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2. DIREITO, CONSUMO E SOCIEDADE

3.4 Funções da responsabilidade civil pós-consumo

aspecto geral; considerando que tudo isso sob o manto dos direitos fundamentais.

A proteção ao meio ambiente artificial é erigido agora à categoria de direito fundamental e o meio ambiente de forma geral segue a mesma sorte. O que por si só faz com que as normas jurídicas ambientais devam ser aplicadas e interpretadas a luz do texto constitucional.

Paulo José Leite Farias Afirma:

passa a ser base em que se assenta a política econômica e social, pois, uma vez inseridas em um sistema constitucional, as normas relativas a outros ramos jurídicos, que se relacionam com o amplo conceito de meio ambiente, não podem ser aplicadas sem levar me conta as normas ambientais que impregnam a ideologia constitucional.374

A responsabilidade civil socioambiental pós-consumo é uma das grandes conquistas da sociedade. Lastreada na nova ideologia constitucional ela apresenta várias funções que tem como escopo proteger e materializar o princípio constitucional da função social das cidades e a tutela ambiental inserta nos artigos 182, 183 e 225 da Constituição Federal.

Entendemos que na realidade estamos diante de um fenômeno poliédrico onde a responsabilidade civil socioambiental pós consumo apresenta quatro perfis ou funções 1. Função reparadora; 2. Função preventiva; 3.

Função de economicidade para a Administração. 4. Função instrumental.

Desse modo, todas atuam de forma concomitante e de maneira difusa e não de maneira estanque, ou seja, a responsabilização pós-consumo nestes termos tem o condão de fazer com que haja reparação pelo dano causado; e efetivada a prevenção-precaução faz com que haja comprometimento menor do orçamento do poder público e passe a funcionar como instrumento de efetivação da função social da cidade.

A bem da verdade estamos diante de uma forma de responsabilidade civil que auto-reproduz as várias funções. Antonio Hermam V. Benjamim comentado as funções da responsabilidade civil ambiental afirma:

a responsabilidade civil ambiental possui suas funções próprias, de modo que, em linhas gerais, deverá a) compensar as vítimas; b)

374 FARIAS, Paulo José Leite. Competência federativa e proteção ambiental, Porto Alegre:

Sergio Antônio Fabris, 1999, p.226.

prevenir acidentes; c) minimizar custos administrativos do sistema; d) retribuir.375

Dentre as multiplicas funções da responsabilidade civil socioambiental pós consumo, duas merecem destaque: a função reparadora e a função preventiva, sendo esta a que assume relevo nos tempos de hoje - a ideia de prevenção.

A ideia de prevenção leva-se em conta na quase totalidade das vezes o dano ambiental, haja vista que o dano ambiental possa vir a ser irreversível e de difícil recomposição. Neste contexto prepondera o dano-evento mais que o dano-consequência. Esta concepção não converge com a formulação teórica clássica da responsabilidade civil. Mas, vale mencionar que é decorrente muitas vezes da prática de riscos inerentes ao processo de consumo pós- moderno, isto é, da sociedade de risco que consome demasiadamente, e nos processos produtivos que venham ocasionar danos irreversíveis.

Surge então uma questão: os processos decisórios não são capazes de lidar com os problemas que criam. Surge uma nova modalidade de risco, cujas amplas dimensões não permitem sua redistribuição e cujos cálculos associados são, no mínimo, frágeis. Esses riscos podem se converter, inclusive, em vetores de mudanças sociais, desde que assimilados e vistos como resultados de certo projeto de mundo. E nesse contexto que Ulrich Beck cunha a expressão sociedade de risco. Para ele “sociedade de risco significa que o lado negro do progresso passa, de maneira crescente, a dominar o debate social. O que ninguém via ou não queria ver – a auto-ameaça e a devastação da natureza – está se tornando a força motriz da história.

