Como movimento de resistência à violência estrutural imposta nesse período, nasceu do sofrimento da escravidão a esperança de liberdade através dos quilombos. O mais conhecido e expressivo em quantidade foi o de Palmares que, em 1670, contava com mais de vinte mil integrantes. A liderança ficava a cargo de Zumbi e Ganga Zumba.
Palmares caiu. No crepúsculo do século XVII (1694), o bandeirante Domingos Jorge Velho massacrou seus integrantes. A destruição efetiva do maior quilombo brasileiro tinha como pretensão a destruição simbólica dos demais, enfraquecendo o movimento de resistência e reafirmando a política escravocrata pela força e pelas instituições de opressão.
Porém, essa política demonstrou-se insustentável frente à ideologia vindoura no século XIX, que demandava uma mão-de-obra mais barata, a do imigrante europeu. Nesse sentido, Bernardo Mançano Fernandes afirma:
No final do século XIX, no desenvolvimento do capitalismo, nos processos de exploração e dominação e na insustentabilidade do trabalho escravo, estabelecia-se o trabalho livre. É importante lembrar que o trabalhador livre sempre existiu na sociedade escravocrata. Entre os trabalhadores livres vale destacar os sitiantes, os agregados e os negros. Os sitiantes eram pequenos proprietários ou posseiros. Os agregados eram moradores em terra alheia, que viviam e trabalhavam nas grandes fazendas. Os negros eram ex-escravos que por diferentes meios haviam sido libertados ou tinham comprado sua liberdade.
Com o fim da escravidão, a geração do trabalho livre determinava uma outra relação social: a venda da força de trabalho. O escravo não vendia sua foirça de trabalho, ele era vendido como mercadoria e como produtor da mercadoria. Ele era objeto de comércio do seu proprietário.
Com a formação do trabalhador livre, conservou-se a separação entre o trabalhador e os meios de produção. Agora a subordinação acontecia pela venda de sua força de trabalho ao fazendeiro, ao capitalista.
Desse modo, com a instituição do trabalho livre, que se expandiu com a chegada do imigrante europeu, o antigo escravo conseguiu ser dono de sua força de trabalho, o imigrante expulso de sua terra livre por só possuir a sua força de trabalho. Se para o escravo a força de trabalho era o que conseguira, para o imigrante era o que restara. Portanto, agora, a luta pela liberdade se desdobrara, igualmente, na luta pela terra.
Ao mesmo tempo, enquanto os trabalhadores fizeram a luta pela terra, os ex-senhores de escravos e fazendeiros grilaram a terra. E para realizarem seus interesses por meio da trama que construiu o domínio das terras, exploravam os camponeses. Estes trabalharam a terra, produziram novos espaços sociais e foram expropriados, expulsos, tornando-se sem-terra.
Nessa realidade, surgiu o posseiro, aquele que possuindo a terra não tinha o seu domínio. A posse era conseguida pelo trabalho e domínio pelas armas e poder econômico. Desse modo, o poder do domínio prevaleceu sobre a posse. Evidente que esse processo de apropriação das terras gerou conflitos fundiários, de modo que a resistência e a ocupação eram perenes.
Assim, formaram os latifundiários, grilando imensas porções do território brasileiro. Dessa forma, aconteceu, em grande parte, o processo de territorialização da propriedade capitalista no Brasil275.
A grilagem de terras, a exploração de mão-de-obra em situação análoga à escrava e a expulsão compulsória de pequenos produtores rurais são as matrizes históricas do conflito agrário contemporâneo.
Mudam-se os atores, mas o espetáculo de massacres em razão dos conflitos agrários persiste. Foi mencionada anteriormente a grilagem de terras, que consiste em falsificação de títulos e corrupção de funcionários da Justiça. Isso existe até hoje. Como exemplo, o caso do Pontal do Paranapanema em São Paulo.
O senhor de escravos deu lugar aos coronéis e políticos; os escravos, substituídos pelos trabalhadores explorados e colocados em situação análoga à escravidão. Os feitores foram, ao longo dos séculos, transferidos à figura dos jagunços e, nos séculos XX e XXI, à polícia, milícias privadas e matadores de aluguel. O cativeiro da senzala deu lugar ao cativeiro dos despossuídos da terra.
