tem índices semelhantes de distúrbios de humor. Entretanto, já no começo da puberdade estes índices aumentam para o sexo feminino, isso é um dado que é semelhante em todo o mundo, e esta diferença entre os sexos pode ser atribuída às diferenças biológicas, principalmente as alterações hormonais antes da puberdade, antes da menstruação, após a gravidez e durante a perimenopausa, e depende menos de fatores como raça, dieta, educação e fator econômico (42).
Corroborando esses achados, quando comparamos os escores do CDI e MASC entre os sexos, as adolescentes do sexo feminino apresentaram maiores escores.
Hoge et al.(5) relatam que há um aumento dos transtornos de humor, principalmente a depressão e a ansiedade, na população adolescentes. Com o aumento da tecnologia, a interação através das mídias sociais está mais fácil, assim, os adolescentes estão mais expostos a sofrer cyberbulling, aumentando seu nível de ansiedade e estresse, como consequência, este público tende a se isolar por medo de passar vergonha ou de ser constrangido em público. O mesmo estudo observou que este comportamento está associado a pensamentos suicidas e a condutas de autoagressão. No entanto, há uma precariedade de estudos que relata o efeito das mídias sociais sobre a depressão, visto que este recurso social pode ser usado de forma benéfica, com conteúdo de humor e aproximação da família, mas também pode contribuir para a depressão quando o indivíduo não se encontra em algum grupo e através da comparação entres eles (5).
Outra possível explicação dos resultados obtidos com relação à prevalência de depressão e ansiedade encontrado é que o final da adolescência e o início da vida adulta é um marco de grandes mudanças biológicas, sociais e psicológicas, dentre a última, está à transição de aluno do ensino médio para aluno universitário (44).
Um segundo resultado alarmante encontrado foi a importante quantidade de adolescentes classificados como “sedentários” e “muito sedentários” (94% da amostra avaliada) de acordo com o PAQ-A. Estes resultados são muito acima dos presentes na literatura para a população acima de 14 anos. Especificamente no Brasil, aproximadamente 50% da população
acima de 14 anos não atinge os níveis mínimos de exercício recomendados por organizações científicas, tais como a OMS e o Colégio Americano de Medicina do Esporte (26,45,46).
O elevado nível de inatividade física relatado anteriormente pode ser uma possível explicação para o baixo desempenho motor dos estudantes. Dos estudantes avaliados, 68%, 50,7%, 37,5%, 68,7% e 85,4% foram classificados como desempenho motor “fraco” para o teste de força explosiva para membros inferiores, teste de corrida/caminhada de 6 minutos, teste de força explosiva para membros superiores, teste de agilidade, teste de velocidade (20 metros), respectivamente. Como consequência, 57,8%, 61,8%, 88,2% foram classificados como pertencentes à zona de risco, de acordo com os critérios do PROESP-BR, para os testes de corrida/caminhada de 6 minutos, teste de flexibilidade, teste de resistência abdominal, respectivamente.
Guthold et al. (3) avaliaram o nível de atividade física de uma população de aproximadamente 2 milhões de pessoas e apontaram que até 2016 um quarto da população adulta não praticava atividade física, este resultado coloca estas pessoas com risco de desenvolver ou agravar as doenças relacionadas à inatividade física. Vargas et al. (47) avaliaram adolescentes brasileiros em um período de 7 anos, primeira avaliação em 2005 e a segunda em 2012, com o objetivo de verificar se houve um aumento da inatividade física neste período. Foi constatado que não houve alteração da inatividade física, permanecendo em 69,9%, no entanto a pesquisa apontou que a quantidade de adolescentes que não se exercitam (zero minutos semanais) aumentou de 24,6% para 31,5% em 2012.
As pesquisas epidemiológicas também sugerem que as mulheres são mais inativas que os homens. As mulheres tendem a fazer atividade de menor intensidade e ainda não realizam a quantidade adequada, isto pode ser explicado por algumas normas culturais, papéis tradicionais e falta de apoio social e comunitário (3,47). No presente trabalho, também encontramos uma
diferença do nível de atividade física entre adolescentes dos sexos feminino e masculino avaliado pelo PAQ-A (as adolescentes do sexo feminino apresentaram menores escores no PAQ-A que os adolescentes do sexo masculino). Adicionalmente, encontramos uma associação significante entre o sexo e o nível de atividade física. Portanto, os nossos resultados estão de acordo com a literatura.
Como esperado, encontramos diferença no desempenho dos testes motores entre os sexos. De fato, com exceção para a flexibilidade, o desempenho motor foi maior para os adolescentes do sexo masculino em comparação com as do sexo feminino. O sexo masculino apresenta vantagens em relação ao sexo feminino que estão relacionadas com diferenças fisiológicas entre os sexos, tais como maior quantidade de massa muscular, volume maior das câmaras cardíacas, velocidade de condução do sistema nervoso central 4% mais rápida do que na população do sexo feminino e alterações nas dimensões corporais. Outra diferença está nos níveis de testosterona, onde os indivíduos de sexo masculino apresentam maiores níveis de testosterona, e este hormônio está relacionado com melhor performance motora(1,48).
