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52 organismos bentônicos e demersais da plataforma continental e talude superior do Sudeste do Brasil estão distribuídos em determinadas faixas batimétricas e latitudinais, destacando que estes padrões estão normalmente relacionados, entre outros, a temperatura, salinidade e tipo de sedimento.

Especificamente no domínio de plataforma continental foi possível identificar a presença de três grandes grupos com um elevado nível de similaridade entre si (aproximadamente 70%): plataforma continental interna norte, plataforma continental interna sul e quebra de plataforma. Essa elevada similaridade se traduz em uma grande quantidade de recursos compartilhados. Entretanto, deve-se ressaltar que alguns constituem estoques diferentes (p.ex. corvina, com dois estoques, um no Sul e outro no Sudeste - VAZZOLER, 1991; VAZZOLER et al., 1999), e outros apresentam ocorrência exclusiva num único grupo (p.ex. camarão-rosa, apenas na plataforma continental interna norte) o que, associado a características ambientais específicas, poderia justificar sua consideração futura como unidades espaciais distintas na gestão pesqueira.

Assim, observa-se que a distribuição dos recursos não ocorre de forma homogênea, mas tem relação direta com as variáveis ambientais, como a profundidade, o gradiente latitudinal e o tipo de fundo. Segundo Graça-Lopes et al. (2002), a espécie-alvo torna-se a condicionante para a arte de pesca a ser empregada, as profundidades e as áreas a serem trabalhadas pelas frotas pesqueiras. Assim, as frotas irão atuar apenas onde as espécies existirem e as condições ambientais permitirem.

Portanto, com base na integração de todos os resultados, e também em informações disponíveis na literatura, foi possível identificar a existência de seis áreas principais de pesca, como pode ser visto na Tabela 8, as quais apresentam características suficientemente coerentes para serem adotados como uma proposta inicial de gestão espacial pesqueira. Cabe destacar, entretanto, que estas informações são baseadas apenas na pesca demersal industrial desembarcada em Santa Catarina, devendo também ser incorporados dados de outros Estados do Sudeste-Sul do Brasil.

Tabela 10: Unidades de pesca demersal propostas para o Sudeste-Sul do Brasil, com suas respectivas características, baseadas nos resultados do presente trabalho e informações da literatura.

Grupo de Pesca Profundidade Limites Latitudinais Associação de Recursos Tipo de Fundo * Tipo de Frota

Costeiro Até 30m

25°30’S (Centro-Norte do PR) a 23°25’S (Norte de SP)

Camarão sete-barbas

Areno-lamoso (38,8%) Lamoso (35,6%) Arenoso (21,0%)

Arrasto Duplo

Plataforma Continental Interna Sul

Até 100m 28°S (Sul de SC) a 34°S (Sul do RS)

Camarão barba-ruça; camarão santana; abrótea;

bagre; betara; castanha; cabra; corcoroca; corvina (estoque Sul); emplastro; espada; garoupa; goete;

gordinho; linguado; linguado-areia; maria-mole;

papa-mosca; pargo-rosa; peixe-porco; pescada;

pescada-amarela; pescadinha-real; tira-vira

Lamoso (47,9%) Areno-lamoso (23,6%)

Arenoso (21,5%)

Emalhe Fundo;

Arrasto Parelha;

Arrasto Duplo;

Arrasto Simples

Plataforma Continental Interna Norte

30 a 100m 28°S (Sul de SC) a 23°S (Sul do RJ)

Camarão-rosa; lula; polvo; abrótea; bagre; cabra;

corvina (estoque Sudeste); emplastro; gordinho;

goete; linguado-areia

Arenoso (38,2%) Lamoso (27,2%) Areno-lamoso (23,9%)

Pote Polvo;

Arrasto Duplo;

Emalhe Fundo;

Arrasto Parelha Quebra de

Plataforma 100 a 250m 23°25’S (Norte de SP) a 34° (Sul do RS)

Namorado; camarão-cristalino; congro-rosa; cabra;

emplastro; linguado-areia; abrótea

Lamoso (67,2%) Areno-lamoso (14,4%)

Espinhel Fundo;

Arrasto Simples;

Arrasto Duplo

Talude >250m 23°35’S (Norte de SP) a 34°S (Sul do RS)

Abrótea-de-fundo; batata; congro-rosa;

galo-de-profundidade**; merluza**; caranguejos- de-profundidade**; camarões-de-profundidade**;

peixe-sapo**; calamar-argentino**.

