Conforme Goldhagen (1997, p.37), ―ao refletir sobre o antissemitismo na Alemanha, as pessoas tendem a valorizar suposições não reconhecidas sobre os alemães que viveram antes e durante o período nazista‖. Para o autor é preciso fazer uma análise detalhada dessas suposições antes e depois do período nazista. Em outras palavras, o antissemitismo não era um corpo estranho ao povo alemão que viviam sobre a égide dos nazistas , pois antes de mais nada, é necessário levar em consideração que o povo da Alemanha desde os primórdios de sua longa História, tinha arraigado a mentalidade antissemita que fomenta o desejo da eliminação do povo judeu, a qual se tornará realidade com a implantação do regime nazista que encontrara uma metodologia sistemática de eliminação através dos campos de extermínios.
Os axiomas são normas inquestionáveis que foram utilizadas para construção de normas morais em diferentes sociedades, para justificar certas crenças culturais , como é o caso do antissemitismo.
De acordo com Goldhagen (1997), desde os primórdios do cristianismo encontrava-se antissemitismo contra o povo judeu. Os judeus foram o povo escolhido para a vinda do Salvador, porém os mesmos recusaram a revelação de Jesus. Dessa contradição apareceram dois questionamentos: será que o messias era falso ou os judeus tinham se desviado da palavra talvez por influência do demônio? Os cristãos preferiam ficar com o segundo questionamento. Para o autor, isso contribui para uma nova problemática, onde os cristãos se consideravam uma nova religião em substituição ao judaísmo. Dito de outra forma, os judeus deveriam deixar de existir e ainda se converterem ao cristianismo. No entanto, os judeus se recusaram a conversão do cristianismo.
Outro aspecto destacado por Goldhagen (1997) ,foi a crença axiomática dos cristãos de que os Judeus eram assassinos de Jesus. Porém, a partir dessa crença, todos os cristãos consideravam os judeus de todos os tempos responsáveis pela morte de Jesus.
Durante a Idade Média, os judeus foram responsabilizados por todas as catástrofes ocorridas na sociedade medieval europeia, principalmente pela sua natureza maligna.
A título de exemplo, podemos citar a crise do século XIV pela qual os judeus foram acusados de serem culpados, pois os mesmos eram responsáveis pela peste negra e pelos problemas climáticos que ocasionaram má colheita das plantações europeias. Além disso, havia os mitos que os cristãos tinham que os judeus faziam rituais de magia com sangue de crianças e, por fim, que envenenavam os poços de água.
Conforme bserva Goldhagen (1997), apesar dos preconceitos, estigmas e perseguições aos judeus, a Igreja Católica deu a liberdade do direito de viver e praticar sua religião
devido ao legado existente entre judaísmo e cristianismo, mas com ressalvas de viverem em um estado de penúria acentuada como castigo pela não aceitação de Jesus . Com o passar do tempo, a Igreja Católica deixou de lado a ideia de morte para os judeus e passou a adotar a conversão. Sobre essa questão Goldhagen nos fala o seguinte : ― isso reafirmaria a supremacia do cristianismo. Tal era a lógica do antis-semitismo cristão pré-moderno
Segundo Goldhagen (1997), quando o antissemitismo tinha caráter religioso durante a Idade Média era possível haver uma convivência harmônica entre judeus e cristãos.
Porém, na segunda metade do século XIX, o antissemitismo passou a ter o caráter racial na Europa.
Logo após a tomada do poder pelos nazistas, em 1933, estes vão estabelecer uma política antissemita, que vai fomentar o ódio do povo alemão contra os judeus, criando leis que levaram à exclusão social e civil. Tais leis consolidarão a mentalidade eliminacionista, a qual, vinha desde a segunda metade do século XIX tomando forma no seio da sociedade alemã. Dito de outra forma, os judeus vão sofrer todo tipo de violência, dentre as quais poder-se-á citar, as agressões físicas, as injúrias verbais, as proibições de entrar em cidades, onde havia placas que os advertiam de tal, e posteriormente, as leis de Nurembergue, de setembro de 1935, que ratificavam a eliminação social e civil dos judeus da sociedade alemã.
Conforme nos chama atenção, Goldhagen: ―O modelo cultural cognitivo referente ao judeu será propriedade tanto dos nazistas quanto dos não nazistas ‖ (1997, p.128).
