1.1 CULTURAS
1.1.2 Diversidade Cultural e Culturas Juvenis
A diversidade cultural, dessa maneira, pressupõe o reconhecimento das diferenças entre grupos, povos, nações e entre nós mesmos, como também requer uma discussão pelo seu reconhecimento e respeito quanto ao processo de mobilização para o atendimento de suas demandas. Araújo (2010, p. 9) ressalta que a diversidade cultural é
[...] a expressão da in-tensidade, do dinamismo e da polifonia dos fenômenos culturais, em sua complexidade e em seus tons mais diferenciados, mediante os fluxos tensoriais que os impulsionam, traduz as contradições, as tensões, dobras e torções que dão plasticidade a esse dinamismo e que podem fomentar os encontros e diálogos entre os diversos.
As identidades culturais envolvem os diversos grupos humanos em seus espaços/tempos distintos, por sua abrangência sociocultural, principalmente em grupos étnicos africanos, indígenas, latino-americanos e pessoas de classe com baixo poder econômico, bem como a questão da discriminação, gênero, sexualidade, religião, étnica, entre outras que angustiam parcelas da população em determinados contextos sócio-históricos.
No tocante à educação, percebe-se que, apesar do maior acesso, Gomes (2012, p.
692) cita o trabalho de Néstor López, que existe desde a década de 1990, como uma “[...]
desaceleração do processo de escolarização vivido nos últimos anos e reinstala o desafio das desigualdades como elemento central da agenda educativa [...]”. Essa realidade gera desigualdades pela redução do processo de universalização da escola que apresenta um contexto de diversidade cultural e identitária, observados pela falta de recursos materiais, estruturais e pela baixa qualidade da educação, embora esse fosse um dos grandes objetivos.
Diante dessa realidade de baixa qualidade do sistema educacional, do abandono da escola pública e de um despreparo para acolher a diversidade, embora, atualmente, sejam criados espaços para discutir essas demandas sociais importantes, Gomes (2012, p. 688) afirma que,
[...] devido às pressões sociais, o entendimento da diversidade como construção social constituinte dos processos históricos, culturais, políticos, econômicos e educacionais e não mais vista como um "problema" começa a ter mais espaço na sociedade, nos fóruns políticos, nas teorias sociais e educacionais.
A importância de reconhecermos o outro, sua proximidade, suas forças em relação a nós, implica respeito aos diversos grupos existentes e suas peculiaridades e demandas, como também se relaciona à percepção da oportunidade do encontro com a alteridade, dentro e através
de comunidades culturais que necessitam dialogar entre si, por serem distintas, idiossincráticas, com suas percepções particulares sobre o mundo. Afinal, as comunidades culturais são formadas por seres humanos unos e múltiplos ao mesmo tempo. Observamos que essa diversidade promove construções interessantes nos sujeitos, ao aprenderem uns com os outros em suas diferenças, podendo não mais ser vista somente como um “problema”. Quanto à questão da diversidade, Araújo (2010, p.10), alerta:
[...] somos diversos, diferentes, mas somos também semelhantes na condição de sermos e de co-pertencermos à mesma raça humana. Creio que é, sobretudo, essa condição ontológica de semelhança e de diferença que nos impulsiona, que nos dis- põe intensivamente para as possibilidades de encontros e de compartilhamentos com os outros, para os processos de co-aprendência e de coexistência.
Bhabha (2014, p. 21) compreende que essa diferença dos sujeitos necessita ser aceita, pois “[...] a articulação social da diferença, na perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em andamento, que busca conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em momentos de transformação histórica [...]”. Essa concepção da diversidade cultural existente no mundo deve ser considerada com sua devida importância e respeito, pois independente do lugar, não é aceitável pensar a sociedade humana como homogênea, mas sim por sua fluidez, pelo movimento e por novas formas culturais.
É mister percebermos como o processo de globalização impõe modelos culturais que desconsideram as culturas locais e nacionais, havendo necessidade de se produzirem ações que reflitam sobre esses modelos e que, mesmo sendo absorvidos, podem gerar novos exemplos culturais dissonantes e vir a exprimir as feições da diversidade cultural. A diversidade na perspectiva das minorias também pode representar a exclusão pela não aceitação da alteridade, pela desigualdade socioeconômica e geopolítica.
Por um lado, a diversidade dos grupos, das comunidades e dos povos, de costumes, de crenças, de saberes, de fazeres e de sentires, concomitantemente, na perspectiva do dominador em relação aos povos dominados, é vista como inferior e não civilizada. Por outro lado, a diversidade serve também para que uma minoria poderosa e rica mantenha a dominação sobre as populações subordinadas como as indígenas, a exemplo do que sabemos ter sido a ação dos portugueses vivenciada na época colonial, no Brasil, em que se utilizou a própria cultura indígena para “manter sua diferença”.
Reiterando essa visão, Canclini (2015) realça que a cultura indígena era considerada como inferior e não civilizada pelo branco europeu. Essa concepção sobre a cultura dos nativos
do Brasil servia de justificativa para a violência utilizada para dominar e exterminar as populações indígenas.
No que tange à questão do respeito à diversidade, Santos (2006, p. 316) defende que “[...] temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza [...]”. Essa visão permite inferir que não podemos aceitar o preconceito, a discriminação, a exploração como algo natural; ao contrário, é necessário lutar pelo direito e pelo respeito à condição de sermos diferentes para que a igualdade de direitos seja respeitada, independente da condição socioeconômica ou étnica.