4.3 Dos conflitos dos séculos XIX e XX
As lutas de resistência da acumulação capitalista intensificaram-se nos séculos XIX e XX, principalmente porque, com a extinção das sesmarias revogada em 1850 pela Lei de Terras, criou-se a propriedade privada agrária. No entanto, a hegemonia manteve-se: “das capitanias hereditárias às sesmarias e destas até a Lei de Terras de 1850, a terra ficou adstrita ao poder da nobreza”276. A propriedade acumulava o sentido de valor mercantil com valor mobiliário. Segundo Franciele Silva Cardoso, a Lei de Terras do Império “determinou, também, que os limites de cada propriedade de terra deveriam ser definidos pelas divisas geodésicas. Posteriormente, em 1854, é aprovada a Lei de Registros, na qual se impõe a obrigação a todas as pessoas que tenham algum vínculo com a terra declararem suas posses
275 FERNANDES, Bernardo Mançano, op. cit., p. 27.
276 Ibid.
geodesicamente delimitadas nos Registros Paroquiais”.277 Assim, era considerada legítima a propriedade de terras por qualquer pessoa que fosse o primeiro ocupante da terra sem qualquer outro tipo de documento, ou seja, considerava-se somente a ocupação, que poderia ter se originado, inclusive, por violência278. Nascia, pelas legislações imperiais – A Lei de Terras e a Lei de Registros –, um ambiente propício para a grilagem de terras.
A partir da propriedade privada, a concentração de terras manteve-se até hoje nas mãos dos latifundiários, inclusive sob o uso de grilagem e ocupações ilegais e/ou violentas.
Com a Lei de Terras, houve uma espécie de cerco às terras: aquelas que não estivessem nesta situação deveriam ser devolvidas; daí a denominação terras devolutas. Essa opressão projetou-se no tempo através da expulsão dos foreiros dos engenhos desativados, principalmente na região Nordeste do Brasil, conforme expõe Émerson Neves da Silva:
O MST consubstancia uma práxis social criativa, que não pode ser compreendida isolada da tradição de lutas camponesas no Brasil, tendo as experiências do messianismo, do cangaço e, sobretudo, das ligas camponesas servido ao estabelecimento do movimento. Cabe destacar que esses três fenômenos históricos fazem parte do processo de alteração das relações de produção do interior brasileiro, “intensificado” com a Lei de Terras de 1850, passando pela abolição da escravatura e pela “retomada” do cultivo das fazendas de cana-de-açucar nordestinas pelos usineiros, no período da Segunda Guerra Mundial, determinando a expulsão do foreiro e sua superexploração no canavial. Essas modificações na conjuntura socioeconômica estimularam a mobilização dos camponeses, que, de acordo com o conhecimento acumulado, empreenderam ações no sentido de defender o modo de reprodução social tradicional279.
A condição de sem terra ou de barbárie280 acabou por possibilitar um exército de mão-de-obra de excluídos que assegura a satisfação dos anseios capitalistas dos latifundiários.
Dessa estrutura de dominação, diversos movimentos surgem para se rebelar contra a ordem estabelecida (Canudos, Guerra do Contestado, Cangaço e Cabanagem) para, então, iniciar-se o processo de formação do que hoje conhecemos como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
277 CARDOSO, Franciele Silva. A luta e a lida: Estudo do controle social do MST nos acampamentos e assentamentos de reforma agrária. São Paulo: IBCCRIM, 2013, p. 61. Cabe ainda destacar a previsão legal que possibilitava a grilagem de terras: cite-se a Lei de Terras do Império: “Art. 1º Ficam prohibidas as acquisições de terras devolutas por outro titulo que não seja o de compra. [....] Art. 3º São terras devolutas: [...] § 4º As que não se acharem occupadas por posses, que, apezar de não se fundarem em titulo legal, forem legitimadas por esta Lei”. (Lei n.º 601, de 18 de setembro de 1850)
278 Afirma o Decreto n.º 1.318 de 30 de janeiro de 1854: “Art. 24. Estão sujeitos á legitimação: § 1º As posses, que se acharem em poder do primeiro occupante, não tendo outro titulo senão a sua occupação”.