Para o autor, o povo alemão estava consciente da política eliminacionista de seus governantes nazistas, ou seja, não se pode afirmar que os alemães sofreram uma lavagem cerebral dos nazistas. Porém, manifestações contrárias ao programa eliminacionista dos nazistas existiram, mas eram minorias.
Segundo Reich (2001), ascensão do nazismo na Alemanha não foi resultado só do carisma de Adolf Hitler, e nem do capitalismo reacionário ou da ideologia do nacional- socialismo, mas, foram as massas responsáveis pela consolidação do poder. Em outras palavras, as massas aceitaram a ideologia do führer por livre e espontânea vontade, pois esta encontra espaço na estrutura mental das massas. Reich exemplifica essa questão da seguinte forma: ―(...) Somente quando a estrutura de personalidade do führer corresponde as estruturas de amplos, um ―führer‖ pôde fazer história (...)‖ (2001,p..34).
Conforme fala Reich (2001), o próprio Adolf Hitler tinha desprezo pelas massas por considerá-las débeis demais e de fácil manipulação a partir de seus sentimentos .Dito de
outra maneira, as massas são de almas femininas onde estão sempre atreladas ao sentimento de amor e o ódio puramente subjetivo
Conforme Reich indaga (2001), o cerne da questão é saber por que motivos as massas aceitaram a política autoritária do ditador alemão. Antes da ascensão de Hitler como primeiro ministro em 1933, as massas tinham inúmeras propostas de partidos como social-democrata, cristão e comunista .
Em suma, os alemães escolheram seus próprios carrascos, o que demonstra uma grande contradição que somente pode ser explicada a partir das psicologias das massas e jamais do ponto de vista econômico e político. Em outras palavras , a infraestrutura econômica determinista marxista, não foi suficientemente capaz de explicar por que as massas miseráveis votavam na direita radical , em vez de votar na esquerda que representava a classe trabalhadora
Conforme observa Reich (2001), a classe média será a base de apoio político para o nacional-socialismo, devido ao seu caráter reacionário na sociedade alemã. A crise de 1929, foi o fator primordial para a classe média aderir à ideologia nazista, devido a perda do seu padrão de vida. Outro aspecto que vale a pena ser ressaltado, é que a classe média baixa se identificava com os setores dominantes. Em síntese, a classe média assume a postura da classe dominante, através de seu modo de vida. Portanto, a classe média é uma força política significativa que não pode ser desprezada. Conforme apontar Reich
―uma coisa é certa, quanto maior é o peso e a dimensão das camadas médias numa nação, tanto maior é a sua importância como força social em ação‖ (2001,p .42).
A personificação do poder demonstra que o líder e a nação são inseparáveis, ou seja, são um único corpo unido com o povo e este se identifica com o líder. Neste aspecto, poder-se-á afirmar que, as massas são levadas a se identificar com um líder forte, que funciona como um pai que protege a criança desamparada – esta concepção tem seu fundamento na teoria psicanalítica freudiana, onde delineia-se o conceito de complexo de Édipo (este complexo, assinala a passagem do sujeito para o âmbito da cultura, da norma social; a criança que nutre o desejo pela mãe, visa seguir o mesmo percurso do mito grego de Édipo: o filho que possui a mãe e mata o pai.
No documentário ― O triunfo da vontade‖, sobre o IV Congresso do Partido Nazista alemão, nota-se na fala de Rudolf Hess a personificação do poder: ―O partido é Hitler, mas Hitler é a Alemanha como a Alemanha é Hitler‖. Reich afirma o seguinte: ‖(...) Na psicologia de massas, o führer nacionalista é a personificação da nação. E só estabelece uma ligação pessoal com esse führer se ele realmente encarnar a nação em conformidade com o sentimento nacional das massas.(...)‖ (2001,p.59).
Reich (2001) chama a atenção em relação à classe trabalhadora, que foi seduzida pelo discurso de Hitler, que pregava a expropriação da propriedade das grandes empresas em nome dos trabalhadores, porém este negociava com os grandes industriais, prometendo proibir as greves. Isso fica explicito na entrevista que Hitler concede ao jornalista norte americano Knickerboche apud Reich: ―Estou convencido de que os banqueiros internacionais compreenderão em breve que Alemanha sob um governo nacional- socialista será um lugar seguro para investir, pois será paga uma taxa de juros de cerca de três por cento (2001, p.64)‖. Para o autor, a estrutura psicológica do trabalhador médio foi responsável pela não percepção da política dissimulada de Hitler, devido, apesar dos esforços dos sindicatos de fazer uma campanha de conscientização dos trabalhadores, a dois fatores: a ligação emocional com führer e a assimilação de vida da classe média.