Considerando a relação entre culturas e diversidade cultural, reiteramos que as culturas estão na esfera do que pertence a humanidade em múltiplos espaços/tempos de nações, povos, grupos sociais. Nesse sentido, a diversidade cultural se manifesta nas diversas formas como cada povo, grupo, família estabelece suas atividades laborais, religiosas e suas relações sociais etc. Dessa forma, faz-se mister considerar transformações, continuidades, rupturas e variações que ocorrem ao longo do tempo para os sujeitos, pois tudo depende de experiências vivenciadas.
Essa perspectiva de variações, no que se refere à diversidade, encontra força na concepção de Abramowicz (2006, p. 12) ao defender que “[...] diversidade pode significar variedade, diferença e multiplicidade [...]”. Vemos que, onde há diversidade, reside, especialmente, a diferença, não podendo gerar desigualdade ou exclusão, como também não se deve contrapor igualdadeà diferença. Candau (2005, p. 19) esclarece a esse respeito que
[...] não se deve contrapor igualdade à diferença. De fato, a igualdade não está oposta à diferença, e sim à desigualdade, e diferença não se opõe à igualdade, e sim à padronização, à produção em série, à uniformidade, a sempre o “mesmo”, à mesmice.
É imprescindível compreendermos que o ser humano é caracterizado, concomitantemente, por singularidade e pluralidade, por ser uno e múltiplo. Portanto, enquanto seres heterogêneos, os humanos são marcados pela diversidade, por seus valores, por sua etnia, orientação sexual, atividades de produção, saberes, comportamentos, suas tradições; enfim, por suas demandas sócio-históricas e por tudo aquilo que tem vínculo direto com uma consciência sobre si e de seus desejos. De acordo com Jovchelovitch (2008), a tomada de perspectiva e de reconhecimento são, primeiro e principalmente, processos de descoberta da diversidade e da capacidade para viver com a pluralidade, renunciando, ao mesmo tempo, à onipotência de uma visão autocentrada.
Numa sociedade em que a presença do preconceito para com o outro é muito forte e, por vezes, gera conflitos, perseguições, desigualdade social, atitudes altamente desumanas, torna-se pertinente a busca por conhecimento, informação, educação e responsabilização dessas atitudes destrutivas. Assim, o outro, o diferente, necessita ser reconhecido pela alteridade e não pela desigualdade social, preconceito ou discriminação.
A diversidade cultural marca o mundo em que vivemos, o qual passa por processos intensos de transformações, rupturas socioeconômicas, políticas e culturais. Conscientes dessa diversidade cultural, como também da dinâmica que isso implica, sabemos como esse aspecto humano influi sobre as identidades individuais/coletivas e, principalmente, sobre os jovens, por sua facilidade de adaptar-se ao novo de acordo com os contextos que vão forjando e compondo suas identidades.
Os jovens representam diversidade cultural enquanto indivíduos que absorvem mais facilmente as transformações e os aspectos culturais da globalização e, assim, do espaço-tempo em que estão inseridos. Vale reiterar que os jovens são sujeitos sociais criativos, capazes de promover mudanças e transformações sociais, mas não podem ter sobre si a responsabilidade de mudar o mundo.
Os interesses dos jovens permeiam vários aspectos que os caracterizam pelo sentimento de pertencimento a um determinado coletivo social. Podem identificar-se como jovens do campo, da cidade, das periferias, pobres ou afortunados, religiosos, escolarizados, que se identificam em grupos artístico-culturais e familiares. Há uma diversidade de culturas juvenis, porém os jovens podem estar imersos em uma cultura mercadológica, de consumismo, muitas vezes ditado pela cultura virtual, através das redes sociais de comunicação (FERREIRA, 2015).
Destarte, diante da complexidade da diversidade cultural, faz-se mister uma compreensão das culturas manifestas por diversas formas dos fazeres, saberes, sentires do coexistir humano e de sua estreita relação com categorias como a identidade cultural e identidade juvenil, a diversidade cultural e cultura juvenil para conhecerem e compreenderem fenômenos como a educação e a cultura juvenil construídas e constituintes dos seres humanos nas suas relações sócio-históricas.
2 CULTURA JUVENIL E EDUCAÇÃO
O capítulo 2 tem como objetivo compreender a cultura juvenil a partir do entendimento do conceito de juventude, de sua cultura e em que aspecto, historicamente, essa categoria foi se constituindo enquanto grupo social que possui culturas próprias. Para isso, fez- se uma contextualização da educação brasileira, chegando ao momento de ampliação do acesso às camadas populares à escola e sua relação com a cultura juvenil no Ensino Médio da escola pública.
No Brasil, pesquisas recentes revelam uma situação preocupante quanto ao percentual de jovens que não estudam; ainda há o agravante dos que estudam e precisam trabalhar. De acordo com Corrochano e Ferreira (2008, p. 18), no Brasil,
[...] análise dos dados revela que 35.940.374 milhões de indivíduos, (66%) da população jovem de 14 a 29 anos estão no mundo do trabalho, trabalhando ou em busca do trabalho. Os que só estudam formam um contingente bem menor, de 11.212.957 (21%). E há 6.835.259 (13%) que não estudam, não trabalham e nem procuram trabalho.
Nesse sentido, conhecer os motivos que impulsionam o segmento da população jovem no Brasil a frequentar ou abandonar a escola, faz-se pertinente para compreendermos como a cultura juvenil e suas relações com a educação podem ser valorizadas e desenvolvidas no espaço escolar e, desse modo, desenvolver habilidades, competências e o protagonismo juvenil, favorecendo a aprendizagem significativa.