Com a abordagem deste subitem, objetiva-se ampliar a fundamentação do estudo em questão, na perspectiva de buscar subsídios para a sustentação e entendimento sobre as dimensões da estilística, bem como a aplicação nos vários campos de estudo da língua, evidenciando seu vínculo com o léxico, com a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia.
2.2.1 Estilística fônica ou fono-estilística
Estuda a expressividade do material fônico dos vocábulos tanto isolados quanto agrupados em frase, sobretudo as assonâncias vocálicas. Na prosódia, por exemplo, os acentos de altura e intensidade podem apresentar valor afetivo.
Constitui um complexo sonoro de relevante importância na função emotiva e poética.
As impressões e sugestões oferecidas pela matéria fônica são recebidas de forma diversificadas conforme a pessoa. Considerando a representação escrita, à estilística fônica interessam também os fenômenos da paronímia, homofonia e homografia, a entonação frasal, o ritmo do verso ou da frase e a musicalidade inerente à palavra. Segundo Nilce Sant’Anna Martins (2008, p.46):
Entre os autores que mais se dedicaram ao exame da expressividade dos elementos sonoros, destacam-se Maurice Grammont e Henri Morier. Ambos como Bally salientam que os fonemas apresentam potencial expressivo, de acordo com a natureza de sua articulação; mas as ideias que sugerem só se percebem quando correspondem à significação da palavra ou da frase[...]
É importante mencionar que entre os autores que mais recentemente têm se ocupado da estilística fônica está P.R. Léon, Essais de Phonostylistique (1969), que comenta os estudos mais importantes realizados sobre a matéria, fornece orientações mais científicas à disciplina, além de dividir as funções expressivas da matéria fônica em: funções identificadoras do emissor (emotiva caracterizadora e
dialetal) e funções desempenhadas pela mensagem (impressiva, fática e metalinguística). (MARTINS, 2008, p.49).
2.2.2 Estilística mórfica
É considerado o campo mais restrito dos aspectos linguísticos na língua portuguesa. Eis alguns fatos relevantes exemplificados nos versos transcritos de cantigas de João do Vale. Nesse procedimento foi mantida a grafia pseudofonética utilizada pelo autor.
¾ Uso dos substantivos singular com ideia de plural: Ex.: Vou pro Rio carregar massa pros pedreiros em construção. (“Sina do Caboclo”). Nesse caso, o ir à cidade do Rio de Janeiro expresso pelo eu lírico representa o encontro do singular com o plural (os pedreiros) que já trabalhavam nas construções, refletindo assim o momento pelo qual passava o país.
¾ Uso de expressões da língua do cotidiano, que são formas superlativas tiradas da comparação: Ex.: Preto como carvão. O ato de comparar-se a uma pedra de carvão demonstra o assumir da negritude, exagerando-a, tornando-se mais negro que os outros, uma vez que o carvão assume uma cor mais escura que a tez da pele humana. A expressão, “preto como carvão”, representa também a desconstrução do homem, que deixa a ideia de humanidade e é reduzido pelo meio a um ser sem vida.
¾ No uso do aumentativo e diminutivo, é o fato estilístico que se verifica com maior frequência. Os sufixos aumentativos ou diminutivos geralmente são pejorativos ou depreciativos: Ex.: Garotinha assanhada. (pejorativo); Ex.:
Amigão de fé. (conotação positiva).
¾ Casos de adjetivos com ideias superlativas pelo uso de:
1. Repetição e comparação: Ex.: A roupa estava suja, suja, como o chão. A repetição do adjetivo “suja” dá ênfase ao sujeito e o compara ao chão, que também é sujo, exprimindo assim a pobreza do ambiente onde vive o eu lírico da canção.
2. Diminutivos: Minha mãe, tão pobrezinha (Trecho de “Minha História”) pobrezinha adquire valor superlativo.
3. Redundância. Ex.: O pobre mendigo. Obtém-se um efeito estilístico de valor enfático pela antecipação do adjetivo.
4. Adjetivação Impressionista: Ex.: E quando era de noitinha a meninada ia brincar / Vixe, como eu tinha inveja de ver o Zezinho contar: - O professor raiou comigo porque eu não quis estudar. (Trecho de “Minha História”). A impressão é de tristeza no momento que anoitece e sente inveja das histórias contadas pelos colegas quando iam brincar.
5. Adjetivação sinestésica: (expressividade provocada através dos sentidos): Ex.:
Ficam tudo satisfeito e batem palmas e pedem bis (“Trecho de “Minha História”).
A evocação das qualidades representativas da adjetivação é percebida a partir da associação das sensações táteis e auditivas presentes nos versos apontados.
6. Hipálage: (adjetivação impressionista) quando o adjetivo modifica o termo que não é o seu determinado lógico: Ex.: Bom dia Caxias/ Terra morena de Gonçalves Dias. (Trecho de “Teresina a São Luís”). A visão impressionista remete à etnicidade de Gonçalves Dias, através da cidade de Caxias, sua terra natal.