A sociedade de risco se caracteriza pela geração inevitável de riscos que não podem ser controlados e/ou conhecidos de maneira satisfatória a partir de processos decisórios. Os modelos de seguro e previdência, tradicionalmente usados no cálculo e gerenciamento dos riscos, mostram-se insuficientes perante esta nova realidade - a ocorrência de catástrofes que escapam ao conceito de acidente, ultrapassando barreiras especiais, temporais e sociais. Porém, a sociedade de risco não compreende apenas riscos isoladamente, mas como ponto central do debate social e força motora de mudanças sociais376. A sociedade de risco somente começa quando

375 BENJAMIN, Antonio Herman V. Responsabilidade civil pelo dano ambiental. Revista de

Direito Ambiental, n. 9, São Paulo, RT, p. 14.

376 Nesse sentido, ao comentar a obra de Beck, Sergio Costa faz a seguinte observação: “As

sociedades modernas tornam-se efetivamente sociedades de risco na medida em que constituem mecanismos de percepção e decodificação discursiva das ameaças existentes.

Nesse momento, a presença dos riscos adquire força de mecanismo catalisador e liberador da (auto) crítica social, tornando uma auto-evidencia os limites das instituições que nascem com a modernidade (a família nuclear, o Estado moderno, a técnica da ciência em sua forma

contemporânea) e a vulnerabilidade dos projetos sociais e pessoais nela enraizados. A sociedade de risco constitui, assim, o contexto no qual o fim das certezas (modernas) vê emergir – como possibilidade – a era da crítica e da reinvenção” (Quase Crítica: insuficiências

a barreira da seguridade é quebrada e quando esse fato é compreendido, percebido e transformado em objeto de conflitos.377

No âmbito da responsabilidade socioambiental pós consumo a reparação do dano deve ocorrer de forma preventiva prioritariamente, isto é, antes do evento danoso, dado sua potencialidade de irreversibilidade.

Pontua Mota acerca do dano ambiental e da ideia de prevenção ao invés da reparação:

O dano ambiental na sua acepção de dano ecológico puro afeta os recursos naturais e o equilíbrio do ecossistema, ou seja, atinge o valor intrínseco do meio ambiente. Aí reside o primeiro problema para a teoria do direito. Esta tem por parâmetro a noção de que a reparação deve ser satisfeita na presença de um dano certo, de um nexo de causalidade definido entre a ação do agente e o dano, devendo haver, ainda, um beneficiário preciso para o ressarcimento.

Mais do que isso, a reparação visa a tutelar um direito subjetivo, isto é, o liame jurídico, a relação objetiva, que liga um sujeito a um bem da vida.

Nada disso se encontra presente no dano ambiental nessa perspectiva. Em primeiro lugar, segundo esta visão, assume relevo a ideia de prevenção ao invés da de reparação, importando mais o dano-evento do que o dano-consequência. O dano ambiental é irreversível, na maioria dos casos, devendo, assim, ser muito mais prevenido do que reparado. Isto não se coaduna com a ideia básica da responsabilidade civil de que não há responsabilidade sem efetivo prejuízo.378

Ainda são tímidas as ações dos exploradores de atividade econômica no sentido de um desenvolvimento sustentável; isso leva a responsabilidade civil socioambiental pós-consumo a ser uma ferramenta importante para a efetivação do princípio da função social das cidade, uma vez que, o aspecto econômico está conectado ao viés da contabilidade, cujo poluidor deve arcar com suas consequências danosas ao meio ambiente, com isso, internaliza-se as externalidades negativas do empreendimento.

Maurício Mota estabelecendo a distinção entre responsabilidade civil e compensação ambiental assevera:

Na compensação ambiental, ao contrário da simples responsabilidade civil, há uma preponderância do aspecto econômico, uma vez que a

da sociologia da modernização reflexiva. In: Tempo Social, volume 16, número 2, novembro de 2004, p. 76).

377 AVZARADEL. Pedro Curvello Saavedra. Riscos ambientais e o paradigma jurídico. In:

MOTA, Mauricio. Função social do Direito Ambiental. s/d. p.221-222.

378 MOTA, Mauricio. op. cit., p. 36.

atuação principal está ligada ao princípio da contabilização dos custos, através do qual deve arcar com os custos aquele que, pelo uso, provoca a deterioração dos recursos naturais. Deve-se proceder, portanto, a uma internalização dos custos sociais externos.379

3.5 Responsabilidade civil pós-consumo como instrumento de