279 NEVES DA SILVA, Émerson. Formação e ideário do MST. São Leopoldo: Editora Unisinos: 2004, pp. 53-54.
280 MENEGAT, Marildo, op. cit., p. 19.
4.3.1 A cabanagem e a reprodução de sua tragédia
A Cabanagem ocorreu em 1830 na Província de Grão-Pará. Foi uma revolta popular que apresentava uma gama de exigências: autonomia política, governo republicano, abolição da escravatura e a questão da terra, que se tornou um ponto obscuro do corpo jurídico, já que desde 1822 tinham sido extinta as sesmarias e até aquela data não houve nenhum tipo de instrumento jurídico que regulasse o acesso à terra. Era considerado um movimento nativista, tendo em vista que integrava os negros, os indígenas e os mestiços, contra o racismo e a opressão das elites ligadas ao Império Brasileiro. A revolta da cabanagem gerou cerca de 40.000 (quarenta mil) mortos, sendo na sua grande maioria mestiços, indígenas ou negros.
A Cabanagem pode ser considerada um verdadeiro movimento social. Um levante das minorias oprimidas pelas elites. Em 1835, vários integrantes desse movimento, emergidos da opressão econômica e social e com a alcunha de cabanos, tomaram a cidade de Belém.
Esse grupo de cabanos tinha as vestimentas que mostravam ter origem no campo281.
A organização dos cabanos dividia-se em três grandes frentes. A primeira era a tomada do Arsenal de Guerra e os pontos de fortificação do bairro da Campina, cujo comando era feito por Antonio Vinagre. A segunda coluna ou frente era feita por Eduardo Argelim, que atacaria o Palácio do Governo e por fim Geraldo Gavião, e que tinha por objetivo a tomada do Arsenal da Marinha e as fortalezas da cidade. Esse movimento de controle sobre as instituições de dominação fez com que o enviado para governar o Grão-Pará e combater o movimento cabano, Manuel Jorge Rodrigues, informasse ao Governo Regencial a situação da Província, nos seguintes termos: “A cidade se acha em um aspecto deplorável e medonho porque não se encontravam senão pretos e tapuios nas ruas”282. Essa expressão demonstra toda a carga racista e excludente que o discurso político possuía, sendo que essa conduta historicamente atribuiu força ao levante que consolidou o movimento social cabano.
Os rostos da multidão cabana eram formados por tipos sociais distintos. Pode-se afirmar que era a verdadeira face da sociedade do Grão-Pará, assim como eram os segregados punitivos do sistema penal regencial. Assim, eram formados basicamente por pobres e por gentes de cor. Cabe destacar que fontes carcerárias da época demonstraram que os cabanos,
281 FERREIRA, Eliana Ramos. Guerra sem fim: Mulheres na trilha do direito à terra e ao destino dos filhos (Pará – 1835- 1860). Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 2010, p. 35.
