O presente estudo foi realizado na cidade de Itajaí, município localizado na região litorânea do estado de Santa Catarina e que tem uma população estimada de 168.088 habitantes, de acordo com o Censo 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Detentora de uma área territorial de 289 km2, é composta por uma área urbana e uma área rural. A economia do município é sustentada, principalmente, pela indústria pesqueira e, nele, localiza-se o Porto de Itajaí, de importância estratégica para o comércio nacional e internacional.
Este município sedia uma universidade - a UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí) e, nas dependências desta, há um serviço de saúde, ambiente docente-assistencial, denominado Unidade de Saúde da Família e Comunitária (USFC). Nesta unidade, existente desde 2002, desenvolveu-se um estudo observacional, descritivo e semi- participante.
O local escolhido funcionava em três andares, num prédio de 5000 m2. Este espaço era cenário de atividades práticas para acadêmicos, de cinco dos nove cursos de graduação na área da saúde, oferecidos pela instituição, a saber: enfermagem, farmácia, medicina, nutrição e psicologia.
Neste espaço de saúde, havia ambulatórios que realizavam atendimento a pacientes, moradores desta cidade e de cidades vizinhas. Os atendimentos realizados eram de várias naturezas: ambulatório de medicina de família e comunidade, ambulatório de especialidades médicas, ambulatório de nutrição e outros.
Nesta unidade de saúde, existia a atuação e a interação entre alunos, professores, estagiários, funcionários dos cursos da área da saúde e pacientes. A interação que acontecia entre todas estas pessoas, neste contexto, era de educação em serviço, contínua e permanente.
O saguão de entrada, no andar térreo, as salas de espera, nos 2º e 3º piso, as salas de discussões de casos clínicos, os corredores, rampas e escadas de acesso a estes andares, bem como os ambientes especiais, tal qual um “espaço lúdico” no 2º piso, foram os ambientes coletivos eleitos para as observações. Escolheram-se estes cenários para a realização das observações, por ser um espaço de atividades práticas dos acadêmicos de medicina, do 5º até o 12º período do curso, o que possibilitou acompanhá-los, dentro de um mesmo serviço de saúde.
Optou-se em realizar a observação semi-participante, apenas nos ambientes externos e coletivos desta unidade de saúde, não incluindo os consultórios de atendimento aos usuários-pacientes, em virtude de que esta segunda escolha demandaria outras necessidades metodológicas, tais como a anuência de todos os pacientes, alunos e docentes em consulta médica, nesta unidade docente- assitencial, o que, por conseguinte, poderia determinar importantes viéses às observações.
Os sujeitos da pesquisa, alunos do curso de medicina, foram selecionados, em três momentos distintos, dentro da matriz curricular de formação acadêmica, por entender-se que os mesmos teriam, em cada um desses períodos, percepções diferenciadas, do reconhecimento e do grau de relevância conferida à humanização, enquanto um processo transversal de aprendizado. Critérios fundamentais de inclusão de alunos nesse estudo foram: os alunos estarem regularmente matriculados e ter freqüência regular às aulas e atividades deste curso.
Para uma melhor compreensão do presente estudo, detalharam-se alguns dados do perfil de formação e de atuação do corpo discente, do corpo docente e da organização desta escola médica.
Neste curso, destaques são dados para os conteúdos de: ética médica e bioética (disciplina inserida, transversalmente, nos ciclo básico e profissionalizante da graduação, do 1º ao 8º período) e medicina de família e comunidade (disciplina ministrada, desde o ciclo profissionalizante até o final do internato, do 5º ao 12º período). A articulação teoria-prática é princípio fundamental no desenvolvimento das atividades curriculares do curso.
Com relação à pesquisa realizada pela Gerência de Ensino e Avaliação/Pro En – UNIVALI (SC), 2007, alguns dados deste curso de medicina devem ser destacados.
O número de alunos matriculados, no segundo semestre de 2007, foi de 309 alunos.
