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DITADURA NO OESTE DO PARANÁ

No documento Ditaduras e Democracias (páginas 130-144)

Carla Luciana Silva

O projeto de pesquisa Ditadura no Oeste do Paraná: história e memória nasceu da necessidade concreta de intervenção social do grupo de historiadores envolvidos no projeto. Desde 2005, o Grupo de pesquisa HISTÓRIA E PODER e a linha de pesquisa ESTADO e PODER desenvolvem pesquisas históricas, abordando tanto temas regionais como nacionais ou mesmo internacionais. São pesquisas diversas, de mestrado e de graduação executadas no âmbito do Laboratório de Pesquisa Estado e Poder.

Trabalhos já nalizados problematizaram questões como os aparelhos privados de hegemonia durante a ditadura: revistas de circulação nacional e suas atuações políticas; as organizações vinculadas ao latifúndio; os Partidos de Direita e extrema-direita na formulação política do Golpe, assim como, organizações extrapartidárias de atuação política. Os embates ideológicos em torno da Ditadura e da resistência, seja nos estudos historiográ cos, na história e na memória.

Cada vez mais tem surgido o interesse pela pesquisa de temas vinculados à Ditadura no Brasil e no Cone Sul, assim como estudos comparativos com as ditaduras europeias. Essa necessidade não aparece como simples modismo, senão como fruto de uma demanda social concreta pela intervenção social dos historiadores diante da história do Tempo Presente. Frente à necessidade de condensar informações e somar esforços para adentrar nas difíceis questões que envolvem o estudo da Ditadura, a partir de 2012 resolvemos criar um instrumento que permitisse sistematizar, reunir e facilitar a pesquisa sobre a Ditadura. Além disso, propusemos focar a questão da ditadura no âmbito regional porque já havíamos percebido a existência de uma forte demanda nesse sentido, acompanhada de ausência de estudos com essa nalidade.

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1 Projeto financiado pelo CNPq – 476133/2013.

2 Docente da Graduação e do PPPGH em História da UNIOESTE. Coordenadora do projeto Ditadura no Oeste do Paraná/CNPq.

A partir da experiência de dois projetos de Pós Doutoramento realizados em Portugal (com a participação em projeto de pesquisa que reúne pesquisadores de Portugal, Espanha, França, Itália e outros países, coordenado pelo historiador Manuel Loff da Universidade do Porto), abriu-se uma outra questão de pesquisa, sobre HISTÓRIA e MEMÓRIA das ditaduras ibéricas. O projeto acabou abrangendo também o Brasil e saímos de lá com esse compromisso, de seguir pesquisando Políticas Públicas de Memória no Brasil recente.

O projeto

O projeto tem como objetivo analisar o impacto da ditadura brasileira (1964-1985) na região Oeste do Paraná, suas ações, as resistências empreendidas e a memória construída em torno dela. Recuperar aspectos da história da região oeste do Paraná no que diz respeito à ditadura brasileira é o objetivo geral desse projeto. A ditadura enquanto projeto institucional atingiu a vida dos brasileiros de forma distinta. Alguns mais diretamente, outros de forma mais indireta. Mas todos aqueles que viveram de 1964 a 1988 tiveram em suas vidas marcas da ditadura, especialmente o cerceamento da liberdade de expressão, de reunião e de associação. As instituições do estado brasileiro se complexi caram, fazendo com que a burocracia tenha atingido a vida de milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, o ideário da ditadura através de seus mecanismos de propaganda se disseminaram Brasil afora, criando um clima de aparente comodismo e aceitação social, muito visível nas ideias de crescimento, desenvolvimento, e progresso, instrumentalizando atividades corriqueiras como o futebol e a música, por exemplo.

Na região oeste do Paraná a grande obra da ditadura foi a construção da usina hidroelétrica Itaipu. Ela levou ao alagamento de terras, deslocamento de famílias, lutas pelas indenizações justas e organização de contestação. Tudo isso somado ao acúmulo de lutas sociais no campo no Paraná (grilagem de terras, expulsão de camponeses, revolta dos posseiros) fez da região um lugar que recebeu uma série de movimentos e militantes em busca de construir uma luta contra a ditadura. Fortes in uências exerceram o PCB e o PTB de Leonel Brizola na região. Soma-se a esse quadro o fato de se tratar de uma região de fronteira (Paraguai e Argentina). Não apenas a Usina de Itaipu serviu como base para a empresa militar, mas também para o serviço de informações, que teve na região