282 Ibid.
ao contrário do que o senso comum apontava, não eram vagabundos ou sem ocupação; pelo contrário, os integrantes dessa insurreição eram pessoas com residência fixa ou ocupação; no entanto, a utilização dos argumentos criminalizadores racial e socioeconômico permaneciam como fonte de esteriótipo. No interior do próprio movimento cabano, notava-se um maior rigor do Estado Regencial em reprimir os índios e mestiços. Fica clara a neutralização intrasseletiva do poder punitivo contra integrantes do movimento.283 Outro elemento que deve ser considerado é o fato de que a cabanagem era um movimento cujos integrantes eram predominantemente lavradores, pescadores, seringueiros, vaqueiros. Esses dados são confirmados segundo a relação de rebeldes presos. Segue tabela demonstrando essa situação284:
TABELA 2 – Relação de presos do movimento cabano Suas raças/etnias e ocupações
Cor
Branco Mameluco Mulato Tapuio Índio Cafuzo Pardo Preto Crioulo Mestiço Escravo Total
Ocupação
Lavrador 16 19 08 02 14 05 06 - - 01 - 71
Lavrador/criador proprietário 03 - - - - - - - - - - 03
Carpinteiro 01 - 02 01 03 01 - - - - - 08
Carpina 02 01 01 01 - 03 01 - - - 01 08
Alfaiate 02 - 03 - - - 01 - 01 - 01 08
Ourives 02 - - - - 01 - - 01 - - 04
Sapateiro - 01 - - - - - 01 - - - 02
Correeiro - - - - - - - 01 - - - 01
Seringueiro - - 02 - - 01 - - - - - 03
Pedreiro - - - - - 01 - - - - - 03
283 Segundo Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro: “com o recurso às fontes carcerárias, a rebelião acabava menos impenetrável e alguns ícones das abordagens tradicionais ficaram comprometidos. Um deles, que identificava os rebeldes como turbas espontâneas constituídas prioritariamente por bandos de miseráveis e desqualificados, cedia espaço para o reconhecimento de que, na maioria dos casos analisados, os grupos rebeldes foram formados por pessoas que tinham moradia fixa e respondiam por algum ofício (ocupação). De igual forma, menos que hordas itinerantes de salteadores e vagabundos, pareciam agir prioritariamente dentro dos limites de sua própria comunidade. Por outro lado, estas fontes também contribuíram para reforçar a ideia de que os cabanos apresentavam fortes distinções internas, já que o poder repressivo tratava-os de forma diferenciada, como se reconhecesse atitudes e práticas diferentes por eles empreendidas no interior da rebelião. Assim, durante o processo de repressão, prisioneiros índios e mestiços acabavam sendo penalizados com maior rigor, enquanto a população branca insurgente aparecia como a maior beneficiária dos processos de soltura e anistia, muito embora sua condição de rebelde também fosse atestada.” (PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto. A revolta popular revisitada: apontamentos para uma história e historiografia da cabanagem. Revista Proj. História. São Paulo, n.
19, novembro de 1999, p. 235).
284 Tabela constante em: FERREIRA, Eliana Ramos. Guerra sem fim: Mulheres na trilha do direito à terra e ao destino dos filhos (Pará – 1835-1860). Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 2010, p. 41.
Prático - - - - 01 - - - - - - 01
Borrador - - - - 01 - - - - - - 01
Soldado militar 04 - 02 - - - - - - - - 06
Vaqueiro - 01 - - - - - - - - - 01
Calafate 01 01 - - - - - - - - - 02
Sem ofício 02 01 - 01 04 02 02 01 - - 01 14
Total 33 24 18 05 23 14 10 03 02 01 03 136
Assim, a cabanagem trata-se de um movimento de revolução agrária que acabou dizimando três quintos da população da Grão-Pará. Era um movimento regionalizado, em que os cabanos, chamados de patriotas, uniram povos e etnias diferentes para um objetivo comum:
a Emancipação do Estado. Por trás dessa finalidade política, o movimento cabano também era uma consequência da anomia que se deu pela extinção das sesmarias e da opressão que era realizada contra os pequenos lavradores na forma de produção excendente. Violência simbólica que até hoje é realizada pelas empresas multinacionais contra pequenas agriculturas familiares.
Esse movimento uniu raças e etnias: indígenas, negros de origem africana e mestiços lutavam contra o autoritarismo branco dos descendentes portugueses, que formavam a elite da época.
A revolução social cabana é importante, pois se trata de uma verdadeira chacina ocorrida entre os anos de 1835 e 1840, deixando cicatrizes e feridas profundas na história do Estado do Pará. A história tende a se repetir nos massacres cíclicos dos índigenas, negros e mestiços que reivindicam seus direitos humanos básicos no mar de terra paraense.