Lamoso (37,7%) Areno-lamoso (20,1%)

Arenoso (15,9%) Areia e cascalho biodetrítico (15,6%)

Espinhel Fundo;

Arrasto Duplo;

Arrasto Simples;

Armadilha (caranguejos);

Emalhe Fundo (peixe- sapo) Norte Todos os estratos

de profundidade

23°35’S (Norte de SP) ao 22°30’S (Centro do RJ)

Camarão-rosa; namorado; polvo; camarão-cristalino;

abrótea-de-fundo

Arenoso (40,4%);

Areno-lamoso (24,9%) Lamoso (15,8%)

Arrasto Duplo;

Emalhe Fundo

** Recursos que já apresentam normativas espaciais estabelecidas para sua captura na região.

* Os valores que acompanham cada tipo de fundo, referem-se aos percentuais médios de ocorrência amostral dos tipos de fundo predominantes em cada grande unidade de pesca.

54 A unidade de pesca costeira compreende a área entre o centro-norte do Paraná (25°30’S) e o norte de São Paulo (23°25’S), até 30m de profundidade e composto predominantemente por fundo areno-lamoso, lamoso e arenoso. A análise do SIMPER demonstrou que somente o camarão sete-barbas foi responsável pela formação deste grupo, comprovado pelos mapas de distribuição espacial dos recursos demersais.

De fato, o camarão sete-barbas é uma espécie costeira, que ocorre desde a Virgínia (EUA) até o Rio Grande do Sul (Brasil) com maior frequência em profundidades inferiores a 30m, porém, pode ser encontrada até 70m, em fundos de lama ou areia (D’INCAO, 1995).

Sua pescaria envolve uma grande frota, bastante diversificada, com forte segmento artesanal (SEVERINO-RODRIGUES et al., 1992; D’INCAO et al., 2002). A pesca industrial direcionada para o camarão sete-barbas mantinha-se monoespecífica e é característica do Estado de São Paulo (VALENTINI e PEZZUTO, 2006), sendo que sua captura ocorre ao longo de todo o ano, sendo interrompida somente no período de defeso, que ocorre entre março e maio de cada ano (BRASIL, 2008). Entretanto, cabe dizer que uma frota industrial baseada em Santa Catarina também tem tido a espécie como alvo, porém, incorporando sazonalmente também os camarões barba-ruça e santana como alvos, sobretudo na zona costeira do Rio Grande do Sul (BENINCÁ, 2013).

Entretanto, segundo os percentuais de ocorrência e captura desembarcada para cada grupo de associação de recursos, o camarão sete-barbas apresentou maiores valores no grupo classificado como plataforma continental interna norte, que compreende profundidades entre 30 e 100m. Isso ocorre, pois alguns quadrantes altamente produtivos da espécie, encontrando-se no limite do grupo costeiro e de plataforma continental norte, foram classificados pela análise de agrupamento como pertencentes ao segundo grupo, provocando essa diferença. Assim, embora quase 80% de ocorrência e desembarque do sete-barbas estejam classificados como plataforma continental interna norte, a análise dos mapas de distribuição espacial dos recursos demersais demonstra que grande parte de sua frequência de ocorrência encontra-se nos quadrantes costeiros, em profundidades inferiores a 30m, que corresponde a sua faixa principal de distribuição.

Essa diferença também pode estar relacionada com a mobilidade das frotas pesqueiras, fazendo com que muitos quadrantes localizados nesta faixa de profundidade sejam visitados. Os mapas de distribuição de esforço de pesca demonstraram que a frota de arrasto-duplo apresentou maior correlação com a área de ocorrência do camarão sete-barbas, sendo que a captura dos camarões é feita tradicionalmente por esta frota (PEREZ et al., 2001;

VALENTINI e PEZZUTO, 2006).

55 Segundo a matriz de permissionamento de pesca no Brasil, a frota de arrasto-duplo conta com três tipos de autorização que permitem a sua atuação nas regiões Sudeste-Sul (BRASIL, 2011): (a) camarão-rosa (Farfantepenaeus brasiliensis e F. paulensis) e captura incidental; (b) camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri) e captura incidental e; (c) peixes demersais. Assim, existe uma frota industrial, neste caso o arrasto-duplo, específica para a atuação sobre o camarão sete-barbas ao longo da região costeira.

