4.4 Categorias de análise
4.4.5 Relação alunos com observadores
4.4.5.2 Interações com interferência entre alunos e observadores
no contato visual, no tom de voz, na maneira de se relacionar e se aproximar do outro.
Em outro momento, durante observação do ambulatório 5, um acadêmico do internato veio, espontaneamente, interagir com os observadores. Comentou sobre uma entrevista que viu, na televisão, com Patch Adams. Ele trouxe considerações importantes, sobre a postura e a inspiração deste modelo de profissional de saúde. Citou que a convivência com uma pessoa, um profissional assim, pode ser contagiante, pelo seu exemplo, sua fala e seus gestos, e que deveriam ter muito mais pessoas assim. Comentou-se, também, sobre o DVD dos Doutores da Alegria, de São Paulo. Todos estes excelentes exemplos de humanização.
Em certa ocasião, no ambulatório 3, um aluno de medicina entrou no recinto e nem dirigiu o olhar para a observadora. Alguns alunos pareciam ignorar a presença dos observadores, embora os conhecessem de outros lugares e de outros momentos.
Na observação deste ambulatório, a maioria dos alunos do internato médico, em outra atividade curricular, parou e cumprimentou o observador. Contudo, três acadêmicas, bem como um professor de medicina, passaram direto. E, foram-se, sem interagir, alheios e absortos em seus pensamentos.
Outra vivência foi observada, no interior da sala de orientação clínica, no ambulatório 3. Uma aluna de medicina, com ar mais sério, mais reservada e introvertida, entrou, neste espaço de discussão clínica, não olhou para a observadora e foi para o outro lado da mesa. Não interagiu, em nenhum momento, e nada mais aconteceu.
Em outra oportunidade, durante as atividades do ambulatório 3, observou-se a acadêmica de medicina, acompanhada por outro acadêmico de outro período passar, pelo ambiente térreo de espera. Nenhum deles interagiu com os presentes no ambiente. Passaram pelo observador, por usuários e por funcionários, sem dirigirem palavras e nem cumprimentos. Apanharam o prontuário de um paciente, no balcão de recepção e voltaram, pelo mesmo caminho, com a mesma atitude, sem perceber o observador, que os seguiu, com o olhar. Apenas, quando chegou um terceiro colega, que já percebera o colega-observador, em posição de registro, é que cumprimentos foram dirigidos ao observador, antes de todos subirem, rapidamente, as escadas.
No ambulatório 4, todos os alunos passavam pelas pessoas, que se encontravam, no ambiente de espera dos pacientes. Destes, apenas dois ou três alunos repararam que havia um colega, sentado, a escrever. Estes perguntaram o que este colega estava fazendo, ali, neste local. Não foram dadas maiores explicações e, realmente, ninguém mais quis insistir em saber.
Neste ambulatório 4, um grupo de alunos e professores vinha caminhando, pelo corredor, num bloco único. Destes alunos, a maioria desceu pelas escadas, tomando
o caminho, à sua direita. Alguns se dirigiram, até a mesa de apoio, para deixar o prontuário do paciente e preencher o boletim de atendimento dos usuários. Os professores também estavam próximos, e buscavam suas coisas, ao redor da mesa.
Alguns alunos interagiram com o aluno-observador e perguntaram o que fazia, ali, na unidade de saúde. Este desconversou, dizendo “nada, nada demais...”.
Em outro momento, neste ambulatório, na despedida dos alunos para seguirem para a próxima atividade - uma aula teórica, em outro local, os alunos, num total de seis, saíram rápido. Apenas dois deles despediram-se, simpaticamente, da observadora.
No ambulatório 2, um aluno sem identificação, chegou e passou, pelo corredor.
Olhou para a observadora, se perguntando o que ela fazia, ali, escrevendo.
Demonstrou em seu rosto um sorriso, engraçado, e subiu, novamente, pelas escadas. Até onde foi a observação, não se descobriu em qual piso este acadêmico desempenhava atividades práticas, pois o mesmo, habitualmente, vagava pelos corredores.
Já no ambulatório 5, a observadora estava sentada, na mesa dos professores, quando uma acadêmica de medicina aproximou-se, com o prontuário de um paciente, em mãos. Ela ficou, do lado da mesa, sem nada dizer. A observadora percebeu a movimentação e a presença desta aluna, deduziu que ela desejava conversar com o professor. Como faltavam cadeiras para todos, a observadora levantou-se e cedeu o espaço para a aluna. Não escutou nem ao menos um “muito obrigada”, em retribuição.
Por outro lado, alguns destes acadêmicos do internato médico, não conheciam, previamente, a observadora. Isto aconteceu porque esta, enquanto professora, licenciou-se das aulas do curso de medicina, durante um semestre letivo. O que não justifica o não olhar, a falta de cordialidade e de boa educação.
Durante o ambulatório 5, um aluno do internato médico chegou e disse: “Dez horas, e não tem mais paciente? Que absurdo! De doze pacientes, faltaram cinco!”. E aproximou-se, um pouco mais, da observadora e disse: “Deveriam ver um esquema,
para não faltarem mais, tantos pacientes... Quem sabe, cobrar R$ 5,00 ou cobrar um quilo de alimento, não perecível! Daí, talvez, os pacientes não faltassem tanto”.
Ficou pensando, um pouco, e comentou: “E isso acontece, em todas as disciplinas, sem exceção!”.
Ficou-se, pensando e refletindo, sobre o que tinha se acabado de ouvir. Será que estas seriam as únicas medidas para trazer, conscientizar e responsabilizar os pacientes, os clientes, os usuários deste serviço de saúde?
5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
“Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. Os homens esqueceram essa verdade. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas, eternamente responsável, por aquilo que tu cativas. Tu és responsável por...” (SAINT- EXUPÉRY, 1944, p.70).
A partir do encontrado e relatado, nas cinco categorias de inter-relações dos alunos do curso de medicina em seu universo de percepções, ações e atitudes, diárias, buscou-se, neste capítulo, aproximar estes dados com os existentes na literatura atual, focando dois eixos centrais:
1. a humanização e os cenários- espaços coletivos;
2. a humanização e os sujeitos da pesquisa- pessoas.
Para que a humanização aconteça, integralmente, em todos estes níveis, seria fundamental que ela fosse, realmente, uma atitude de todos, no cuidado em saúde.
Certamente, não teria como abordar-se o tema humanização e pessoas, sem perpassar-se pelos espaços de saúde e pela formação e atuação idealizada destes profissionais.
A humanização, enquanto uma atitude comprometida, responsável e processual do profissional de saúde, fez refletir-se sobre a extensão multidimensional que a mesma abrangia, no momento em que a mesma era focada, no dia-a-dia dos cenários de saúde.
No presente estudo, reconheceu-se, identificou-se e julgou-se a ética e o sentido dos valores que permearam as ações e atitudes dos alunos de uma escola médica, enquanto humanos a estabelecerem a construção de relações com outros seres humanos.
Nas descrições que se seguem, refletiu-se sobre o que foi mais chamativo nas percepções e análises dos observadores, a partir das relações cotidianas dos alunos.
Procedeu-se ao detalhamento e discussão dos dados encontrados nas observações e nas entrevistas dos alunos, comparando-os com os da literatura acadêmica. Esta aproximação buscou ilustrar o que foi encontrado, nas saídas de campo.
Um dado importante identificado pela observadora, com relação aos dados encontrados nos resultados, é que a partir da sétima entrevista realizada pela observadora, os relatos dos alunos iniciaram a repetir-se, como uma constante.