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Dimensões de estudo do ambiente

No documento Carlos Eduardo Carvalho.pdf - Univali (páginas 42-50)

2.2 Ambiente

2.2.2 Dimensões de estudo do ambiente

Os primeiros trabalhos que tentaram propor modelos de análise ou tipologias para a classificação dos ambientes nos quais as organizações estão inseridas foram construídos no bojo da abordagem contingencial da administração. Estes trabalhos, como o de Thompson (1967) e Terreberry (1968) partiam do princípio de que para cada tipo de ambiente, as organizações deveriam adotar diferentes e adaptadas formas organizacionais para que pudessem sobreviver e obter bons desempenhos.

Para Lukas, Tan e Hult (2001) tais estudos estariam dentro do paradigma do fit estratégico, que consiste da consideração do ambiente como um construto exógeno sobre o qual as firmas têm controle limitado, e o qual determina o contexto sobre o qual a estratégia é formulada. Para estes autores, há duas perspectivas distintas e complementares em relação ao ambiente, a primeira que considera o ambiente como fonte de informação, e a segunda que considera o ambiente como fonte de recursos. Dentro da primeira visão estão os estudos sobre a incerteza, como os de Duncan (1972) e Milliken (1987), enquanto dentro da segunda visão estão os estudos da teoria da dependência de recursos conforme preconizados por Aldrich e Pfeffer (1976).

No início da década de 70, Duncan (1972) propôs uma tipologia para classificação dos ambientes percebidos pelos gestores. O trabalho considera duas dimensões fundamentais, que em conjunto darão o grau de incerteza no processo decisório da

organização, uma dimensão de complexidade (simplex-complexo) e uma dimensão de dinamismo (estático-dinâmico). Trabalhos recentes utilizando a tipologia de Duncan (1972) incluindo Gulini (2005), Teixeira, Rossetto e Carvalho (2009) têm encontrado forte associação entre as duas dimensões, ou seja, quando o gestor percebe o ambiente como dinâmico, tende também a o perceber como complexo.

O trabalho de Milliken (1987) apresenta como importantes aspectos da incerteza, a imprevisibilidade do estado e dos efeitos de mudanças no ambiente, bem como a falta de conhecimento sobre as conseqüências das possíveis respostas da organização às mudanças ambientais. Trabalhos recentes têm utilizado a modelagem proposta por Milliken (1987), como o trabalho de Bertucci (2005), e o de Lombardi e Brito (2010).

Dess e Beard (1984) identificaram três dimensões importantes no ambiente, a complexidade, o dinamismo, e a munificência, a mesma conclusão encontrada por Sharfman e Dean Jr. (1991) que pressupõem que o estudo do ambiente passa por uma discussão sobre (a) o grau no qual o número e sofisticação dos elementos no ambiente tornam o entendimento mais difícil, (b) a estabilidade/previsibilidade de um ambiente, e (c) o nível de recursos disponíveis em um ambiente, relativo ao número de firmas competindo por estes recursos. Lumpkin e Dess (2001, p. 436) consideram que o dinamismo e a complexidade refletem o grau de incerteza encontrado pelas organizações enquanto a munificência reflete o grau de dependência de uma organização em relação a seu ambiente. De maneira semelhante Luo, Tan e O’Connor (2001) defendem a existência de três dimensões que caracterizam a natureza do impacto do ambiente, a complexidade, o dinamismo e a hostilidade, sendo que os autores reconhecem esta última como uma função inversa da munificência.

Diversos trabalhos recentes, que se propõem a analisar o ambiente de tarefa têm utilizado as dimensões dinamismo, complexidade e munificência propostas por Dess e Beard, como por exemplo Harris (2004), Andrews (2009) e Porto et al. (2009). O Quadro 2 apresenta uma síntese das dimensões de estudo do ambiente propostas na literatura revisada para este trabalho. Considerando a recorrência das dimensões

dinamismo, complexidade e munificência ambientais, este trabalho fez a opção pelo seu estudo.