A literatura reporta que o sexo pode influenciar no desempenho motor e principalmente na aprendizagem motora, e o sexo masculino se destaca por ter melhores resultados em testes que avaliam estas variáveis (48,49), o que mais uma vez está de acordo com os resultados do presente estudo. Especificamente com relação ao desempenho no teste de corrida/caminha de 6 minutos, Hartz et al. (50) avaliaram 1.233 adolescentes e perceberam que 44,7% dos voluntários de sexo feminino não apresentavam comportamentos saudáveis, apresentando maior risco à saúde, pois sabe-se que a aptidão cardiorrespiratória está associada com aumento do risco de síndrome metabólica, perfil lipídico anormal e rigidez das paredes arteriais(50).
Com relação ao efeito dos sintomas da depressão e da ansiedade sobre o desempenho dos testes motores, foco principal do presente estudo, não encontramos diferenças entre os
grupos com maiores sintomas depressão e ansiedade em comparação com os grupos com menores sintomas de depressão e ansiedade. O que difere de estudos que apontam que indivíduos com transtornos de humor apresentam diminuição da sua produtividade, aumento do risco de abandono escolar, embotamento social, redução do nível socioeconômico, status e redução da qualidade de vida (51). Neste contexto, se fizemos um paralelo dos nossos achados com aqueles estudos que investigaram atletas com a síndrome do overtraining, os nossos resultados são diferentes. O atleta com a síndrome do overtraining apresenta uma queda do rendimento esportivo que é acompanhado por presença de transtornos de humor e diminuição da qualidade de vida (52). Portanto, seria lícito supor que aqueles adolescentes com maiores sintomas de depressão e ansiedade tivessem menor desempenho motor.
Uma das possíveis explicação para isto é que não encontramos diferenças entre os grupos com maiores e menores sintomas de depressão e ansiedade em relação ao nível de atividade física avaliada pelo PAQ-A. Adicionalmente, 94,4% dos participantes avaliados foram classificados como “muito sedentário” ou “sedentário”. Portanto, parece lógico que a aptidão física entre os grupos não seja diferente.
Os dados também foram apresentados conforme os critérios do PROESP-BR, Os responsáveis pelo PROESP-BR perceberam, em adolescentes brasileiros, a associação de determinados valores dos resultados do teste de aptidão cardiorrespiratória (caminhada/corrida de 6 minutos) com a presença de elevados níveis de colesterol e hipertensão arterial (8). No presente estudo, quando os voluntários foram avaliados em relação à saúde cardiorrespiratória (avaliada por meio do teste de aptidão cardiorrespiratória, corrida/caminhada de 6 minutos), 57,8% dos voluntários foram classificados na zona de risco. Este dado é alarmante, pois a aptidão cardiorrespiratória é um componente da aptidão física que envolve a capacidade do sistema respiratório e sistema cardiovascular de suprir oxigênio durante a atividade física de
longa duração, consequentemente envolve a capacidade do sistema muscular de consumir oxigênio fornecido por estes sistemas e resistir à fadiga (1).
A aptidão cardiorrespiratória também está relacionada com algumas estruturas cerebrais, como os gânglios da base e hipocampo. Crianças e adolescentes com valores mais altos de aptidão cardiorrespiratória apresentam uma melhor função cognitiva e, consequentemente, um melhor desempenho escolar, pois estas áreas cerebrais estão correlacionadas com a memória e aprendizagem (53,54). Assim destaca-se a importância da prática de atividade física neste público. Apesar de especulativo, podemos hipotetizar que a cognição e rendimento acadêmico dos adolescentes avaliados esteja prejudicado, se levarmos em consideração que a aptidão cardiorrespiratória é baixa. Este tópico não foi avaliado e carece que esclarecimento por estudos futuros.
O teste de flexibilidade e teste de resistência abdominal é utilizado para avaliação do indivíduo quanto à saúde osteomuscular. Dos voluntários avaliados, 61,8% estão classificados na zona de risco à saúde osteomuscular quando avaliados pelo teste de flexibilidade e 88,2% se apresentam na zona de risco à saúde quando avaliados pelo teste de resistência abdominal.
Com relação ao IMC, 69,4% dos avaliados foram classificados como eutróficos, 19,4%
como sobrepeso e 11,2% como obesos. Os nossos dados estão em consonância com a literatura (55). Este dado é preocupante pois este público sobrepeso e obeso apresentam maiores chances de desenvolver, quando adultos, problemas de saúde como o diabetes mellitus e doenças cardiovasculares (56). Destaca-se que o tratamento para estas condições inclui alimentação saudável com a diminuição da ingesta de carboidratos e gorduras, aumento da ingesta de frutas e legumes e a prática correta de atividade física (55).
LIMITAÇÕES DO ESTUDO
O presente estudo não está livre de limitações, das quais destacamos:
1) Falta de controle do status de puberdade. Entretanto, a puberdade da mulher, em média, começa aos 11 anos e dos homens entre 12 e 13 anos (1). No presente estudo investigamos participantes entre 14 e 17 anos. Portanto, é razoável hipotetizar que todos os voluntários já estavam na puberdade.
2) Falta de testes objetivos para a mensuração da aptidão física, tais como teste de exercício cardiorrespiratório e dinamometria isocinética. Entretanto, no presente estudo utilizamos testes de baixo custo e que não necessitam de pessoal qualificado para a aplicação, diferente do que acontece nos testes anteriormente mencionados.
3) Falta de diagnóstico clínico de depressão e ansiedade. Os questionários utilizados permitem o rastreamento de sintomas relacionados à depressão e ansiedade, mas não permitem o diagnóstico definitivo. Portanto, estudos futuros podem investigar essa questão.
Entretanto, acreditamos que essas limitações não impedem as conclusões do estudo.