2. DIREITO, CONSUMO E SOCIEDADE
2.1 Direito do Consumidor e relação de consumo
Na definição do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, segundo Nery Júnior, a relação jurídica existente entre fornecedor e consumidor se dá tendo como objeto a aquisição de produtos ou utilização de serviços pelo consumidor.
95Para Carlos Alberto Bittar os princípios básicos de defesa do consumidor se dão pelo âmbito público:
A defesa do consumidor espraia-se pelo âmbito público, através da ação ordenada de vários organismos e pelo campo privado, por força da atuação de associação de consumidores.
De diferentes modos, no âmbito estatal, se processa essa proteção, havendo mecanismos avançados e eficientes em países que antecederam o nosso na edificação de um regime eficiente de tutela, como nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, em Portugal, na Suécia, no Canadá e no México.
Mas a estruturação da defesa obedece sempre aos princípios básicos postos para a regência da matéria e que vêm permitindo a salvaguarda dos interesses de consumidores, preventiva e repressivamente.96
Ensina Filomeno em “Dos Direitos Básicos do Consumidor”, Capítulo III, comentando sobre o artigo 6° desses mesmos direitos:
Comentários: [1] Direitos do consumidor - Conforme pondera Gérard Cas, “ a sociedade industrial engendrou uma nova concepção de relações contratuais que têm em conta a desigualdade de fato entre os contratantes”.
E conclui que, dessa forma, o “legislador procura proteger os mais fracos contra os mais poderosos, o leigo contra o melhor informado;
os contratantes devem sempre curvar-se diante do que os juristas modernos chamam de ‘ordem pública econômica’”. Assim, continua,
“depois de ter-se manifestado com grande nitidez nas relações entre empregadores e assalariados, a diminuição da liberdade contratual concentra-se hoje nas relações de consumo que se estabelecem entre profissionais fornecedores ou distribuidores de produtos e serviços, e os usuários particulares”.97
95 NERY Júnior, Nelson, et. al. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentados pelos Autores do Anteprojeto. 8ª ed. rev. ampl. e atual., Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2004.
96 BITTAR, Carlos Eduardo. Direitos do Consumidor – Código de Defesa do Consumidor.
6ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 74.
97 NERY Júnior, Nelson, et. al. Op. cit., p. 117.
Novais aponta o seguinte:
Reconhecendo o legislador, a debilidade de um dos partícipes na relação de consumo nada mais justo do que, a partir daí, criar para tais relações uma categoria diferenciada, com normas próprias, já que a disciplina prevista para as relações privadas em geral, fundada precipuamente no dogma da autonomia da vontade e no princípio da igualdade formal, em vez de corrigir qualquer desigualdade e equilibrar um contrato, colocava um dos contratantes ainda mais à mercê do poderio econômico do outro.
Para criar esta nova categoria de normas de tutela às relações de consumo, que culminou com a elaboração do Código de Defesa do Consumidor, o Estado, já com postura totalmente nova perante a sociedade e às relações intersubjetivas, iniciou mais um capítulo do dirigismo contratual, intervindo nas relações contratuais para garantir que as mesmas fossem feitas com justiça e equilíbrio.98
No artigo 4° do Código de Defesa do Consumidor tem-se o mesmo teor, cujo princípio vem atender às necessidades dos consumidores:
A Política Nacional de Relações de Consumo o tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria de sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo.
Para Denise Baumann citada em Filomeno, a autora observa que o chamado “direito do consumidor”, na verdade, não é um sistema coerente de normas, concebido com o propósito de regulamentar as relações entre produtores e distribuidores, de um lado, e o consumidor de outro.
99Em outra edição da mesma obra (8ª), Filomeno vai estender seus comentários ao tratar da vulnerabilidade do consumidor, item considerado neste contexto, de extrema importância. Diz o autor:
[2] Vulnerabilidade do consumidor: “O consumidor é o elo mais fraco da economia; e nenhuma corrente pode ser mais forte do que seu elo mais fraco.” O autor dessa frase, ao contrário do que possa parecer, não é qualquer consumerista exacerbado. Ao contrário, é o “pai da produção em série”, ninguém menos que o célebre magnata da indústria automobilística Henry Ford, conforme nos dá conta Paulo Rónai. Como já acentuado noutro passo, socorrendo-nos das
98 NOVAES, Alinne Arquette Leite. A Teoria Contratual e o Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 89.
99 BAUMANN, Denise. Droit de la consommation, Paris, Librairies Techniques, 1975. In:
FILOMENO, José Geraldo Brito. Dos Direitos Básicos do Consumidor. Capítulo III. In: NERY Júnior, Nelson, et. al. Op. cit., p. p. 132.
ponderações do prof. Fábio Konder Comparato (vide p. 29), o consumidor certamente é aquele que não dispõe de controle sobre os bens de produção e, por conseguinte, deve se submeter ao poder dos titulares destes, concluindo que, por conseguinte, consumidor é, de modo geral, aquele que se submete ao poder de controle dos titulares de bens de produção, isto é, os empresários.