Estudo Dimensões propostas

Dess e Beard (1984) Dinamismo, complexidade e munificência Scharfmann e Dean (1991) Dinamismo, complexidade e munificência

Lumpkin e Dess (2001) Dinamismo e complexidade

Luo, Tan e O’Connor (2001) Dinamismo, complexidade e hostilidade Lukas, Tan e Hult (2001) Dinamismo, complexidade e hostilidade

Harris (2004) Dinamismo, complexidade e munificência

Andrews (2009) Dinamismo, complexidade e munificência

Porto et al. (2009) Dinamismo, complexidade e munificência

Quadro 2: Dimensões do ambiente.

2.2.2.1 Complexidade ambiental

Para Khandwalla (1972) a complexidade é uma das dimensões que formam a incerteza ambiental, junto com o dinamismo. Da mesma forma, o trabalho de Duncan (1972) considera ser a complexidade uma das dimensões da incerteza ambiental. A dimensão simples-complexo de Duncan (1972) está assentada no número de fatores a serem considerados pelo gestor no seu processo decisório, bem como em quão similares ou diferentes entre si são estes fatores. Quanto maior o número de fatores, e quanto maior a diferença entre uns e outros, maior será a complexidade do ambiente. Outro trabalho que levanta o número de questões diferentes ocorrendo simultaneamente, como definidor da complexidade é o de Harrington e Kendall (2007), para os quais o crescimento do número de questões inter-relacionadas acontecendo em determinado contexto aumenta a dificuldade para os gestores interpretarem o impacto destas questões no seu negócio.

Khandwalla (1972) considerava a heterogeneidade como uma dimensão distinta do ambiente. Porém, a grande maioria dos trabalhos que se propõem a medir a

complexidade tem incluído a heterogeneidade como componente da complexidade.

Muitos trabalhos têm seguido a proposta de Dess e Beard (1984), os quais propuseram duas subdimensões da complexidade, a heterogeneidade e a dispersão. Sharfman e Dean Jr. (1991) consideram que a discussão da complexidade deve girar em torno do grau no qual o número e sofisticação dos elementos no ambiente tornam o seu entendimento mais difícil. Estes autores sugeriram acrescentar o conhecimento necessário para atuação na indústria, operacionalizado pelo número de cientistas e engenheiros na força de trabalho da indústria, aos indicadores propostos por Dess e Beard (1984). Já, Lukas, Tan e Hult (2001) entendem a complexidade como a previsibilidade do ambiente competitivo e Porto et al. (2009) definem complexidade como a heterogeneidade ou amplitude das atividades essenciais de uma organização, bem como o grau de sofisticação requerido para seu desempenho, envolvendo muitas interações para a tomada de decisão, e elevado grau de abstração na gestão. Desta forma a heterogeneidade seria um dos aspectos que compõem a complexidade ambiental, como já havia sido utilizado no trabalho de Luo, Tan e O’Connor (2001) onde a complexidade foi definida como a média da heterogeneidade e diversidade de cada segmento.

Recentemente, Cannon e St. John (2007) revisaram as propostas de Dess e Beard (1984) e de Sharfman e Dean (1991), em trabalho em que apresentam convergência conceitual com ambos os trabalhos, porém sugerem um novo leque de indicadores para mensuração, incluindo número de funcionários por organização, número de recursos ou entradas, número de diferentes grupos de clientes, número de produtos de cada firma na indústria, número de instituições com as quais as firmas interagem, montante de conhecimento científico necessário para as firmas interagirem na indústria, fragmentação do cenário competitivo, nível de complexidade tecnológica mensurado pelo percentual de engenheiros e cientistas empregados na indústria, complexidade dos processos relativa ao estágio do ciclo de vida da indústria e ao nível de intensidade de capital, e concentração geográfica.

