?]. (Grandes Obras do Pensamento Universal). p.

117-118.

108 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p.

57. No mesmo sentido é o entendimento de Darcy Azambuja ao afirmar em sua obra que “a luta entre o poder temporal e o espiritual, que acompanhou o aparecimento e a consolidação dos novos Estados terminou com o estabelecimento das monarquias absolutas” (Teoria Geral do Estado. 35. ed. São Paulo: Globo, 1996, p. 144).

109 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p.

58.

110 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995, p.

58.

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