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Revelações massacrantes

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 61-65)

O verdadeiro e real poder do sistema penal é a capacidade seletiva neutralizante, seja pelos campos de concentrações legalizados (prisões), seja pelo extermínio (massacres). O exercício deste real poder na verdade é simbólico. Transformar em pó as vítimas, deixar que os responsáveis sejam livres e abandonar qualquer esperança de justiça são traços destas revelações massacrantes. Vera Malaguti Bastista sintetiza a ideia de direito penal subterrâneo ao expor que “existe uma renúncia expressa à legalidade penal através de um controle social militarizado e verticalizado sobre os setores mais pobres da população ou sobre os dissidentes.”156 Ainda prossegue ao asseverar sobre a real lógica da neutralização seletiva: “O sistema penal está estruturado montado para que não opere a legalidade processual e para exercer seu poder com o máximo de arbitrariedade seletiva dirigida aos setores vulneráveis.”157

Em laudo de levantamento de local do massacre, que fora realizado um dia após o evento, constatou-se que, às margens da rodovia PA-150, encontravam-se quatro barracos.

Esses mesmos barracos de madeira possuíam diversos orifícios provenientes de projéteis de arma de fogo originários do sentido Eldorado dos Carajás – Marabá. Também se constatou

156 BATISTA, Vera Malaguti. Difíceis ganhos fáceis: Drogas e Juventude Pobre no Rio de Janeiro, 2. Ed. Rio de Janeiro:

Revan/ICC, 2003, p. 54.

157 Ibid., p. 54.

que existiam diversos orifícios da mesma natureza em árvores, porém provenientes do sentido Marabá – Eldorado dos Carajás. Uma revelação bem assustadora e que demonstra a violência do conflito – pelo menos por parte do aparelho repressivo do Estado – era o fato de que a casa em que os sem-terras se abrigavam estava carbonizada e junto a ela também foram queimados medicamentos. Constatou-se que o alvo principal dos disparos efetuados da tropa que se encontrava no sentido Marabá – Eldorado dos Carajás era a casa que servia de apoio aos sem- terras. A conclusão é que o conflito foi palco de uma intensa violência contra os sem-terras.

Quanto aos tiros desferidos nas árvores, fica demonstrado nos autos do processo que ocorreram porque os sem-terras usaram a mata como escudo e correram para esse local por ordem dos policiais. Cite-se o depoimento de Manuel Paulo da Silva, sobrevivente do massacre: “[...] foi até uma casa localizada na beira da pista, [...] os policiais arrombaram as portas da casa e determinaram que todos saíssem dali [...] um dos policiais falou para aquele grupo de pessoas o seguinte: ‘vocês têm três minutos para caírem no mato, dois já foram’.”158 Ainda nesse sentido, há o termo de declaração de Antônio da Silva Souza: “[...] quando os policiais de Eldorado perceberam o tiroteio, de imediato partiram em direção aos ‘Sem-Terra’

[...] neste momento muitas pessoas caíram feridas ou mortas, e quem não foi atingido correu para o mato, inclusive o declarante, e ainda viu os policiais atirarem para o mato em direção às pessoas que corriam, inclusive pelas costas.”159

No que se refere à violência simbólica de queimar a casa com os pertences pessoais e os medicamentos dos integrantes do MST, o termo de declarações de Antonio Martins da Silva descreve o seguinte: “[...] após uma hora e meia e duas horas, o declarante retornou para a pista, vendo que os policiais ali destruíram vários objetos dos Sem Terra, inclusive o barraco, redes, roupas e documentos.”160

Seguem algumas revelações constantes no relatório ao Comando da Polícia Militar no volume 5 dos autos: o comandante da tropa de Paraupebas assevera que foram recuperados alimentos que foram saqueados pelos sem-terra na região de Curionópolis, da empresa Comercial Anápolis de Paraupebas. Estes alimentos foram expropriados na ocasião de outra obstrução feita na rodovia.