A cabanagem era o resultado simbiótico da omissão das Autoridades Imperiais na Amazônia, onde quase não existiam, e sua posterior atuação firme de modo repressivo quando o movimento emerge da escuridão burocrática. Nada mais parecido com o processo lógico dos conflitos agrários que inicialmente sofrem a omissão do Estado e depois são relegados à atuação firme dos Aparelhos Repressivos do Estado. Assim, a cabanagem era uma forma de luta de classes.285 Deve-se, assim, pensar essa miscigenação de integrantes do movimento
285 Nesse mesmo aspecto, afirma Luís Balkar Sá Peixoto: “Antagonizando os emergentes proprietários “brancos” do Grão- Pará, que representavam a si mesmos como “nacionais”, essas tensões específicas tinham suas bases materiais ligadas ao centro dinâmico da Província (Belém e seus arredores) e esbarravam na pressão contrária de uma elite política de descendência metropolitana. Neste confronto, as demandas esboçadas pelos “nacionais” vinham à tona embasadas e/ou revestidas por um discurso marcado por um tênue liberalismo e por um igualmente vago sentimento nacionalista. Assim, para os segmentos dominantes de origem nacional os entraves à ascensão estariam na dificuldade em proceder ao alijamento da facção lusitana – até então monopolizadora dos postos de maior prestígio e poder –, e na insistente recusa por parte do novo poder central (instaurado no Rio de Janeiro em 1822) em reconhecer e legitimar aspirações lançadas por aquela facção dissidente. Num plano bem diverso, o “populacho” – fundindo etnias e condições sócio-econômicas as
social cabano como verdadeiro movimento de oprimidos, assumido pelas classes populares:
“No bojo de suas propostas, a revolta passou a ser explicitada a partir da engrenagem espoliativa e opressora posta em prática pelas classes dominantes”. Inclusive a palavra da academia causa uma perenidade desta lógica, tendo em vista que, “ao priorizarem o estudo dos aspectos socioeconômicos que engendraram a revolta, contribuíram para inviabilizar e rechaçar como pouco sérias as interpretações tradicionais que buscavam interpretar o movimento a partir de perspectivas psicologizantes e preconceituosas”286. Também como reafirmação de luta de classes, a participação no movimento cabano dos nativos contribui para a desarticulação sistematizada da mão-de-obra representada pelos cabanos. Logo, as elites ficaram sem quem explorar economicamente.
A cabanagem pautava-se no patriotismo e no anticolonialismo, que na verdade são expressões decorrentes da omissão e das dívidas sociais ocasionadas pela colonização tanto do Pará como do Brasil como um todo. Esses abandonos repetem-se como disco riscado na vitrola burocrática da violência institucionalizada.
A violência era a reprodução das ideias transplantadas do centro para a periferia, permeando todo o território com uma lógica capitalista e de exclusão da maioria contra a minoria branca mais abastada. Inicialmente, o Movimento Cabano restringia-se à intenção de expulsão e morte dos portugueses e das elites. Posteriormente, o projeto de recondução dos antigos beligerantes e a tomada dos meios de produção agrícolas tornaram-se pauta da revolução cabana. A chacina em decorrência dessa luta de classes entre cabanos e as elites do Grão-Pará resumiu no genocídio de etnias e raças do Estado do Pará.
São dois tempos de uma mesma história: o massacre cíclico dos pobres perdura no tempo e demonstra a atuação dos Aparelhos Repressivos do Estado como verdadeiro instrumento de manutenção de um status social.
mais diversas – arrastava desde os tempos coloniais uma condição franca de marginalidade social, que volta e meia os impelia à revolta. Embora irmanados a partir de uma condição comum de submissão frente aos grupos dominantes de proprietários e comerciantes (portugueses e brasileiros), as demandas entabuladas por eles variavam muitas vezes, assumindo configurações próprias mais diretamente ligadas ao viés da etnicidade (índios, mestiços, negros) e da condição jurídica (livre, liberto ou escravo). No interior dos grupos que aí gravitavam, experiências compartilhadas, ocasionalmente surtiam movimentos nos quais diversos setores do “populacho” apareciam juntos, mas, em geral, os fortes critérios de estratificação e hierarquização social não só inibiam aproximações, como também produziam vigorosas oposições internas. Nessa outra trajetória, os segmentos eminentemente populares, embora não fossem de forma alguma refratários as contradições do círculo político da elite provincial, apresentam uma gama de tensões de ordem diversa, que se ligavam, principalmente, ao caótico contexto sócio-econômico regional. Neste caso, os fatores que fundavam e alimentavam tais tensões estariam ligados ao reforço dos mecanismos de dominação e coerção, ao abandona da produção voltada à subsistência e ao aumento generalizado da miséria e das epidemias, numa sociedade que sequer conseguia garantir a reprodução física de suas populações”. (PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto. O Ensaio Geral da Cabanagem:
Manaus, 1832. In: XX Simpósio Nacional de História, 2009, Fortaleza, CE. História e Ética: Anais do XXV Simpósio Nacional de História. Fortaleza - CE: Universidade Federal do Ceará/Anpuh, 2009. v. 1. p. 2-3).
