• Nenhum resultado encontrado

Dominação masculina e violência simbólica

2.2 Abordagens teóricas da pesquisa

2.2.3 Dominação masculina e violência simbólica

atualmente ganhando, o que faz com que o mundo pare para fazer um balanço ao nível das relações interpessoais, pois vem se constatando que os valores masculinos e a masculinidade estão em crise (Osório, et al, 2001).

O que se depreende é que as relações entre homens e mulheres têm sido desiguais, o que conduz à subordinação da mulher ao homem, que impõe suas regras para serem cumpridas/observadas por parte das mulheres porque os homens partem do princípio de que a sociedade lhe confere poderes para governá-las. No entanto, neste processo em que as mulheres devem obediência ao homem, Osório et al (2001, p. 47), julgam que,

A recusa das mulheres de se confrontarem com papeis que lhes são socialmente prescritos é vista como uma tentativa inaceitável para se esquivarem dos seus deveres, o que provoca que se quebrem os mecanismos tradicionais de absorção da sociedade.

E, ao mesmo tempo que se impõe a necessidade de explorar os recursos femininos, considerados ilimitados, reforça-se o não reconhecimento das mulheres como parceiras iguais.

Isto deixa claro que as formas de dominação sobre as mulheres despertam atenção para uma mudança nas relações entre homens e mulheres. Atualmente, a questão da violência de gênero vem forjando o modelo tradicional de dominação masculina que as sociedades patriarcais vem adotando há bastante tempo, pois existe em quase todo o mundo um movimento feminista que vem lutando contra a opressão e a igualdade de direitos: “trabalhar sobre a violência de gênero permite ir desarmando, desconstruindo uma ordem de experiências, de uma ordem política, cultural e ideológica que se sustenta nas desigualdades (...) de relações de gênero” (Gutiérrez et al,; 1994, apud OSÓRIO et al, 2001, p. 49).

referência a um sentido e a uma norma, mesmo se esse sentido e essa norma forem interpretados de maneira diferente conforme os interesses e os gostos)” [op. cit. 2000, p. 173].

Isto significa que a dominação é um mecanismo coercivo oriundo de uma das partes para materializar a violência; o ato violento expressa a relação de superioridade e/ou inferioridade, de subordinação ou submissão que os indivíduos da relação estão sujeitos um para com o outro.

Aliás, estes autores dizem que Weber via na dominação, “um conjunto de relações compreensíveis de comando e de obediência, fundamentado em uma pretensão à legitimidade e redundando na alocação entre os indivíduos dos recursos que definem o seu status na hierarquia social” (op. cit. 2000; p. 178). Como se pode observar, a dominação é a maneira pela qual as pessoas encontram para ditar o seu lugar ou posicionamento diante da relação íntima e afetivo-conjugal. Ela é o marco que serve para delimitar as relações de gênero, ou seja, entre o homem e a mulher, quem é que tem a prerrogativa de governar o outro num contexto em que compartilham relações íntimas.

Para melhor interpretação dos resultados desta pesquisa, julgo pertinente me apoiar dos fundamentos da teoria de dominação masculina e violência simbólica expressa por Bourdieu (2012), os quais exercem influência na direção do conceito de gênero em um contexto em que tanto homem, quanto mulher são agentes de análise desse processo de produção e/ou reprodução da violência representada nos vídeos, tendo em conta o contexto social em que os sujeitos são educados para desenvolverem as suas relações afetivo-sexuais ou conjugais.

É através da diferença sexual existente entre homens e mulheres que se estabelecem os princípios de dominação e submissão. Geralmente, o poder é dirigido para o homem e a fraqueza para a mulher e, esta noção é inculcada a cada membro da sociedade através da um processo a que Bourdieu designa por ação pedagógica, responsável pela violência simbólica.

Para ele,

Numa formação social determinada, as diferentes ações pedagógicas, que não podem jamais ser definidas independentemente de sua dependência a um sistema das ações pedagógicas submetido ao efeito de dominação da ação pedagógica dominante, tendem a reproduzir o sistema dos arbitrários culturais característico dessa formação social, isto é, o domínio do arbitrário cultural dominante, contribuindo por esse meio à reprodução das relações de força que colocam esse arbitrário cultural em posição dominante (BOURDIEU & PASSERON, 1992, p. 25).