Nem todo o armamento usado na desobstrução da rodovia foi devidamente registrado, o que demonstra o uso indiscriminado das munições. O procedimento, chamado cautela, não era para ser adotado naquela situação de exceção-emergência. A intenção massacrante já era prévia. O depoimento do responsável pela distribuição do armamento, o

158 Volume 3, fls. 764.

159 Volume 3, fls. 797

160 Volume 3, fls. 798.

soldado Antônio Egnaldo Mendonça Lima, demonstra a suspensão da força-da-lei para uma verdadeira situação de exceção: “que o declarante efetuou a entrega do armamento sob cautela individual e descartável, não sendo possível fazer o registro no Livro de Registro de Armas, da reserva de armamento porque o Ten. JORGE falou que era uma situação de emergência e que menos tempo se levasse para entregar o armamento seria melhor.”161

Em qualquer emergência, quando a situação se torna insustentável para a classe dominante, iniciam-se os mecanismos que negam direitos e deveres e que tendem a conservar a antiga segurança de resposta, mesmo que esses deveres sejam deixados de lado por via arbitrária, gerando uma crise conflitiva. Esses mesmos mecanismos de negação ocultam a verdadeira situação de emergência (massas empobrecidas), provocando uma dor sem sentido, carente de qualquer tipo de racionalidade, como são os massacres. Segundo Eugenio Raúl Zaffaroni, “as agências do sistema penal exercem seu poder para controlar um marco social cujo sinal é a morte em massa”.162 Sobre a legitimação das condutas ilegais do Estado, Giorgio Agamben, na obra Estado de Exceção, afirma que “o estado de exceção apresenta-se como forma legal daquilo que não pode ter forma legal. [...] É essa terra de ninguém, entre o direito público e o fato político e entre a ordem jurídica e a vida [...]”.163

Outro indício da montagem da estrutura massacrante ocorreu pelo fato de que a empresa Transbrasiliana – que levou os policiais militares até da pista de rolamento da PA- 150 – recebeu o itinerário no dia anterior ao evento massacrante, bem como qual seria o contingente policial a ser transportado164. Afirma ainda um dos motoristas da empresa de ônibus que o Major Pantoja entrou no ônibus e disse: “ninguém viu nada”.165

Em seu depoimento, Marisa Alves Romão Pereira, repórter que estava com sua equipe no momento do confronto, declarou que, no dia 17 de abril de 1996, no Km 95 da PA- 150, chegou ao local por volta das 11h. Este horário era o prazo estipulado pelos sem-terra para que fossem concedidos 50 (cinquenta) ônibus e 10 (dez) toneladas de alimentos para que pudessem ir até Marabá e Belém para negociar com o governador e o INCRA sobre o projeto

161 Volume 2, fls. 630. Nos mesmos termos: “QUE, entre 09:00 e 10:00 horas da manhã recebeu ordem do Sub-comandante da Companhia, 1.º Tenente PM Jorge, para efetuar a entrega do armamento a ser utilizado sem fazer a ‘cautela’, como é o procedimento normal, o que justificava pela situação de emergência alegada pelo sub-comandante”. (Volume 6, fls.

1561). Fato interessante neste depoimento é que o declarante confessa que foi coagido a expor determinados fatos de que sequer tinha certeza via coação de agentes do aparelho repressivo do Estado: “[...] perguntado ao declarante se quando prestou tais declarações foi normalmente ou estava coagido, respondeu que foi pressionado não pelos integrantes do Ministério Público, mas por um Delegado da Polícia Federal que lhe batia na perna e interferia na prestação das declarações aos Promotores de Justiça e que ainda estava pressionado pela imprensa e pelos fotógrafos que entravam e saíam da sala onde foram prestadas as declarações mencionadas; perguntado ao declarante se confirma as declarações prestadas perante os integrantes do Ministério Público citados, respondeu que não.” (fls. 631)

162 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. En busca de las penas perdidas: Deslegitimación y dogmática jurídico-penal. 2. ed. Buenos Aires: EDIAR, 1998, p. 16-17. (tradução nossa)

163 AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. Trad. Iraci D. Poleti. 2. Ed. São Paulo: Boitempo, 2007b, p. 12.