Conceitualmente, este trabalho concorda com Cannon e St. John (2007) e com Sharfman e Dean (1991) quanto aos elementos que compõem a complexidade, sendo esta vista como formada pela heterogeneidade do segmento, pela sua

dispersão, bem como pela dificuldade de obtenção de informações e de previsão e entendimento da evolução do segmento. Como estes trabalhos propõem operacionalização da mensuração através de dados secundários, neste trabalho foi construída e validada uma escala de mensuração da complexidade, conforme apresentada no capítulo metodologia. Como o próprio trabalho de Cannon e St. John (2007) explica, a utilização de dados objetivos é interessante para a comparação entre indústrias, porém o objetivo deste trabalho é a comparação entre a percepção de cada gestor.

2.2.2.2 Dinamismo ambiental

De maneira geral, as propostas conceituais relacionadas ao dinamismo ambiental se baseiam no ritmo de mudanças observado nos elementos do ambiente. Thompson (1967) já descrevia o dinamismo ambiental como as mudanças imprevisíveis dos elementos do ambiente. A dimensão estático-dinâmico de Duncan (1972) se refere à estabilidade dos fatores considerados no processo de tomada de decisão. Quanto mais os fatores mudam, mais dinâmico é considerado o ambiente. Ao invés de dinamismo, Child (1972) chamou esta dimensão de variabilidade, enquanto Mintzberg (1985) chamou de estabilidade, caracterizando como o lado oposto do continnum. Um conceito que se propõe a definir a estabilidade como ausência de variação, está claramente se referindo ao inverso ao conceito de dinamismo aqui tratado.

Tanto o trabalho de Duncan (1972) quanto o trabalho de Khandwalla (1972), e o de Harrington e Kendall (2007) consideram o dinamismo como sendo uma das dimensões que forma a incerteza, junto com a dimensão complexidade. Esta relação do dinamismo com a incerteza é reforçada no trabalho de Lumpkin e Dess (2001) que consideraram dinamismo como a taxa de mudanças imprevistas no ambiente de uma firma, estando relacionado à incerteza que erode a habilidade dos gestores predizerem eventos futuros e seu impacto na organização. Esta última definição está de acordo com o entendimento de Lukas, Tan e Hult (2001) de que o dinamismo se

refere às mudanças no ambiente competitivo. Para estes últimos, o dinamismo estaria dentro da perspectiva do ambiente como fonte de informação. No trabalho de Luo, Tan e O’Connor (2001) dinamismo foi visto como a média da variabilidade e imprevisibilidade, e no de Harrington e Kendall (2007) como o nível de volatilidade no ambiente competitivo, tendo esta volatilidade diversas origens como ações dos competidores, inovações, e novos entrantes entre outros.

Mesmo havendo coerência teórica entre os pesquisadores sobre o que representa o dinamismo, tem havido muitas diferenças na operacionalização do construto, principalmente entre estudos baseados em dados secundários com aqueles baseados na percepção. O estudo de Harrington e Kendall (2005) testou a operacionalização do dinamismo com dados secundários e dados percebidos, concluindo que quando são operacionalizados sobre o mesmo domínio os dois tipos de medidas geram resultados convergentes. Para mensurar o dinamismo percebido, os autores usaram uma escala de 10 pontos no qual os respondentes se posicionavam sobre a volatilidade nas vendas e nos lucros, sobre a taxa de mudanças na tecnologia, na regulação governamental e nos produtos, sobre o grau de pressão sobre a empresa para o lançamento de novos produtos, e grau de dificuldade para acompanhar as tendências da indústria.

Nadkarni e Barr (2008) usam outra expressão se referindo a velocidade da indústria, mas a conceituam da mesma maneira que o dinamismo tem sido encontrado na literatura, refletindo a frequência, rapidez de dispersão, e imprevisibilidade das mudanças.

Este trabalho adota a abordagem proposta por Lumpkin e Dess (2001) sob a qual o dinamismo é visto como a taxa de mudanças imprevistas no ambiente de uma firma.

Para fins operacionais foi desenvolvida uma nova escala, a qual está apresentada no capítulo metodologia.