Parafraseando os autores, significa que por esse meio de inculcação de saberes, temos como produto pessoas educadas prontamente para reproduzir o que lhes foi transmitido pela cultura, o que determina para a manutenção de relações de força, como é o caso da

perpetração da dominação masculina nas relações de gênero. De modo geral, em uma relação de dominação significa olhar os papeis desempenhados por homens e mulheres enquanto sexos opostos, ou seja, um posicionamento em que coloca uns em cima outros embaixo, uns ativos outros passivos, considerando-se, assim, a posição de superioridade ou comando como prerrogativa do homem, pois dominar significa o homem submeter o seu poder, refletindo-se em ações como enganar, abusar ou possuir a mulher (BOURDIEU, 2012).

Em outros contextos, como é o caso de Brasil, por exemplo, quando se pesquisam relações de gênero, existem várias questões que vem ser analisadas, pois Grossi (2004), refere que, nesse caso, “o binômio dominação masculina/submissão feminina tem sofrido uma série de questionamentos” (p. 16), pois nem sempre a dominação é exercida por parte dos homens.

Também, se constata um despertar de atenção em que o comportamento da mulher conduz o homem à submissão, ou seja, a dominação toma direção para o sentido do homem. Segundo a autora, os elementos estruturais vigentes aqui, condicionam para a divisão de poderes sociais, cabendo aos homens o poder para lidar com questões do domínio público e às mulheres o privado ou doméstico. No entanto, se tratando de uma pesquisa direcionada à uma sociedade predominantemente patriarcalista, o cenário é diferente, pois:

As regularidades da ordem física e da ordem social impõem e inculcam as medidas que excluem as mulheres das tarefas mais nobres (conduzir a charrua, por exemplo), assimilando-lhes lugares inferiores (a parte baixa da estrada ou do talude), ensinando- lhes a postura correta do corpo (por exemplo, curvadas, com os braços fechados sobre o peito, diante de homens respeitáveis), atribuindo-lhes tarefas penosas, baixas e mesquinhas (são elas que carregam o estrume, e, na colheita das azeitonas, são elas que as juntam no chão, com as crianças, enquanto os homens manejam a vara para fazê-las cair das árvores), enfim, em geral tirando partido, no sentido dos pressupostos fundamentais, das diferenças biológicas que parecem assim estar à base das diferenças sociais (BOURDIEU, 2012, p. 34).

Diante do exposto, depreende-se que a força da ideologia patriarcal está assente na dominação masculina, inferiorizando, de forma sútil, o lugar das mulheres na sociedade, chegando a ponto de se constatar que mesmo em casos que elas apresentem maiores resultados de produtividade em relação aos homens, admitem e naturalizam a sua fraqueza, pois estão cristalizadas da ideia de sua submissão e assumem, assim, a sua inferioridade diante dos homens (SAFFIOTE, 1987). Deste ponto de vista, “os princípios antagônicos da identidade masculina e da identidade feminina se inscrevem, assim, sob forma de maneiras permanentes de se servir do corpo, ou de manter a postura, que são como que a realização, ou melhor, a naturalização de uma ética” (BOURDIEU, 2012, p. 38). Estar à mercê do homem é uma questão simbólica inculcada pela tradição da cultura patriarcal, uma questão de ética que se almeja observar no seio das mulheres.

Segundo Bourdieu (2012), a dominação masculina encontra todas as condições de seu pleno exercício através da violência simbólica a que as mulheres estão sujeitas no dia-a-dia.

Trata-se de alienação de uma consciência, fragmentada que se contradiz ao princípio a si mesmo porque por mais que sofram de violência física, psicológica ou emocionais, a mulher não consegue perceber “os efeitos duradouros que a ordem masculina exerce sobre os corpos, ela não pode compreender adequadamente a submissão encantada que constitui o efeito característico da violência simbólica” (p. 53). Segundo esse autor, a violência simbólica exercida pela dominação masculina coloca as mulheres em um estado de dependência e insegurança a ponto de fazer com que elas se conformem e aceitem a sua submissão.

Dominação e submissão é, em meu entender, uma disciplina em forma de escravidão que consistem em alguém usar restrições físicas ou psicológicas para restringir a liberdade do outro e, segundo a ideia de Bourdieu, é que essa manifestação, esse desejo, por sua vez, constitui violência para o próprio sujeito na medida em que ele sofre ou passa por consequências como resultado da sua atitude manifesta aos outros, pois ao perder controle na relação com os outros, acaba perdendo controle de si mesmo. Aliás,

A dominação masculina encontra um de seus melhores suportes no desconhecimento, que favorece a aplicação, ao dominante, de categorias de pensamento engendradas na própria relação de dominação e que pode conduzir a esta forma limite do amor fati, que é o amor do dominante e de sua dominação (BOURDIEU, 2012, p. 98).