(...)
No âmbito da tutela especial do consumidor, efetivamente, é ele sem dúvida a parte mais fraca, vulnerável, se se tiver em conta que os detentores dos meios de produção é quem detém todo o controle do mercado, ou seja, sobre o que produzir, como produzir e para quem produzir, sem falar-se na fixação de suas margens de lucro.
(...)
E exatamente por isso é que, dentre os direitos básicos do consumidor está a facilitação de seu acesso aos instrumentos de defesa, notadamente no âmbito coletivo, com o estabelecimento da responsabilidade objetiva, aliada à inversão do ônus da prova.100
Desse modo, Plínio de Lacerda Martins amplia o dissertamos quando aborda a questão da situação do consumidor na cadeia produtiva. Para o autor, é notório que o contrato na relação de consumo já nasce desequilibrado porque a parte mais forte impõe condições, em alguns casos injustas, à parte mais fraca, o consumidor, sem condições de oposição.
101Neste sentido, Bulgarelli menciona que o Direito do Consumidor se interage com as demais áreas do Direito, por isso, não pode ser pensado isoladamente ao propor que:
De um ponto de vista normativo, a bem dizer, formal, verifica-se que se trata de uma lei completa, quase autônoma, com incursões no Direito Privado, no campo administrativo, no plano processual e na órbita penal, o que se verifica pelos seus 119 artigos, o que enquadra naqueles diplomas legais caracterizados pela doutrina moderna, como um microssistema legal autônomo. 102
Segundo Cláudia Lima Marques no texto de Luís Renato Ferreira da Silva, a autora reafirma a ideia de Bulgarelli e aprofunda o papel do Direito como instrumento de justiça, de equilíbrio contratual entre as partes: fornecedor e consumidor.
O direito pode ser, portanto, um instrumento de Justiça, de equilíbrio contratual e de vinculação na sociedade atual, instrumento de proteção de determinados grupos na sociedade, de combate ao
100 NERY Júnior, Nelson, et. al. Op. cit., p. 54.
101 MARTINS, Plinio de Lacerda. O Abuso nas Relações de Consumo e o Princípio da Boa- fé. 1ª ed. Rio de Janeiro, Forense, 2002.p.8.
102 BULGARELLI, Waldirio. Questões Contratuais no Código de Defesa do Consumidor.
São Paulo: Editora Atlas, 1992, p. 35.
abuso do poder econômico e combate a toda a atuação que seja contrária à boa-fé no tráfico social e no mercado.103
Nesse sentido, o Código de Defesa do Consumidor de alguma forma ampliou o estabelecimento justo entre as partes. Ada Grinover e Antônio Hermann de Vasconcellos e Benjamin ditam que:
A sociedade de consumo, ao contrário do que se imagina, não trouxe apenas benefícios para os seus atores. Muito ao revés, em certos casos, a posição do consumidor, dentro desse modelo, piorou em vez de melhorar. Se antes fornecedor e consumidor encontravam-se em uma situação de relativo equilíbrio de poder de barganha (até porque se conheciam), agora é o fornecedor (fabricante, produtor, construtor, importador ou comerciante) que, inegavelmente, assume a posição de força na relação de consumo e que, por isso mesmo, “dita as regras”. E o direito não poder ficar alheio a tal fenômeno.104
De acordo com a propositura de Grinover e Benjamin é preciso entender que as relações jurídicas estabelecidas são ligadas ao sistema de produção em massa, portanto, devem levar em conta o difuso e o coletivo, ainda como as relações jurídicas fixadas unilateralmente por um dos elementos ou partes – neste caso, o fornecedor, que por sua vez se vincula a milhares ou centenas de consumidores. É aqui a ocorrência em definitivo do rompimento com o direito privado tradicional.
Para Antônio Carlos Efing é importante neste contexto apreender:
A tutela do consumidor, que, anteriormente à promulgação da Constituição Federal de 1988, estava esparsa e apresentava-se ineficaz, já que não instrumentalizada adequadamente, com a tutela constitucional assumiu a formação de princípio da ordem econômica e garantia fundamental do cidadão. Enfim, o direito do consumidor no Brasil teve revelado o seu grau de importância, não só para a sociedade atual, mas também para as gerações futuras.105
Complementa o teórico que este aporte acerca da tutela do consumidor tem a ver com a conceitualização de sustentabilidade, ou seja, dirige-se substancialmente à preocupação com as futuras gerações:
A previsão constitucional da tutela dos interesses do consumidor, igualando-a a direitos fundamentais, atribui grandiosidade ímpar a esta garantia, impossibilitando, inclusive, que qualquer outra norma
103 MARQUES, Cláudia Lima. In: Luís Renato Ferreira da Silva. Revisão dos Contratos: Do Código Civil ao Código do Consumidor. Forense: Rio de Janeiro, 2001, p. XVII.