2.2.2.3 Munificência ambiental

Apesar de ser reconhecida por muitos estudiosos da área de estratégia como uma importante dimensão do ambiente (DESS; BEARD, 1984, YASAI-ARDEKANI, 1989, SHARFMAN; DEAN, 1991), comparativamente ao dinamismo e à complexidade, a munificência ambiental tem recebido menor atenção (HARRINGTON; KENDALL, 2005).

O termo surgiu nos estudos em estratégia a partir dos anos 1970. Pfeffer e Salancik (1978), sob a perspectiva da dependência de recursos, consideram munificência a disponibilidade e abundância de recursos críticos no ambiente em que a firma está inserida. Castrogiovanni (1991) estuda o construto da munificência ambiental, propondo que a sua constituição seja mensurada através do crescimento ou declínio do mercado, da concentração de ameaças ou oportunidades, e da capacidade disponível no ambiente, esta última vista como os recursos disponíveis.

Lukas, Tan e Hult (2001) conectando seu conceito de hostilidade ambiental à dependência de recursos a interpretam como o impacto do ambiente competitivo sobre a firma. Da mesma forma, Lumpkin e Dess (2001) utilizaram o termo hostilidade considerando-o como o oposto a munificência, seguindo Dess e Beard (1984) que a definem como escassez e intensidade na competição por recursos.

Outro trabalho que utiliza hostilidade como o oposto de munificência é o de Luo, Tan e O’Connor (2001), que vê a hostilidade como a média da dissuasão e criticidade dos recursos controlados pelos diferentes stakeholders.

Diversas são as possíveis abordagens empíricas do conceito de munificência, desde as baseadas em dados secundários, como a do trabalho de Yasai-Ardekani (1989) que a operacionalizou através de dados secundários da demanda na indústria, até aquelas baseadas na percepção dos gestores, como o trabalho de Jogaratnan, Tse e Olsen (1999) que operacionalizou a munificência com uma escala que mensurou a satisfação dos gestores com relação aos três componentes propostos por Castrogiovanni (1991).

Wang e Ang (2004) considerando a munificência e a hostilidade como variáveis distintas, estudam o seu relacionamento com o desempenho de pequenas empresas apoiadas por capital de risco. Em seu estudo, a munificência foi construída como função de quatro dimensões. A primeira dimensão, o dinamismo foi adaptada do estudo de Zahra (1993), e mensurada em relação ao grau de mudança tecnológica, demográfica, regulamentar, de competição doméstica e externa, dos consumidores, e no nível de gastos em publicidade na indústria. A segunda dimensão, oportunidades tecnológicas, foi mensurada em relação às oportunidades de inovação tecnológica na indústria, ao crescimento da demanda por novas tecnologias na indústria, e à necessidade de novas tecnologias no crescimento da indústria. A terceira dimensão, crescimento percebido da indústria, empregou medidas da raridade de oportunidade de crescimento na indústria, da atratividade das oportunidades de crescimento na indústria, e da abundância de oportunidades de crescimento na indústria. Como última dimensão, o estudo usou a importância de novos produtos, mensurada através da suficiência de oportunidades para inovação em novos produtos, do crescimento da demanda do consumidor por novos produtos, e do crescimento da demanda de mercado para novos produtos.

Já, para a hostilidade, vista como construto distinto da munificência, Wang e Ang (2004) adotaram a escala proposta por Zahra (1993), mensurando através de duas dimensões, o quão desfavorável são as mudanças na indústria, e a rivalidade competitiva na indústria.

Neste trabalho o conceito de munificência adotado é o proposto por Castrogiovanni (1991) composto pela capacidade do ambiente, pelo crescimento ou declínio das capacidades do ambiente, e pelo nível de oportunidades ou ameaças existente no ambiente. Para operacionalizá-lo foi criada uma escala que é apresentada no capítulo metodologia.

No documento Carlos Eduardo Carvalho.pdf - Univali (páginas 42-50)

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