164 Volume 7.

165 Volume 7.

de assentamento do complexo da Macacheira. Quando viu as tropas se aproximando, foi em direção ao acampamento; faltando 200 (duzentos) metros para chegar nesse local, ouviu um barulho forte e fumaça branca na direção da outra extremidade da obstrução da pista; o tiroteio continuou por cerca de 40 (quarenta) minutos. Durante o conflito, a repórter pediu para os policiais para continuar filmando a situação, mas os soldados disseram que não e retiraram a fita da câmera do cinegrafista, sendo que a jornalista e o cinegrafista foram mantidos retidos em um dos ônibus por ordem do Cel. Pantoja.166 Nos mesmos termos, o cinegrafista, Osvaldo Araújo, reafirma a conduta de simulação, ou o controle de uma realidade de modo arbitrário167:

MARISA disse ao declarante que estava detida naquele veículo, juntamente com OSVALDO, e que soldados haviam tomado a fita de vídeo que registrara as cenas do conflito; que MARISA disse para a testemunha que a ordem que os policiais militares tinham, era de deixá- los detidos [...]. Dentro do ônibus, MARISA conseguiu retirar uma outra fita de dentro de sua bolsa, e o declarante fez algumas cenas de policiais no meio da pista, com câmera disfarçada;

porque os policiais estavam vigiando o declarante, MARISA e OSVALDO.168

Na história das práticas autoritárias, sempre a mídia é alvo ou algoz dos massacres. Esse ato de supressão da informação e impedimento da mídia em trabalhar é a preparação para a formação de um discurso-jurídico penal falso, para que aqueles que caiam nas teias do sistema penal – os vitimizados – sejam convertidos em criminalizados, em verdadeiros criminosos.

Os indícios da negação dos crimes de Estado são evidentes no caso do Massacre de Eldorado dos Carajás. A subtração de informações, a ocultação de identificações dos executores materiais, o uso indiscriminado de munição e a coadunação de versões nos depoimentos deixa evidente a utilização do negacionismo criminológico do massacre de Eldorado dos Carajás. A negação é uma forma de neutralização de responsabilidade em prol da neutralização seletiva do outro daninho169. Além de os Aparelhos Repressivos do Estado

166 Volume 7, fls. 1882.

167 Segundo Jean Baudrillard: “Todas as hipóteses de manipulação são reversíveis num torniquete sem fim. É que a manipulação é uma causalidade flutuante onde positividade e negatividade se engedram e se recobrem, onde não há activo nem passivo. É pela paragem arbitrária desta causalidade rodopiante que pode ser salvo um princípio de realidade política. É por simulação de um campo perspectivo restrito, convencional, em que as premissas e as consequências de um acto ou de um acontecimento são calculáveis, que pode manter-se uma verossimilhança política (e, claro, a análise

‘objetiva’, a luta, etc.)”. (BAUDRILLARD, Jean. Op. Cit. p. 25)

168 Volume 7, fls. 1886.

169 Sobre a neutralização seletiva, Massimo Pavarini expõe o seguinte, correlacionando com as premissas que a denominada criminologia atuarial construiu como verdadeiro sistema de regras de criminalização secundária: “[...] o cárcere e o sistema penal, como um todo, podem ser úteis no controle da criminalidade se e enquanto são capazes de selecionar e, portanto, neutralizar aqueles que, de qualquer forma, o sistema social não é capaz, ou pensa que não é capaz, de incluir.

terem uma imensa capacidade massacrante e virem prendendo menos e executando mais, existem penas perdidas, atos que não são responsabilizados, como os responsáveis por massacres170.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 61-65)