104 GRINOVER, Ada Pellegrini et al. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor:
comentado pelos autores do anteprojeto. 8. ed., rev., amp. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 25.
105 EFING, Antônio Carlos. Direito do Consumo. 5 ed. Curitiba: Juruá, 2006, p.34.
venha a revogar o Código de Defesa do Consumidor, sob pena de estar afrontando princípio constitucional.106
No entanto, se ao fornecedor compete os meios de produção, ao consumidor, embora com todos os precedentes direcionados a compreender sua situação na cadeia, dada a amplitude do tema direito, consumo e sociedade, a ele compete neste aparato consumir de modo responsável, principalmente, considerando que dentro desta lógica se encontra os resíduos ou o tão “afamado lixo”, que não é a princípio fator produzido somente pelo fornecedor, mas também pelo consumidor.
Em face deste mencionado há o tema correlato, que Filomeno aborda com maestria, isto é, o consumo sustentável.
Para o autor este é um dos temas mais atuais eleitos pela Organização das Nações Unidas – ONU, mediante a Resolução 53/1995, de julho de 1995, como um dos direitos-deveres dos consumidores. Diz Filomeno:
O que consubstanciaria o 6° direito do consumidor, universalmente considerado. Em efeito, a constatação evidente que se faz é que, enquanto as necessidades do homem são, em princípio, ilimitadas, sobretudo se se tiver em conta a ciência de marketing e a publicidade, além do processo tecnológico, são limitados os recursos naturais disponíveis.
Daí a necessidade de incutir no homem, desde a infância, a preocupação em proceder ao consumo responsável e, sobretudo sustentável, de produtos e serviços.107
Por isso, a proteção dada ao consumidor sob esta égide é importante para que se sinta protegido juridicamente e tenha seus direitos respeitados.
Vale mencionar que estamos aqui abordando o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor tendo em vista que para tratar dos resíduos sólidos verifica-se que muitas vezes estes são gerados pela descartalização dos produtos consumidos, logo, para o produto ser descartado, primeiro foi preciso ser confeccionado e depois adquirido; portanto, um elo estreito e contratual de extrema necessidade entre fornecedor e consumidor.
Vale mencionar que de acordo com Filomeno as orientações reveladas no Código de Defesa do Consumidor são limitadas, ou seja, é claro que a
106 EFING, Antônio Carlos. Direito das Relações Contratuais. Curitiba: Juruá, 2002, p. 81.
107 FILOMENO, José Geraldo Brito. Manual de Direitos do Consumidor. 7ª Ed. Atualizada de acordo com o Novo Código Civil Lei n° 10.406, de 1-1-2002. São Paulo: Atlas, 2004, p. 71-72.
promulgação das normas ainda que vigentes no país se correlacionem diretamente com as propostas no plano constitucional. Diz o teórico:
Com toda razão, por isso tudo mesmo, o eminente Othon Sidou (1977:2-3) ao advertir “ser utópico elaborar um estatuto de proteção ao consumidor em sentido locupletíssimo, porque o cotidiano struggle for life se encarregaria de revelar sempre algo a prevenir, mesmo que nos subsidiassem, beneditinamente coligidos e sem a ausência de um só, todos os códigos, todas as leis, todos os ordenamentos, desde os senectos monumentos legislativos de ontem aos modestos e não raro canhestros provimentos burocráticos de hoje, posto como todos são tomados no são intuito de resguardar as relações do homem coletivizado, do consumidor portanto”. E conclui com absoluta propriedade e precisão incisiva que, “quem se aventurasse, nesta lógica de raciocínio, a fazer uma lei completa na espécie, correria parelha com os alquimistas do passado na busca da pedra filosofal ou com os físicos ainda hóspedes dos manicômios na cata do ‘moto- contínio’”. Arremata dizendo ser este o sentido da matéria, objetivamente encarada.108
Assim, consoante à defesa de Filomeno cremos que embora o Código de Defesa do Consumidor seja um instrumento jurídico favorável ao consumidor, cabe a este ente compreender que assim como a legislação é limitada, o consumo deve ser responsável.
Vale ainda ressaltar de acordo com Filomeno o tratamento constitucional dentro desta ordem de relação entre fornecedor e consumidor. Na sua obra Manual de Direitos do Consumidor o teórico menciona:
O inciso XXXII do art. 5° da Constituição da República, no capítulo relativo aos “direitos e deveres individuais e coletivos”, diz textualmente que dentre os deveres impostos ao Estado brasileiro, está o de promover, na forma da lei, a defesa do consumidor.
Já o art. 170, diz que a “ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”, observados certos princípios basilares, dentre eles destaca precisamente a defesa do consumidor (inc. V).
Também o art. 150, ao tratar das limitações do poder de tributar do Poder Público, nos níveis da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, em seu § 5° estabelece taxativamente que a “lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços”.109
Desse modo, o Direito é considerado organismo dinâmico e a fim de acompanhar as necessidades inerentes ao ser humano é propenso a se
108 Idem. p. 69-70.
109 Ibidem. p. 28.