7. Nome com função adjetiva e adverbial: Ex.: “O trem danou-se naquelas brenhas/
Soltando brasa, comendo lenha/ Comendo lenha e soltando brasa. (Trecho de
“Teresina a São Luís”), percebe-se que danou-se, ao mesmo tempo em que se refere ao trem, atribuindo-lhe uma qualidade, faz referência à ação verbal soltar, produzindo uma circunstância.
¾ Casos de emprego estilístico do verbo:
1. O imperfeito remete à afetividade: é o tempo da linguagem impressionista: Ex.:
Quando ouvia o toque do piano rebolava, saía requebrando. (Trecho de “Coroné Antônio Bento”).
2. O presente histórico: usa o presente para narrar os fatos do passado: Ex.: Todo mundo que mora por ali. Esse dia num pode arresistir. (Trecho de “Coroné Antônio Bento”).
3. Formas do gerúndio dando continuidade à ação verbal: Ex.: “O homem vive sofrendo, sofrendo...” (o gerúndio prolonga ação - agonia).
2.2.3 Estilística léxico-semântica ou léxico-estilística
Abrange a diferença entre denotação (língua própria referente) e conotação (linguagem simbólica figurada), o estudo das metáforas, o valor expressivo dos sufixos e os casos de quebra de paralelismo semântico.
A estilística lexical de substantivo permite ainda estudar: a passagem de substantivos abstratos a concretos através da personificação, Ex.: A saudade matou o desejo de viver longe da família. A troca dos substantivos concretos e abstratos por meio da metaforização. Ex.: Não sou a flor que caiu do galho, sou a flor da vida.
Substantivação em vez de adjetivação. Ex.: A teimosia sem freio das crianças.
Estuda, ainda, o valor expressivo dos pronomes possessivos e demonstrativos, os estrangeirismos, regionalismos, arcaísmos, neologismos, palavras eruditas ou populares, sinônimos e antônimos, a adequação vocabular, o emprego do “ter” no lugar de “haver” e colocação livre de pronomes átonos. Vale mencionar que os estrangeirismos podem ser determinados por exigência da afetividade, por seu caráter de imposição de expressividade.
2.2.4 Estilística sintática
Atua em nível da frase, o que possibilita ser considerado o campo de estudo estilístico mais vasto da língua. À estilística sintática interessam as variantes de colocação, suscetíveis de causar emoção ou sugestionar o próximo. Dando ênfase ao objetivo deste estudo, enumeram-se algumas sugestões quanto às partes em que se divide o plano sintático:
Na sintaxe de colocação - a posição dos adjetivos como marcador semântico estilístico: Ex.: Grande homem (caráter). Homem grande (estatura); A permutabilidade substantivo/adjetivo. Ex.: Menino estudante. Estudante menino.
O deslocamento e a elipse dos termos, o anacoluto, a colocação pronominal, todos se incluem como recursos expressivos, quando produzidos com intenção estilística. Verifica-se, ainda, a gradação sintática - semântica: Ex.: Eu planto feijão, arroz e café; vai ser bom pra mim e bom pro doutor. (Versos de “Sina de Caboclo”).
Sintaxe de Regência - Na sintaxe de regência, além dos exemplos literários, podem ser citados os discursos publicitários em que a regência estilística
está a serviço da função “apelo”: Ex.: Vocês verão prosperidade em todos os sentidos, mas o verão deste ano está chuvoso.
Nos casos de objeto direto interno. Ex.: Morrerá morte vil, (Gonçalves Dias), objeto direto preposicionado. Ex.: “Amemos a Deus sobre todas as coisas”, e objeto direto pleonástico. Ex.: Aquelas músicas inesquecíveis, ouço-as diariamente.
A concordância é vasta em recursos expressivos, porém mencionam-se os casos de aparente ausência de concordância do adjetivo predicativo junto ao plural de modéstia por seu caráter inusitado: Ex.: Não ficaríamos chateado (e não chateados). O plural de interesse. Ex.: Como fomos de viagem. O plural dando ideia de convite. Ex.: Venha filhinha, vamos comer nossa papinha.
Entre estes casos, soma-se a importância na expressividade dos três casos de silepse (gênero, número e pessoa) ou concordância pelos significados (ideia) e não pelo significante (forma). Silepse de gênero: Ex.: A gente era obrigado a trabalhar. Silepse de número: Ex.: Muita gente desconhecem o olará, viu? Silepse de pessoa: Ex.: Os jovens precisamos participar da política do nosso país.
Conforme Monteiro (2005), além destas dimensões da estilística, existem modalidades específicas dessa ciência quando aplicada a outros domínios como a um texto jornalístico, jurídico, científico ou a uma campanha de propaganda de um dado produto. Para cada caso, existem recursos mais apropriados para a obtenção de efeitos de expressividade.