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Identidade Cultural e Identidade Juvenil

1.1 CULTURAS

1.1.1 Identidade Cultural e Identidade Juvenil

A identidade é uma categoria que se refere à subjetividade do ser humano em conexão com as influências do mundo exterior que, no conjunto, conformam os modos de ser,

fazer e sentir de cada grupo, comunidade ou povo. Araújo (2010, p. 5) externa uma visão ampla sobre a identidade dizendo que “[...] é constituída de singularidade e de pluralidade, do uno(um) e do múltiplo(outro/s); se renova permanentemente na cadência rítmica e in-tensiva dos fenômenos do existir e co-existir [...]”.

É pertinente realçar o lugar das culturas dentro dessa tessitura sociopolítica, posto que, quando essas instâncias se mesclam, hibridizam-se, resultam em diversidade cultural, mas que também se constituem em identidade. Nesse sentido, como salienta Hall (2003, p. 8), “[...]

devemos pensar nossas identidades sociais como construídas no interior da representação, através da cultura, não fora delas [...]”. Somos seres que nos constituímos pelas referências do meio em que vivemos, as quais costuram o nosso existir.

Atualmente, há uma grande complexidade para compreender o sentido de identidade. Esse contexto é emergente por estarmos vivenciando uma crise estrutural – transformando as sociedades contemporâneas que se encontram cada vez mais fragmentadas – fazendo com que as identidades pessoais sofram também essas transformações. Nessa perspectiva, Araújo (2010, p. 6) afirma:

os processos de globalização, por mais que se imponham com suas pretensões totalitárias, no suceder do tempo, não conseguem dar conta de seu totalitarismo. Nos rasgos de suas contradições rebentam formas alterativas e alternativas de manifestações das vozes dissonantes que afirmam as feições da heterogeneidade.

Hall (2006, p. 12) anuncia uma concepção de identidade ao referir-se à sua dinamicidade: “[...] a identidade torna-se uma ‘celebração móvel’, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam [...]”.

Desse modo, os seres humanos incorporam as experiências do espaço-tempo vivido com as quais se identificam e, assim, seguem se transformando ao longo de sua existência, no contexto em que estão inseridos. A identidade é uma dimensão dinâmica e, enquanto desdobramento das culturas, tem uma tendência constante à transformação, assim como à própria cultura que a constitui. Hall (2006, p. 13) apresenta uma concepção que complementa esta perspectiva, acreditando que

a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante

de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 2006, p. 13).

Sabemos que a identidade é construída nas experiências simbólicas e pelos sistemas de significados construídos no tempo vivido. Desse modo, o ser humano vai tecendo sua trajetória cultivada, construída e constituída pelos sujeitos sociais presentes através de uma memória coletiva e de uma lógica que vai sendo incorporada em meio às experiências compartilhadas em diversos espaços sociais que frequentamos.

As concepções contemporâneas de identidade configuram seu sentido polissêmico e móvel, distinto do conceito de um modelo de identidade nacional, como se fosse estático e não se renovasse. A identidade se amplia considerando as experiências vivenciadas em cada espaço/tempo, como também se afirma ou sofre repressão perante suas especificidades culturais. Assim, a tradição e renovação das identidades culturais demandam uma postura política para mobilização, reivindicação e reafirmação dos grupos identitários que disputam um espaço na sociedade por meio de novas forças e de novas relações em movimento nos dias atuais que, por muito tempo, foram silenciados.

Ao tratar sobre a questão das identidades culturais, Hall (2006, p. 21) traz uma reflexão quanto a esse pensamento afirmando:

[...] uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença.

A cultura é esse fenômeno dinâmico, constituinte da subjetividade e da identidade do indivíduo como ator social. Este, quando é desrespeitado, tende a mobilizar-se para ter afirmada a sua identidade, ou seja, reagindo aos processos socioculturais de um contexto específico na luta pelo reconhecimento de suas demandas.

Ao considerar que somos sujeitos idiossincráticos, diferentes uns dos outros, assim como os grupos ou povos existentes também o são, sobretudo por se estabelecerem laços sociais que se constroem na trama histórica da trajetória humana e de suas tradições, é preciso que haja o revigoramento das tradições culturais e identitárias que expressam as diferenças dos diversos grupos.

O processo de constituição da(s) identidade(s) cultural(is) e de seu reconhecimento torna-se uma seara complexa, pois, atualmente, as transformações culturais de um determinado grupo sociocultural ocorrem muito rapidamente a nível mundial e podem gerar reações positivas e negativas no interior da própria cultura. Essa perspectiva está presente no que Hall (2003, p. 8) compreende como “[...] interior das definições que os discursos culturais (exteriores) fornecem ou que nos subjetivemos (dentro deles) [...]”. Essa realidade implica uma tomada de conscientização e de ação, uma mobilização política dos grupos que se sentem alijados quanto ao reconhecimento e afirmaçãodaidentidade cultural que os constituem.

Destarte, ao analisarmos as concepções de Araújo (2006) e de Hall (1997) diante dos processos de globalização e transformações da sociedade atual, vemos que apresentam pontos de concordância e contradições quanto às identidades. Tanto para Araújo (2006) como para Hall (1997), por mais que estes fenômenos se imponham, podem surgir formas alternativas de expressão da heterogeneidade, pois as identidades são formadas e transformadas constantemente.

Ao mesmo tempo em que Hall (2006) compreende que as identidades são formadas pelas interações do meio em que vivemos e pela cultura, transformando as identidades, para Araújo (2010), por mais que as identidades sofram influências do meio em que vivemos, pela imposição dos processos de globalização que se alimentam da homogeneidade, alterando e/ou transformando uma cultura, algumas manifestações resistem, afirmando a heterogeneidade.

Nesse ínterim de influências do global sobre o local em meio a mudanças econômicas, tecnológicas, sociais e políticas de percepções de mundo diversificadas, os processos identitários dos diversos atores sociais passam a ser discutidos, especialmente, dos jovens. Ampliou-se a noção de juventude como uma etapa de transição para a vida adulta, até porque os jovens vão alterando suas formas de encarar a vida pela necessidade de se autoafirmarem como adultos ou postergando sua adolescência.

Essas transformações a partir da segunda metade do século XX fizeram com que os jovens passassem a ter um novo comportamento perante a vida em sociedade, diferente das gerações passadas, o que pode ter influenciado a perceberem que estavam sendo excluídos enquanto cidadãos, tendo em vista seus interesses. O interesse pela cultura, pela arte, pela música trouxe para os jovens de classe economicamente baixa uma forma de se expressarem, de participar mais ativamente da política. Nesse sentido, as novas manifestações culturais dos jovens serviram como forma de contestação social e cultural e como identidade de uma nova categoria, a juventude (SPOSITO, 2003).