286 PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto. A revolta popular revisitada: apontamentos para uma história e historiografia da cabanagem. Revista Proj. História, São Paulo, n. 19, nov. 1999, p. 233.
O retorno à pergunta de ouro que abordamos anteriormente, com que se praticam os massacres, que Eugenio Raúl Zaffaroni abordou com tanta propriedade, fica claro nos processos históricos e nas chacinas fundacionais de novos governos. No caso da cabanagem, esta era um movimento contra o Regime Imperial e lutava por emancipação política. O Regime Imperial usou o poder punitivo como forma de controle das multidões consideradas inimigas. Segundo consta em discurso de Soares d’Andrea – presidente da Província de Grão- Pará – proferido em 02 de março de 1838, o mesmo informa sobre a massa que incorporava o aparelho repressivo do Estado Imperial. Havia 2.000 (dois mil) soldados, sendo que 1.300 desse contingente ficariam fora da província. Cabe destacar que um dos vários motivos que concederam força para a cabanagem foi também o fato de que o levante partiu de integrantes militares quando da tomada da capital da Província. Este quantitativo militar de 2.000 homens foi levado para a Província de Grão-Pará, porque o exército regular foi dispensado e muitos juntaram-se ao movimento cabano. Foi também no período de 1835 a 1836 que o Presidente da Província e o comandante John Taylor colocaram em prática uma estratégia que aparece como pacificação. Referia-se esta prática a uma “[...] estratégia das autoridades para controlar os envolvidos no movimento cabano que passava pelo domínio de cor, pois essa, segundo representantes imperiais enviados para o Pará, teria um plano para exterminar os brancos”287. Foi então nesse momento que as autoridades constituídas procuraram retirar os brancos do movimento, para aliar a ideia de raça a um movimento que representava agora o medo288. Pelo uso do argumento positivista racial do extermínio do movimento cabano contra os brancos, o Presidente da Província questionava as garantias atribuídas aos integrantes do movimento cabano, convertendo-os em não-pessoas. Entre essas decisões, cabe frisar a suspensão das garantias constitucionais constantes no artigo 179 da Constituição do Império, cujo objeto era a “inviolabilidade dos Direitos Civis, e políticos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade”, e os dispositivos que tratavam da inviolabilidade de domicílio, presunção da inocência, direito à fiança e limitação de casos em que eram feitas as prisões, como flagrante de delito e ordem judicial legítima289. O
287 NOGUEIRA, Shirley Maria Silva. A soldadesca desenfreada: politização militar no Grã-Pará da Era da Independência (1790-1850). Tese (Doutorado em História Social do Brasil) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. Salvador: 2009, p. 256.
288 Ibid., p. 261-262.
289 As principais garantias suspensas foram as constantes no artigo 179, incisos VI-XI da Constituição do Império de 1824:
“Art.179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte. [...] VI. Qualquer póde conservar-se, ou sahir do Imperio, como lhe convenha, levando comsigo os seus bens, guardados os Regulamentos policiaes, e salvo o prejuizo de terceiro. VII. Todo o Cidadão tem em sua casa um asylo inviolavel. De noite não se poderá entrar nella, senão por seu consentimento, ou para defender de incendio, ou inundação; e de dia só será franqueada a sua entrada nos casos, e pela maneira, que a Lei determinar. VIII. Ninguem poderá ser preso sem culpa formada, excepto nos casos declarados na Lei; e nestes dentro de vinte e quatro horas contadas da entrada na prisão, sendo em