Conforme bem observa Reich (2001), o operariado ao longo do século XIX foi se modificando, devido às conquistas sociais tais como: a limitação do horário de trabalho, o direito de voto, o sistema de previdência social, que, sem dúvida, foram conquistas importantes para a classe trabalhadora. Porém, ao mesmo tempo, essas conquistas elevaram o padrão de vida da classe operária, que começou a assimilar o modo de vida da classe média. Para melhor exemplificar essa questão, Reich comenta o seguinte: ―(...) a adoção dos hábitos da classe média intensificou-se em épocas de prosperidade mas o consequente efeito desta adaptação em épocas de crise econômica foi obstruir o desenvolvimento da consciência revolucionária‖ (2001, p.68).
Segundo Lefort (2011), ―o fascismo italiano foi o primeiro a vangloriar-se de construir um Estado totalitário, uno stato. É a ele que se deve a invenção de uma fórmula a qual teria ecos, alguns anos mais tarde, na Alemanha, a do totale staat (...)‖ (2011, p.87). Para o autor, o termo totalitarismo nasceu entre as duas guerras mundiais, com a luta da direita liberal, juntamente com os socialistas, para combater os fascistas. O termo teria também origem no livro de Jacques Bainvillle, escrito em 1933, que definia o totalitarismo como único partido na Alemanha. Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu a Guerra Fria; foi neste contexto que o totalitarismo ganhou uma nova roupagem com a corrente liberal. Para os liberais, o comunismo era uma nova forma de totalitarismo que havia sobrevivido à aniquilação do fascismo e do nazismo.
Como bem afirma Lefort (2001), o novo conceito de Totalitarismo, elaborado durante a Guerra fria pela direita teve como objetivo esquecer o imperialismo e a crítica ao sistema capitalista. No entanto, para o autor, parece estranho que a esquerda não questionasse
esse conceito, pois a mesma não se sentia confortável ao comparar o stalinismo com o fascismo. Em outras palavras, a esquerda não admitia haver um Estado totalitário na URSS.
Segundo Lefort(2001), o Estado democrático é diferente do Estado totalitário. O primeiro faz separação entre sociedade civil e Estado. Dito de outra forma, o Estado democrático está a serviço da sociedade e não o inverso como faz o Estado totalitário.
O Estado Totalitário não separa a sociedade civil do Estado, ocorrendo à fusão entre ambos, ou seja, sociedade civil e o Estado ficam invisíveis. O próprio Hitler no ― VI Congresso do Partido Nazista reforça essa separação entre sociedade e Estado, quanto afirma o seguinte: ―(...) Não é o Estado que nos comanda e sim nós que comandamos o Estado, não é Estado que nos cria, mas nós que criamos nosso Estado (...)‖.
O partido tem um papel fundamental no Estado Totalitário, onde este estabelece a união entre o poder político e a sociedade.
Conforme menciona Arendt (1989), os regimes totalitários, centralizam seu apoio político nas massas. As mesmas eram persuadidas pelos seus lideres conforme suas necessidades, ou seja, as massas estão ansiosas pelos discursos de seus lideres para ouvir o que é conveniente para seu bem estar. Outra característica das massas, é o seu caráter apolítico - não se organizar politicamente- e não possuir interesse comum como fazem sindicados ou organizações profissionais para que as mesmas venham a desenvolver sua consciência de classe
Segundo Arendt (1989), o sucesso dos regimes totalitários perante as massa foi obtido por meio da destruição de duas fantasias dos países democráticos, mais especificamente dos Estados-nações europeus e do seu sistema partidário. O primeiro refere-se ao fim do sistema democrático baseado no capitalismo liberal, em que este assegura participação política de seus cidadãos. Os regimes totalitários eliminam todos os partidos políticos e cria o unipartidarismo como forma de consolidar seu poder e não sofrer oposição política.
Em suma, é o fim do Estado democrático liberal com seu sistema de classes e o colapso de seu sistema partidário.
Com a crise do sistema de classes após a Primeira Guerra Mundial, originaram-se os homens das massas, que eram pessoas que, politicamente, estavam descartados do sistema democrático liberal, que formavam a ralé da sociedade, homens sem perspectivas e fracassados socialmente. Serão estes que conduziram a política totalitária na Alemanha a partir de janeiro de 1933, quando Adolf Hitler será nomeado como Chanceler da Alemanha por uma coalizão política.