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forças do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) do Serviço Nacional de Informações (SNI), da Polícia Federal e de outros órgãos de segurança. Além disso, a Operação Condor teve seus braços atuantes nessa região de fronteira. Não é fora desse contexto amplo que podemos entender a tentativa de implantação de uma base territorial da VAR-Palmares e da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR na região oeste no nal dos anos 1960. Diante dessa realidade, o projeto busca levantar documentos, tomar depoimentos, disponibilizá-los ao público, incentivar novas pesquisas, analisar o material e publicar resultados. Além disso, propõe ter uma intervenção na realidade local, seja criando um comitê local de debate sobre a ditadura , seja realizando atividades de conscientização e memória 3

social.

A ditadura e a sociedade

Existem importantes avanços sendo realizados nos estudos sobre a Ditadura brasileira iniciada em 1964 através do golpe de Estado que derrubou o presidente eleito João Goulart. Grupos de estudos, eventos, pesquisas vem avançando, mesmo que não ainda no ritmo desejado. O acesso às fontes segue sendo uma di culdade, mas há também novos acervos sendo descobertos e disponibilizados. Na esteira da retomada de consciência histórica sobre a questão da ditadura, que vem sendo progressivamente trazida ao debate público, há questões a pontuar. Os avanços da lei 9140/95, da Comissão de Mortos e Desaparecidos e das respectivas leis que circundam a questão tem levado a distintas mobilizações no sentido de publicização de novos documentos, de dentro ou de fora da o cialidade da Ditadura, por mais que se saiba que falta um efetivo esforço governamental para a disponibilização e preservação concreta de documentos, que seguem sendo incinerados e descartados. A efetivação da Comissão Nacional da Verdade é outro impulso que esse processo tem recebido, forçando ao debate e ao posicionamento de parcelas sociais que até então podiam car no conforto do silêncio, como os responsáveis pela repressão, torturas, mortes e desaparecimentos. E também, expondo aqueles que nanciaram e apoiaram de formas distintas a ação repressiva. Ainda assim, é extremamente limitado o alcance e a vontade política dessa Comissão, o que não é assunto para o

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3 Como parte dessas atividades participamos da criação do Comitê Memória, Justiça e Verdade do Oeste do Paraná em Cascavel, em dezembro de 2013.

presente texto.

Mesmo havendo uma preocupação em nível Federal em incentivar a produção de pesquisa sobre a Ditadura, percebemos que ainda há muito por fazer na realidade local. O Plano Nacional de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no seu item Direito à Memória e à Verdade diz que a investigação do passado é fundamental para a construção da cidadania . Não há aqui nenhuma novidade para os historiadores, mas colocado 4

como um plano de governo que tem intenção de incentivar políticas de ação, aponta para a abrangência da questão, e situa claramente a memória como um dos direitos humanos . Dentro do item f das ações programáticas encontramos:

desenvolver programas e ações educativas, inclusive a produção de material didático-pedagógico para ser utilizado pelos sistemas de educação básica e superior sobre graves violações dos direitos humanos . Ou seja, percebemos que pesquisar sobre essa temática é uma forma de atender a uma demanda social que está presente embora nem sempre de forma explícita. O exercício do trabalho de campo do historiador ajudará a esclarecer essa história, incitando as manifestações da memória desse momento obscuro de nossa história recente.

Recentemente, a própria Associação Nacional de História posicionou-se como apoiadora da Comissão Nacional da Verdade - CNV, incentivando aos programas de pós graduação no sentido de criar espaços locais de pesquisa.

Segundo informa a Associação, trata-se de um acordo de Cooperação Técnica objetivando mútua colaboração entre os contraentes, para a apuração e esclarecimento de graves violações de direitos humanos praticadas no País, no período xado no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, a m de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover o que chamam de reconciliação nacional .5

A Pesquisa histórica avança, com a constituição de grupos de pesquisas de questões especí cas sobre elementos que conformam a ditadura. Dissertações, teses, artigos são produzidas e elucidam problemas e colocam novas questões.

Junto com esse movimento histórico, são produzidas novas fontes orais, fundamentais para que se conheça o passado e o problematize, especialmente

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4 Brasil. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Programa nacional de Direitos Humanos (PnDH- 3)/Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República - - rev. e atual. - - Brasília: SDH/P, 2010.

5 http://www.anpuh.org/informativo/view?ID_INFORMATIVO=3800. O Programa de Pós Graduação em História da Unioeste indicou a autora desse projeto como sua representante local relacionada à CNV.

quando se fala de resistência e oposição à ditadura.