Os camarões santana e barba-ruça, apesar de não terem sido identificados pelo SIMPER como pertencentes ao grupo costeiro, apresentaram também elevada frequência de ocorrência, segundo os mapas de distribuição espacial, até a isóbata de 25m, ao longo do Estado do Rio Grande do Sul e sul de Santa Catarina. O santana distribui-se desde a Praia do Santana (Espírito Santo) até Santa Cruz (Argentina), com registros de capturas até 100m de profundidade, em fundos de lama e de areia (D’INCAO, 1995; BERTUCHE et al., 2000), mas com maiores abundâncias até os 30m de profundidade (PRATA, 2010). O barba-ruça distribui-se entre a foz do Rio Paraíba do Sul (Rio de Janeiro) e a Província de Chubut (Argentina), até 125m de profundidade, sendo a faixa preferencial de ocorrência entre 10 e 30m, também em fundos de lama e de areia (D’INCAO, 1995). Apesar de ser um recurso preferencialmente de região costeira, através dos percentuais de sua ocorrência e captura desembarcada nos grupos de pesca, observa-se que essas variáveis foram sempre elevadas (acima de 90%) no domínio de plataforma continental interna sul. Essas duas espécies, ao contrário do observado para o camarão sete-barbas, apresentam dinâmica sazonal de captura, o que pode explicar sua fusão com o grupo de pesca de plataforma continental interna sul e, não, com o grupo costeiro. Tanto o camarão santana como o camarão barba-ruça representam recursos alternativos para os segmentos produtivos artesanal e industrial do camarão-rosa (D’INCAO et al., 2002; BENINCÁ, 2013) e do camarão sete-barbas (BENINCÁ, 2013). Em 2001 já houve o reconhecimento da inexistência de frota arrasteira específica atuante sobre os recursos camarões e outra sobre os peixes demersais, com ambas as frotas atuando sobre os estoques que estivessem mais disponíveis em determinado momento (PEREZ et al., 2001). Assim, apesar de serem recursos caracteristicamente costeiros (D’INCAO, 1995), não possuem frotas com direcionamento contínuo devido à sazonalidade atribuída a sua captura, sendo recursos alternativos do arrasto duplo permissionado para o camarão-rosa, principalmente o de conservação a gelo (BENINCÁ, 2013), camarão sete-barbas e para os peixes demersais.

Além dos camarões santana e barba-ruça, a unidade de plataforma continental interna sul foi composta por outros 22 recursos, identificados através da integração dos resultados

56 da análise do SIMPER, dos mapas de distribuição espacial dos recursos e dos percentuais de ocorrência e captura desembarcada para cada grupo identificado na análise de agrupamento, sendo que esses recursos fizeram com que a unidade de pesca de plataforma continental interna sul apresentasse o maior grupo faunístico entre todos analisados.

Esta unidade compreende a área que se estende desde a porção Sul de Santa Catarina (28°S) até o Sul do Rio Grande do Sul (34°S), até 100m de profundidade e formado predominantemente por fundo lamoso, areno-lamoso e arenoso, permitindo que as frotas de arrasto duplo, arrasto de parelha, arrasto simples e emalhe de fundo atuem com maior ocorrência na área. Embora a análise de agrupamento tenha fornecido limite geográfico norte dessa unidade na latitude 27°S, aproximadamente, parece ser mais coerente estender este limite para o paralelo 28°S, devido a características oceanográficas e presença de estoques de espécies reconhecidamente distintos ao norte e ao sul desta latitude. Esse padrão de diferenciação em dois estoques no Sul e Sudeste do Brasil, com a região próxima ao paralelo 29ºS como sendo uma região limítrofe é comum a espécies como a merluza (VAZ-DOS- SANTOS et al., 2009), a pescadinha-real (YAMAGUTI, 1979), a castanha (GONZALEZ e NANI, 1967; YESAKI e BAGER, 1975; HAIMOVICI e COUSIN, 1989; ZANETI PRADO e VAZZOLER, 1976 apud HAIMOVICI et al., 2006) e a corvina (VAZZOLER, 1991;

VAZZOLER, et al., 1999; VASCONCELLOS, 2012), como serão vistos posteriormente.