Dentro deste contexto, Bourdieu chama atenção para o fato de muitas mulheres estarem vindo a ser conscientizadas sobre o seu posicionamento nas relações íntimas com os homens, graças a existência de uma gama de movimentos sociais e políticas públicas que vêm se desenvolvendo em prol do enfrentamento dos modelos tradicionais que regem as relações sociais ao nível afetivo-sexuais entre cônjuges heterossexuais. Para ele, “se as mulheres, submetidas a um trabalho de socialização que tende a diminuí-las, a negá-las, fazem a aprendizagem das virtudes negativas da abnegação, da resignação e do silêncio, os homens também estão prisioneiros e, sem se aperceberem, vítimas, da representação dominante”

(BOURDIEU, 2012, p. 63). Nesta linha de pensamento, a violência se manifesta em um duplo sentido, ou seja, como forma de reagir à violência cometida por parte dos homens, as mulheres também tendem a desenvolver uma espécie de ‘agenciamento’ contra o comportamento dos agressores, mesmo que, para atingir esse fim, ela tenha que se tornar agressora/violenta e, nesses casos, o que se assiste é uma crise de identidade entre homem e mulher nas relações afetivo-conjugais regidas pelo modelo tradicional, em que se questiona a honra masculina em detrimento do silêncio da mulher, pois convém à ela honrar de quem ela depende ou ao qual está ligado (BORURDEU, 2012), porque fora disso o que se assiste é uma

afronta ou inversão de papeis que, segundo o autor, a “pior humilhação, para um homem, consiste em ser transformado em mulher” (p. 32). E, transformar-se em uma mulher, neste caso, entendemos como sendo aquele que age fora do controle de si - o agressor.

Quando debruço a violência doméstica, julgo pertinente recorrer à cultura enquanto prática de inculcação de ensinamentos que socializam as relações interpessoais na sociedade.

No meu entendimento, é a partir da cultura que se institui e se operacionaliza a partir de uma forma de pensar e agir dos sujeitos tendo em conta as normas e padrões culturais da sociedade que. Aliás, “só pelo fato de ser desconhecido como tal, se encontra objetivamente reconhecido como autoridade legitima (...) de violência simbólica que se manifesta sob a forma de um direito de imposição legítima, que reforça o poder arbitrário que se estabelece e que ela dissimula” ((BOURDIEU & PASSERON, 1992, p. 20). É exemplo disso, a educação de base transmitida nos primeiros momentos de socialização (que tem como objetivo confrontar o sujeito com as exigências ou etapas subsequentes da vida), se materializando em um conjunto de práticas comportamentais que ele mesmo considera relevantes, sem se dar de conta da sua própria alienação.

A cultura tradicional propicia a violência simbólica49, aquela que faz com que, tanto o dominado/ vítima/ abusado, quanto o dominante/agressor/abusador, sequer conseguem ver os seus erros ou suas razões porque agem em função de uma diretriz educativa que as ‘formatou’

para agirem em função desse modelo. Nesses termos, “toda a ação pedagógica é objetivamente uma violência simbólica enquanto imposição, por um poder arbitrário, de um arbitrário cultural” (BOURDIEU & PASSERON, 1992, p. 20); o que significa que a cultura e as práticas culturais impõem e inculcam certos saberes tidos como significativos da sociedade para serem produzidos e reproduzidos pelos indivíduos, constituindo-se, assim, em uma violência porque lhes conduz a agir em função do que lhes foi ensinado.

Dentro da cultura encontramos práticas que caracterizam a violência cultural, enquanto

“é aquela que se expressa por meio de valores, crenças e práticas, de tal modo repetidos e reproduzidos que se tornam naturalizados” (MINAYO, 2009, p. 36). Segundo essa autora, a violência cultural se manifesta a partir das formas como as pessoas pensam, sentem e pretendem agir, usando como meio a comunicação divina que pode ser cooperada ou não na produção e repetição das ações manifestas na sua sociedade.

49 Constitui violência simbólica “a seleção de significações que define objetivamente a cultura de um grupo ou de uma classe como sistema simbólico é sociologicamente necessária na medida em que essa cultura deve sua existência às condições sociais da qual ela é o produto e sua inteligibilidade à coerência e às funções da estrutura das relações significantes que a constituem” (BOURDIEU, & PASSERON, 1992, p. 23).