Junto a isso, somamos ainda a questão da emergência de novos estudos de âmbito regional, que abordam realidades especí cas, em suas peculiaridades. No nosso entendimento, o local está articulado a um todo, pois havia uma forte mobilidade dos sujeitos da ditadura. O sistema repressivo se alargava, se ampliava, se reproduzia por todos os lados do país. A resistência e as rotas de fuga levavam à obrigatória mobilidade dos militantes. Por isso, pensar o regional implica necessariamente pensar as redes que se estabelecem, tanto por dentro do estado como na sociedade. A essa questão se agrega o fator da clandestinidade, das fugas, da permanente mobilidade dos sujeitos perseguidos.

O dever de Verdade

Com o lançamento da Comissão Nacional da Verdade, em 2012, ampliaram-se os comitês locais, assim como pesquisas para subsidiar o trabalho de recuperação da memória histórica recente do Brasil: a Ditadura, a repressão, as conexões internacionais, a resistência, as ligações empresarias, entre outros. A CNV, criada pela Casa Civil da Presidência da República, tem como objetivo a apuração de fatos que envolvem a violação dos direitos humanos ocorridos durante a ditadura brasileira. A Comissão Nacional da Verdade foi criada pela Lei 12528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. A CNV tem por nalidade apurar graves violações de Direitos Humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988 .6

O Estado do Paraná criou a sua própria comissão, através da Lei 17362 - 27 de Novembro de 2012, no âmbito da Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos SEJU. Segundo consta, prestará apoio administrativo às ações e atividades, que não terão caráter jurisdicional ou persecutório . 7

Infelizmente, pouco foi feito até agora no campo da investigação de crimes nunca investigados, mas a existência da Comissão é um bom sinal de reconhecimento do problema. Uma das maiores questões ainda inconclusas sobre a Ditadura no Paraná ocorreu justamente no Oeste do Paraná, entre Cascavel, Medianeira e Foz do Iguaçu. Ali se instalaram dois grupos de treinamento de luta armada. Um deles, da VAR Palmares, em Nova Aurora. O outro, do MR8, em Cascavel, Medianeira e

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6 CNV. http://www.cnv.gov.br/index.php/institucional-acesso-informacao/a-cnv

7 http://www.dedihc.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=94

Foz. Ali também mais tarde houve uma chacina de militantes da VPR que estavam fora do país e foram atraídos por agentes da ditadura para serem mortos no território brasileiro.

É importante dizer que a criação das Comissões da Verdade é fruto de uma reação do governo brasileiro, já que o país foi condenado internacionalmente por não ter apurado crimes e por não ter exercido Justiça sobre esses crimes .8

Esse contexto deu impulso à elaboração do presente projeto, que inicialmente estabeleceu os contatos, montando uma equipe quali cada, com destaque para a consultoria histórica do professor Dr. Enrique Serra Padrós , da 9

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, profundo conhecedor da temática da ditadura não apenas no Brasil como no Cone Sul. Sua pesquisa tem mostrado o alcance de Operação Condor, um operativo repressor de Ditadura que contava com a colaboração entre os países do sul: Brasil, Argentina, Paraguai Uruguai, , Chile. Todos, em momentos distintos, viveram ditaduras e mantiveram colaboração entre si na caça a procurados e perseguidos pelo regime, violando claramente leis internacionais.

A ditadura no Oeste do Paraná:

o problema pelo foco regional

A criação do Programa de Pós Graduação em História da Unioeste possibilitou a realização de trabalhos que ajudam a perceber a relevância do tema para a região e a existência de alguns trabalhos que permitem propor uma compreensão mais ampla de quais foram os impactos da ditadura na região de estudo. Não há um estudo historiográ co de síntese. Novas pesquisas permitirão delimitarmos nosso escopo espacial, que vai além da região Oeste do Paraná, âmbito da abrangência física da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, mas aberto para a mobilidade geográ ca dos sujeitos envolvidos.