A unidade de plataforma continental interna sul está totalmente inserida na plataforma continental sul brasileira, que compreende a área entre o Cabo de Santa Marta Grande (28ºS), em Santa Catarina, e o Chuí (34°S), no Rio Grande do Sul. Além disso, sobrepõe-se exatamente aos limites de um dos Grandes Ecossistemas Marinhos (Large Marine Ecosystem – LME) definidos para a costa brasileira (HEILEMAN e GASALLA, 2009). Os Grandes Ecossistemas Marinhos (Large Marine Ecosystems – LME) são áreas relativamente grandes do espaço marinho, de aproximadamente 200.000 km² ou superior, adjacentes aos continentes em águas costeiras onde a produtividade primária é geralmente maior do que nas áreas de oceano aberto. Os LMEs produzem anualmente cerca de 80% das capturas mundiais de peixes marinhos. Sua extensão física e seus limites são baseados em quatro critérios ecológicos: batimetria, hidrografia, produtividade e relações tróficas. Com base nisso, 64 LMEs distintos foram delineados em torno das margens costeiras dos Oceanos Atlântico, Pacífico e Índico (SHERMAN e HEMPEL, 2009), sendo que ao longo da costa brasileira, são identificados 3 LMEs: a) Plataforma Sul do Brasil; b) Plataforma Leste do Brasil e c) Plataforma Norte do Brasil (SHERMAN e HEMPEL, 2009) (Figura 11). O LME denominado Plataforma Sul do Brasil, por sua vez, está subdividido em 3 áreas, sendo: a)

57 plataforma sul (28°-34°S), influenciada por fluxos estuarinos; b) embaiamento sudeste (23°- 28°S), caracterizado por ressurgências sazonais e intrusões frias; e c) talude e sistema oceânico e sua margem oriental, com a ocorrência de vórtices de meso-escala. Desta forma, observa-se que a unidade de pesca de plataforma continental interna sul proposta neste trabalho coincide com as latitudes da porção sul (plataforma sul) do Grande Ecossistema Marinho de Plataforma Sul do Brasil (GASALLA, 2007 apud HEILEMAN e GASALLA, 2009).

A morfologia da plataforma continental sul é, em geral, bastante homogênea e a linha de costa pouco recortada (CORRÊA e VILLWOCK, 1996), com os fundos mostrando baixo gradiente (FIGUEIREDO JR. e TESSLER, 2004) e mudando de arenoso para lamoso (ROCHA et al., 1975) em aumento da profundidade (HAIMOVICI, 1998), demonstrando serem áreas bastante favoráveis para a frota de arrasto de fundo (FIGUEIREDO JR. e TESSLER, 2004). A plataforma continental sul brasileira possui a influência alternada, ao longo do ano, de massas de águas tropicais (Corrente do Brasil) e subantárticas (Corrente das Malvinas), que fluem em sentidos opostos. Sua confluência constitui o limite oeste da Convergência Subtropical do Atlântico Sul e desloca-se sazonalmente entre as latitudes de 30°S (inverno) e 46°S (verão). As águas formadas na Convergência (Águas Centrais do Atlântico Sul; ACAS) são ricas em nutrientes e, durante o inverno, são encontradas na margem externa da plataforma sul. Ainda no inverno, as Águas Subantárticas (também ricas em nutrientes) predominam sobre a plataforma sul, sendo que na porção mais interna se misturam com águas do estuário do Rio da Plata (Uruguai) e da Lagoa dos Patos (Rio Grande do Sul) para formar as Águas Costeiras, que também são ricas em nutrientes (ROSSI- WONGTSCHOWSK e MADUREIRA, 2006).

Desta forma, os processos sazonais de transporte de águas ricas em nutrientes fazem com que a produtividade primária nessa região seja elevada, permitindo um aumento significativo na biomassa de peixes demersais e fazendo com que a região apresente as maiores estimativas brasileiras de potencial pesqueiro (DIAS NETO e MESQUITA, 1988).

Assim, a plataforma continental sul tem características oceanográficas únicas que, associado a existência de recursos pesqueiros exclusivos, justifica-se por defini-la como uma única unidade de gestão pesqueira.

Além do camarão santana e camarão barba-ruça que já foram abordados, outras 15 categorias de pescado das 24 identificadas neste grupo, foram classificadas como predominantes da unidade de plataforma continental interna sul, sendo: betara, castanha,

58 corcoroca, corvina (estoque sul), espada, garoupa, linguado, maria-mole, papa-mosca, pargo-rosa, peixe-porco, pescada, pescada-amarela, pescadinha-real e tira-vira.