A grande maioria dos alunos do curso tinha idade média na faixa de 17-20 anos, distribuídos, de forma equilibrada, entre os sexos masculino e feminino, predominantemente, solteiros e sem filhos.
Na maioria dos casos, viviam em residência alugada, dependiam de seus pais para custear os estudos e possuíam plano de saúde. Os pais possuíam boa escolaridade e eram, na maioria, autônomos, empresários e profissionais liberais. Os alunos, em sua maioria, apenas se dedicavam aos estudos. Seu lazer estava ligado a encontros com amigos, leituras, assistir TV e cinema. Possuíam bom conhecimento de informática e de língua inglesa.
A maioria dos acadêmicos cursava a graduação, pela primeira vez, afirmando que a escolha pela UNIVALI e pelo curso foi motivada por parentes, informações nos cursinhos e mídia. A maioria dos alunos tinha perspectiva de realizar especialização médica, após a conclusão do curso. Os motivos referidos pelos alunos para as desistências foram, essencialmente, motivados por questões financeiras (UNIVERSIDADE..., 2007).
Através do Projeto Pedagógico do Curso de Medicina da UNIVALI – 2007/2008, alguns dados relevantes do corpo docente foram evidenciados. Com relação ao perfil profissional, no primeiro semestre de 2008, faziam parte do quadro geral de docentes do curso de medicina da UNIVALI 145 profesores. Deste total, 48% dos docentes do curso possuíam título de especialista, 31% eram mestres, 15% eram doutores e havia apenas um professor PhD.
Com relação à participação no Programa de Formação Continuada em 2006-2007, da UNIVALI, evidenciou-se uma participação variável dos professores do curso de medicina neste programa, havendo momentos de expressiva participação e outros, de pouquíssima participação.
Os professores deste curso possuem experiência variada e significativa, pois tanto há jovens na profissão, como há médicos experientes, o que torna esta interação entre as diferentes gerações fomentadora de uma constante busca de educação e de formação permanente, imprescindível para a garantia de um processo de ensino- aprendizagem de qualidade (UNIVERSIDADE..., 2007).
A maior parte dos professores contempla um regime de trabalho parcial de até 20 h/
semanal. N à relação aluno/docente, as disciplinas teóricas que oferecem atividades práticas posuem uma boa relação, o que já não acontece com algumas disciplinas teóricas que contam, atualmente, com um grande número de alunos. O mapa da carga horária dos docentes aponta que a relação disciplina/docente apresenta-se boa, pois 33,79% leciona em uma disciplina, 50,34% leciona em duas disciplinas e 13,10% leciona em três disciplinas.
A UNIVALI adotou como um dos critérios em sua política de avaliação de desempenho do corpo docente, os indicadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), através do Currículo Lattes.
No presente estudo, doze foram os professores do curso de medicina que atuaram e realizaram supervisão das práticas dos alunos junto aos ambulatórios observados.
Algumas características que foram evidenciadas destes docentes foram: quatro possuem título de especialização, seis são mestres e dois são doutores. Destes professores, nove graduaram-se em universidades públicas e três, em universidades privadas. Do total destes docentes, a maioria – quatro, ingressaram como professores no curso de medicina da UNIVALI em 2001; dois ingressaram em 2000, um em 2002 e um em 2005, que foi o último ano de credenciamento junto ao curso;
três professores ingressaram entre os anos de 1997, 1998 e 1999; o mais antigo destes professores está vinculado junto à UNIVALI, desde 1987.
É importante destacar os cuidados éticos, observados na execução deste estudo.
Todo ser humano é dotado de uma consciência moral, que o faz distinguir entre o certo e o errado, o justo e o injusto, o bom e o ruim. Com esta percepção, consciente, ele é capaz de avaliar suas ações e por em xeque a sua ética. Nesta, estão incluídos os valores, os deveres e as ações, incorporados e diferenciados, em cada cultura. Portanto, a ética pode ser definida como a ciência do dever, da obrigatoriedade, a qual rege a conduta humana (CAMPOS, 2003).