Destaca-se o fato de que nos encontramos em região de fronteira, tanto com o Paraguai, como com a Argentina. Marechal Candido Rondon faz fronteira através do Rio Paraná com o Paraguai e Foz do Iguaçu também, além de fazer fronteira com a Argentina. Portanto, na época da ditadura, havia ali uma forte

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8 http://www.brasildefato.com.br/content/senten%C3%A7a-da-oea-contra-brasil-completa-um-ano-sem-ser-cumprida

9 Autor de inúmeros artigos e organizador de vários livros. O mais recente: PADRÓS, Enrique Serra. (Org). Cone Sul em tempos de ditadura: reflexões e debates sobre a História Recente. Porto Alegre, EDUFRGS, 2013.

concentração militar e era uma rota percorrida pelos militantes que queriam sair do país. Existiam, embora não tenhamos pesquisas sobre isso, passagens clandestinas que permitiam o deslocamento para os países vizinhos para salvar-se dos militares no Brasil. E também o caminho inverso era feito em determinadas situações, tanto por parte de militantes argentinos como paraguaios.

Cascavel está no centro do Oeste, banhado pelo lago formado após o alagamento das Sete Quedas e a construção da Usina Itaipu, com exceção de Cascavel. Ali se encontram Marechal Rondon, Guaíra e Foz do Iguaçu. Guaíra possui fronteira com o Paraguai. Rondon tem apenas fronteira feita por balsas, legais ou ilegais que fazem a travessia em toda a região do lago, que é calmo e de fácil navegação para balsas desde que o Lago de Itaipu foi formado, em 1982. Foz do Iguaçu tem as duas fronteiras. Pontes ligam o município a Ciudad del Este no Paraguai e a Puerto Iguazu, na Argentina. Curitiba, a capital do estado está a aproximados 600 quilômetros, o que faz com que a região se desenvolva como um centro produtor social e culturalmente independente da capital do estado.

Os principais municípios abrangidos pela investigação são: Cascavel, Marechal Rondon, Toledo, Guaíra e Foz do Iguaçu. Essa escolha se deve ao fato de que quatro destes são sedes de campus da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, sendo que apenas Guaíra não o é. Este município tem no entanto contato direto com a universidade, sendo que muitos dos seus moradores se deslocam a Marechal Rondon para realizar sua formação. O município de Santa Helena é igualmente importante para o projeto, pois foi polo de grande resistência popular contra a Itaipu nos anos 1970, e local de deslocamento da resistência à Ditadura.

Durante a ditadura, parte desses municípios foram declarados Área de Segurança Nacional, o que levava a haver uma maior organização do Estado na região, especialmente seus órgãos repressivos.

A partir do conhecimento prévio da realidade local, das nossas possibilidades de pesquisa e dos referenciais teóricos com que trabalhamos, delimitamos alguns objetivos gerais que norteiam o projeto:

a) A atuação da Sociedade Civil/Aparelhos Privados de Hegemonia durante a Ditadura

b) A Resistência à Ditadura: VAR-Palmares, MR8, VPR, outros.

c) A Repressão do Estado e o Terrorismo de Estado (incluindo a Operação

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Condor)

d) A Luta pela Terra: Organizações Sociais de Resistência à Itaipu;

movimentos de posseiros e outros

As pesquisas são individuais, de acordo com os pesquisadores do Grupo de Pesquisa que tiveram oportunidade de apresentar o andamento parcial de suas pesquisas no IV Simpósio Nacional Estado e Poder. O projeto guarda-chuva busca criar condições de melhorar a pesquisa no coletivo, como o exemplo desse Simpósio e nanciamento recebido através do CNPq.

Desde 2012 nos somamos ao Centro de Memória e Direitos Humanos de Foz do Iguaçu, com isso estabelecemos a ponte entre a Universidade e a luta social concreta pela busca pela memória, que foi concretizada pela criação do Comitê Memória, Verdade e Justiça do Oeste do Paraná. Foram já realizadas as tomadas de depoimento (história oral) com vários depoentes, entre eles: Aluízio Palmar, Roberto Fortini, Diógenes Oliveira, José Carlos Santos, Lilian Rugia.

Participamos da divulgação da realização da Audiência Pública da Comissão Nacional da Verdade em Foz do Iguaçu, para a qual conseguimos o deslocamento de um número signi cativo de pessoas do Campus de Marechal

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MAPA 1: Região Oeste do Paraná

Fonte: PARANÁ. Governo do Estado.

http://www.cidadao.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=252.

Rondon. A mesma ocorreu em junho de 2013. Nossa participação resultou com o apoio do LEC Laboratório de Educação Continuada da Unioeste na lmagem da atividade e na disponibilização parcial irrestrita no sítio eletrônico do youtube . 10

O Paraná na ditadura

O Estado do Paraná foi espaço de fugas e organização de resistência no período da ditadura. Como parte do processo histórico de longa data, se destacam as lutas pela terra, sendo naquele momento as lutas dos posseiros no Sudoeste o mais importante, maior referência para os militantes. Algumas organizações de resistência justi caram sua opção pelo Oeste do Paraná justamente pela presença desses movimentos concretos na região.