2.2.4 A judicialização das relações de conflito

Uma vez que anteriormente fizemos menção ao fato de o patriarcado, a dominação masculina, a violência estrutural e/ou simbólica fazerem parte da nossa referência aquando da análise das relações afetivo-conjugais entre homens e mulheres, julgamos pertinente, trazer uma reflexão em torno dessa violência numa perspectiva judicializante e/ou em prol dos Direitos Humanos, pois a título de exemplo, “a violência conjugal ingressou no mundo da lei porque a sua institucionalização adquiriu conteúdos locais onde a família e a conjugalidade constituem valores importantes nas identidades de gênero” (MORAES & SORJ, 2009, p. 17).

Aliás, quando me refiro de judicialização, de Direitos Humanos, me aproprio de uma leitura contemporânea feita por Rifiotis (2007, p. 234), segundo a qual “dá-se maior destaque ao sofrimento e à vitimização” daqueles que sofrem violência nas relações afetivo-conjugais, ao invés de se discutir mais sobre questões direcionadas para “a judiciarização e a institucionalização dos movimentos sociais” (RIFIOTIS, 2007, p, 234).

A violência conjugal tem vindo, há bastante tempo, a ser negligenciada por se considerar uma questão a ser tratada no âmbito privado e não no público, sendo, no entanto, tido como um crime de menor gravidade no qual as punições aos agressores não eram severamente observáveis (MORAES & SORJ, 2009), se refletindo, assim, em impunidade nas suas ações. Segundo essas autoras, foi graças ao surgimento de vários movimentos feministas que reivindicavam em prol dos direitos humanos das mulheres que a violência conjugal começou a ser considerada como crime e o agressor viu-se penalizado. Para tanto, o movimento feminista, “lutou pela implementação de delegacias especializadas no atendimento das mulheres, na expectativa de que o tema da violência conjugal pudesse ser tratado no âmbito criminal” (MORAES & SORJ, 2009, p. 16). Aliás, no campo dos Direitos Humanos, a instauração de delegacias de atendimento às pessoas vítimas de violência doméstica e conjugal, “estão ligados tanto a lutas sociais como a pautas definidas por acordos e convenções internacionais, e que eles são caudatários do campo judiciário e da sua institucionalização” (RIFIOTIS, 2007, p. 235).

Rifiotis (2012), nos traz o conceito de judiciarização das relações sociais para que a violência conjugal, por exemplo, seja pensada e remetida à um marco jurídico e criminal, sendo conceituada como,

Processo complexo das relações sociais que envolve um conjunto de práticas e valores pressupostos em instituições como as delegacias da mulher que devem interpretar a

violência conjugal à luz de uma leitura criminalizante e estigmatizada, própria à polaridade vítima-agressor ou à figura jurídica do réu (RIFIOTIS, 2012, pag., 305).

Isto significa que há uma crítica que se faz em torno dos serviços prestados pelas delegacias da mulher, que concebem a violência conjugal como conflito interpessoal porque se voltam a regular as controvérsias sócias vividas na relação conjugal. Aqui, verifica-se uma pressão em torno dos serviços prestados pelas delegacias para que os agressores sejam responsabilizados pelos seus atos. Por isso, ao longo do texto faz-se alusão ou apelo à luta contra a impunidade e que as mulheres vitimizadas tenham um tratamento que lhes conduz ao acesso da justiça. Aliás,

Em muitos países, é o recurso aos serviços de polícia e de modo geral ao sistema judiciário que caracteriza as políticas públicas contra a violência conjugal. Na realidade, trata-se da criação de mecanismos jurídicos para ampliar o acesso ao sistema de justiça a causas antes consideradas da ordem privada, possibilitando reduzir a impunidade (RIFIOTIS, 2004, p. 88).

No entanto, a criminalização da violência conjugal apresenta seus obstáculos, visto que, por um lado, procura-se compreender e intervir em assuntos que dizem respeito a uma relação íntima muito complexa e que, muitas das vezes, as expectativas das mulheres que apresentam denúncia ao agressor, enquanto seu parceiro íntimo, não têm por objetivo criminaliza-lo e sim, um meio alternativo para repreender as atitudes do agressor. Neste caso,

Tudo indica que a vítima, em geral das classes populares, não está interessada em ingressar no mundo da lei, universal e impessoal. Ela se apropria do aparato policial de uma maneira peculiar para a mediação do conflito privado, o que não se enquadra na função primária da polícia penal que é de verificar e apurar o crime (MORAES &

SORJ, 2009, p. 16)).