Primeiramente, dentre os critérios éticos assegurados, no presente estudo, procedeu-se à assinatura do Termo de Compromisso do Orientador, junto ao corpo docente do Mestrado Profissional em Saúde da Família; em seguimento, promoveu- se a qualificação e a aprovação do projeto de pesquisa, junto ao corpo docente do Mestrado Profissional em Saúde da Família e Gestão do Trabalho (ANEXO A); após, efetuaram-se os esclarecimentos verbais sobre os objetivos e o desenvolvimento da pesquisa, com autorização e consentimento efetivado mediante assinatura da Coordenação do Curso de Medicina (ANEXO B);
A inscrição do projeto de pesquisa, junto ao Sistema Nacional de Ética em Pesquisa (SISNEP), gerou a Folha de Rosto do SISNEP, anexada, como primeira página, ao projeto (ANEXO C); ato contínuo, a autorização e o consentimento, por escrito, da coordenação do Centro de Ciências da Saúde efetivou-se, através de assinatura no projeto (ANEXO D);
Após, ocorreu o encaminhamento e submissão à análise do projeto ao Comitê de Ética de Pesquisa (CEP) desta universidade. Esta comissão está instalada na instituição há nove anos, através da Portaria 110/97, aprovada e regulamentada pela Resolução 109/99 do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE); e, como finalização, o parecer consubstanciado da Comissão de Ética em Pesquisa, como projeto de pesquisa “APROVADO”, com cadastro 295/07, em 27/07/2007 (ANEXO E).
Ato contínuo, iniciou-se a entrada no trabalho de campo.
Antes da entrada em campo, em consonância com os princípios éticos norteadores do estudo, foi solicitado aos professores das disciplinas dos ambulatórios a serem observados, a aprovação da presença dos observadores e o consentimento da realização dos registros das observações, mediante preenchimento de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para Docentes do Curso de Medicina (ANEXO F). No que diz respeito aos principais sujeitos da pesquisa – alunos do curso de medicina, os princípios éticos foram respeitados, assegurando o anonimato dos sujeitos observados e entrevistados.
A primeira parte da pesquisa foi composta pelas observações semi-participantes dos sujeitos da pesquisa, com enfoque nos alunos do curso de medicina, realizada pela presença de dois observadores, nos espaços coletivos. O instrumento utilizado como norteador para as saídas de campo dos observadores foi o Diário de Campo, adaptado da proposta de Bogdan e Biklen (1991) e transposto no ANEXO G, no qual foi escrito aquilo que foi ouvido, visto, experenciado e pensado.
Por fim, entendeu-se ser pertinente e positiva a identificação da instituição onde foi realizado o presente estudo, por permitir que as questões necessárias para uma efetiva mudança possam, concretamente acontecer, possibilitando que outros estudos e ações possam, a partir daí emergir, sendo obtido, para tal fim, o Termo de Autorização da Identificação da Instituição do Estudo, com a anuência da Coordenação do Curso de Medicina (ANEXO H).
Na segunda parte da pesquisa, a metodologia adotada para efetuar, juntamente com as observações e o eixo teórico, a triangulação dos dados, foram as entrevistas com os alunos do curso de medicina. Estas entrevistas realizaram-se conforme as possibilidades dos entrevistados, ao observar datas, horários e locais previamente acordados.
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido do Entrevistado (APÊNDICE C) foi explicado, individual e pessoalmente, evidenciando o caráter confidencial das informações prestadas pelos entrevistados, que permanecerão no anonimato. Foi fundamental que cada um desses alunos aceitasse participar, espontaneamente,
desta pesquisa, bem como tomasse conhecimento, antes da sua entrevista, do roteiro da mesma (APÊNDICE A), com o intuito de familiarizar-se com o tema.
Como um fechamento deste estudo, planejou-se e procedeu-se, enquanto compromisso ético, a realização de uma devolutiva, coletiva, para todos os sujeitos que, direta ou indiretamente, foram e estiveram envolvidos com o estudo, através do Termo de Compromisso de Utilização de Dados (APÊNDICE B).