Esses recursos apresentam amplas áreas geográficas de distribuição, entretanto, demonstram que suas capturas são mais abundantes neste domínio de plataforma continental.

A castanha, por exemplo, ocorre desde o Rio de Janeiro (22°S) até a Argentina (41°S) (MENEZES e FIGUEIREDO, 1985), da costa até 200m de profundidade. Embora apresente distribuição contínua, há evidências da existência de dois estoques com pouco intercâmbio entre si, estando o primeiro, mais abundante e migratório entre a Argentina e o sul do Brasil, e o segundo, no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro (GONZALEZ e NANI, 1967; YESAKI e BAGER, 1975; HAIMOVICI e COUSIN, 1989; ZANETI PRADO e VAZZOLER, 1976 apud HAIMOVICI et al., 2006). É um dos recursos demersais mais abundantes e explotadas na plataforma continental sul do Brasil (MENEZES e FIGUEIREDO, 1980; HAIMOVICI et al., 2006), sendo alvo, juntamente com outras espécies, da frota de emalhe de fundo, do arrasto de parelha e do arrasto simples de peixes costeiros, embora seja capturada também como fauna acompanhante do arrasto duplo (BRASIL, 2011). Pio (2011) realizou uma caracterização das pescarias industriais de emalhe de fundo realizadas ao longo da década de 2000 no Sudeste-Sul do Brasil, de acordo com as respectivas espécies-alvo, capturas incidentais, petrechos e áreas de pesca. Destacou a existência de 5 grupos de pesca, sendo que em um deles, a castanha foi a principal espécie- alvo, capturada com tamanho de malha de 100mm, e apresentando como principal área de atuação a região entre o sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul entre a plataforma interna e externa (PIO, 2011). Desta forma, parece claro que a frota catarinense tem atuado predominantemente sobre o estoque de castanha localizado na plataforma continental interna sul. Entretanto, o estoque Sudeste não deve ser desconsiderado, demonstrando a importância de adotar medidas de manejo diferenciadas entre a região Sudeste e a Sul.

A corvina, apesar de surgir como espécie compartilhada entre os subgrupos de plataforma continental do Sudeste-Sul do Brasil, compreende dois estoques distintos: um situado entre 23˚S e 29˚S (estoque Sudeste), e outro, entre 29°S e 33°S (estoque Sul) (VAZZOLER, 1991; VAZZOLER et al., 1999; VASCONCELLOS, 2012). É uma espécie de ampla distribuição geográfica, característica das regiões tropical e subtropical. Ocorre desde a Península de Yucatán, ao longo das Antilhas, até o Golfo de San Matias, na Argentina (CERVIGÓN, 1993). Trata-se de uma espécie demersal de hábitos costeiros, encontrada em fundos de areia e lama, principalmente em profundidades de até 60m e, em menor proporção, até os 100m (MENEZES e FIGUEIREDO, 1980). É encontrada em toda

59 a costa brasileira, sendo abundante nas regiões Sudeste-Sul, constituindo a parcela comercial mais importante entre os peixes demersais desembarcados pela frota industrial (DIAS e PEREZ, 2012; CARNEIRO et al., 2005). Assim, apesar de distribuir-se por toda a plataforma continental interna do Sudeste-Sul, a identificação da existência de dois estoques distintos na área justificaria que a espécie fosse tratada de maneira diferenciada no processo de gestão pesqueira, tornando, assim, o estoque sul exclusivo do grupo de pesca de plataforma continental interna sul. É considerada um dos alvos mais importantes da frota de emalhe de fundo, sendo capturada também pelas frotas arrasteiras de parelha, simples (pesca costeira) e duplo, sendo espécie-alvo também para as duas primeiras (BRASIL, 2011).

A maria-mole distribui-se no Atlântico Sul Ocidental desde o litoral do Rio de Janeiro, Brasil (22˚S) até o Golfo de San Matias, Argentina (43˚S) (MENEZES e FIGUEIREDO, 1980). Adultos desta espécie, no sul do Brasil, ocorrem em águas costeiras, geralmente em profundidades inferiores a 50m, embora alguns exemplares grandes sejam capturados até 150m (HAIMOVICI et al., 1994; HAIMOVICI et al.,1996). São capturadas principalmente pelas frotas de arrasto (BRASIL, 2011).