Se, por um lado, são os serviços dos policiais das delegacias da mulher que se encontram numa dupla frustração porque, primeiro, têm de atender as demandas sentimentais da vida social do casal, devendo corresponder com a sua missão de preservar a ordem na convivência pública ou interpessoal, por outro lado, são os aspetos fundamentais que caracterizam a institucionalização da Delegacia da Mulher no que se refere ao acesso à justiça e seu papel concreto na judiciarização da violência doméstica, dado que:

(i) A delegacia da mulher é um recurso coletivo de transformação de conflitos interpessoais, envolvidos numa rede complexa e ambígua de elementos de ordem afetiva (paixão, amor) que se cruzam com corpos machucados, dívidas, projetos e interesses pessoais. A delegacia da mulher é um operador coletivo de reordenamento de conflitos e seus dilemas em categorias aceitáveis socialmente e eventualmente, cujo horizonte é o campo jurídico, ainda que não seja seu objetivo; (ii) A delegacia da mulher é um espaço público de controvérsia, onde se dá um reordenamento de relações interpessoais baseado na autoridade policial. Na realidade, é a confiança no poder discricionário da delegada como agente capaz de contribuir ou mesmo de ser instrumento do reordenamento da vida privada; (iii) Nos casos do que se costuma chamar “violência conjugal”, a delegacia da mulher torna-se um espaço de dramatização de conflitos e de reconhecimento da culpabilidade que pode garantir a continuidade da vida conjugal; (iv) A delegacia da mulher é um espaço de palavra, de escuta, onde a denúncia permite objetivar a crise da relação conjugal tirando o seu

caráter singular. A objetivação se faz tornando pública a relação e seus conflitos e dilemas, tendo a figura da autoridade policial como testemunha e com força para definir o “retorno ao bom caminho (RIFIOTIS, 2004. p. 112).

Na realidade, as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher tem se mostrado com várias dificuldades em desenvolver seu trabalho devido as ambiguidades nos papeis desencadeados pelas autoridades policiais e pelas próprias vítimas que refletem em dificuldades em combater a violência conjugal e familiar no âmbito da justiça criminal (MORAES & GOMES, 2009).

A judicialização das relações sociais, segundo Rifiotis (2008) é uma recente abordagem virada para o campo da violência de gênero, violência conjugal, violência intrafamiliar e doméstica, pouco explorada. Porém, o interesse por essa abordagem, está

“focada nas vítimas e no seu sofrimento, de tal modo que qualificamos atos associados a elas como violentos, considerando-os como antissociais a partir da imperativa empatia com as vítimas” (p. 59). Segundo esse autor, deve-se problematizar as denúncias das vítimas quando elas implicam a redução da complexidade e da diversidade da violência denunciada. Assim, entende que “a judiciarização é um processo que não limita a violência conjugal e pode ser traduzido por duplo movimento: de um lado, a ampliação do acesso ao sistema judiciário; do outro lado, a desvalorização de outras formas de resolução de conflitos” (RIFIOTIS, 2012, pag., 306). No meu entender, há questões apresentadas no fórum policial que ficam muito difíceis para os policiais tratarem do ponto de vista criminal porque envolvem questões afetivas da vida social do casal que carecem muita delicadeza na resolução dos mesmos.

Aliás, tais questões “obrigam” os policiais das delegacias da mulher a se

‘distanciarem’ do campo da judiciarização para pautar por outras “alternativas de resolução de litígios como a mediação, a arbitragem e a conciliação” (Pedroso, 2002, apud RIFIOTIS, 2012, pag., 306). Em última instância, significa que a polícia atua fazendo sessões de aconselhamento em detrimento da sua missão pela qual lhes foram conferidos. Assim, ela transforma-se em um fórum de negociação e acordo de comportamentos vividos no seio da relação conjugal, ou seja, a polícia convoca os parceiros envolvidos em conflito para mediar os interesses que estão em divergência. Trata-se de uma intervenção punitiva extrajudicial baseada em ceder conselhos, repreender ou coagir o agressor para que se possa conter a conduta que conduz à violência conjugal.

A dimensão da regulação e da judicialização de questões sociais inseridas no contexto das famílias das relações afetivo-conjugais merecem um tratamento peculiar por parte da sociedade (MORAES & GOMES, 2009). Para estas autoras, a judicialização seria, antes de tudo, “a introdução do universo impessoal do Direito no mundo pessoal e privado” (p. 82) e,