Paraná foi também espaço de resistência à construção do mega-projeto da Itaipu Binacional, articulando posseiros e desabrigados pela Hidroelétrica Binacional. Nesse terreno fruti caram os movimentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Comissão Justiça e Paz, que organizava a resistência dos moradores contra a exploração da Itaipu, e o próprio MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Atualmente está em desenvolvimento a pesquisa de doutorado da professora Maria José Castelano, do Grupo de Pesquisa História e Poder, sobre essa problemática.

Espaço de fronteira, de mobilização, de contatos com o sul do Brasil, um lugar que atraia pelas lutas e também pelas possibilidades de organização com certa aceitação dos camponeses. Aluízio Palmar relata em seu livro casos de 11

colonos que queriam seguir a resistência, se organizar, se não tanto contra a ditadura, por melhores condições de vida e trabalho. O espaço real de fronteira internacional permitia uma rota de fugas para o Paraguai e a Argentina. Que se saiba o único caso concreto de morte por cianureto ocorreu numa barca em Foz do Iguaçu . Está claro que tratamos de um espaço da Operação Condor (ou pré-12

condor ), como apontam documentos que começamos a manusear: documentos da Itaipu, SNI, Arquivo do Terror; controle dos trabalhadores em Foz; controle de trabalhadores por toda zona de fronteira.

Os indícios parciais da pesquisa nos mostram ser possível e necessário

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10 http://www.youtube.com/user/lecunioeste1

11 PALMAR, Aluizio. Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? Curitiba, Travessa Editores, 2006.

quebrar a cantilena que diz que a população brasileira era pró-ditadura. Embora tenhamos tido a visita de Ernesto Geisel a Marechal Rondon em 1976 para comemorar a votação da ARENA, majoritária na região, e inúmeros aparelhos privados de hegemonia como rádio e jornal que buscavam criar a ideia de que todos apoiavam a ditadura, a investigação tem mostrado que se trata de uma construção ctícia no campo da memória.

Para além dessas questões, que por si só já justi cariam a pesquisa, temos ainda o fato da existência de lutas, resistência e repressão na região Oeste do Paraná. Todos eles estão sendo abordados nas pesquisas individuais da equipe do projeto. Os fatos principais geradores da investigação nesse sentido são:

a) Comando Avançado Territorial da VAR-Palmares. Na cidade de Nova Aurora, vindos do Rio Grande do Sul, um pequeno grupo se instalou. Entre eles estavam Izabel, Luiz André e Alberto Fávero. Eles atuaram em duas linhas:

formação educacional pelo método Paulo Freire; treinamento de luta armada, instalado em Nova Aurora e em Anta Gorda. Foram todos presos em 1970, em megaoperação da repressão. Levados para Foz do Iguaçu foram torturados barbaramente.

b) Grupo vinculado ao MR8. Uma experiência pré-guerrilha , de organização foquista no Oeste, entre 1969 e 1970. Segundo relato de Aluízio Palmar, que participava desse grupo, zeram treinamento para a luta armada, permanecendo meses clandestinos dentro do Parque Nacional do Iguaçu, escapando da Guarda Florestal e se preparando para as condições adversas de vida em processo guerrilheiro .13

c) Assassinato, ao que tudo indica no interior do Parque Nacional Iguaçu, em 1974, do Grupo de Onofre Pinto , fato relatado também na obra de Aluízio Palmar, que há vários anos milita na causa da procura desses mortos desaparecidos. A ação de busca dos militantes para a morte foi feita em território argentino por agentes repressivos brasileiros.

d) Além desses fatos concretos, há indícios da existência de mais grupos de resistência na região. É fato sabido que por aqui (região de Capanema) foram

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12 Os militantes de organizações de resistência costumavam carregar consigo cápsulas de cianureto para no caso de serem presos conseguirem cometer suicídio. Mas vários relatos posteriores indicam que o cianureto não era usado, porque os próprios militantes tinham um senso de preservação da vida, ou porque não tiveram tempo de fazê-lo ou ainda porque o cianureto, usado, não funcionara.

13 Os movimentos de resistência estão sendo objeto de estudo dos mestrados de Marcos Adriani Ferrari Campos e Thomaz Heller.

No documento Ditaduras e Democracias (páginas 130-144)