O Totalitarismo impõe por meio de seus lideres um controle total da sociedade em todos os setores sociais, por meio da violência e da propaganda para atrair as massas
com o objetivo de manipular estas para a realização de sua política nefasta, baseada no terror. Arendt define essa questão da seguinte forma: ―(...) Sua ideia de domínio - a dominação permanente de todos os indivíduos em toda e qualquer esfera da vida - é algo que nenhum Estado ou mecanismo de violência jamais pode conseguir‖ (...) (1989, p..375).
Outra característica do totalitarismo, é sua pretensão de expansão internacional para conquista mundial, que o leva a não admitir adversários políticos. Isso fica explicito na fala de Hitler durante o VI Congresso do Partido Nazista 1934, em Nuremberg:
No Estado totalitário, o partido político está acima do Estado, ou seja, no Estado totalitário existe uma dupla autoridade, o partido com poder real e o Estado com o poder formal.. Por exemplo, um membro da SS tem mais prestígio político do que um general do exército Alemão.
Os nazistas criaram os campos de concentração e de extermínio. Os primeiros confinavam os opositores políticos do regime, comunistas e dissidências partidárias. O segundo tinha como objetivo de eliminar judeus e num futuro próximo, poloneses, russos, ucranianos.
O nazistas utilizaram diversas estratégias para convencimento das massas como os desfiles, comícios, propagandas com características grandiosas e espetaculares para teatralização de sua política autoritária.
Segundo Cohen (1992), os comícios tinham proporções astronômicas e expunham um grande ideal nazista que era o ―mito do corpo alemão‖. Neste mito, a massa é vista como um corpo com seu sistema circulatório que seria o principal elemento essencial para a purificação racial.
Para Lenharo (1998), a propaganda era o cérebro da política nazista desta se podia manipular a população através de diversos métodos: comícios, culto ao mortos, desfiles , cinema , arte, e arquitetura . O próprio Hitler tem noção da importância da propaganda para consolidação da sua política onde ele afirmava o seguinte: ‗‘A propaganda trouxe-nos ao poder. A propaganda permitiu-nos manter no poder. A propaganda nos possibilitara a conquista do mundo‖.
Durante o período nazista era comum encontrar slogans enaltecendo Hitler como:
―comande funrer que nos o seguiremos‖ ou ― funrer tem sempre razão―. O objetivo destes slogans era valorizar o culto ao chefe da nação.
Os nazistas aproveitavam qualquer evento banal para transformarem em propaganda com intuito de manipular as massas tanto a favor de si mesmo ou para denotar a imagem de seus adversários , comunista e judeus para justificar sua política perante as massas.
Segundo Lenharo (1988), O filme ― O triunfo da vontade‖, da cineastra Riefenstahl, mostra o caráter messiânico e divino Hitler que sobre voa com seu bimotor sobre a cidade de Nuremberg aonde ele conduz as massas a total felicidade, histeria, entusiasmo e fascinação total pelo Funrer, que com seu magnetismo hipnotizante conseguem manipular as massas para desenvolver sua política autoritária baseada no terror.
No filme ― Eterno Judeu ― de 1940, os nazistas demonstram todo o seu anti- semitismo colocando os judeus como pragas que devem ser eliminadas do mundo e da Europa. No filme, os judeus são comparados como mosquitos , ratos que devem eliminados por gases. Este filme serve de apoio propagandista e ideológico para consolidar a eliminação dos judeus nos campos de extermínios com uso de pesticidas Zykton K.
No ―sexto congresso do partido nazista na cidade de Nuremberg em 1934‖, Goobels fala da importância da propaganda para convencimento das massas para conquistas do coração destas.
Analisando a fala de Goobels acima, nota-se que a persuasão e convencimento são importantes para consolidar uma política de Estado, que possa manipular as massas e conservar o statu quo por meio da propaganda moderna que apela para o sentimento, emoções dos indivíduos transformados em meros seres desprovidos de consciência, para que possam servir ao Estado totalitário.
Para Cohen (1992), um dos objetivos do nazismo era o embelezamento do mundo, não só através da arquitetura e da arte, mas também pela perfeição física é racial, criando uma sociedade harmônica e perfeita, através da pureza racial livre da degeneração dos tempos modernos