A pescada-amarela ocorre em todo o litoral brasileiro, comum nas águas salobras dos estuários, lagoas estuarinas e desembocaduras dos rios. Habita áreas de lama, areia ou cascalho, entre 1 a 35m (GEP/ UNIVALI, 2014).

O papa-mosca, distribui-se do Rio de Janeiro, Brasil (22°S) até a Patagônia, Argentina (42°S), sendo mais abundante no sul. É um peixe de hábito demersal que vive sobre fundos moles (HAIMOVICI et al., 2008).

O pargo-rosa tem uma ampla distribuição em ambas as margens do oceano Atlântico e Mediterrâneo. No Brasil, é pescado comercialmente entre o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo (COSTA et al., 1997; HAIMOVICI et al., 2004), até 200m de profundidade (ÁVILA- DA-SILVA e HAIMOVICI, 2006), por diferentes frotas pesqueiras, sendo realizada principalmente pela frota de linheiros e como fauna acompanhante da frota de arrasto e de armadilhas (COSTA et al., 1997).

O mesmo acontece com o peixe espada, que na região Sudeste-Sul do Brasil não é alvo de uma pescaria dirigida, sendo capturada por quase todas as frotas, ocorrendo principalmente em arrasto e cerco da pesca comercial (MAGRO, 2005).

O peixe-porco é uma espécie de ampla distribuição geográfica (CASTRO et al., 2005), com indivíduos adultos sendo encontrados em profundidades que variam de 6 a 100m (AIKEN, 1983). Na costa brasileira, é abundante do sul da Bahia até o Rio Grande do Sul, sendo bastante comum nas costas do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo (CASTRO

60 et al., 2005), onde a pesca é mais intensa. Entretanto, neste trabalho, apresentou ocorrência e desembarques mais elevados na plataforma continental interna sul. Possivelmente, isto esteja relacionado a ausência de frotas catarinenses direcionadas para a captura desta espécie na porção Sudeste, estando, por outro lado, atuando mais frequentemente na plataforma continental interna sul, explicando seus maiores valores para o grupo sul da plataforma continental, tornando-a, assim, uma espécie característica deste domínio de pesca, tendo em vista os desembarques da frota catarinense.

A pescadinha-real distribui-se no Atlântico Ocidental desde a Venezuela até a Argentina (YAMAGUTI, 1979) e ocorre em profundidades de até 60m, sendo mais comum até os 30m (MENEZES e FIGUEIREDO, 1980). Na região Sudeste-Sul do Brasil, esta espécie caracteriza-se por quatro populações distintas, baseados em diferenças entre caracteres merísticos, morfométricos e principalmente nas diferenças morfológicas dos otólitos: 1) litoral do Estado do Espírito Santo; 2) entre Atafona (norte do Cabo de São Tomé) e Cabo Frio; 3) no litoral dos Estados de São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina; e 4) no litoral do Estado do Rio Grande do Sul (YAMAGUTI, 1979). Assim, os desembarques de pescadinha-real neste trabalho, parecem estar representados apenas pelo seu estoque sul, tornando esta espécie exclusiva deste domínio de plataforma continental. Segundo Carneiro e Castro (2005), produções de Santa Catarina e Rio Grande do Sul correspondem a 50-75%

do volume desembarcado anualmente desta espécie, destacando para o estoque sul ser o mais abundante e produtivo. Entretanto, embora a presença desta espécie na plataforma continental Sudeste tenha sido mínima através dos dados pesqueiros de Santa Catarina, a presença de quatro estoques, assim, como ocorre com a corvina, reforça a ideia da subdivisão latitudinal da plataforma.

Além destas espécies que foram citadas como sendo bastante característica da unidade pesqueira de plataforma continental interna sul, outras apresentam-se como recursos compartilhados com a unidade de plataforma continental interna norte, como a abrótea, o bagre, a cabra, o emplastro, o goete, o gordinho e o linguado-areia. Algumas destas, ainda, também são compartilhadas com o grupo de quebra de plataforma.

Estes recursos além de apresentar amplas distribuições geográficas, sendo encontradas também em todo o litoral Sudeste-Sul do Brasil (FIGUEIREDO e MENEZES, 1980), são capturados por diversos petrechos que atuam em toda a área de plataforma continental, sendo definidas como fauna acompanhante previsível, conforme Instrução Normativa n° 10 de junho de 2011 (BRASIL, 2011), embora, alguns deles sejam identificadas como alvos-massivos de determinados grupos de frotas, como a cabra e a raia

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